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O rei do saibro agora é o rei dos Slam
Por José Nilton Dalcim
30 de janeiro de 2022 às 14:23

Dezessete temporadas depois de conquistar seu primeiro Roland Garros, então um garoto de pernas e paciência infernais, e naquele que parecia ser o ocaso de sua carreira, segundo suas próprias palavras, Rafael Nadal conseguiu uma das reações mais notáveis já vistas para se tornar pela primeira vez o tenista com maior quantidade de troféus de Grand Slam em todos os tempos.

Tudo parece excepcional na sua façanha. Seis meses atrás, postava foto de muletas após tratamento rigoroso para contornar as dores atrozes geradas pelo problema congênito do pé esquerdo. Demorou para retornar aos treinos e muitas vezes não era capaz de bater dois dias seguidos, mesmo que praticasse apenas por um par de horas. Rafa duvidou então se retornaria ao circuito.

Suas limitações ficaram claras em Abu Dhabi e, para piorar, ainda veio a covid-19 e novo atraso na preparação para a Austrália. Mas viajou, ganhou três jogos e um título pouco expressivo para seu tamanho porém importante o suficiente para lhe dar alento. Como afirmou na entrevista oficial de hoje, após a incrível batalha de 5h25 na virada heroica sobre Daniil Medvedev, considerar o bicampeonato em Melbourne àquela altura era impensável.

Evoluiu pouco a pouco, experimentou táticas diferentes. Mudou o saque no ‘iguais’, pediu para jogar de dia parar tirar mais da bola Dunlop. Nadal trabalha como um cronômetro, medindo cada decisão. Superou a juventude de Denis Shapovalov e Matteo Berrettini e de repente lá estava ele, insistente, pela quinta vez na tentativa de reconquistar o troféu. Medvedev, por questões óbvias, entrou como favorito. Ainda mais se o jogo se alongasse. Que ironia.

O russo fez um primeiro set brilhante e apostou corretamente em atacar a paralela de backhand. Por algum motivo, recuou da iniciativa. Um único game de saque ruim custou a quebra. O espanhol sacou para fechar no 5/3 e ainda teria 5-3 com serviço no tiebreak. Medvedev recordou-se da tática, voltou a ser agressivo pelo lado certo e abriu 2 sets a 0. A situação parecia não ter volta quando obteve 0-40 no sexto game da terceira série, mas aí entrou em cena a visão tática de Nadal.

Desde que Medvedev pediu a presença do fisio, Rafa entendeu que era hora de dar curtas. Até então suas variações estavam limitadas ao slice, ainda que alguns eficientes. Salvar os breaks decisivos também lhe deu enfim confiança no saque, soltou seu forehand e por fim, e talvez o mais importante de tudo, mostrou que a paralela também era o melhor caminho.

O quarto set foi tenso, com uma chuva de oportunidades de quebra e sucessão de serviços perdidos. Outra vez no 5/3, Nadal quase deixou a vantagem escapar, mas contou com péssima escolha do adversário a partir do 15-40. Empatou a partida dois games depois através de um game de serviço impecável. Já dava as cartas nas trocas mais longas, balançava o russo com o forehand e usava o backhand para contragolpes.

Não faltaram alternâncias e emoção no set final. Medvedev enfim voltou a atacar o backhand pela paralela, mas o forehand estava claramente atrasado – a preparação exagerada demanda tempo – e portanto impreciso. Claro que Nadal esmerou-se em entrar nos pontos de devolução e foi compensado com quebra no quinto game. Salvou-se da reação em seguida, mas quando sacou para o jogo não deu sorte ao buscar as linhas. O russo de novo não aproveitou, jogou apressado e nem teve chance de comandar o placar. Nadal liquidou sua terceira virada de 2 sets atrás em Slam, a primeira fora de Wimbledon.

Certamente, não existiu até hoje um tenista com o coração tão grande como Nadal. Mas é um erro caracterizá-lo apenas como aquele que nunca desiste. A virtude primordial a meu ver está na capacidade de achar soluções táticas, já que possui técnica apuradíssima, e de se manter positivo. Mesmo quando joga mal, e isso tem sido um tanto frequente, Rafa persiste. A caminho dos 36 anos, é uma tarefa fisicamente difícil que só mesmo uma cabeça genial e mãos incrivelmente habilidosas podem contornar.

Nadal agora tem oito troféus de Grand Slam fora de Roland Garros, seis deles na quadra sintética e dois na grama, derrotando Roger Federer e Novak Djokovic em algumas dessas decisões. É portanto inegável seu direito de entrar na discussão do ‘Goat’, cujo argumento de maior peso a seu favor está no fato inquestionável de que sempre precisou adaptar muito mais seu estilo para os triunfos fora do saibro do que os dois concorrentes diretos.

