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‘Melhores’ dão o que pensar
Por José Nilton Dalcim
16 de dezembro de 2019 às 10:27

Enquete criada por TenisBrasil há 19 anos, os resultados dos Melhores do Ano – que na verdade inclui também questões sobre a expectativa para a temporada seguinte – sempre me provocam curiosidade e reflexão. Afinal, optei desde o início por oferecer dois paineis distintos: um para o voto ‘popular’ e outro para os chamados ‘especialistas’, que são treinadores, jornalistas e alguns convidados especiais sempre muito próximos ao dia a dia do tênis. Por vezes, surgem dissonâncias valiosas e em 2019 não foi diferente.

Na pesquisa encerrada na sexta-feira, algo notável: os dois grupos deram votação expressiva para o ‘fato do ano’ não a uma conquista, como é bem natural, mas a uma das mais dolorosas derrotas do tênis moderno. Os dois match-points perdidos por Roger Federer em Wimbledon e consequentemente o 21º troféu de Slam que escapou ganharam com margem de 46% entre os especialistas e 45% para os internautas. Mais incrível ainda: os paineis quase desconsideraram o título do próprio Novak Djokovic no torneio. Ao menos, 61% dos especialistas e 67% do juri popular cravaram que esse foi o jogo do ano.

Bianca Andreescu e Cori Gauff lideraram como surpresas da temporada para os convidados, mas os internautas ficaram com as façanhas de Daniil Medvedev. A jovem canadense ganhou de longe como a que teve maior evolução técnica (56% e 59%) e ainda apareceu no jogo feminino do ano (69% e 48% para sua vitória em cima de Serena Williams no US Open). Por tudo isso, minhas indicações pessoais foram para Andreescu e sua arrancada incrível ao estrelato com um tênis bem agressivo.

Felix Aliassime foi considerado a revelação masculina pelos especialistas (54%) porém o público preferiu Matteo Berrettini (38%). Fico com o garoto canadense, apesar de seu segundo semestre fraco. Houve concordância nos dois paineis quanto a Medvedev ter tido a melhor evolução técnica (51% e 65%), superando Stefanos Tsitsipas (33% e 27%). Também votei no russo e para mim o essencial esteve em sua versatilidade nos pisos, do saibro lento ao sintético veloz.

Alexander Zverev, é claro, recebeu maciça votação como a grande decepção do ano, e destaco aí o segundo lugar de Nick Kyrgios nos dois paineis, acentuando a frustração que o australiano causa: mão genial e cabeça geniosa. Já a vitória de Phillip Kolhschereiber sobre Djokovic em Indian Wells venceu apertado entre os especialistas (28%) mas com folga entre os internautas (40%) como a grande ‘zebra’ do masculino, o que concordo plenamente.

Por fim confesso ter me surpreendido que tanto especialistas como o público tenham votado mais no ouro de João Menezes (25% e 34%) e no fim do Brasil Open (25% e 21%) do que no caso de doping de Bia Haddad (20% e 22%) como o ‘fato do ano’ do tênis brasileiro. Acho que o afastamento da tão promissora Bia foi uma das notícias mais inesperadas e desalentadoras que recebi nos últimos anos. O julgamento aliás ainda segue misterioso.

Vou deixar para o próximo post as indicações para 2020 e vamos ver também o quanto o pessoal acertou em relação ao que apostou para 2019.

Bianca Andreescu, a maturidade aos 19 anos
Por José Nilton Dalcim
7 de setembro de 2019 às 19:52

Seu tênis chama a atenção pela fluidez, força, coragem, precisão. Desde que despontou para o público com o inesperado título de Indian Wells, a canadense Bianca Andreescu mostrava as qualidades essenciais para se dar bem no circuito. Mas não seria tão fácil assim. Encarou outro período de problemas físicos, como em 2018, antes de mostrar em Toronto que não tinha perdido a essência do seu jogo.

