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Mais uma grande virada na vida de Bia
Por José Nilton Dalcim
27 de janeiro de 2022 às 12:18

Recomeço e sucesso parecem ser palavras decisivas na carreira de Bia Haddad Maia. Como ela bem lembrou, há exatamente um ano salvava match-point num quali de ITF de US$ 25 mil. Tanto esforço depois, ela está numa raríssima final de Grand Slam, algo que apenas três brasileiras obtiveram na história, e pode entrar na seleta lista de 11 tenistas nacionais, e apenas cinco adultos, que já ergueram um troféu desse gigantesco porte.

Bia outra vez empurrou a parceria com a cazaque Anna Dalinina, para quem perdeu uma final de Copa Gerdau juvenil e lembrou de última hora para jogar a seu lado em Sydney e Melbourne, já que a argentina Nadia Podoroska se contundiu. A cazaque, conta Bia, estava na Tunísia e houve pouco tempo para treinar. Ainda assim, ganharam Sydney e embalaram. Venceram nas duas campanhas as japonesas Shuko Aoyama e Ena Shibahara, que são top 10 do ranking. Nesta noite, venceram o primeiro set e sacaram para o jogo, mas mantiveram cabeça após perder a chance inicial e dominaram também o 3º set.

A chance de se tornar a primeira brasileira a ganhar um Slam desde Maria Esther, no US Open de 1968, passa por uma missão quase impossível, já que do outro lado da quadra, à 1h de domingo, estarão as experientes e super entrosadas Barbora Krejcikova e Katerina Siniakova, donas de dois Roland Garros, um Wimbledon, da recente medalha olímpica e da ponta do ranking. Não daria para ser mais difícil. Fato curioso levantado por Felipe Priante de TenisBrasil: na final juvenil de Paris de 2013, Bia perdeu justamente para elas.

Não importa o resultado. A temporada 2022 começa de forma extremamente animadora para Bia, que está jogando um tênis de grande qualidade. Já se garante como 41ª no ranking de duplas – pior apenas que o top 10 de Luísa Stefani em toda Era Aberta – e isso permitirá jogar e faturar também nessa especialidade nos torneios de maior gabarito. Quem tem visto os jogos, percebe uma Bia muito vibrante em quadra mas bem madura e serena nas comemorações. “Não me surpreende o que está acontecendo, eu confio muito no meu tênis”. Nós todos também.

Barty tenta a glória contra surpresa Collins
A número 1 do mundo Ashleigh Barty está a um passo de seu terceiro diferente troféu de Grand Slam e de acabar com o longo jejum de títulos locais no Australian Open, que vem desde 1978. Se mantiver o favoritismo, terá erguido Slam em todas as superfícies possíveis, o que condiz com sua versatilidade.

Demoliu a terceira norte-americana seguida, desta vez cedendo quatro games a Madison Keys. Seu jogo mais exigente da campanha foi o 6/4 e 6/3 sobre Amanda Anisimova, nas oitavas, quando também perdeu seu único game de serviço até aqui. O máximo que Keys conseguiu foram dois break-points, um em cada set.

Na final das 5h30 deste sábado, talvez o maior adversário de Barty sejam seus nervos diante do feito histórico e da pressão pessoal. Seus jogos têm dado a maior audiência da tevê no país nos últimos 10 dias.

Claro que não pode menosprezar a força bruta de Danielle Collins, ainda que ela chegue a sua primeira final de Grand Slam aos 28 anos e como 30ª do ranking, dando um passo a mais em relação à campanha no Australian Open de 2019. Barty tem 3 a 1 no histórico contra Collins, mas perdeu justamente o mais recente, num dos WTA de Melbourne de 2021.

A vitória impiedosa sobre a polonesa Iga Swiatek foi a sétima de Collins sobre uma top 10 na carreira. Tem apenas dois títulos de WTA menos expressivos na carreira e passará a figurar entre as 10 melhores do ranking na próxima semana.

Collins tem golpes retos e agressivos, com um dos melhores backhands do circuito. Ficou no universitário norte-americano até 2017, ganhou rapidamente destaque na WTA e ainda superou cirurgia no ovário no ano passado.

