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Bianca Andreescu, a maturidade aos 19 anos
Por José Nilton Dalcim
7 de setembro de 2019 às 19:52

Seu tênis chama a atenção pela fluidez, força, coragem, precisão. Desde que despontou para o público com o inesperado título de Indian Wells, a canadense Bianca Andreescu mostrava as qualidades essenciais para se dar bem no circuito. Mas não seria tão fácil assim. Encarou outro período de problemas físicos, como em 2018, antes de mostrar em Toronto que não tinha perdido a essência do seu jogo.

O triunfo neste US Open foi mais do que merecido. É inevitável aliás comparar com o de Naomi Osaka de um ano atrás, porque são duas jogadoras que simbolizam o que há de mais moderno no tênis feminino, forçando saque, devolução, paralelas e ângulos, sem abandonar a linha de base, atentas à toda chance de contraataque. Não por acaso, ambos se inspiraram na própria Serena Williams, a quem derrotaram em grande estilo nas finais históricas.

Mesmo tão jovens, tanto Andreescu como Osaka também tiveram a marca indelével dos campeões: a cabeça fria. Se a japonesa se viu em meio à tremenda confusão armada com a arbitragem e jamais perdeu o foco, Bianca suportou a pressão não menos aterradora de ver um estádio inteiro empurrar Serena para uma reação incrível. E fechou o jogo com duas devoluções que as Williams só poderiam aplaudir. Maturidade aos 19 anos.

O tênis feminino pode comemorar três jogadoras muito jovens e de enorme qualidade técnica no seu novo top 5, já que a liderança nesta segunda-feira voltará à habilidosa Ashleigh Barty. Não se trata apenas de acentuada renovação, mas de um tênis competitivo no seu mais alto nível, tendo cada uma vencido um Slam na temporada.

Tomara que Serena não desanime e consiga uma quinta chance de chegar ao 24º Grand Slam, porque ela e a irmã Venus mudaram os rumos do esporte e continuam a dar exemplo saudável de amor à profissão.

Experiência x juventude também no masculino
A final masculina do US Open também traz um considerável duelo de gerações e de currículos, um pouco menos expressivo do que a decisão feminina mas igualmente destoante. Rafael Nadal, de 33 anos, faz sua 27ª final de Grand Slam e a quinta no US Open, enquanto Daniil Medvedev, uma década mais jovem, é um completo debutante.

Detalhe relevante: são dois tenistas com estilos atípicos no circuito. Canhoto e dono do topspin mais perfeito provavelmente da história, Nadal desenvolveu um modelo incomparável, onde a regularidade e a capacidade de defesa se mesclam com um preparo físico ímpar. Tem sacado muito bem e com isso ataca da base, assim como varia com curtas ou slices, faz voleios oportunos. O russo bate incrivelmente plano e forte na bola, mesmo jogando três passos atrás da linha e tendo preparação de golpes um tanto fora do padrão. Adora ser atacado para usar o peso da bola do adversário. Usa o primeiro saque para definir na bola seguinte, mas nunca se abala se tiver de jogar com o segundo serviço.

Medvedev surpreende por sua solidez na temporada, tendo se saído bem até mesmo no saibro e na grama, com duas vitórias sobre o número 1 do mundo. Nas quadras duras do verão norte-americano, chegou a todas as finais, venceu seu primeiro Masters, já somou 3.100 pontos e mostrou resistências física e mental raramente vistas no circuito masculino atual, onde poucos ousam entrar em quadra semana após semana.

Nadal tem o favoritismo natural, porque faz tudo melhor do que Medvedev, como ficou claro na recente final que fizeram em Montréal, onde cedeu apenas três games. Mas o espanhol tem permitido algumas brechas a seus adversários neste US Open, e a ansiedade parece ser seu maior inimigo. Perdeu set para Marin Cilic, permitiu duas corajosas reações de Diego Schwartzman e por milagre não perdeu o set inicial para Matteo Berrettini. Diante do momento histórico que viverá, às portas do 19º Slam, esse favoritismo precisa ser bem administrado.

Minha aposta: Nadal, 3 a 1. Meu desejo: que seja um grande espetáculo.

Será que agora vai, Serena?
Por José Nilton Dalcim
6 de setembro de 2019 às 00:38

Serena Williams não desiste. Ainda bem.

Pela quarta vez nos últimos 15 meses, ela se deu a oportunidade de tentar o 24º troféu de Grand Slam para enfim se igualar a Margaret Court, o que já escapou duas vezes em Wimbledon e outra lá mesmo no US Open naquela terrível final do ano passado. Tão pertinho dos 38 anos, que completará em três semanas, ela lutou contra a forma física, o descrédito, seu destempero, e chegou lá de novo. Será que agora finalmente vai conseguir?

