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Que os adversários sofram
Por José Nilton Dalcim
19 de janeiro de 2022 às 11:32

Enquanto Alexander Zverev e Rafael Nadal economizam forças e ganham confiança, alguns de seus principais concorrentes na parte superior da chave se esfacelam em jogos duríssimos. No dia mais quente até agora em Melbourne, com temperatura na casa dos 29 graus, Denis Shapovalov, Cristian Garin e Pablo Carreño encararam maratonas, Matteo Berrettini e Aslam Karatsev não convenceram e Hubert Hurkacz foi inesperadamente atropelado. Certamente, Sascha e Rafa não têm nada a reclamar de tanto sofrimento.

Nadal encontrou resistência de Yannick Hanfmann, que mostrou em alguns momentos nível bem mais alto do que seu ranking e currículo, e isso exigiu pernas e concentração do cabeça 6. Na entrevista oficial, Rafa contou que prefere jogar de dia em Melbourne por conta das bolas que foram alteradas em 2021, que ‘pegam menos efeito à noite’, em suas palavras. Isso favorece quem joga mais reto, que é exatamente o caso de Karen Khachanov, seu próximo rival. No histórico de sete jogos, cinco deles no piso duro, Rafa só perdeu um set e ganhou todos os sete tiebreaks.

Com apenas oito pontos perdidos com o poderoso primeiro saque, Zverev mostrou-se tranquilo diante do natural apoio da torcida a John Millman e procurou novamente ser brincalhão na entrevista em quadra. Deve ter outro jogo pouco exigente contra Radu Albot e provavelmente vai torcer para Shapovalov barrar Reilly Opelka. O canhoto canadense esteve perto de cair diante do coreano Soonwoo Kwon mesmo tendo anotado a incrível diferença de 81 a 29 nos winners. Opelka ainda não perdeu set e curiosamente jamais enfrentou Zverev.

O italiano Matteo Berrettini, terceira maior força da parte inferior da chave, não esconde sua insatisfação com o nível apresentado nos dois jogos feitos, mas de novo o saque apareceu nas horas importantes. Com isso, confirma-se o aguardado reencontro com o garoto Carlos Alcaraz, que voou em quadra de novo e só tem 14 games perdidos. O espanhol venceu o único duelo, dois meses atrás no piso fechado de Viena. Quem passar, pega Carreño ou Sebastian Korda, os dois sobreviventes de cansativos duelos de cinco sets. O holandês Tallon Griekspoor joga direitinho e Carreño suou 4h10.

Destaque por fim a Gael Monfils e outra atuação muito séria contra Alexander Bublik, que só tirou dele cinco games. O veterano francês, que é adorado pelo público australiano, fica favorito diante de Cristian Garin e seus 10 sets feitos. Se passar, terá duelo contra Lorenzo Sonego ou Miomir Kecmanovic. Nada ruim.

Rodada sem sustos no feminino
Como se esperava, a segunda partida dos grandes nomes no lado superior da chave feminina foram muito tranquilas. Ashleigh Barty, Barbora Krejcikova, Maria Sakkari, Paula Badosa e Naomi Osaka não tiveram qualquer trabalho. Só mesmo Elina Svitolina continua instável. Belinda Bencic caiu, mas vinha de covid.

Barty continua sacando muito bem, deve ter um teste um pouco mais exigente contra Camila Giorgi e aí encarar Osaka, que é favorita natural diante de Amanda Anisimova, que ainda busca retomar sua melhor forma. Esse também é o setor onde está Sakkari. A grega subiu de nível após estreia um tanto apagada, precisa tomar cuidado com Veronika Kudermetova e em seguida deve cruzar com Jessica Pegula, mais uma que ainda não me passou segurança.

O outro quadrante marca dois ótimos jogos para a terceira rodada. ao menos no papel. Krejcikova e Jelena Ostapenko fazem encontro de campeãs de Roland Garros em que a tcheca é muito mais adaptável ao piso duro. Azarenka por sua vez me parece favorita contra a irregular Svitolina e ainda leva 4 a 0 nos confrontos diretos. Também nome forte deste setor, Paula Badosa marcou novo ‘pneu’ e terá agora testes reais contra a solidez de Marta Kostyuk e, espera-se, a experiência de Madison Keys.

