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Quarta mágica projeta 4 dias inesquecíveis em NY
Por José Nilton Dalcim
9 de setembro de 2021 às 01:35

Se de um lado Novak Djokovic e Alexander Zverev confirmaram a expectativa e marcaram um duelo que promete ser eletrizante daqui a dois dias, a quarta-feira do US Open registrou mais uma série de fatos inusitados e históricos. A começar pela classificação de Luísa Stefani, recolocando o tênis feminino brasileiro na vitrine dos Grand Slam, e ao mesmo tempo aumentar a festa canadense, agora com três semifinalistas. Também promoveu mais uma jovem estrela, Emma Raducanu, e viu duas norte-americanas novatas lotarem a Louis Armstrong. Há façanhas até nas duplas mistas. É um torneio muito especial.

Stefani se tornou a terceira brasileira a atingir a penúltima rodada de um Slam, repetindo Maria Esther Bueno e Cláudia Monteiro. Seu momento é incrível: bronze olímpico, título em Montréal, finais em Cincinnati e em San Jose e agora semi em Flushing Meadows. Tudo isso com grandes atuações, desempenho mágico junto à rede, sorriso no rosto e ar de veterana. O dueto com Gabriela Dabrowski caiu como uma luva, porque a canadense é uma tremenda duplista, que mescla força com jeito e tem considerável experiência, com 10 títulos de WTA e a final de Wimbledon de 2019.

Não vai ser nada fácil encarar Coco Gauff, 17 anos, e Caty McNally, 19, e seus golpes pesadíssimos da base, e ainda por cima com apoio maciço do público. As duas brecaram num jogo de arrepiar as campeãs de Wimbledon e líderes do ranking Su-Wei Hsieh e Elise Mertens. Preparem seus corações.

Djoko contra novo saque de Zverev
Um US Open tão sensacional merecia mesmo o duelo entre Djokovic e Zverev, a revanche da semi olímpica. O sérvio é de longe o grande nome da temporada, em busca de fechar o Grand Slam, enquanto o alemão é o principal nome do circuito no último mês, com 16 jogos sem derrota e dois títulos de peso, em Tóquio e em Cincinnati.

Djokovic encontrou um Matteo Berrettini bem disposto num primeiro set de 80 minutos e com um backhand mais sólido do que o normal, mas no fundo foi o sérvio quem não jogou bem os pontos realmente valiosso. A partir do momento em que decidiu ser mais agressivo, principalmente atrás do lado esquerdo italiano, a tarefa foi bem mais fácil. De seus 28 erros, 17 aconteceram no primeiro set, uma estatística que dá a dimensão de como evoluiu nas três séries seguintes.

Zverev por sua vez atinge sua quarta semi de Slam, depois de levar um susto no primeiro set contra um solto Lloyd Harris, que chegou a sacar para vencer e depois teve set-point no tiebreak. Mas o alemão está num momento iluminado e com cabeça muito focada.

Um curioso quadro da ESPN mostra que o alemão reduziu a altura do lançamento da bola no saque pela metade nesta temporada e com isso o golpe ficou muito mais efetivo, além da queda abrupta das duplas faltas.

Outro dado relevante é que Sascha tinha 22 vitórias e 14 derrotas em Slam entre 2015 e 2019, período em que jogou 18 Slam e só passou à segunda semana cinco vezes sem qualquer semi, e depois passou a 41 triunfos em 51 jogos entre 2020 e 2021, tendo chegado à segunda semana em todos os sete Slam e somado quatro semis. No entanto, nunca bateu um top 10 em Slam. Dá então para imaginar o tamanho da façanha que terá de realizar contra o número 1.

Raducanu é a nova sensação
Menos de 24 horas depois de Leylah Fernandez, a britânica Emma Raducanu causou outro burburinho na chave feminina do US Open, ao se tornar a primeira qualificada na Era Profissional a atingir a penúltima rodada. E, mais incrível ainda, sem perder set em seus oito jogos realizados.

Filha de chinesa e romeno e nascida no Canadá, também repete os feitos de Chris Evert, Pam Shriver e Venus Williams, que chegaram na semi logo em seu primeiro US Open. A vitória sobre Belinda Bencic foi sua primeira no torneio diante de uma cabeça de chave, mas a forma com que dominou a campeã olímpica com golpes sempre bem feitos deixou até Martina Navratilova boquiaberta. Seu ídolo de infância foi Na Li, o que pode explicar boa parte do estilo.

