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Djokovic mantém lógica e mira o 17º
Por José Nilton Dalcim
30 de janeiro de 2020 às 13:34

Ainda que possa jogar um tênis ainda mais perfeito no piso e no lugar de maior sucesso em sua carreira, Novak Djokovic cumpriu os prognósticos e está em sua oitava final do Australian Open, onde aliás jamais perdeu. Seu favoritismo não é porém só uma questão histórica. Começou quatro semanas atrás quando foi buscar ritmo e acabou superando batalhas e emoções na ATP Cup. Chegou pronto para defender o título de Melbourne e o resultado está aí: com 12 jogos invictos, alcança a chance do 17º troféu de Grand Slam e da retomada do número 1 como sobremesa.

Roger Federer me surpreendeu, ao fazer um começo de partida muito consciente de suas limitações. Forçou o saque, tentou definir pontos, soltou o backhand, fez voleios mágicos e, de repente, o primeiro set estava em suas mãos diante de um adversário inesperadamente acuado. Um único ponto fez toda a diferença: forehand no meio da quadra com 0-40 e 4/1 no placar. Claro que o suíço ainda sacou com 5/3, porém aí o primeiro saque não entrou e Djokovic voltou a mostrar aquela admirável qualidade de jogar sob pressão, principalmente contra Federer.

Quando chegou o tiebreak, o sérvio atropelou. Foi o sexto desempate seguido que foi bem superior ao suíço, incluindo os três que fizeram na inesquecível final de Wimbledon. Pela mobilidade reduzida e a dificuldade de executar o fundamental forehand, não acredito que a perda do primeiro set iria alterar o vencedor da partida, porque o caminho sob 33 graus – o jogo começou com sufocantes 36 – era longo demais para uma lombar dolorida e as chances de Federer estariam em manter um tênis de risco muito elevado e pontos curtos. Qualquer rali beneficiaria a consistência ímpar do adversário.

Ainda assim, Federer não jogou mal. Acertou 65% do primeiro saque, com direito a 15 aces, mas o problema foi ganhar 66% desses pontos, reflexo de que, quando a devolução voltava com esmero, ele não tinha a mesma chance. O ataque a todo custo lhe rendeu 46 winners e 35 erros, com sucesso em 20 de 30 voleios. Entrou em quadra com certo sacrifício, lutou, fez jogadas magníficas e saiu com dignidade, como cabem aos campeões.

Djokovic reconheceu ainda na entrevista em quadra que não começou atento, talvez incerto sobre as condições do adversário, e rendeu cumprimentos ao esforço de Roger, “que claramente estava machucado e não na sua melhor movimentação”. Também marcou números expressivos: 73% de primeiro saque, com 11 aces, e 39% de pontos como devolvedor, aproveitando quatro de 11 break-points. E observem: depois de cometer 11 erros não forçados no primeiro set, só falhou mais sete vezes nos outros dois. É uma fortaleza.

Com justiça, disputará sua 26ª final em torneios de Grand Slam, agora cinco a menos que Federer e uma atrás de Rafael Nadal. Também estende sua invencibilidade contra o suíço em jogos de Slam, que vem desde a derrota em Wimbledon de 2012. De lá para cá, foram seis triunfos. A única vitória do suíço em cinco jogos em Melbourne aconteceu em 2007.

Rumo ao oitavo troféu na arena Rod Laver, Nole aguarda quem passar entre Dominic Thiem e Alexander Zverev, que jogam às 5h30 de sexta-feira. Ele tem margens apertadas contra os dois: 6-4 diante do austríaco e 3-2 diante do alemão, porém carrega o trunfo da experiência, que vale muito neste nível tão elevado de competição.

Feminino vê final inesperada
A nova geração também estará na final feminina e pode levar o segundo título seguido: Sofia Kenin, de 21 anos, tentará seu primeiro Slam diante da experiente Garbiñe Muguruza, que vai em busca do terceiro troféu em diferentes Slam.

Mostrando sua conhecida força mental, Kenin venceu dois sets apertados diante da número 1 e de sua torcida. Controlar a cabeça foi o que na verdade faltou a Barty: ela teve saque a favor para fechar o tiebreak e também para ganhar o segundo set.

A primeira final de Slam dará também à tenista de 21 anos, que nasceu em Moscou mas se mudou meses depois para os EUA, o nono lugar do ranking e poderá superar o sétimo posto de Serena Williams se for campeã. Kenin foi eleita em 2019 como a tenista de maior progresso técnico.

Muguruza por sua vez tirou a superembalada Simona Halep, com placar idêntico. A espanhola ousou mais – 39 winners e 44 erros -, mas se segurou bem no fundo de quadra quando precisou. A romena concretizou apenas 3 de 13 break-points e isso obviamente fez diferença.