Sua campanha neste Australian Open teve viradas duríssimas diante de Clara Tauson e Elise Mertens e depois atuações mais firmes frente a Alizé Cornet e Swiatek. Sabe que, para ter chances, terá de encurtar pontos e deixar Barty na defensiva. Difícil, mas nunca inviável.

E mais

  • Nadal busca a sexta final em Melbourne diante de Berrettini, às 0h30 desta sexta-feira. No único duelo entre eles, venceu no US Open de 2019.
  • O italiano tenta repetir a campanha de Wimbledon. Se conseguir, irá superar o próprio Nadal no ranking e entrar para o top 5.
  • Segundo Moyá, Rafa perdeu quatro quilos de água na maratona contra Shapovalov. A previsão em Melbourne é de 30 graus e chuva na hora do jogo, o que pode exigir fechamento do teto.
  • Nadal tem 82% de pontos após acertar o primeiro saque no torneio contra 78% de Berrettini.
  • Medvedev e Tsitsipas estão longe de ser bons amigos. O russo tem 6 a 2 no histórico, com vitória do grego no mais recente, no saibro de Paris. No piso duro, o placar é de 5 a 1. Na semi de 2021, Medvedev passou em sets diretos.
  • Ambos tiveram campanha exigente. O grego começou inseguro, ganhou de Fritz com grande esforço mas jogou fez melhor exibição do ano contra Sinner na rodada anterior.
  • Medvedev ganhou apenas seu terceiro jogo de cinco sets em 10 já feitos e evitou match-point contra Aliassime, o que marcou sua 50ª vitória de Slam.
  • Aliassime mostrou que a chance contra Medvedev está numa postura bem ofensiva e que boa parte da construção dos pontos passa por bolas anguladas. Isso é claro exige confiança.
  • Kyrgios também pode ganhar seu primeiro Slam, ao lado do amigo Kokkinakis. Os dois fazem campanha notável e enfrentam no sábado os compatriotas e surpresas Ebden e Purcell.


No jeito e na marra
Por José Nilton Dalcim
25 de janeiro de 2022 às 13:10

Como dizia o título deste Blog de ontem, é preciso acreditar. E foi exatamente isso que fizeram Rafael Nadal, Matteo Berrettini e Bia Haddad Maia, em outra eletrizante rodada do Australian Open. Tanto o espanhol como o italiano levaram grande susto depois de dominar os dois primeiros sets, Bia e a parceria cazaque saíram de outro grande buraco. Valeu cada minuto de sono perdido.

Rafa considerou sua reação no quinto set sobre o garoto Denis Shapovalov, 13 anos mais jovem, como um ‘milagre’. Nem tanto pela parte técnica, mas pelo mal estar estomacal que diz ter começado a viver ao final do segundo set. Até ali, Rafa fazia uma exibição de gala, muito agressivo, veloz e com aquela noção tática que o faz absolutamente genial. Aí o canadense iniciou reação, ganhou com certa folga os sets seguintes e parecia que Rafa não teria forças para atingir sua sétima semi em Melbourne.

“Pensei que iria perder”, contaria mais tarde, depois de anotar seu recorde pessoal de duplas faltas, com 11. Afirmou que tudo que queria era manter o saque e torcer para acertar alguma hora a devolução. E foi o que aconteceu. Outra lição do espanhol de resiliência.

Em meio a tudo isso, surgiu um clima ruim. Shapovalov acusou os árbitros de favorecerem Nadal, irritadíssimo com a demora do espanhol no saque e mais ainda por sua ida ao vestiário antes do quinto set depois de ter sido atendido pela segunda vez pelo médico em quadra. Rafa evitou polemizar, se disse inocente e terminou por aconselhar o canadense a repensar suas palavras, lembrando que ele também fez julgamentos bobos quando jovem.

Drama parecido viveu Berrettini, que também foi superior a Gael Monfils nos dois primeiros sets de ótimo nível, mas cedeu espaço pouco a pouco e parecia com menor força física quando o francês empatou. Tudo bem parecido ao sufoco que levou de Carlos Alcaraz lá na terceira rodada. Aí juntou o fôlego que restava, recuperou a confiança no forehand e abriu rápida vantagem sobre um cansado adversário. Tornou-se assim o primeiro italiano na história a atingir a semi em Melbourne e não perdeu a chance de criticar parte do público que insistentemente o perturbava entre os saques.