Bia sai muito forte com o vice
Mais uma vez, Bia Haddad Maia teve uma atuação de primeira linha nas duplas do Australian Open. Sem patriotismos desnecessários, foi a melhor tenista em quadra, e olha que do outro lado estavam as líderes do ranking. Sacou a maior parte do tempo com qualidade, encarou trocas pesadas com a forte Barbora Krejcikova, seu backhand na paralela abriu buracos decisivos e a movimentação junto à rede esteve sempre oportuna.

Claro que o equilíbrio e as chances de surpresa na final contra as tchecas incluem uma atuação ruim de Krejcikova na primeira metade dos três sets e indecisões de Katerina Siniakova na série decisiva. A parceira Anna Danilina teve também altos e baixos, com ótima produtividade na rede mas alguma instabilidade com o forehand.

As cinco semanas que Bia passou no piso sintético australiano lhe renderam cinco posições no ranking de simples, agora 77ª, e mais de 430 em duplas, levando a canhota para o 41º. O faturamento bruto também foi perto dos US$ 270 mil, o que deve recolocar as finanças em ordem após tantas dificuldades sofridas desde 2019. E o mais importante: fez uma volta digna aos grandes palcos do circuito e vai se encher de confiança, o que mantém a promessa de mais alegrias em 2022.

Barty resgata anos dourados do tênis australiano
Por José Nilton Dalcim
29 de janeiro de 2022 às 13:15

A Austrália foi uma das maiores potências do tênis até que a Era Profissional embalou. A fase amadora viu gigantescas estrelas dominarem o circuito, recheando o currículo de troféus de Grand Slam. Além é claro da habilidade com a raquete, os australianos introduziram o preparo físico apurado e isso fez notável diferença.

Margaret Court, Rod Laver e Ken Rosewall ainda conseguiram brilhar no começo da fase profissional, embora não tenham tido a sorte de o ranking ter surgido em tempo hábil para classificar corretamente seus desempenhos espetaculares. John Newcombe e Evonne Goolagong apareceram como herdeiros, venceram Grand Slam na metade da década de 1970 e conseguiram liderar brevemente o ranking.

Apesar de alguns grandes nomes terem surgido no masculino e resgatado o passado de ouro, como Lleyton Hewitt, Patrick Rafter e Pat Cash, o feminino nunca mais conseguiu ter uma australiana à altura de sua história. Até que surgiu Ashleigh Barty. Como todo mundo sabe, por pouco ela não se aposentou precocemente. Para sorte do tênis, voltou em 2017 e levou apenas duas temporadas para atingir sucesso com um estilo tão admirável.

Ao conquistar neste sábado seu terceiro troféu de Slam, tendo agora um em cada piso possível, e número 1 do mundo por mais de 100 semanas, Barty se firma como maior nome do tênis australiano ao menos dos últimos 40 anos. É também uma resposta convincente para aqueles que a criticaram quando não aceitou voltar ao circuito pós-covid em 2020 e a acusaram de se valer do congelamento do ranking.

Barty reintroduziu no tênis feminino a supremacia da habilidade sobre a força. Não que possua um saque ruim ou golpes pouco contundentes, mas a base primordial está na criação tática das jogadas, na variação de velocidades e efeitos. E para completar, irradia alegria, simplicidade, bom humor e prazer. Daí é fácil entender por que ganhou o status de ídolo esportivo local.

É bem verdade que a final deste sábado contra Danielle Collins não foi seu melhor momento no torneio. As duas pareciam nervosas demais no primeiro set. A norte-americana enfim se soltou, bateu na bola e deu seus gritos, embalou 5/1 e parecia às portas de um terceiro set imprevisível. Mas Barty reagiu e subiu de nível, voltando a dificultar os ataques de Collins. O saque fez muita diferença: 10 a 1 em aces, 82 a 63% de pontos com o primeiro serviço.

Aos 25 anos, idade bem próxima a de suas principais rivais, Barty só precisa manter a motivação e evitar contusões para escrever um capítulo todo seu na história do tênis feminino.