No único duelo entre elas, em Pequim do ano passado, Kenin ganhou no terceiro set. Mas não dá para tirar o favoritismo da espanhola, que já ganhou Roland Garros e Wimbledon e fará sua quarta final de Slam.

Saiba mais
– Djokovic anotou a 30ª vitória da carreira sobre um top 5 nos Slam e de longe a Austrália é seu lugar predileto, com 14. Mais 6 vieram no US Open e 5 tanto em Paris como em Wimbledon. As derrotas foram 20.
– Com 17 repetições, o duelo Djoko-Federer se mantém como o mais repetido em Slam na Era Aberta, dois a mais que Djoko-Nadal.
– Agora com 11 vitórias, o sérvio se torna o tenista que mais venceu Federer em Slam, superando as 10 de Nadal.
– Com a queda na semi, Federer corre risco de perder o terceiro lugar do ranking caso Thiem seja o campeão no domingo.
– Djokovic pode conquistar seu quinto Slam após completar 30 anos e igualar a marca que Nadal atingiu no US Open.
– Sérvio marcou a 100ª vitória sobre um top 5 em 166 confrontos na carreira.
– Ex-número 1, Muguruza começou o torneio como 32ª, já sobe para 16º e será 12ª em caso de título.
– O jejum de conquistas em simples continuará para os australianos, que não celebram um vencedor desde 1978 entre as mulheres e 1976 no masculino.
– Os donos da casa terão de se contentar com um eventual título de duplas: os convidados Max Purcell e Luke Saville tiraram os cabeça 4 Dodig/Polasek, e decidem contra Rajeev Ram e Joe Salisbury. Esta pode ser a primeira parceria 100% australiana a vencer em Melbourne desde Woodbridge/Woodforde, em 1997.

O reencontro está muito próximo
Por José Nilton Dalcim
26 de janeiro de 2020 às 13:29

Novak Djokovic foi soberano outra vez em quadra, Roger Federer começou lento e depois virou com folga. E assim o reencontro entre eles depende de apenas mais uma rodada no Australian Open, onde obviamente serão favoritos. O sérvio precisa passar pelo saque poderoso de Milos Raonic, o que já fez por nove vezes, e o suíço tem de superar outro jogador consistente do fundo porém hoje o 100º do ranking, Tennys Sandgren.

Como se esperava Schwartzman não deu tanto trabalho no piso duro mais veloz como já conseguiu no saibro e só pôde mesmo comemorar uma quebra de serviço lá na metade do segundo set, quando vinha de uma dura sequência de games perdidos.  Não se pode dizer que o argentino tenha jogado mal, porém falta potência diante de um adversário que se posta em cima da linha, impõe ritmo muito forte e saca com grande qualidade a maior parte do tempo.

Djokovic soma a 10ª vitória na temporada e parece extremamente improvável que Raonic consiga justamente agora acabar com o tabu pessoal. Na temporada em que atingiu talvez seu melhor nível técnico, em 2016, levou duas surras memoráveis do sérvio. O grandão canadense é uma surpresa neste Australian Open, não pelo currículo mas porque ganhou todos seus 12 sets mostrando até mesmo um backhand mais firme. Vale lembrar que só no ano passado ele se afastou por problemas nas costas,  joelho e quadril. Para chegar pela quinta vez nas quartas da Austrália, dominou um exausto Marin Cilic num duelo de ex-top 3 que não acontecia desde 2017.

Depois de um primeiro set preocupante, Federer acabou tendo uma vitória rápida e tranquila sobre um decepcionante Marton Fucsovics, que se mostrou inexplicavelmente apático a partir do 6/4, como se fosse ele quem tivesse 38 anos e lutado por 4h30 na rodada anterior. O suíço não foi brilhante, errou mais do que deveria na base e compensou tudo pelas maravilhas que consegue fazer na improvisação e nos voleios. Foi 37 vezes à rede e venceu 31 pontos. Ficou devendo um pouco com o primeiro serviço (61%), um ingrediente que precisa estar mais afiado a partir de agora.

Pela primeira vez, vai enfrentar Tennys Sandgren e, muito bem humorado na entrevista de quadra com John McEnroe, brincou que já jogou muito tênis mas nunca contra um Tennys. O norte-americano de 28 anos repete as quartas de dois anos atrás, quando surpreendeu Stan Wawrinka e Dominic Thiem, ao tirar os dois italianos top 20 do momento, Matteo Berrettini e agora Fabio Fognini, a quem também havia batido no último Wimbledon. Faz um pouco de tudo: saca bem, gosta de trocar bolas e ataca quando pode. Merece o devido cuidado.