Aos 18 anos e 9 meses, Raducanu era 366 do mundo antes de Wimbledon, onde também se tornou a mais jovem da Era Aberta a atingir as oitavas. Entrou neste US Open como 150 e já se garantiu como 51. Se derrotar Maria Sakkari na noite desta quinta-feira, será 31 ou 32, num salto astronômico. Jamais chegou sequer numa final de torneios nível WTA, nem mesmo os de US$ 125 mil.

Sakkari, de 26 anos, é a sobrevivente de maior idade e faz sua segunda semi de Slam numa campanha de peso em que eliminou Petra Kvitova, Bianca Andreescu e agora Karolina Pliskova, ou seja, adversárias muito gabaritadas em superfícies velozes e no piso duro. A vitória sobre a vice-campeã de Wimbledon nesta noite resume bem suas qualidades: bom saque, golpes forçados sem exagero, muita perna para cobrir a quadra.

Até nas mistas
O México também tem sua primeira finalista de Slam da história, Giuliana Olmo, que decide as mistas ao lado do salvadorenho Marcelo Arevalo, outra façanha histórica latino-americana. O M[exico ganhou três no masculino com Raul Ramirez e dois nas mistas com Jorge Lozano.

Título olímpico ratifica qualidade de Zverev
Por José Nilton Dalcim
1 de agosto de 2021 às 14:30

É bem verdade que ainda lhe falte um troféu de Grand Slam, mas o alemão Alexander Zverev ratifica com sua medalha de ouro deste domingo em Tóquio a condição de maior nome da nova geração do tênis.

Aos 24 anos, sua coleção de 16 títulos e nove finais no circuito tem qualidade. Estão ali também o ATP Finals, uma conquista maiúscula em cima de Roger Federer e Novak Djokovic, quatro Masters 1000 em diferentes pisos e 500 de respeito em Acapulco e Washington. A lista de finais não é menos imponente: US Open e mais quatro Masters.

Também já atingiu o terceiro lugar do ranking, um feito notável na Era do Big 4. No entanto sempre estamos cobrando dele algo a mais. Zverev ainda oscila emocionalmente, poderia ter um forehand mais contundente e o jogo de rede só agora começa a se destacar. Com 1,98m. parece menos preguiçoso em se mexer para a frente e isso o colocou pelo menos nas oitavas de final de seus 7 últimos Slam, período em que fez também três semis.

A campanha olímpica não foi espetacular, mas bater de virada o todo-poderoso número 1 liquida discussões. Manteve o alto padrão numa final sem graça contra Karen Khachanov, que fez muito pouco como devolvedor – 5 de 31 pontos – e levou uma surra nos winners (7 a 27). Nem Boris Becker ou Michael Stich conseguiram ouro em simples para a Alemanha – venceram nas duplas – e assim Sascha repete Steffi Graf.

O ouro ficou em mãos corretas e Zverev pode muito bem se candidatar ao bi dentro de três anos em Paris. Porém, muito antes disso, espera-se que Tóquio seja um empurrão importante para a quadra veloz de Cincinnati e do US Open que vêm pela frente. Quem sabe, enfim, não tenha chegado a sua hora.

Nas duplas feminina, Barbora Krejicikova e Katerina Siniakova mantiveram o favoritismo e vingaram Marketa Vondrousova, ao tirar o segundo ouro de Belinda Bencic, que fez parceria com Vikorija Golubic. A República Tcheca nunca havia chegado ao título olímpico desde que passou a competir como país independente, tendo na conta apenas o ouro de 1988 de Miloslav Mecir, que na verdade é eslovaco.

Por fim, as mistas ficaram com Anastasia Pavlyuchenkova e Andrey Rublev, uma certa surpresa já que o russo não é habitual participante em chaves de dupla no circuito, ainda que tenha conquistado seu primeiro ATP em março com Aslan Karatsetv. Eles derrotaram justamente Karatsev e a parceira Elena Vesnina, com uma interessante curiosidade: é a terceira decisão seguida que Vesnina perde match-points, repetindo Wimbledon e a disputa do bronze do sábado.

Meninas de ouro
Por José Nilton Dalcim
31 de julho de 2021 às 13:32

Numa das campanhas mais surpreendentes do tênis brasileiro das últimas duas décadas, Laura Pigossi e Luísa Stefani superaram até mesmo o estigma de ‘cabeça fraca’ que os jogadores nacionais são acusados de possuir e, com quatro vitórias em cinco possíveis, chegaram a uma histórica medalha de bronze em Tóquio, superior a qualquer outro desempenho da modalidade na competição esportiva mais relevante do planeta.

