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Fognini faz saibro estremecer
Por José Nilton Dalcim
24 de abril de 2015 às 00:30

Fabio Fognini, quem diria, pode ter mudado a história nesta quinta-feira. Com seu jeito quase despretensioso de encarar a maioria dos jogos, achou a receita para incomodar Rafa Nadal e lhe impôs talvez a mais dolorosa derrota da temporada até aqui. Para quem diz que o problema tem sido confiança em si mesmo, é um tremendo desastre.

O italiano havia quebrado o tabu pessoal contra o multicampeão de Roland Garros no saibro muito mais lento do Rio de Janeiro, um duelo decidido no terceiro set e com um match-point épico. Agora foi muito pior, não apenas porque o saibro mais veloz de Barcelona deveria favorecer Nadal, mas principalmente porque ocorre diante da fanática torcida espanhola.

Incompreensível como Rafa não conseguiu ser agressivo no primeiro set diante de um aproveitamento tão baixo de primeiro serviço do adversário, meros 45%. Preferiu os intermináveis duelos de fundo de quadra e fez menos da metade de winners (16 a 7). Ou seja, teima em adotar a regularidade e o preparo físico como pilares de seu jogo, quando está claro e cristalino que o momento não ajuda nisso.

Muito mais sintomático ainda é ver Nadal ter seguidas lideranças do placar no segundo set e deixar Fognini reagir. Sacou para fechar no 5/4, e nada. Foram para o tiebreak, situação máxima de pressão no tênis, onde costumamos a ver o domínio mental de Rafa, e nada. Está tudo errado. Começo a duvidar que existirá tempo de corrigir.

Em quatro torneios sobre o saibro na temporada, Nadal sequer chegou à final em três. Tem agora de defender o título de Madri e o vice em Roma, torneios sempre muito difíceis. Não é uma questão de ranking, porque campanhas medianas podem ser suficientes para manter o quarto lugar, porém emocional. Nos dois torneios que poderia ter reagido e marcado pontos, não o fez. A pressão aumenta com as derrotas, a desconfiança do público e dos analistas, a necessidade de reagir.

Para completar o rol de problemas e tropeços, ainda há a questão da nova raquete. A troca para um modelo que na teoria lhe daria mais potência, tirando a precisão, vai se mostrando um erro estratégico sem tamanho. Porque não apenas acontece no início da temporada de saibro, mas num dos momentos mais críticos de sua carreira. Do jeito que foi feita, dá uma nítida impressão de desespero. Tenista profissional odeia trocar de raquete, só o faz em circunstâncias muito especiais e demoram geralmente meses para se adaptar. Eu voltaria para o modelo antigo enquanto ainda há chance de treinar.

O saibro se renova
Por José Nilton Dalcim
27 de abril de 2014 às 13:45

Claro que ainda é cedo demais para dizer que o favoritismo de Rafael Nadal e Novak Djokovic tenha diminuído para Roland Garros, mas fica inegável que o circuito masculino começou a importante temporada de saibro europeu bem renovado. Primeiro, foi a vitória de Stanislas Wawrinka em Monte Carlo que sacudiu alicerces, agora vemos Kei Nishikori e Grigor Dimitrov obterem seus primeiros títulos na terra batida.

O mais interessante dessas duas semanas, a meu ver, não foi apenas o fato de vermos três nomes diferentes com excelente atuação no saibro, mas principalmente o de que todos os três jogarem um tênis bem agressivo sobre a superfície. Um mais, outro menos, esses três campeões trabalharam muito bem com o saque, forçaram devoluções, abusaram de winners e jogaram bem mais perto da linha de base.

Obviamente não é um conceito novo, já que nosso Guga Kuerten foi o responsável por mostrar que atacar no saibro a partir dos golpes de fundo era plenamente viável, e isso há quase duas décadas. Muitas coisas mudaram nos anos mais recentes, especialmente o uso de bolas bem mais pesadas, e por isso revermos esses três jogadores se saírem tão bem é um excelente sinal.

Nishikori, especialmente, merece destaque porque sempre foi tido como autêntico jogador de piso duro – está na Flórida desde os 14 anos -. apesar de ter uma final em Houston. Sua campanha no tradicional saibro de Barcelona foi excepcional, com vitória dura sobre o local Roberto Bautista, um massacre contra Marin Cilic e um show em cima de Ernests Gulbis. Não há dúvida de que a mistura entre paciência e arrojo, aliada a grande velocidade de pernas, que mostrou logo em seu torneio inicial sobre o saibro europeu tem a mão de Michael Chang, primeiro norte-americano a ganhar Roland Garros em mais de 30 anos mas também nascido na quadra sintética.

