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As (boas) surpresas de 2021
Por José Nilton Dalcim
21 de março de 2021 às 21:41

Com o calendário econômico do Big 3, era de se esperar que a temporada 2021 abrisse as portas para a garotada que vem ali galgando lugares no top 20. É bem que verdade que um ou outro até vingou, mas as maiores surpresas da temporada 2021 são jogadores pouco conhecidos e fora dessa ‘nova geração’: Aslam Karatsev e Lloyd Harris.

Aos 27 anos, Karatsev surgiu praticamente do nada para aparecer nesta segunda-feira como o quinto tenista que mais pontuou na temporada. Até entrar na ATP Cup, ele só tinha três vitórias em torneios de primeira linha. Do quali do Australian Open até a semifinal foi um salto incrível, mas ele não parou aí. Depois de ganhar um título de ATP de duplas, quebrou a série invicta do parceiro Andrey Rublev em torneios de nível 500, derrotou quatro cabeças de chave e ganhou quatro partidas em três sets para erguer o troféu de Dubai.

Não são apenas os resultados em si que chamam a atenção, mas especialmente o estilo muito agressivo, com golpes ferozes da base, e um vigor físico invejável. A explicação para a mudança tão radical de eficiência vem do treinador Yahor Yatsyk, também muito pouco conhecido. “Ele se comportou durante muito tempo como uma criança”, definiu o técnico, comparando suas atitudes ao do bad-boy do futebol Mario Balotelli. “Era nada profissional, não aparecia na hora para os treinos. Um dia trouxe três de suas quatro raquetes com corda quebrada. Aí eu fui claro com Aslam: ou ele mudava radicalmente ou era melhor sair do tênis”.

Karatsev reconhece que sua vida foi outra desde que começou a ser orientado por Yatsyk, há coisa de um ano. “Eu vivia trocando de lugar, até que enfim o encontrei e ele ajudou demais na parte mental e, é claro, muito no lado técnico”. Para encurtar a história, Aslam se mudou com três anos para Israel e foi lá onde começou a jogar até virar número 1 do país. Aos 16, voltou para a Rússia e aí acabou convidado por Dmitry Tursunov para treinar na Alemanha. Veio então uma contusão séria que o tirou das quadras por duas temporadas. Decidiu morar em Barcelona. Conheceu então Yatsyk, que chegou a jogar o circuito e depois ajudou Nikoloz Basilashvilli. “Eu usei palavras duras com ele, mas Aslam acreditou em mim e me escutou. Agora está vendo os resultados”, completa o treinador.

Durante a parada do circuito pela pandemia, Karatsev se fixou nos EUA e jogou muitos amistosos, o que o ajudou a não perder o ritmo. Pouco depois, derrotou um top 50 pela primeira vez e ganhou dois challengers no saibro europeu. Será que sua reação foi tarde? Ele respondeu com um sorriso: “Tenho só 27 anos”. Nesta segunda-feira, aparecerá como 27º do mundo e esse foi o outro grande lucro. Ao arrancar tão no começo da temporada, se garantiu em todos os grandes eventos que quiser disputar e ainda poderá aparecer como cabeça em muitos deles. Com 1.265 somados somente em 2021, ele dificilmente terminará o calendário fora dos 50 primeiros. Que salto!

Três anos mais jovem e derrotado por Karatsev na final inesperada de Dubai, Lloyd Harris também surpreende, a ponto de aparecer agora como o 12º no ranking da temporada. Possui um estilo menos espetacular e apesar de ter 1,93m prefere ficar no fundo de quadra. Saiu do quali para a final em Dubai, o que vai levá-lo ao 52º do ranking normal e assim é outro que poderá já se programar para qualquer grande torneio a partir de maio.

A parte mais curiosa do histórico de Harris é o fato de que ele não seguiu os passos habituais dos sul-africanos, como os mais famosos Wayne Ferreira e Kevin Anderson, permanecendo na África. Seus três primeiros anos de carreira profissional foram tentativas em torneios no Egito, Nigéria, Zimbábue e Moçambique, além claro da África do Sul, só então se arriscando em alguns eventos europeus. Daí talvez seu processo mais lento de ascensão. Porém é claramente um tenista muito bem forjado para a quadra dura, onde já ganhou dois challengers nos EUA e outro na Austrália, além de ter sido vice do ATP de Adelaide no ano passado.

Claro que três garotos também chamaram a atenção nestes primeiros meses. Alexei Popyrin, de 21 anos, enfim mostrou que pode ser mesmo uma renovação do tênis australiano e ganhou seu primeiro ATP em Cingapura. Observem que é mais um de procedência russa – seus pais nasceram lá -, mas desde o fim da carreira juvenil ele se fixou na academia de Patrick Mouratoglou, na França. Fato curioso,  morou um bom tempo em Alicante, na Espanha, onde era vizinho de Alex de Minaur, outra promessa australiana.