Levante cedo
Há ótimos motivos para você madrugar nesta quinta-feira. A rodada noturna local abre com Daniil Medvedev contra Nick Kyrgios, às 5h de Brasília, e logo em seguida Bia Haddad desafia Simona Halep. E você ainda pode dar uns pitacos em Andy Murray diante do quali Taro Daniel, ver Jannik Sinner frente Steve Johnson e olhar um ótimo duelo de novatos entre Felix Aliassime e Alejandro Davidovich.

Bia já encarou Halep na grama de Wimbledon de 2017, onde perdeu por 7/5 e 6/3, e sabe que a romena acaba de ganhar o WTA de Melbourne. A tarefa de enfim chegar na terceira rodada de um Slam é bem dura, mas a canhota brasileira gosta de jogos grandes, como fez contra Karolina Pliskova em outubro. “Sei que posso”, afirma.

Kyrgios ganhou os dois jogos profissionais e um outro juvenil que já fez diante de Medvedev e vai usar toda sua imensa popularidade local e carisma para tirar força da torcida. O russo deixou claro: não gosta de enfrentar Kyrgios, nem pelo estilo, nem pela fanfarrice. Promete ser muito divertido.

Vai esquentar
Por José Nilton Dalcim
18 de janeiro de 2022 às 12:08

Ainda será a segunda rodada na parte inferior da chave masculina, mas a promessa é de que as coisas esquentem precocenente no Australian Open. O agora favorito Daniil Medvedev terá encarar a torcida fanática por Nick Kyrgios, o que pode ser o ponto alto da primeira semana. E não é só: haverá o duelo direto entre Taylor Fritz e Frances Tiafoe e o de Grigor Dimitrov e Benoit Paire. Será difícil dormir muito.

Medvedev teve pequenos altos e baixos na estreia, mas dificilmente será surpreendido por Kyrgios, que vem de covid e provavelmente vai jogar na maior lentidão da noite. Claro que se espera um grande confronto por dois ou três sets. O polêmico australiano deu o tradicional show na fácil vitória sobre o canhoto Liam Broady e é evidente que vai arriscar tudo e abusar de saques por baixo e dos voleios. Imperdível.

Na contramão, Stefanos Tsitsipas deixou outra vez muitas dúvidas sobre a chance de ir longe no torneio e foi instável contra o frágil Mikael Ymer, apesar de vencer em sets diretos. Não duvido que o baixinho Sebastian Baez lhe dê sufoco. Se mantiver o favoritismo, deve ter mais trabalho contra Dimitrov ou Paire.

Richard Gasquet e Maxime Cressy me surpreenderam positivamente. O veterano francês, acreditem, apresentou um forehand batido e mais veloz. Notável que tenha trabalhado nessa falha técnica grave já no fim da carreira. Tirou de virada e em jogo muito apertado o bom canhoto Ugo Humbert e pode até ser o oponente de Medvedev na terceira fase. Cressy também está nesse quadrante e vem tendo atuações expressivas neste começo de temporada. Adora forçar o saque – 31 aces e 20 duplas faltas – e venceu 82% dos pontos em que encaixou o primeiro serviço. Salvou todos os nove break-points em mais de 4h de duelo. Pega agora um qualificado e talvez Diego Schwartzman.

Por falar em maratona, Andy Murray sobreviveu a mais 4h52, ganhou novamente de Nikoloz Basilashvili e cresceu muito a chance de vê-lo contra Jannik Sinner na terceira rodada. Na entrevista oficial, o escocês reconheceu que ele e o time discutem muito a necessidade de praticar um tênis mais ofensivo e de pontos curtos, mas que reluta em mudar o estilo, porque provavelmente passaria a errar muito.

Por fim, vale ficar de olho em Taylor Fritz, que vem jogando o melhor tênis de sua jovem carreira. O teste contra Tiafoe é dos bons porque logo em seguida deve vir Roberto Bautista.

Salada no feminino
O complemento da primeira rodada feminina foi uma mistura de emoções. Se por um lado Emma Raducanu superou os nervos e a instabilidade para tirar Sloane Stephens, Aryna Sabalenka continua muito insegura com o saque e três estrelas se despediram cedo denais: Petra Kvitova, Angelique Kerber e Leylah Fernandez.

Raducanu abriu a estreia com ‘pneu’, mas o jogo em si não foi divertido. Ambas falharam demais. A britânica fez 15 winners e 30 erros, a experiente Stephens terminou com 14 winners e 42 erros. Talvez agora a campeã do US Open se solte. Esta foi apenas a terceira vitória desde a incrível campanha em Nova York.

