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O dilema da Copa Davis
Por José Nilton Dalcim
26 de novembro de 2021 às 13:24

Depois do adiamento forçado em 2020, a Copa Davis retomou seu novo e controverso formato. A chamada ‘fase final’ dura 10 dias e só termina no outro domingo. Numa tentativa de tornar os duelos de grupos mais atraente, a Federação Internacional inovou e dividiu os grupos em três sedes, permitindo que a Itália e a Áustria joguem em casa junto da Espanha. Menos mal.

O debate sobre a mudança no formato da centenária competição continua repercutindo. Richard Gasquet acredita que a Davis vai acabar se mantiver a fórmula atual por mais dois anos, enquanto Novak Djokovic surpreendeu e disse que a ideia não está totalmente errada e que não é a favor da volta do sistema antigo, mas assinalou que melhorias precisam ser estudadas, como aumentar o número de sedes e fazer rodízio constante para chegar a mais países.

A Federação Internacional apostava que aos poucos os jogadores iriam se adaptar à nova Davis, como aconteceu em outras ocasiões. No entanto, reduzir os jogos de cinco para três sets e eliminar os confrontos dentro e fora de casa (que só permanecem na fase eliminatória de acesso à final) descaracterizaram completamente a competição.

A situação precisa ser olhada de diferentes aspectos. A ITF se via muito pressionada pelo calendário até mesmo para executar os quatro finais de semana do antigo formato, já que sempre aconteciam imediatamente após um grande evento (Austrália, Wimbledon, US Open e o Finals). Com isso, o risco de perder os grandes nomes sempre foi grande e natural.

O que talvez escapou da ITF é que, ainda com nomes menos nobres nos times, a maciça maioria dos duelos do então Grupo Mundial recebia um público muito bom e tinham cobertura da TV local. Cada confronto era um evento em si, expondo a marca do patrocinador internacional em todos os cantos.

O formato inovador da Davis não é ruim e está aí a ATP Cup para provar que funciona. A competição por equipes da ATP acontece em três cidades da Austrália, com grupos e fase final em apenas uma semana, todos os jogos são em três sets. A diferença é que oferece pontos no ranking, premiação robusta e contratualmente obriga todo mundo a jogar, além de ser um excelente preparativo para o Australian Open.

O grupo de Gerard Piquet, que comprou os direitos da nova Davis, fala agora em levar a fase final para Abu Dhabi, num contrato de cinco anos, e isso gerou ainda mais críticas. Lleyton Hewitt definiu com absoluta razão: “A grande emoção de se jogar a Davis era ter toda a torcida a favor ou todo o público contra. Isso acabou”. O que obviamente vai piorar se for para um local sem qualquer tradição.

Balanço curioso da ATP
O ranking desta segunda-feira encerrou a temporada 2021 e a ATP divulgou um curioso balanço, com enfoque primordial no top 10. Valem alguns destaques:
– Nadal bateu o recorde de Connors e fechou no top 10 pela 17ª temporada seguida. É também o mais velho, aos 35 anos e meio.
– Medvedev foi primeiro de fora do Big 4 a terminar no segundo lugar desde Andy Roddick em 2004.
– Sinner é o mais jovem top 10 desde Del Potro em 2008, então com 20 anos; Itália fecha com dois no top 10 pela primeira vez na história do ranking.
– A presença de oito jogadores com no máximo 25 anos no top 10 repete 1995. A média de 25,6 é a menor desde 2009.
– Djokovic se mantém como mais velho a terminar na ponta, agora aos 34 anos e meio.
– Zverev é primeiro alemão entre os três primeiros desde Becker, em 1994.
– País com mais top 100 foram os EUA, com 12, maior número de 1996. Os norte-americanos também lideram no top 50, com seis, ao lado da Espanha.
– 31 jogadores acima dos 30 anos aparecem no top 100. Federer chegou a 21 temporadas seguidas no top 20.
– Pela segunda vez seguida, há 14 tenistas com até 25 anos entre os top 30. Alcaraz foi quem deu maior salto entre os top 50 (109 posições). Entre os top 100, Juan Manuel Cerundolo evoluiu 252 postos e Brooksky, 251.

Djokovic takes all
Por José Nilton Dalcim
12 de janeiro de 2020 às 15:39

Magnífico nas simples, decisivo nas duplas. Novak Djokovic completou sua participação 100% eficiente na ATP Cup no melhor estilo possível. Diferente das dificuldades enfrentadas nas duas rodadas que fez em Sydney, seu domingo beirou a perfeição técnica e física. Concentrou-se em cada golpe, game por game, sem gastar energia desnecessária para reclamar ou comemorar. E quando faz isso, é um jogador quase imbatível.

Sua 9ª vitória seguida sobre Rafael Nadal na quadra sintética, uma invencibilidade que vem desde a final do US Open de 2013, selou uma campanha notável na ATP Cup e o consagra definitivamente como o favorito para o Australian Open, onde tentará dentro de oito dias a manutenção do título, o oitavo troféu e um passo a mais em direção ao recorde de Grand Slam.

Era previsível que Nadal começasse o jogo um pouco mais tenso – e olha que Roberto Bautista havia feito ótimo papel ao dar o primeiro ponto em cima de Dusan Lajovic -, e ai a quebra logo no game de abertura foi a deixa perfeita para que o sérvio atropelasse. Encurralou o adversário com fluidez e execução chocantes. Não permitiu brechas, assumiu controle dos pontos, utilizou variação tática magnífica, sufocou o tempo todo. A rigor, o espanhol só teve um game de serviço sem susto.