O argentino Juan Manuel Cerundolo, de 19 anos, é mais um a ganhar seu primeiro ATP nesta temporada. Sua família carrega tênis na veia: o pai foi profissional e o irmão mais velho, Francisco, está na luta. Canhoto, fez uma campanha incrível em Córdoba abusando de topspin muito alto de forehand, lembrando muito o Rafa Nadal de começo de carreira. Mas justamente esse estilo, claramente defasado, será um problema a administrar se quiser ter um futuro melhor do que o atual top 180.

Por fim, enche os olhos o tênis elegante e ousado de Lorenzo Musetti, um italiano de 19 anos que tem um curioso laço com o tênis brasileiro. Foi dele que Thiago Wild ganhou na final juvenil do US Open e foi para ele quem Thiago Monteiro perdeu no primeiro título de challenger do garoto.

O mais interessante é que Musetti parecia até então um tenista talhado para o saibro, ainda que tenha vencido o Australian Open juvenil. Todo mundo se lembra das vitórias incríveis em Roma no ano passado em cima de Stan Wawrinka e Kei Nishikori e logo depois da semi na Sardenha. Em Acapulco, no entanto, ‘Muse’ fez exibições incríveis num piso veloz, com vitórias seguidas sobre Diego Schwartzman, Frances Tiafoe e Grigor Dimitrov, onde se destacaram sua habilidade em mudar a velocidade da bola – cada deixadinha espetacular! – e a coragem de usar paralelas dos dois lados, onde aparece um backhand de uma mão muito solto. Não por acaso, se inspirou em Roger Federer. E seu sonho? Wimbledon.

Djokovic coloca um pé e meio na final
Por José Nilton Dalcim
16 de fevereiro de 2021 às 12:58

Mais uma vez, Novak Djokovic provou como forte é sua parte mental. Sem treinar por conta da contusão, foi obrigado a adotar padrões menos ortodoxos, ficou atrás do placar por três vezes mas ainda assim conseguiu barrar Alexander Zverev em quatro sets intensamente brigados. Avançou pela 9ª vez às semifinais do Australian Open para enfrentar o debutante Aslam Karatsev. E uma má notícia para o russo: sempre que atingiu a penúltima rodada no Melbourne Park, Nole levou o título.

A batalha contra Zverev foi muito emocional. Djoko claramente entrou sem o ritmo ideal, entregando o saque numa dupla falta e optando por pontos muito curtos. Demorou também para achar a melhor forma de devolver o saque afiado do alemão, mas assim que conseguiu fazer o adversário pensar mais arrancou a quebra e o empate. Fez 2-0 e sacou com 4-3 no tiebreak, porém os erros ainda eram muitos. Somou 21 e viu Zverev jogar bem no finalzinho.

Nessa altura, no entanto, Djoko já estava muito mais firme com o saque, um elemento que foi crucial na sua virada, especialmente nos tão famosos pontos importantes. Aproveitou uma pequena queda de intensidade de Zverev para atropelar no segundo set. O alemão então cometeu talvez seu erro capital na partida. Dominou totalmente o início do terceiro set, abriu 4/1 e 0-30 diante de um sérvio que havia acabado de destruir a raquete e estava tão perdido que tentou um saque-voleio desesperador. Zverev devolveu longe e daí em diante entrou em parafuso, perdendo cinco games consecutivos com as primeiras duplas faltas devastadoras.

Mudou radicalmente de postura e diminuiu os riscos no começo do quarto set, quando outra vez Djokovic vivia intensos altos e baixos. Sascha abriu 3/0 e teve três break-points para ampliar. Aí os méritos foram todos do sérvio, que sacou com maestria e recuperou a quebra em seguida, na gangorra mental do adversário. Longe de seus melhores dias, Djoko ainda teria de lutar para se salvar no 3/4 e no 5/6, incluindo set-point, sempre na base do saque forçado e preciso. O novo tiebreak foi igualmente parelho e tenso, com única vantagem obtida por Djoko no 7-6 depois de outra subida completamente equivocada de Zverev à rede. Aliás, seu desempenho foi pífio nos poucos voleios que tentou.