Sabalenka fez mais 12 duplas faltas, porém deu tempo de virar contra a convidada local Storm Sanders. Apesar da vitória, Garbiñe Muguruza e Iga Swiatek estão longe do ideal, ainda que tenham tempo de crescer. Péssimas atuações de Fernandez, Kvitova e Kerber e um jogo muito agradável entre Anett Kontaveit e Katerina Siniakova, em que as duas meteram a mão na bola o tempo todo.

Noite suada para os brasileiros
Bia Haddad Maia enfim voltou às vitórias em Grand Slam, nível de torneio que não competia desde Wimbledon de 2019. Anotou seu quinto triunfo desse quilate e o terceiro em Melbourne com virada esforçada sobre a quali Katie Volynets. A canhota paulista só achou mesmo um ritmo a partir da metade do segundo set e colecionou muitos erros (50), apesar de ter feito 36 winners.

Campeã de duplas no domingo no 500 de Adelaide, um tremendo resultado, Bia tem enorme desafio agora diante de Simona Halep, que também ergueu troféu no fim de semana, em Melbourne. Para encarar a solidez da ex-líder e agora número 15 do mundo, Bia terá de ousar e tentar se aproveitar do segundo saque pouco contundente. A romena devolve por sua vez muito bem e aí será preciso manter esse bom padrão de estreia, em que a brasileira colocou 70% do primeiro saque na quadra.

E faltou pouco para o tênis brasileiro sair com outra vitória, a de Thiago Monteiro sobre o habilidoso Benoit Paire. O canhoto cearense teve alguns ótimos momentos, com um quarto set brilhante, e buscou mexer sempre o adversário. Era de se acreditar que um quinto set favoreceria o brasileiro na parte física, mas o saque não funcionou tão bem e Paire foi feliz nas devoluções. Monteiro participou de seu quarto Australian Open, com uma vitória em 2021.

Djokovic conhece caminhada e espera ministro
Por José Nilton Dalcim
13 de janeiro de 2022 às 15:39

Depois de uma tremenda boataria nas redes sociais, as chaves do Australian Open foram sorteadas e Novak Djokovic aparece para defender seu título, buscar o décimo troféu e o 21º Grand Slam. Como tem treinando normalmente e em ritmo acelerado, o sérvio parece pronto ao menos no campo técnico e físico para o desafio. Ele ainda está sob ameaça de deportação, mas o ministro australiano do Interior seguidamente adia pronunciamento e permanece em absoluto silêncio sobre o caso.

Djokovic tem pela frente jogos iniciais que podem ser fisicamente exigentes, mas onde ele é muito superior ao compatriota Miomir Kecmanovic, Tommy Paul ou Lorenzo Sonego. O superfreguês Gael Monfils e o fraco Cristian Garin viriam a seguir, se chegarem tão longe num setor que Alexander Bublik é perigoso. Já nas quartas o possível adversário é bem indefinido, podendo pintar a potência de Matteo Berrettini, a experiência de Pablo Carreño ou a juventude de Carlos Alcaraz. São jogadores de estilos muito diferentes e talvez Carreño seja o nome a se evitar.

Alexander Zverev e Rafael Nadal são os tenistas de peso no segundo quadrante e portanto adversários potenciais de Nole na semi. O caminho não é ruim para Sascha e colocaria Reilly Opelka como o maior obstáculo até as quartas. Já o espanhol pode encarar sequência bem exigente. A estreia contra Marcos Giron e a segunda partida frente a Thanasi Kokkinakis não permitem vacilos. Aí haveria um respiro antes de uma pedreira do tamanho de Hubert Hurkacz ou Aslan Karatsev. Portanto, para chegar em Zverev tudo indica que Rafa terá de estar em forma e confiança máximas.

Finalista do ano passado e o mais recente campeão de Grand Slam, Daniil Medvedev também vislumbra trajeto com poucas armadilhas. O eventual terceiro jogo contra o canhoto Ugo Humbert seria um bom teste, já que o francês jogou muito bem na ATP Cup. No jogo seguinte, podem pintar John Isner ou Diego Schwartzman ou uma ‘zebra’ como Maxime Cressy, porém me parece bem provável que Medvedev chegue nas quartas e aí o quadrante é bem imprevisível. Ali estão Andrey Rublev, Felix Aliassime, Daniel Evans e Marin Cilic, curiosamente quatro jogadores cuja instabilidade emocional é o principal defeito. Como vimos na ATP Cup, Evans e Aliassime mostraram força. Apostaria no britânico.

