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Tudo a favor do número 1. Por enquanto.
Por José Nilton Dalcim
12 de novembro de 2021 às 18:03

A fase anda tão boa que Novak Djokovic também tirou a sorte grande na formação dos grupos para o ATP Finals, competição que será disputada pela primeira vez em Turim a partir de domingo e que o sérvio não conquista desde 2015.

Djoko disputará a fase de grupos contra o ainda claudicante Stefanos Tsitsipas, o descarrilado Andrey Rublev e o estreante Casper Ruud. O sérvio tem 6-2 contra o grego, incluindo as quatro mais recentes e a duríssima virada de Roland Garros que Stef ainda não engoliu. Ganhou o único duelo diante de Ruud, e ainda por cima no saibro, e curiosamente jamais enfrentou o russo.

O outro grupo tem favoritismo de Daniil Medvedev e Alexander Zverev sobre Matteo Berrettini, que tentou se poupar ao máximo para Turim, e o também estreante Hubert Hurkacz. O russo acabou de empatar com Sascha por 5-5 em Paris com a quarta vitória seguida, venceu as duas contra o italiano e está 1-1 frente ao polonês, ambos jogos duros de 2021.

O fato bem interessante é que, caso a lógica prevaleça, Djokovic terá de superar Zverev e Medvedev para levar o sexto troféu, o que tende a tornar ao menos as duas rodadas finais eletrizantes. Nunca se deve esquecer que Medvedev é o atual campeão do Finals e Zverev faturou aquele notável título de 2018 em cima de Roger Federer e Djokovic. Aliás, Tsitsipas levou em 2019, Andy Murray foi campeão em 2016 e Grigor Dimitrov, em 2017. Ou seja, cinco campeões diferentes – e sem Big 3 – nas edições mais recentes.

Ainda não se sabe exatamente qual a velocidade do piso coberto de Turim. Se for tão lento quanto Londres, pode ajudar Ruud a jogar melhor na quadra dura e quem sabe até lhe dar chances diante da impaciência de Rublev, para quem perdeu os quatro duelos mesmo sendo dois deles no saibro. O norueguês ganhou uma e perdeu outra diante de Tsitsipas neste ano e o grego admitiu nesta sexta-feira que ainda sente dores. Rublev e Tsitsipas duelam logo na segunda-feira e isso pode decidir o futuro de ambos. O retrospecto é muito apertado, com 4-3 para o grego (3-3 se desconsiderarmos o atípico Next Gen Finals), e Stef sempre aproveitou de uma superfície menos veloz.

Medvedev e Zverev preferem a quadra mais veloz para tirar tudo do saque, mas se viram muito bem em condições contrárias, como indica o título que ambos conquistaram na arena O2. Primeira rodada sempre é o melhor instante para surpresas e isso deve animar Hurkacz contra o russo e Berrettini frente o alemão, que já chegou a Turim reclamando de cansaço. Todo mundo sabe que Berrettini nunca pareceu totalmente recuperado da lesão desde Wimbledon e assim me parece que Hurkacz é quem possui mais chance de ‘aprontar’, especialmente se a quadra estiver lenta. Ele deu muito trabalho a Zverev no saibro de Madri e bateu Berrettini em Miami, ambos em 2019, tendo perdido do italiano em Wimbledon de meses atrás.

O tênis brasileiro estará novamente no Finals com Bruno Soares e seu parceiro canhoto Jamie Murray. O mineiro nunca passou da semi na competição e terá um grupo forte na fase preliminar, ainda que a outra chave não seja necessariamente menos difícil. Dois adversários são muito bons em quadra sintética – Ram/Salisbury e Mahut/Herbert – e o outro, Cabal/Farah, merece respeito.

O outro grupo tem os favoritos Mektic/Pavic e os ótimos Granollers/Zeballos, juntos a Krawietz/Tecau e Dodig/Polasek, que serão os primeiros a jogar, no domingo.

O senhor do tênis
Por José Nilton Dalcim
7 de novembro de 2021 às 16:44

Ninguém tem mais troféus de Grand Slam ou de Masters 1000, ficou mais tempo como número 1, terminou mais temporadas na ponta do ranking ou ganhou maior premiação oficial. Novak Djokovic tomou para si praticamente todas as grandes marcas, é o senhor das quadras, o dono do tênis masculino.

A semana no piso lento e coberto do Palácio de Bercy foi novamente repleta de grandes feitos, o que coroa a temporada mais relevante que o sérvio já viveu na sua carreira. Sim, 2021 pode não ter sido aquele em que ele  mais venceu ou ganhou títulos, porém definitivamente tem sido o instante em que se coloca acima de todos os outros.