Fato interessante, Berrettini fez quartas, final e quartas em seus três últimos Grand Slam e em todas perdeu para Novak Djokovic, desta vez ausente. Sua única experiência contra Nadal foram as semis do US Open de 2019, em que perdeu em sets diretos mas esteve a um ponto de ganhar o tiebreak da primeira parcial.

O bom para os dois é que as semifinais masculinas desta vez serão disputadas juntas na sexta-feira, o que dará a eles um dia a mais de descanso.

Bia espetacular
Com maturidade, potência nos golpes e ótimo trabalho de rede, Bia Haddad comandou a parceria com a cazaque Anna Dalinina rumo às semifinais do Australian Open. Foi outra reação incrível, já que elas perderam o set inicial e estiveram duas vezes com quebra atrás no segundo contra Rebecca Peterson e Anastasia Potapova.

Primeira brasileira em semi do torneio desde Maria Esther, vice de simples em 1965, Bia também tentará agora se juntar a Bueno como únicas numa final de Slam na história, façanha que escapou de Luísa Stefani no US Open do ano passado. A última decisão de Estherzinha em Slam foi em 1968. Ao mesmo tempo, a canhota paulista dispara no ranking de duplas e se garante no 64º, superando o recorde pessoal anterior de 79ª.

Apesar de a dupla com Danilina ter tido seus altos e baixos na partida, Bia sacou muito bem, fez devoluções espetaculares e foi muito oportuna nos deslocamentos junto à rede. As adversárias serão as cabeças 2, as japonesas Shuzo Aoyama e Ena Shibahara, a quem venceram na caminhada pelo título em Sydney duas semanas atrás.

Quartas sem graça
A definição das duas primeiras semifinalistas da chave feminina contrastaram e foram bem sem graça. Ashleigh Barty destruiu Jessica Pegula em 63 minutos, está pela segunda vez na penúltima rodada em casa e mantém sonho de ser a primeira australiana a levantar o título desde 1978. Em cinco jogos até agora, passou pouco mais de cinco horas em quadra.

Madison Keys e Barbora Krejcikova fizeram um jogo muito fraco, cheio de erros e tensão. A tcheca não se sentia bem, mas não quis abandonar e até se esforçou. Ex-top 10, Keys chega a sua quinta semi de Slam e enfrentará Barty pela terceira vez, tendo vencido uma.

E mais

  • Tsitsipas e Sinner duelam pela quarta vez, a primeira fora do saibro, à 1h. Grego venceu duas e ganhou todos seus quatro jogos de quartas de Slam até hoje. Sinner tenta ser mais jovem semi do torneio desde Roddick em 2003.
  • Medvedev também busca quinta semi de Slam contra Aliassime, que só tirou um set dele em três duelos. Na semi do US Open do ano passado, russo ganhou sem sustos.
  • Os dois jogos femininos são inéditos: Collins contra Cornet e Swiatek frente Kanepi. A norte-americana já foi semi no torneio em 2019, a polonesa é 16 anos mais jovem que Kanepi.
  • Após tirar os cabeças 1 Mektic/Pavic, os locais Kyrgios e Kokkinakis continuam lotando seus jogos de duplas. Tiraram agora os cabeças 6 Puetz/Venus e pegam Granollers/Zeballos. Kyrgios acertou garoto na arquibancada e lhe deu uma raquete.
  • Crivada de críticas, a organização recuou e permitiu entrada de torcedores com camiseta que faz alusão ao sumiço de Shuai Peng. No fim de semana, seguranças chegaram a confiscar um cartaz sobre isso.

‘Shapo’ dá lição no preguiçoso nº 3, Bia atinge façanhas
Por José Nilton Dalcim
23 de janeiro de 2022 às 12:41

Perder é obviamente parte do jogo, mas Alexander Zverev mostrou aquele velho conformismo que parecia ter sido superado com a ascensão dos últimos anos. Diante de um talentoso e animado Denis Shapovalov, esse sim um garoto que raramente se entrega, o número 3 do mundo foi um fiasco e levou verdadeira aula. Foi sua 15ª derrota para um top 20 em Grand Slam em 19 tentativas. Ele aliás jamais ganhou de um top 10 nos quatro maiores torneios em 11 duelos.