Por fim, o terceiro quadrante promete qualquer coisa e pode surgir daí um semifinalista inédito de Slam. O principal cabeça é Stefanos Tsitsipas, que não mostrou firmeza em Sydney com um cotovelo ainda preocupante. As oitavas diante de Roberto Bautista ou Taylor Fritz, grandes destaques da ATP Cup, tende a ser decisiva. Quem sobreviver terá boa chance de ir à penúltima rodada, já que o setor anexo tem Jannik Sinner, Casper Ruud, Nikoloz Basilashvili, Alex de Minaur e uma pequena mas não desprezível chance para Andy Murray.

Aliás, Murray protagoniza um dos grandes jogos de primeira rodada, no reencontro da batalha com Basilashvili de dias atrás. Outros jogos iniciais imperdíveis são Norrie x Korda, Nakashima x Berrettini, Opelka x Anderson, Musetti x De Minaur, Schwartzman x Krajinovic, Cressy x Isner e Umbert x Gasquet.

O feminino
Nem começou e a chave feminina já deixa enorme expectativa por um duelo precoce entre Ashleigh Barty e Naomi Osaka em plenas oitavas de final. A menos que joguem muito abaixo, será difícil evitar o confronto. A única que parece ter condições disso é Belinda Bencic. Esse lado superior da chave está bem forte, com presenças também de Maria Sakkari, Ons Jabeur e a imprevisível Jessica Pegula.

Quem sobreviver a isso tudo fará semi com a vencedora do setor que tem Barbora Krejcikova, Elina Svitolina, Vika Azarenka, Sofia Kenin, Coco Gauff e Paula Badosa. Dificílima previsão. A terceira fase pode ter Kenin contra Gauff e Azarenka diante de Svitolina, que decepcionou esta semana.

Aryna Sabalenka foi muito mal nos dois preparatórios de Adelaide, mas teve sorte na formação da chave e ao menos deve ganhar os dois primeiros jogos. No seu setor ficaram as canhotas Angelique Kerber e Leylah Fernandez, que podem duelar na terceira rodada. Parece uma boa janela para Iga Swiatek mostrar que se sente mais à vontade na quadra dura.

O terceiro quadrante é encabeçado por Garbiñe Muguruza, que caiu logo no 500 de Sydney e pode encarar a renovada Simona Halep. Entre as duas está Emma Raducanu quem, vindo de covid, só ganhou um game contra Elena Rybakina e vai pegar Sloane Stephens na estreia. É bem interessante ficar de olho em Anett Kontaveit, que está no seu piso predileto e em alta.

Os brasileiros
Thiago Monteiro encara a habilidade de Benoit Paire em seu retorno ao Melbourne Park. O canhoto cearense fez bons jogos nos dois torneios anteriores, com destaque para um primeiro saque bem agressivo, e sabe que terá de tirar o máximo do forehand do francês. Se passar, deve encarar outra ‘fera’, Grigor Dimitrov.

Bia Haddad também jogou dois preparatórios e aguarda uma qualificada, o que é garantia de ranking mais baixo porém de adversária em pleno ritmo. Se vencer, deve encarar Halep e aí fica pelo menos divertido.

E se…
Houve uma enorme expectativa no início da quinta-feira em Melbourne, quando o Primeiro Ministro fez um discurso sobre a pandemia e o sorteio foi atrasado em 1h15. Parecia que a ‘bomba’ do afastamento de Djokovic iria estourar, mas de novo nada aconteceu, já que o ministro da Imigração diz continuar avaliando o caso. Angustiante. Será que há alguma investigação em andamento? Ninguém sabe, e Nole continua treinando normalmente.

A pergunta óbvia é: o que acontecerá com a chave masculina caso Djokovic seja impedido de competir? A regra diz que, caso a primeira programação ainda não tenha sido divulgada, haverá troca de lugar de alguns cabeças de chave. Rublev subiria para a posição de Djokovic e Bublik ganharia condição de cabeça 33. Se a retirada ocorrer depois da programação, então a primeira linha será ocupada por um lucky-loser.