O grande feito desta vez foi superar Pete Sampras e fechar a sétima temporada como o número 1 do ranking. Algo que era seu de direito, em função da soberania nos Grand Slam, mas que os números ousavam contestar. O norte-americano fechou na frente entre 1993 e 98, algo excepcional, mas agora está atrás de Nole, que reinou em 2011-12, depois 2014-15, e retomou em 2018 e faz novo dueto em 2020-21.

De quebra, renova o recorde de mais velho a fechar um calendário na ponta, aos 34 anos e meio. Irá atingir 348 semanas quando a temporada acabar, no dia 22 de novembro, e não sofrerá ameaça até o dia 3 de fevereiro de 2022, quando defenderá o Australian Open.

Recorde atrás de recorde
Cada vez que entrou em quadra em 2021, Djokovic anotou façanha importante ou preparou o caminho para ela, numa inigualável sucessão de feitos na história do tênis profissional.

Na difícil conquista do Australian Open, em que precisou superar problema físico desde a terceira rodada, chegou ao nono troféu em Melbourne, o que lhe deu o recorde de 12 Slam na quadra dura e empatou com Nadal como únicos a ganhar Slam em três décadas diferentes. Ao mesmo tempo, somou nove semis em cada Slam.

Isso foi essencial para garantir no dia 8 de março uma das marcas mais relevantes do tênis, ao chegar a 311 semanas como número 1 e superar Federer, algo que parecia impossível há dois ou três anos.

Em junho, Roland Garros lhe daria quatro feitos muito especiais: primeiro a ganhar duas vezes de Nadal em Paris, ao menos seis finais em cada Slam e o ‘trintão’ com mais conquistas desse naipe (então 7). O mais notável: único profissional a erguer ao menos dois troféus em cada Slam e ainda por cima em três pisos distintos.

Embalado e sem sequer fazer torneio preparatório na grama, Nole empatou de vez com Rafa e Federer no total de troféu de Slam ao ganhar Wimbledon e assim, pela quarta vez na carreira, faturar também três Slam seguidos, como havia feito em 2011-12, 2015-17 e 2018-19. Também se tornou o único jogador com ao menos 79 vitórias em cada Slam.

Chegou a Nova York com a oportunidade raríssima de repetir Don Budge e Rod Laver, mas perdeu a decisão. De qualquer forma, fez algo que não se via desde 1969 no tênis profissional e de tabela igualou Federer com 31 finais de Slam.

Por fim, veio esta semana especial em Bercy, onde sacramentou a liderança no ranking e superou Sampras. Não foi só. Marcou novos recordes com 54 finais e 37 títulos de Masters, superou Federer com 227 vitórias sobre top 10 e 107 em cima de top 5, também se tornou o número 1 com mais vitórias na carreira (agora 419) e no momento é o jogador com melhor percentual de vitórias (83,3%, com 983 em 1.180 jogos).

E tem mais? Djokovic irá a Turim, a nova sede do ATP Finals, para tentar igualar os seis títulos de Federer na competição que encerra a temporada, uma honraria que lhe falta desde 2015.

Emoção e qualidade
Fora do circuito desde a perda do US Open, Djokovic foi a Paris sem o ritmo ideal e com a meta de chegar à última rodada e garantir o número 1 sem depender de Medvedev, que jura jamais pensou nisso. Nole ganhou a duras penas de Hubert Hurkacz, num jogo eletrizante e cheio de alternâncias, e fez uma final de grande qualidade diante de Medvedev, em que novamente saiu atrás e mostrou o tamanho de sua força física e mental num duelo marcado por exaustivas trocas e muito apuro nas variações táticas. A partir do primeiro set perdido, Djokovic tomou postura mais ofensiva, optou por paralelas e fez voleios magníficos sob pressão.

Medvedev levou o troco de Flushing Meadows, mas novamente deixa claro que atingiu um patamar muito respeitável, mantém a mesma gana antes de faturar seu Slam e estará na briga pelos grandes títulos no piso sintético, eu diria como o mais perigoso adversário do próprio Djoko.

Urso usa cabeça e ruge mais alto
Por José Nilton Dalcim
22 de novembro de 2020 às 21:27

Na fase classificatória, vitórias avassaladoras, incluindo uma sobre o número 1 do ranking. No mata-mata, duas viradas consecutivas contra o segundo e o terceiro do mundo. Daniil Medvedev ergueu o nono e maior troféu de sua carreira em grande estilo. Os golpes por vezes desengonçados e pouco ortodoxos enfatizam ainda mais sua principal qualidade: a cabeça.

No ano passado, ‘Urso’, seu apelido tirado do sobrenome, já mostrou o quanto é perigosamente competitivo na quadra sintética. Não por acaso, todos seus títulos aconteceram nesse piso, sendo agora cinco na coberta. Mas 2020 vinha morno, sem brilho. Entre novembro do ano passado e outubro agora, não havia vencido um único top 10. De repente, se reencontrou e conquistou Paris e Londres com sete vitórias sobre esse nível de adversário.