Mais um passo para Barty
Ao menos no quadrante superior da chave feminina, deu a lógica. Ashleigh Barty reencontrará Petra Kvitova nas quartas de final. A canhota tcheca foi quem acabou com seu sonho de título em casa no ano passado. Pelo menos, a australiana ganhou os três duelos seguintes diante e assim a história pode ser diferente.

Mas a líder do ranking não jogou seu melhor nesta semana e a montanha russa diante de Alison Riske exemplificou bem isso, já que até o 4/4 do terceiro set estava tudo aberto. Vice do ano passado, Kvitova perdeu seu primeiro set e depois virou com autoridade sobre Maria Sakkari.

Quem passar, terá favoritismo natural sobre Sofia Kenin ou Ons Jabeur. No duelo americano, Kenin reduziu aos poucos a resistência de Coco Gauff até chegar a um ‘pneu’, mais uma prova de que a jovem Gauff ainda precisa dosar melhor a energia. A tunisiana – primeira árabe nas quartas de um Slam – tem um estilo vistoso, foi bem superior a Qiang Wang mas perdeu 3 dos 4 duelos que já fez contra a base muito sólida de Kenin.

Saiba mais
– Djokovic ganhou nada menos que 12 de suas 13 mais recentes partidas de Slam diante de um top 20. A exceção foi Thiem em Roland Garros-2019.
– Federer se isola como único homem a ter 15 presenças em quartas de final do Australian Open. E nunca perdeu nessa rodada em Melbourne.
– Djoko soma agora 72 vitórias em três Slam diferentes. A exceção é Roland Garros, com 68. Mas curiosamente é na terra onde ele tem mais quartas (13, contra 12 na Austrália e 11 nos demais).
– Mais uma vitória e Federer será o segundo tenista com mais triunfos num mesmo Slam (102), atrás somente de Navratilova (120, em Wimbledon).
– Schwartzman jamais ganhou de um top 5 em 22 tentativas, sendo seis em Slam.
– Sandgren é o jogador de mais baixo ranking a atingir as quartas de Melbourne desde Mikael Tillstrom, então 106º em 1996.
– Raonic lidera o quadro de aces do torneio, com 82, 7 a mais que Kyrgios. No feminino, Goerges atingiu 32 e isso a colocaria entre as 20 melhores do masculino.
– Stefani e sua parceira Carter foram muito bem e venderam caro a derrota nas oitavas. Os mineiros decepcionaram de novo: Soares parou em convidados locais e Melo, favorito nas mistas, parou na estreia e Bruno, nas oitavas.
– Com a queda em simples, o juvenil Gustavo Heide ainda tem uma chance nas duplas.

Federer escapa do dia das bruxas
Por José Nilton Dalcim
24 de janeiro de 2020 às 14:13

Que sexta-feira em Melbourne. Caiu a detentora do título, perdeu a megacampeã, despediu-se a vencedora de 2018, dois top 10 eliminados e por muito pouco Roger Federer não se incluiu no dia das bruxas que assolou o Australian Open. Viu o incansável John Millman com dois saques para liquidar o jogo e conseguiu ganhar seis pontos consecutivos no supertiebreak que agora define os quintos sets do torneio. Quanta emoção em 13 horas de tênis.

Federer começou mexendo mal as pernas, reagiu tarde e ainda falhou com o saque. Diminuiu a pressa em ir à rede – sabia que era bom negócio ficar atrás trocando bolas contra o paredão adversário – e, apesar de uma média perigosa de erros não forçados, chegou a fazer 2 sets a 1. Como já havia provado dois anos atrás no US Open, Millman é um tremendo competidor. Jamais se desesperou, manteve-se fidelíssimo à tática das trocas de bola sem riscos maiores na mudança  de direção, deixando a missão de atacar para o suíço.

Controlando a duras penas a contabilidade – terminou com 62 winners mas 82 erros -, o hexacampeão se viu contra a parede ao longo de todo o quinto set. Perdeu o saque no terceiro game, reagiu com ótimas devoluções e se safou de 15-40 no 3/3. Só então virou a situação e passou a pressionar novamente o australiano, que mostrou cabeça fria e confiança notáveis, mesmo quando viu Federer a dois pontos da vitória antes do supertiebreak.

Aí veio um capítulo especial nessa batalha de 4h03. Millman foi impecável até chegar a 8-4, achando as passadas corretas nas tentativas um tanto afoitas de o suíço chegar à rede. Com o saque para repetir a surpresa de Flushing Meadows, veio então a falha quase impensável: esqueceu do plano A e tentou seguidamente trocar o forehand para a paralela. Errou por centímetros e permitiu que Federer atingisse sua 100ª vitória no Australian Open e a 18ª presença nas oitavas.