O triunfo neste US Open foi mais do que merecido. É inevitável aliás comparar com o de Naomi Osaka de um ano atrás, porque são duas jogadoras que simbolizam o que há de mais moderno no tênis feminino, forçando saque, devolução, paralelas e ângulos, sem abandonar a linha de base, atentas à toda chance de contraataque. Não por acaso, ambos se inspiraram na própria Serena Williams, a quem derrotaram em grande estilo nas finais históricas.

Mesmo tão jovens, tanto Andreescu como Osaka também tiveram a marca indelével dos campeões: a cabeça fria. Se a japonesa se viu em meio à tremenda confusão armada com a arbitragem e jamais perdeu o foco, Bianca suportou a pressão não menos aterradora de ver um estádio inteiro empurrar Serena para uma reação incrível. E fechou o jogo com duas devoluções que as Williams só poderiam aplaudir. Maturidade aos 19 anos.

O tênis feminino pode comemorar três jogadoras muito jovens e de enorme qualidade técnica no seu novo top 5, já que a liderança nesta segunda-feira voltará à habilidosa Ashleigh Barty. Não se trata apenas de acentuada renovação, mas de um tênis competitivo no seu mais alto nível, tendo cada uma vencido um Slam na temporada.

Tomara que Serena não desanime e consiga uma quinta chance de chegar ao 24º Grand Slam, porque ela e a irmã Venus mudaram os rumos do esporte e continuam a dar exemplo saudável de amor à profissão.

Experiência x juventude também no masculino
A final masculina do US Open também traz um considerável duelo de gerações e de currículos, um pouco menos expressivo do que a decisão feminina mas igualmente destoante. Rafael Nadal, de 33 anos, faz sua 27ª final de Grand Slam e a quinta no US Open, enquanto Daniil Medvedev, uma década mais jovem, é um completo debutante.

Detalhe relevante: são dois tenistas com estilos atípicos no circuito. Canhoto e dono do topspin mais perfeito provavelmente da história, Nadal desenvolveu um modelo incomparável, onde a regularidade e a capacidade de defesa se mesclam com um preparo físico ímpar. Tem sacado muito bem e com isso ataca da base, assim como varia com curtas ou slices, faz voleios oportunos. O russo bate incrivelmente plano e forte na bola, mesmo jogando três passos atrás da linha e tendo preparação de golpes um tanto fora do padrão. Adora ser atacado para usar o peso da bola do adversário. Usa o primeiro saque para definir na bola seguinte, mas nunca se abala se tiver de jogar com o segundo serviço.

Medvedev surpreende por sua solidez na temporada, tendo se saído bem até mesmo no saibro e na grama, com duas vitórias sobre o número 1 do mundo. Nas quadras duras do verão norte-americano, chegou a todas as finais, venceu seu primeiro Masters, já somou 3.100 pontos e mostrou resistências física e mental raramente vistas no circuito masculino atual, onde poucos ousam entrar em quadra semana após semana.

Nadal tem o favoritismo natural, porque faz tudo melhor do que Medvedev, como ficou claro na recente final que fizeram em Montréal, onde cedeu apenas três games. Mas o espanhol tem permitido algumas brechas a seus adversários neste US Open, e a ansiedade parece ser seu maior inimigo. Perdeu set para Marin Cilic, permitiu duas corajosas reações de Diego Schwartzman e por milagre não perdeu o set inicial para Matteo Berrettini. Diante do momento histórico que viverá, às portas do 19º Slam, esse favoritismo precisa ser bem administrado.

Minha aposta: Nadal, 3 a 1. Meu desejo: que seja um grande espetáculo.

Será que agora vai, Serena?
Por José Nilton Dalcim
6 de setembro de 2019 às 00:38

Serena Williams não desiste. Ainda bem.

Pela quarta vez nos últimos 15 meses, ela se deu a oportunidade de tentar o 24º troféu de Grand Slam para enfim se igualar a Margaret Court, o que já escapou duas vezes em Wimbledon e outra lá mesmo no US Open naquela terrível final do ano passado. Tão pertinho dos 38 anos, que completará em três semanas, ela lutou contra a forma física, o descrédito, seu destempero, e chegou lá de novo. Será que agora finalmente vai conseguir?