Aos 24 anos, Medvedev disputou seu segundo Finals e apagou a imagem ruim de 2019, quando não venceu na fase classificatória. Curiosamente, a arena O2 foi inaugurada com um título russo, o de Nikolay Davydenko em 2009, e se despede do circuito com outro.

É arriscado afirmar que Daniil estará cada vez mais forte na briga por grandes títulos e quem sabe pela liderança do ranking, porque ele parece ter uma personalidade distinta, nem sempre completamente entregue ao tênis. Mas é certo que, quando está disposto e com físico em dia, ele se torna um obstáculo a qualquer favorito porque nunca parece intimidado com o placar ou com o adversário. De quebra, cada vez se mostra mais simpático e menos ranzinza, como retrata o sorriso largo que deu ao perder o set com uma bola desviada na fita.

Austríaco falha
Dominic Thiem deixou escapar sua chance de ganhar o Finals pelo segundo ano seguido ali na metade do segundo set. Optou como se esperava por variar as jogadas e abusar dos slices para evitar a potência do backhand adversário. Isso funcionou bem e o deixou perto do título. Mas aí, inexplicavelmente, cometeu erros incríveis para quebrar no sétimo game. Depois, ainda teve 2-0 no tiebreak antes de perder sete pontos consecutivos.

Daí em diante pareceu perder a confiança, raramente soltou o backhand na paralela e foi diversas pego de surpresa pela excelente transição do russo para a rede atrás de um slice despretensioso, lance aliás com o qual derrotou Nadal na véspera. Importante se destacar que o russo buscou voleios por 37 vezes e ganhou 28 desses pontos, um percentual expressivo para quem não tem aí seu melhor desempenho.

Mais tenso e com um forehand instável, Thiem evitou cinco break-points antes de enfim entregar o serviço no quinto game do terceiro set e jamais se recuperou. Medvedev sobrava na consistência. Cometeu apenas quatro erros nessa série decisiva e perdeu só dois pontos quando acertou o primeiro saque. Ou seja, mostrou volume maior de jogo e cabeça para trabalhar a ansiedade do austríaco. Pode ser apenas impressão minha, mas Thiem outra vez demonstra dificuldade em administrar jogos em que entra como favorito.

De qualquer forma, Dominic deu outro salto de qualidade em sua melhor temporada, com um título e um vice de Slam e a final em Londres, além do terceiro posto do ranking. Nesta semana, juntou-se a Andy Murray como únicos tenistas a ter ao menos cinco vitórias sobre cada um dos Big 3. Ele soma cinco sobre Djokovic e Federer e seis em cima de Nadal, mas entre 2019 e 2020 seu placar positivo é de 3-2 sobre Djoko, 3-1 diante de Rafa e 3-0 contra Federer. De quebra, superou um número 1 pela quinta vez, algo que faz ano após ano desde 2017. Ao final do domingo frustrante, garantiu: quer lutar pela ponta em 2021. Tem chance.

Um torneio histórico
– Desde 2015, o Finals teve seis vencedores distintos: Djokovic, Murray, Dimitrov, Zverev, Tsitsipas e Medvedev.
– Esta é portanto a segunda sequência de seis campeões diferentes que o Finals tem na história. A outra aconteceu entre 1974-79, com Vilas, Nastase, Orantes, Connors, McEnroe e Borg.
– Medvedev consegue um feito raríssimo no tênis profissional. Desde 1990, apenas três jogadores havia vencido os três líderes do ranking na mesma semana: Nalbandian em Madri-2007 (Federer, Nadal e Djokovic); Djokovic em Montréal-2007 (Federer, Nadal e Roddick) e Becker em Estocolmo-1994 (Sampras, Ivanisevic e Stich).
– Esta foi a nona vez que o campeão do Finals derrotou os dois líderes do ranking na campanha, repetindo Lendl, Becker (2 vezes), Edberg, Agassi, Stich, Federer e Davydenko. O fato inusitado é quanto o campeão como o vice deste ano fizeram isso.
– Antes de Medvedev, o único campeão do Finals que havia derrotado tanto Djokovic como Nadal na campanha era Federer (2010).
– Wesley Koolhof e Nikola Mektic ganharam o primeiro título como parceiros logo no Finals, algo inédito também no circuito. Os dois foram vices no US Open e semi em Roland Garros e irão se separar em 2021.
– Mektic, ex-top 5 e dono de três troféus de nível Masters, é o primeiro croata a vencer o torneio que encerra a temporada, em simples ou duplas.
– Koolhof deu o quarto troféu de duplas em Finals para o tênis holandês, repetindo Rojer, Haarhuis e Eltingh.