Interessante observarmos que o próximo grande torneio será Madri, onde a altitude deixa o saibro um pouco mais veloz, algo parecido com São Paulo. Isso quer dizer que esses jogadores agressivos – e devemos incluir Roger Federer e talvez Jo-Wilfried Tsonga – podem tornar a busca do título bem mais difícil para Rafa e Nole.

No feminino, admirável semana de Maria Sharapova. Pressionada para se manter no top 10, já que defendia o título de Stuttgart, mostrou que continua muito bem de cabeça. E não foi uma semana fácil. Quase perdeu na estreia em verdadeira maratona de três tiebreaks, tirou depois a cabeça 1 Agnieszka Radwanska e a especialista em saibro Sara Errani.

Na final deste domingo, saiu atrás de Ana Ivanovic e tinha uma quebra de desvantagem no segundo set. Não diminuiu o ritmo e conseguiu excepcional virada com fácil terceiro set. Sharapova é outro excepcional exemplo de como é possível adaptar a bola reta para se ter sucesso no saibro.

E o pior aconteceu
Por José Nilton Dalcim
25 de abril de 2014 às 16:35

Quando Rafael Nadal manteve sua inscrição para Barcelona, tive a sensação de que havia sdo uma má escolha. Porque poderia acontecer a pior coisa para ele neste momento: sofrer mais uma derrota dolorosa, para alguém certamente menos capacitado no saibro, o que colocaria ainda mais dúvidas na cabeça do número 1 do mundo. Não deu outra. Rafa desperdiçou dezenas de oportunidades, mostrou indecisão, e perdeu até mesmo de Nicolas Almagro, um dos espanhóis sobre quem mais seu  estilo se encaixa.

Conhecido por seus lapsos de confiança diante de Nadal, sobre quem havia vencido um único set no saibro e levava 10-0 no geral, Nico conseguiu evitar 13 de 18 break-points na partida de hoje, mesmo com 53% de acerto do primeiro saque. Um assombro. Rafa arrasou no primeiro set, mas não manteve o embalo. Abriu 3-1 no tiebreak e desperdiçou a vantagem. Fez 3/1 no terceiro set e levou a virada. Abriu 15-40 no game final diante de um adversário famosíssimo pelas ‘amareladas’, e não evitou a derrota. Não, derrota é pouco. Desastre me parece mais adequado.

Na série de 41 vitórias em Barcelona – a última queda havia sido em 2003, quando tinha 15 anos -, Rafa só permitira dois sets, o mais recente deles na final de 2008 contra David Ferrer. Um domínio que reforça o espantoso resultado desta sexta-feira. Mas o que me chama a atenção é que ele sofre sua segunda derrota consecutiva, e ainda nas quartas de final, sobre uma quadra de saibro, algo que só se sucedera nas derrotas de 2011, porém ambas em finais (Madri e Roma) e para Novak Djokovic.

Ele também não perdia em um torneio desse porte para um adversário com backhand simples desde 2009, quando Roger Federer o superou em Madri (sim, vamos ignorar o revés para Horacio Zeballos, em Viña, já que as circunstâncias eram muito específicas). Por fim, esta também foi a terceira vez na temporada em que o número 1 do mundo caiu para um tenista contra quem jamais perdera, lista que já incluia Stan Wawrinka e Alexander Dolgopolov.

Para completar o momento delicado que atravessa, Rafa agora pode matematicamente ceder a liderança para Nole antes de Roland Garros. Para isso, o sérvio terá de ganhar Madri e Roma. Ou vencer um e ser vice no outro, desde que o espanhol não passe de um vice e de uma semi. O que antes era apenas possibilidade já não parece tão difícil assim de acontecer.

Com a enxurrada de surpresas, Barcelona tem três semifinalistas que jamais ganharam um titulo no saibro: Kei Nishikori, Ernests Gulbis e Santiago Giraldo. Destes, apenas o japonês tem uma final na terra, em Houston. Inevitável portanto dar o favoritismo para Almagro, que corre atrás de seu quinto troféu de nivel 500 sobre seu piso predileto.