Ao atropelar uma irreconhecível Elina Svitolina na noite desta quinta-feira, Serena repete a final do US Open de exatos 20 anos atrás, e acrescenta outra façanha à incrível carreira, agora a tenista que marcou a maior distância entre a primeira e a mais recente final de Grand Slam da Era Aberta.

Aliás, também se transforma na profissional mais velha a ser finalista de um Slam, aos 37 anos e 347 dias. Ela, que detém o recorde de campeã de maior idade na Austrália, Roland Garros e Wimbledon, pode retomar o posto também no US Open, superada que foi por Flavia Pennetta em 2015.

Há muita coisa esperando por Serena às 17 horas de sábado. Terá a chance também de superar duas marcas incríveis de Chris Evert, com quem divide seis títulos em Nova York e agora 101 vitórias. Gostem ou não de Serena, é preciso reconhecer seu notável espírito competitivo. Em uma temporada confusa em que soma apenas 30 partidas, alcança a 33ª final em 73 Slam disputados. Um dado curioso levantado pela WTA lembra que ela só perdeu três finais em Flushing Meadows, as de 2001, 2011 e 2018. Nas duas primeiras, levou o título na edição seguinte.

A pergunta que fica é como reagirá Serena ao encarar pelo segundo ano seguido uma novata na decisão. Ela também tinha a experiência e a torcida a favor quando viu a fã Naomi Osaka pela frente há 12 meses e fez aquele papelão. Embora um desafio desse porte seja novidade para a adolescente Bianca Andreescu, que sequer havia nascido quando Serena ganhou seu primeiro US Open, em 1999, a canadense tem personalidade distinta da tímida Osaka. É impulsiva, expansiva e já ganhou um título em cima de Serena poucos dias atrás, em Toronto, se bem que a norte-americana abandonou após meros quatro games.

Tarefa completamente distinta à de Williams, Andreescu sobreviveu a uma tensa semifinal nesta noite diante da suíça Belinda Bencic. Só o primeiro set durou quase 70 minutos, e as oportunidades foram divididas. Escapou de várias situações delicadas com a frieza e coragem que assombraram o circuito desde sua arrancada, em março. E foi buscar um segundo set que parecido perdido. É exatamente isso o que se espera dela. Garra, golpes pesados, saque audacioso, boa mão para deixadas e voleios… Andreescu faz um pouco de tudo e faz tudo muito bem. Talvez só o dolorido joelho esquerdo seja um fator de preocupação.

Em sua primeira chave principal do US Open – jogou e perdeu no quali do ano passado -, Bibi é a terceira tenista de seu país, e a segunda mulher, a atingir a final de um Slam, repetindo Eugénie Bouchard e Milos Raonic. Também não deixa de ser curioso que supere Denis Shapovalov e Felix Aliassime, esperanças bem mais badaladas do jovem tênis canadense.

Fato notável, este é apenas seu quarto Slam da curtíssima carreira e, se vencer, irá igualar a façanha de outra prodígio, Monica Seles, que também disputou apenas quatro antes de faturar Roland Garros em 1990, com a diferença que a então iugoslava tinha meros 16 anos.

Para a história
– Três dos últimos quatro títulos femininos do US Open foram vencidos por tenistas que marcaram seu primeiro troféu de Slam: Flavia Pennetta (2015), Sloane Stephens (2017) e Naomi Osaka (2018).
– Qualquer que seja a campeã deste sábado, o circuito feminino novamente terá quatro diferentes vencedoras de Slam em 2019, já que Osaka levou Melbourne, Ash Barty ganhou Paris e Simona Halep, Wimbledon. Essa diversidade repete 2017 e 2018. Nunca isso havia acontecido entre as mulheres por três temporadas seguidas.