Coisas essenciais a se refletir: as condições lentas são um martírio quando Federer encara tenistas de grande capacidade defensiva, e Millman fez uma belíssima exibição no geral. E é preciso dar nota 10 ao empenho desse garoto de 38 anos e meio. Que ao final das contas não precisa provar mais nada a ninguém. Seu adversário de domingo é também muito perigoso, porque Marton Fucsovics tem mostrado uma admirável capacidade de acertar a linha com golpes poderosos.

Djokovic fulminante, Stef fora
Sem perder um único ponto com o primeiro serviço nos dois primeiros sets – melhor ainda, só cedeu um também com o segundo saque -, o atual campeão Novak Djokovic não quis saber de desgaste desnecessário e atropelou outra vez o canhoto Yoshihito Nishioka. Uma atuação exuberante.

Encara agora outro jogador de base, Diego Schwartzman, mas que costumeiramente lhe dá trabalho. Apesar de ter vencido todos os três duelos, os dois feitos sobre o saibro viram o baixinho argentino arrancar sets e suor. El Peque fez uma exibição muito firme diante de Dusan Lajovic.

Se mantiver o favoritismo, Nole terá um adversário um tanto inesperado nas quartas: Milos Raonic ou Marin Cilic, que causaram surpresa. O canadense andava mal das pernas (e das costas) e de repente dominou Stefanos Tsitsipas até mesmo em trocas da base. Incrível. Já o croata tirou Roberto Bautista em cinco sets, num jogo em que voltou a sacar muito bem – 77% de pontos com o primeiro serviço, 24 aces e 8 de 10 breaks evitados.

Possíveis adversários de Federer nas quartas, Fabio Fognini e Tennys Sandgren passaram em sets diretos por Guido Pella e Sam Querrey. O italiano se recuperou fisicamente muito bem do esforço das duas primeiras rodadas e Sandgren salvou um festival de break-points num segundo set que acabou sendo crucial. Esperava mais do Querrey.

Caem três campeãs
A tenacidade de Qiang Wang, a volta por cima de Coco Gauff e o adeus de Caroline Wozniacki causaram alvoroço na rodada feminina. A chinesa teve muito de Millman na vitória sobre Serena Williams, e poderia ter liquidado o jogo ainda em dois sets tal sua superioridade no controle da bola diante da pressa e certo desespero de Serena, o que não é nada incomum quando ela encara grandes batalhadoras do fundo.

A juvenil Gauff fez um primeiro set notável em cima de Naomi Osaka, deixando para trás a trágica atuação do recente US Open. Além de golpes, sobra personalidade a Cori, que desta vez soube ser agressiva numa medida mais controlada.

Entre tantas emoções da sexta-feira, a despedida de Wozniacki deve ter deixado muita gente com nó na garganta. Ainda que não tinha sido uma tenista de excepcionais recursos técnicos ou de um tênis extremamente vistoso, Carol sempre foi uma das mais queridas do circuito e cansou de demonstrar excepcional qualidade competitiva e visão tática de encher os olhos.

Faltou pouco para esticar mais uma rodada, porém é preciso elogiar a atuação da tunisiana Ons Jabeur, uma das raras mulheres do circuito que exploram os ângulos mais abertos da quadra. Emocionada, Wozniacki foi erguida pelo pai, recebeu o carinho do marido e prometeu não se afastar das quadras. Ótimo, porque ela tem muito a ensinar.

Com as quedas de Serena e Osaka, teremos certamente uma semifinalista inédita nesse lado superior da chave. A de maior currículo é Wang, quartas do recente US Open. Depois vem Gauff, oitavas de Wimbledon.

Por fim, depois da estreia vacilante, Ashleigh Barty está se soltando e fez uma exibição bem melhor nesta terceira rodada, embora ainda possa brilhar mais. Alison Riske merece atenção na quadra dura, porém parece inevitável o reencontro de Barty com Petra Kvitova, que está jogando muito bem e é favorita contra Maria Sakkari. No ano passado, Barty ganhou 3 dos 5 duelos diante de Kvitova, todos no sintético e um nas quartas da Austrália.

Façanhas e recordes
Djokovic é o segundo homem na história a somar 50 presenças nas oitavas de um Slam, número ainda mais impressionante quando se vê que este é seu 60º torneio. Na Austrália, são 14, marca que Nadal pode repetir neste sábado. Federer lidera agora com 18.