A vida do número 1 não tem sido fácil. Sua única vitória em sets diretos foi lá na estreia. O esforço lhe dá como recompensa um adversário sem currículo nas semifinais. Karatsev, de 27 anos, é apenas o quinto quali a ir tão longe num Slam e o primeiro em 20 anos. Depois de surpreender Schwartzman e Aliassime com assustadora eficiência nas bolas retas que somaram seguidos winners, eliminou mais um cabeça, Grigor Dimitrov, que se arrastou em quadra nos dois últimos sets com problemas nas costas.

Número 114 do ranking, Karatsev curiosamente se torna o jogador de mais baixo ranking numa semi de Slam desde Goran Ivanisevic, em Wimbledon-2001, o treinador atual de Djoko, que então era 125º e conquistaria um dos títulos mais surpreendentes do tênis profissional moderno.

O próprio Karatsev, no entanto, já se queixa de falta de pernas. Depois de furar o quali em Doha, ele ficou impedido de treinar por duas semanas por viajar num avião contaminado. Embora seus três primeiros jogos tenham sido mais rápidos, ele fez 9 sets nas últimas rodadas. De qualquer forma, seu esforço já o levará ao 42º posto do ranking e o fará embolsar US$ 662 mil, mais de tudo que havia ganhado na carreira até hoje.

Magnífica Serena
Na sua melhor exibição talvez desde o 23º título de Grand Slam, em 2017, Serena Williams barrou Simona Halep e está de volta à semi da Austrália depois desses quatro anos. No duelo franco de fundo de quadra, a norte-americana de admiráveis 39 anos marcou 24 winners contra 9, mas também 33 erros diante de 19.

Além da conhecida coragem para arriscar em pontos fundamentais, voltou a chamar a atenção a qualidade defensiva de Serena e sua capacidade em brigar com Halep em pontos mais longos, tendo feito os mesmos 16 pontos que a romena em lances com mais de cinco trocas e, mais notável ainda, ganhado 14 dos 20 em que houve mais de nove rebatidas.

Sua tarefa para o eventual oitavo título em Melbourne ainda é hercúlea e provavelmente teria de incluir vitórias sobre as três líderes do ranking. O próximo e enorme desafio é Naomi Osaka, que não apenas lidera por 2 a 1 nos confrontos como também adora um jogo ofensivo e é 16 anos mais jovem. Passou com facilidade pela taiwanesa Su-Wei Hsieh e ainda tem o invejável histórico de jamais ter perdido um título de Grand Slam depois de atingir as quartas de final, o que já fez uma vez em Melbourne e duas no US Open.

Os últimos semifinalistas
O quadro dos postulantes aos título de simples serão definidos a partir das 21h desta terça-feira. Começa com a esperança local e número 1 do mundo Ashleigh Barty, que tenta segunda vitória sobre a tcheca Karolina Muchova. O duelo norte-americano entre Jennifer Brady e Jessica Pegula acontece a seguir. Apesar do ranking bem inferior, a 61ª do mundo Pegula venceu os dois duelos diante da atual 24ª.

Os russos Daniil Medvedev e Andrey Rublev jogam à 1h já da quarta-feira. Os dois se enfrentam desde a infância, mas no circuito Medvedev ganhou os quatro cruzamentos oficiais. Se repetir a vitória, será o novo número 3 do ranking.

Por fim, às 5h30, Rafael Nadal tem ampla vantagem no histórico diante de Stefanos Tsitsipas, com 6 vitórias em 7 confrontos. O único sucesso do grego foi no saibro de Madri, em 2019, e depois disso ele já perdeu quatro consecutivas.

Vale também sua torcida por Bruno Soares e o escocês Jamie Murray. Serão favoritos à 1h diante de Marcelo Arevalo e Matwe Middelkoop por mais uma semifinal no Melbourne Park, onde foram campeões em 2016.

E mais
– Rei dos tiebreaks em 2020, Djoko está menos eficiente neste começo de temporada, tendo vencido 4 dos 7 disputados.
– O sérvio soma agora 39 semis de Slam, atrás somente das 46 de Federer. Foi também sua 80ª vitória no Australian Open, seu melhor Slam nesse quesito.
– Durante a pandemia, Karatsev jogou torneios amistosos em Miami e ganhou 28 de 30 jogos. Em seguida, venceu dois challengers e iniciou 2021 confiante.
– Esta será a terceira vez na Era Aberta que a Rússia tem dois nomes nas semis masculinas de um Slam (US Open de 2001 e 2006 foram as outras).
– Serena disputará uma semi de Slam pela 40ª vez na carreira e buscará a 34ª final, o que igualaria o recorde absoluto de Chris Evert.
– Aumentou a chance de o público voltar na quinta-feira, quando acontecerão as semis femininas e Djoko x Karatsev. Tudo depende de não surgirem novos casos até quarta em Melbourne.