Ao atropelar uma irreconhecível Elina Svitolina na noite desta quinta-feira, Serena repete a final do US Open de exatos 20 anos atrás, e acrescenta outra façanha à incrível carreira, agora a tenista que marcou a maior distância entre a primeira e a mais recente final de Grand Slam da Era Aberta.

Aliás, também se transforma na profissional mais velha a ser finalista de um Slam, aos 37 anos e 347 dias. Ela, que detém o recorde de campeã de maior idade na Austrália, Roland Garros e Wimbledon, pode retomar o posto também no US Open, superada que foi por Flavia Pennetta em 2015.

Há muita coisa esperando por Serena às 17 horas de sábado. Terá a chance também de superar duas marcas incríveis de Chris Evert, com quem divide seis títulos em Nova York e agora 101 vitórias. Gostem ou não de Serena, é preciso reconhecer seu notável espírito competitivo. Em uma temporada confusa em que soma apenas 30 partidas, alcança a 33ª final em 73 Slam disputados. Um dado curioso levantado pela WTA lembra que ela só perdeu três finais em Flushing Meadows, as de 2001, 2011 e 2018. Nas duas primeiras, levou o título na edição seguinte.

A pergunta que fica é como reagirá Serena ao encarar pelo segundo ano seguido uma novata na decisão. Ela também tinha a experiência e a torcida a favor quando viu a fã Naomi Osaka pela frente há 12 meses e fez aquele papelão. Embora um desafio desse porte seja novidade para a adolescente Bianca Andreescu, que sequer havia nascido quando Serena ganhou seu primeiro US Open, em 1999, a canadense tem personalidade distinta da tímida Osaka. É impulsiva, expansiva e já ganhou um título em cima de Serena poucos dias atrás, em Toronto, se bem que a norte-americana abandonou após meros quatro games.

Tarefa completamente distinta à de Williams, Andreescu sobreviveu a uma tensa semifinal nesta noite diante da suíça Belinda Bencic. Só o primeiro set durou quase 70 minutos, e as oportunidades foram divididas. Escapou de várias situações delicadas com a frieza e coragem que assombraram o circuito desde sua arrancada, em março. E foi buscar um segundo set que parecido perdido. É exatamente isso o que se espera dela. Garra, golpes pesados, saque audacioso, boa mão para deixadas e voleios… Andreescu faz um pouco de tudo e faz tudo muito bem. Talvez só o dolorido joelho esquerdo seja um fator de preocupação.

Em sua primeira chave principal do US Open – jogou e perdeu no quali do ano passado -, Bibi é a terceira tenista de seu país, e a segunda mulher, a atingir a final de um Slam, repetindo Eugénie Bouchard e Milos Raonic. Também não deixa de ser curioso que supere Denis Shapovalov e Felix Aliassime, esperanças bem mais badaladas do jovem tênis canadense.

Fato notável, este é apenas seu quarto Slam da curtíssima carreira e, se vencer, irá igualar a façanha de outra prodígio, Monica Seles, que também disputou apenas quatro antes de faturar Roland Garros em 1990, com a diferença que a então iugoslava tinha meros 16 anos.

Para a história
– Três dos últimos quatro títulos femininos do US Open foram vencidos por tenistas que marcaram seu primeiro troféu de Slam: Flavia Pennetta (2015), Sloane Stephens (2017) e Naomi Osaka (2018).
– Qualquer que seja a campeã deste sábado, o circuito feminino novamente terá quatro diferentes vencedoras de Slam em 2019, já que Osaka levou Melbourne, Ash Barty ganhou Paris e Simona Halep, Wimbledon. Essa diversidade repete 2017 e 2018. Nunca isso havia acontecido entre as mulheres por três temporadas seguidas.

Só faltam dois
Por José Nilton Dalcim
5 de setembro de 2019 às 02:04

Rafael Nadal deu mais um passo importante na direção do 19º troféu de Grand Slam e na tentativa de retomar a liderança do ranking. Único jogador da temporada a ter feito semifinais em todos os quatro Slam e em 10 dos 11 torneios que disputou no geral, sinais evidentes de sua consistência, ele superou uma noite quente e úmida em Nova York, conseguiu administrar quedas de intensidade e dobrou o espírito guerreiro do argentino Diego Schwartzman.

Se tivesse mantido o domínio que conseguiu nos dois primeiros sets, talvez o placar teria sido um esmagador 6/0, 6/1 e 6/2. Abriu 4/0, fez um game de serviço estranho e aí Dieguito se agigantou e passou a jogar um tênis corajoso e sem erros. Empatou e teve a bola para nova quebra. No outro set, Rafa chegou rapidamente a 5/1, 15-0 e voleio na mão. O argentino se salvou com um lance de defesas incríveis, o espanhol se desconcentrou e novamente Schwartzman engatou uma série notável de jogadas. Mas nos dois casos, quando teve de sacar com 4/5 e com 5/6, não acreditou.