E mais

  • Além do 21º troféu, Nadal pode repetir Djokovic e também ter ao menos dois títulos em cada Slam. Seria a primeira vez que o espanhol somaria mais Slam do que Federer.
  • Nadal e Djokovic ganharam 12 dos últimos 14 Slam. As exceções foram Thiem e Medvedev. Russo perdeu as primeiras finais de Slam que fez contra Nadal e Djokovic, mas depois bateu o sérvio.
  • Medvedev pode ser o quinto profissional a vencer o torneio após salvar match-point. Newcombe, Kriek, Edberg e Safin também o fizeram.
  • Medvedev ganhou 4 de seus últimos 6 jogos diante de top 5. Em quadra dura, ele tem 9-15 na carreira. Já Nadal perdeu suas últimas quatro partidas e sua marca geral é de 27-43 no piso.
  • Os dois chegam à final com esforço muito parecido: Nadal passou 17h04 em quadra e Medvedev, 17h29. Russo ganhou 5 de 7 tiebreaks, espanhol só jogou um e venceu.
  • Nadal pode chegar ao sétimo Slam após os 30 anos e ficar um atrás de Djokovic. Com 4, aparecem Federer, Laver e Rosewall.
  • Jogo começa às 5h30 (de Brasília) e não há previsão de chuva. Será apenas o segundo jogo noturno de Rafa na campanha deste ano, já que ele pediu para jogar sempre de dia.
  • Pouco antes, à 1h, Bia Haddad Maia busca o título de duplas ao lado de Danilina numa missão muito dura diante de Krejcikova/Siniakova, as líderes do ranking e campeãs olímpicas. O título valerá US$ 435 mil para a parceria, as vices ficam com a metade.
  • Mais festa australiana: Kyrgios e Kokkinakis foram claramente apoiados pelo público e se tornaram a primeira dupla local a ganhar o torneio desde os Woodies em 1997. Os dois tiraram Mektic/Pavic logo na estreia e agora aparecerão no top 50 do ranking, além de ter grande chance de disputar o Finals de Turim.
  • Nascido em São Paulo mas radicado nos EUA desde criança, Bruno Kuzuhara ganhou o juvenil após incrível esforço de 3h43 em que o vice Jakub Mensik passou tão mal que sequer foi à cerimônia de premiação. Bruno, de 17 anos, falou em português e japonês. Ele era o cabeça 1 e pode aparecer no top 3 do ranking. O título feminino ficou com a croata Petra Marcinko, também favorita.
Só Medvedev pode impedir o 21. Outra vez.
Por José Nilton Dalcim
28 de janeiro de 2022 às 12:10

Daniil Medvedev está de novo no caminho da história. Há quatro meses, impediu de forma categórica que Novak Djokovic realizasse um dos maiores feitos do tênis e ainda por cima chegasse ao 21ª troféu de Grand Slam. Agora, é o único que pode impedir Rafael Nadal de se isolar como o maior campeão de Slam. Às 5h30 de domingo, ele buscará suas façanhas particulares e abrirá as portas para o número 1. O Australian Open não poderia terminar de forma mais eletrizante.

Tal qual aconteceu em 2017, Rafa chegou pouco cotado a Melbourne, obrigado a se afastar do circuito desde julho devido ao problema crônico no pé. Para piorar, ainda contraiu covid e atrasou a preparação. Não empolgou com o título de 250 conquistado pouco antes e tudo isso o colocava atrás na lista dos favoritos. Sua capacidade de superar desafios o levou a evoluir rapidamente ao longo das rodadas, viu o temido duelo com Alexander Zverev sair do caminho e usou o máximo de sua experiência na reta final. Terá a quinta chance de repetir o título já longínquo de 2009 e se recolocar na discussão sobre quem afinal é o Goat.

Medvedev ao contrário era dado como favas contadas, ainda que suas apresentações na ATP Cup tivessem oscilado. A trajetória no entanto se mostrou mais difícil do que o imaginado quando sorteada a chave, já que Nick Kyrgios e Maxime Cressy chegaram a tirar um set e, mais tenso ainda, Felix Aliassime o encarou de frente e ainda teve match-point para acabar com a festa. Mostrou por algumas vezes estar com os nervos à flor da pele, fez papelão nesta sexta-feira ao gritar com o árbitro porém recuperou a frieza sempre na hora certa. Se ganhar domingo, será o primeiro tenista da Era Aberta a vencer seu segundo Slam imediatamente após o primeiro.

Os dois sets iniciais de Nadal na semi contra Matteo Berrettini foram assustadores, lembrando o jogo contra Denis Shapovalov. Mesmo com teto fechado, o espanhol comandou a partida diante de um italiano incrivelmente frágil. Rafa por certo o surpreendeu ao se posicionar perto da linha para encarar o poderoso saque adversário e golpeou sempre a devolução de segundo serviço com um pé já dentro da quadra. Isso encurtou o tempo de reação de Berrettini e seu backhand foi um fiasco. Mesmo na postura ofensiva, disposto claramente a encurtar pontos, Nadal cometeu apenas sete erros nesses dois sets contra 24 do perdido oponente. Massacre.