Mas Rafa é um jogador diferenciado em todos os sentidos e se achou no segundo set, embora eu acredite que ainda poderia ter sido mais agressivo. Sacando melhor e evitando recuar tanto nas trocas, ganhou confiança e teve uma chance real de reagir quando abriu 0-40 no sexto game. Djokovic foi soberbo na defesa dos cinco break-points e o jogo ficou realmente bom.

Pouco depois, seria a vez de o espanhol evitar brilhanemente um 15-40, com voleio e paralela de extrema coragem, e a definição foi ao tiebreak. Aí um ponto decidiu tudo. Um ponto sintomático, diga-se: era 4-4, vieram trocas cuidadosas que deram chance de ataque na paralela aos dois lados, e que acabaria favorecendo aquele que ousou primeiro. A estatística reforça: Djoko terminou com mais do dobro de winners.

Enquanto Nadal frustrou ao preferir não se arriscar mais, Nole assumiu seu papel no jogo de duplas. E outra vez fez a diferença, no saque, na devolução, no voleio. Finalizou muito mais que um domingo exuberante e uma campanha invicta de seis jogos de simples e dois de duplas. Mostrou que, ao contrário de Nadal, ele é o homem a ser mais temido em Melbourne.

Claro que Rafa jamais pode ser subestimado, menos ainda antes do sorteio da chave, que pode ser muito favorável e lhe dar uma sequência capaz de recuperar a confiança e economizar as pernas. As duas derrotas de simples quase seguidas talvez expliquem seu abandono da dupla tão decisiva e, pior, sinalizem que o espanhol ficou abatido a ponto de passar a responsabilidade para a frente, algo raro no seu currículo. Felizmente, há tempo de sobra para o que se chama hoje ‘reagrupar’.

Por fim, como bem destacou TenisBrasil, louve-se a redenção de Viktor Troicki. Herói na conquista da Copa Davis de 2010, ele havia sido o vilão da eliminação sérvia na Copa Davis de 40 dias atrás, quando jogou mal justamente na fundamental partida de duplas contra a Rússia.

Lógica suada
Por José Nilton Dalcim
11 de janeiro de 2020 às 11:55

Espanha e Sérvia, e principalmente Rafael Nadal e Novak Djokovic, vão decidir a ATP Cup, como era de se esperar. Mas esteve longe de ser fácil. Os melhores tenistas do mundo foram colocados à prova com jogos fisica e emocionalmente muito exigentes e desgastantes, viveram alguns momentos críticos mas deixam claro por que são os favoritos para o Australian Open. E a final deste domingo, que forçará o brasileiro a acordar cedo, promete ser um avant-premiére imperdível.

Djokovic permanece invicto. Foi obrigado a jogar perto do máximo já na estreia contra Kevin Anderson. Sobreviveu a duelos exaustivos contra Denis Shapovalov e Daniil Medvedev, onde sua solidez na base não se mostrou o suficiente, obrigando o sérvio a explorar voleios notáveis e deixadinhas milimétricas para achar soluções alternativas. Nem mesmo sua poderosa devolução facilitou a tarefa, embora em ambos os casos seja preciso dar muitos créditos aos adversários. O russo deixa cada vez mais claro que é o nome da nova geração com o tripé técnica-resistência-cabeça para encarar os superfavoritos.

Nadal oscilou um pouco mais, e sofreu uma derrota um tanto esquisita para David Goffin, que o obrigou a emendar uma dupla não menos sufocante, em que os belgas estiveram muito perto da surpresa. Desde a fase inicial, Rafa mostrou certas dificuldades. Quase se enrolou com Nikoloz Basilashvili e suou contra Yoshihito Nishioka, dois jogadores um tanto limitados. E só mesmo sua excepcional capacidade de jogar sob pressão permitiu a virada categórica em cima do inspirado garotão Alex de Minaur, a melhor ‘surpresa’ desta ATP Cup.

Me preocupou o aparente esgotamento de Djokovic, que perdeu a paciência algumas vezes e voltou a arrebentar raquete, discutir com a torcida e apressar os pegadores. Mas a rigor o sérvio me parece em ritmo bem mais apurado do que Nadal, muito sólido no fundo de quadra, fazendo trocas de direção com rara eficiência. O espanhol tem demorado para se soltar e adotar postura ofensiva. Vale lembrar que Nole já reclamou de dor no braço e Rafa, do joelho.

Em que pese toda a importância do 55º capítulo do mais repetido duelo do tênis profissional – curiosamente, houve apenas cinco confrontos nas últimas três temporadas -, há de se destacar a importância que os números 2 de cada país tiveram nesta ATP Cup.

É bem verdade que Roberto Bautista pegou vários oponentes fracos, mas a forma com que dominou Nick Kyrgios neste sábado reforça como ele sabe usar os recursos da bola na subida e golpes mais retos sobre a quadra dura. Dusan Lajovic sofreu apenas uma derrota (três sets para Benoit Paire), mas depois compensou com um tênis rico em variedade em cima de Nicolas Jarry, Felix Aliassime e Karen Khachanov.

Absolutos coadjuvantes na final deste domingo, eles no entanto terão papel crucial na luta pelo título. Bautista venceu os três duelos contra Lajovic, todos no sintético. O eventual vencedor certamente irá tirar um pouco da pressão sobre Nadal ou Djokovic, embora eu acredite que, às vésperas do Australian Open e com o tremendo ‘espírito de Davis’ que possuem, os dois irão ao limite para sair com a vitória em Sydney e ganhar moral. E isso pode incluir uma curiosíssima batalha também nas duplas.

Quem vence? Eu apostaria na Sérvia. E você?