Com 2 sets acima, Nadal só poderia mesmo deslanchar, porém veio um pedido médico para massagear o antebraço esquerdo e mais tarde um alongamento no direito, o que sugeria risco de cãibra. Schwartzman até tentou explorar isso, forçando mais ainda no forehand do espanhol, mas Rafa decidiu finalizar o mais rápido possível, soltou seus golpes como se esperava nos outros dois sets e por fim não abriu espaço para reações. Ao final, admitiu que a noite foi difícil com as condições climáticas e o poder de luta de El Peque, mas assegurou que sua confiança está nas nuvens.

A festa italiana continua
Com dois jovens semifinalistas de Grand Slam em 18 meses e um top 10 que não via há quatro décadas, o tênis italiano continua a progredir no circuito masculino. Matteo Berrettini, a quem lembro de ter chamado a atenção ainda no começo da fase de saibro, sobreviveu a um duelo incrivelmente emocional diante do experiente Gael Monfils e se tornou o segundo NextGen nas semifinais do US Open e o mais jovem deles, já que tem os mesmos 23 anos de Daniil Medvedev, porém nasceu dois meses depois.

O saque e o forehand são as grandes armas do tenista de 1,96m, que neste ano já ganhou ATP no saibro e na grama, mas que ainda deixa a parte mental interferir bastante. Foi exatamente o que aconteceu na batalha desta quarta-feira. Primeiro, teve admirável poder de reação, ao perder o primeiro set e ver o francês abrir 2/0 no segundo. Seus ataques começaram a incomodar Monfils, que parecia já com problemas físicos no quarto set, mas lutou muito e esticou a decisão para delírio do público.

A vitória de Berrettini parecia inevitável quando abriu 5/2, mas ao chegar ao primeiro match-point no game seguinte cometeu dupla falta a 122 km/h. A disputa então ficou tensa, os dois jogadores segurando o braço, com medo de arriscar, e deixando a bola muito curto. Monfils ainda salvou outro match-point antes de levar ao tiebreak e aí cometeu duas duplas faltas. O italiano enfim fechou na quinta tentativa, após 3h56 de esforço tanto físico como emocional.

A inexperiência e a instabilidade só ampliam o favoritismo de Rafael Nadal, a quem nunca enfrentou. Mas talvez o fato de ser uma ‘zebra’ total o deixe mais relaxado. Entrará em quadra já assegurado no top 15 do ranking e com grande chance de aparecer no 9º lugar no ranking da temporada, grudado em Kei Nishikori,

Duelo das meninas
Uma deliciosa semifinal está marcada entre duas tenistas muito jovens: Bianca Andreescu, de 19 anos, enfrentará Belinda Bencic, de 22, para ver quem fará sua primeira tentativa de ganhar um Slam. Mas há uma diferença bem grande no currículo de ambas, porque a suíça surgiu como prodígio em 2014, quando fez quartas no mesmo US Open e pouco depois atingiu o top 10 do ranking. Já a canadense é uma grande sensação da temporada; há um ano, jogava o quali do torneio.

As duas jogam também de forma um tanto distinta. Bencic gosta mais do contragolpe, Andreescu parte para o ataque o tempo inteiro. Nas partidas desta quarta-feira, a suíça viveu um começo instável e viu a croata Donna Vekic sacar para o set com 5/4. Reagiu, venceu no tiebreak e terminou com o ótima marca de 41% de pontos vencidos na devolução. Mas o duelo foi um tanto travado.

Andreescu me agradou mais. Dominada por um primeiro set muito bem feito pela belga Elise Mertens, adotou mudanças táticas corretas, diminuiu a margem de erro e esperou o momento certo de se impor. É incrível imaginar que Bibi terminou apenas como 178º do ranking em 2018, tendo vencido dois torneios de enorme peso, em Indian Wells e Toronto. Talvez estivesse ainda melhor se não ficasse de fora do circuito por quatro meses devido ao ombro (após Miami, só disputou Roland Garros e abandonou na segunda rodada).

O duelo entre elas é inédito no circuito, o que acentua a falta de prognósticos. Quem vencer, será pelo menos oitava do ranking, a menos que Serena William seja campeã.

Para a história
Berrettini é o quarto italiano a atingir uma semi de Grand Slam no tênis masculino, repetindo Adriano Pannatta (três semis),  Corrado Barazzutti (duas) e Marco Cecchinato (uma). Os únicos italianos a vencer um Slam foram Pannatta (Roland Garros-76), Francesca Schiavone (Roland Garros-2010) e Flavia Pennetta (US Open-15). O grande momento dos italianos também viu Fabio Fognini chegar ao top 10 nesta temporada e se tornar o jogador de maior idade a fazê-lo pela primeira vez.