Informadas seis dias antes de embarcar para Tóquio sobre a vaga inesperada, nossas melhores duplistas no ranking tiveram de fazer adaptações de urgência. Viagem longa, fuso horário avassalador, pouquíssimo entrosamento anterior entre elas, estilos um tanto conflitantes. Estava tudo contra elas, incluindo uma estreia difícil contra fortes canadenses.

Das quatro vitórias em Tóquio, três foram de virada e portanto no match-tiebreak, desafios que exigem muita frieza. Também evitaram oito match-points, quatro nas quartas e mais quatro na final deste sábado, e vamos ainda lembrar que o primeiro set da única derrota, na semi para as suíças, tiveram um set-point depois de liderar por 4/0.

A disputa do bronze contra as fortes russas nesta madrugada – acabaram de ser vices em Wimbledon – exigiu o máximo de Pigossi e Stefani, tanto no aspecto técnico como no controle emocional. Foram sets duros contra duas jogadoras que pegam muito pesado da base, mas as brasileiras conseguiram segurar muitas trocas importantes e foram extremamente oportunas junto à rede, como aliás aconteceu no ponto que deu a elas o match-point, em que Luísa mostrou incrível reflexo.

Salvar-se de 5-9, com dois saques do adversário a partir do 7-9, é um feito assombroso em qualquer circunstância, mas num jogo que valia tanto para o dueto brasileiro foi a mostra de maturidade e confiança. Simplesmente não erraram, mesmo com postura ofensiva, sem jamais segurar o braço.

Então a alegria de chegar a este bronze tão improvável não é apenas uma questão de nacionalismo, porém acima de tudo de mérito e competência. Além é claro de recolocar um grande foco sobre nosso tênis feminino, que reagiu nos últimos anos a partir do empenho hercúleo de Teliana Pereira, do crescimento técnico de Bia Haddad, da ascensão meteórica de Stefani e de tantas garotas extremamente sérias e dedicadas, como Pigossi, Gabriela Cé, Carol Meligeni, Paula Gonçalves ou Rebeca Pereira.

Jamais devemos esquecer que muito disso passa pela série de pequenos torneios profissionais promovidos no país desde 2011, eventos pouco mediáticos mas que são a base primordial para que possamos ganhar cada vez mais meninas de ouro.

Bencic é campeã, Svitolina faz história
Houve muito ponto bonito, mas a final olímpica feminina foi claramente tensa. Belinda Bencic e Marketa Vondrousova viveram muitos altos e baixos, tiveram dificuldades com o serviço e para sustentar vantagens, mas a suíça mostrou outra vez excepcional preparo físico e levou a terceira medalha de ouro do tênis para seu país, repetindo Marc Rosset, em simples de Barcelona-92, e os ainda ativos Roger Federer e Stan Wawrinka.

E a missão da ex-top 10 ainda não terminou. Voltará à quadra neste domingo para tentar outro ouro, agora em duplas, o que pode torná-la a quarta profissional a obter tamanha façanha. Bencic já pode ser apontada como o maior nome do tênis olímpico suíço, acima de Federer, que também possui uma prata de simples, em Londres-2012.

O bronze foi um duelo emocionante em que Elina Svitolina obteve notável virada em cima da cazaque Elena Rybakina, depois de levar uma surra no primeiro set. Esta é a primeira medalha do tênis ucraniano nos Jogos.

Sem medalhas e com vexame
E Novak Djokovic deixa Tóquio sem qualquer medalha no pescoço. Fez uma exibição de altos e baixos contra o espanhol Pablo Carreño, que se mostrou bem sólido o tempo todo e foi claramente superior no terceiro set. Emocionadíssimo, jogou-se ao chão para comemorar ao mesmo tempo a primeira efetiva vitória em cima do número 1 do mundo.

Nole alegou dor no ombro e sequer entrou em quadra para tentar o bronze nas mistas. Talvez, a frustração tenha sido o problema maior e isso ele deixou claro com duas explosões raivosas no terceiro set, a primeira arremessando a raquete na arquibancada e a outra, destruindo a raquete no poste da rede. Em ambas as situações, colocou-se outra vez no risco iminente de desclassificação. Será que a dura lição do US Open, justamente contra Carreño, não foi ainda o bastante?

De qualquer forma, Nole terá tempo suficiente para esfriar a cabeça e se preparar adequadamente para Cincinnati e US Open. Se o sonhado Golden Slam se esvaiu, fechar o Slam é apenas um degrau a menos na tabela das mais extraordinárias realizações que um tenista pode pretender na carreira. E a oportunidade continua muito aberta.