Só então Berrettini conseguiu fazer aquilo que foi sua marca no torneio: sair do aperto com o primeiro serviço. Encarou games longos, achou enfim um ritmo lá da base e até foi firme à rede. Isso forçou Nadal a recuar cada vez mais e de repente lá estava ele atrás do ‘Melbourne’, sinal de que precisava agora de muito mais tempo para se defender e contraatacar, embora isso custasse abrir ângulos. O italiano esteve bem perto de esticar o quarto set, mas cometeu erros absurdos com o forehand, tanto num 15-30 decisivo como logo em seguida na perda final do serviço, em que mandou três direitas no meio da rede. Aí é pedir demais frente um adversário com a categoria do espanhol.

O reencontro entre Medvedev e Stefanos Tsitsipas foi talvez o jogo de melhor qualidade técnica do torneio, especialmente o primeiro set. Os dois se encararam em batalha de tirar o fôlego e o grego mostrava uma leitura magnífica, com backhand muito consistente, transições à rede atrás das bolas anguladas, saque preciso e devoluções agressivas. Exigiu o máximo do russo e sua única falha foi também a mais crucial: desperdiçar o 4-1 no tiebreak. Mas ele não se perturbou, seguiu na mesma balada para faturar o segundo set e levar Medvedev à loucura.

Após discussão muito ríspida com o árbitro Jaume Campistol ao ser quebrado e outra frase muito irônica no intervalo, sempre se referindo às instruções do pai Apostolos, Medvedev quase se perdeu no começo do terceiro set, o que poderia ser desastroso. Segurou a cabeça, evitou dois break-points com coragem e daí em diante perdeu um único ponto com o serviço. Ao permitir a quebra no game final do set, Tsitsipas enfim se rendeu e parecia não ter mais pernas para manter o ritmo ofensivo alucinante, chegando geralmente um passo atrasado. Só acertou dois voleios. Coincidência ou não, a partir do terceiro set a comissão de arbitragem colocou a grega Eva Asderaki pertinho de Apostolos.

Como todos devem se lembrar muito bem, Nadal e Medvedev farão a segunda final de Slam entre si, remetendo à emocionante decisão do US Open de 2019, em que o espanhol abriu 2 sets a 0 e depois levou um grande susto. Pouco antes, haviam lutado pelo título do Masters canadense, então com vitória super fácil de Rafa. Ainda no final de 2019, o espanhol venceu na fase classificatória do Finals com 7/6 no terceiro set. Um ano depois. enfim Medvedev venceu no mesmo Finals e de virada.

Claro que o russo evoluiu muito desde então, principalmente na forma de encarar os grandes nomes do circuito. Rafa sabe que terá de mudar radicalmente de estratégia e fazer o adversário correr sempre para a direita, já que o forehand defensivo é o golpe menos eficiente do russo. Os dois devolvem muito atrás da linha, sempre com objetivo de entrar em todos os pontos. Tecnicamente, Nadal tem mais recursos, isso não se discute, porém um duelo muito longo tende a ajudar o número 2 do ranking. Quem sabe, seja sua ideia principal.

E mais

  • Barty tenta às 5h30 deste sábado um feito de peso no circuito: ganhar um Slam em três pisos diferentes, algo que gente do gabarito de Monica Seles, Justine Henin, Venus Williams, Kim Clijsters e Arantxa Sanchez não conseguiram.
  • Primeira tenista da casa numa final em 42 anos e na luta para dar um título feminino que a Austrália não vê desde 1978, pode haver um considerável peso sobre a líder do ranking.
  • Collins faz primeira final de Slam aos 28 anos, já se garantiu no top 10 e venceu Barty no duelo mais recente, há um ano, em Adelaide, depois de sofrer três derrotas.
  • Os estilos são diferentes. Collins joga mais reto e busca pontos curtos, o que exigirá enorme precisão contra Barty, que se defende muito bem com slices e tem sacado com grande qualidade. O título também vale pouco mais de US$ 2 milhões.
  • Logo depois, às 7h30, a Austrália verá final caseira nas duplas masculinas, com parcerias surpreendentes. Kyrgios/Kokkinakis derrubaram os cabeças 1, 3, 6 e 15, enquanto Ebden/Purcell tiraram os 2, 4, 10 e 13.
  • Mladenovic e Dodig ganharam as mistas. A francesa tem agora oito Slam, sendo três nas mistas, e o croata chega ao sexto troféu, sendo quatro nas mistas.