‘Shapo’, é preciso frisar, venceu agora três dos últimos quatro duelos contra Zverev. Semifinalista de Wimbledon no ano passado, está toda hora à procura de corrigir defeitos. Trocou Mikhail Youzhny por Jamie Delgado, o ex de Andy Murray, e parece menos afoito. Começou o ano com covid, mas se recuperou e foi essencial no título canadense da ATP Cup semanas atrás. Aliás, se Felix Aliassime também avançar, será a primeira vez que dois tenistas do país alcançam as quartas do Slam australiano.

O jogo contra Sascha foi um tanto estranho. O alemão quase quebrou de cara, aí cedeu o saque e o primeiro set. Parecia perdido ao sair de 0/2 na outra série, mas aí reagiu e chegou a sacar com 5/3, no que poderia mudar totalmente a história. Jogou errado, ficou frustradíssimo e a partir daí Shapovalov dominou, com muito mais atitude. O cabeça 3 insistia em trocar bolas no backhand, jogando lá atrás, e caiu diante de um adversário muito consistente.

Quem não poupou críticas a Zverev foi Boris Becker, ao comentar para a Eurosport. “Se ele sonha com um Slam, sua postura precisa ser diferente”, disparou. “Nunca o vi tão passivo e sem agressividade”, emendou. O campeão olímpico não achou desculpas, mas revelou que não se sentiu bem em quadra em toda a semana. Ele anotou apenas três aces na partida. “Foi meu pior desempenho desde Wimbledon”, assinalou, lembrando da derrota sofrida então para Aliassime.

Esta foi a segunda vitória de Shapovalov sobre um top 5. A outra foi justamente contra seu próximo adversário, o embaladíssimo Rafael Nadal, num resultado surpreendente em Montréal de 2017. Depois disso, perdeu três vezes mas em Roma do ano passado levou o espanhol ao tiebreak do terceiro set.

Rafa mostrou-se cirúrgico contra Adrian Mannarino. O primeiro set foi extremamente parelho, com domínio absoluto dos sacadores até o tiebreak. Então veio o grande momento do jogo e talvez do torneio, com ambos jogando em nível magistral por 28 minutos e 30 pontos. O francês teve suas chances, bateu muito na bola porém o campeão de 2009 sempre achou uma resposta, algumas vezes realizando seus lances impossíveis sob pressão. Muita confiança e principalmente postura determinada. Que contraste para Zverev. Nos sets seguintes, sentindo a virilha, Mannarino foi presa fácil.

Matteo Berrettini e Gael Monfils farão o outro duelo de quartas de final nesse lado de cima da chave. A atuação do italiano contra Pablo Carreño beirou a perfeição, tirando o máximo de seu incrível primeiro serviço, mas também se mexendo muito bem, indo à rede na hora certa e novamente mostrando evolução no backhand. Ele vinha dos cinco duríssimos sets contra Carlos Alcarez, fez 28 aces e só encarou um break-point. Berretini tem agora quartas em todos os Slam e chega pela quinta vez nessa fase de um Slam, apenas uma atrás de Adriano Panatta entre os italianos.

Depois de seis temporadas, Monfils volta às quartas em Melbourne e sonha com uma terceira semi de Slam, isso aos 35 anos, apenas três meses mais jovem que Nadal. Porém, apesar do placar de 3 a 0, a missão contra a surpresa Miomir Kecmanovic foi bem exigente. Muito firme na base, o sérvio teve três chances de quebra no 5/5 do primeiro set e ainda liderou o segundo por 3/1 e 4/2. O francês perdeu os dois confrontos diante de Berrettini, o primeiro deles numa memorável batalha de cinco sets que terminou só no tiebreak nas quartas do US Open de 2019.

Tudo aberto no feminino
Fácil vitória de Barbora Krejcikova sobre uma contundida Vika Azarenka, a queda de Maria Sakkari e o dia ruim de Paula Badosa agitaram a abertura das oitavas de final femininas. A número 1 Ashleigh Barty segue sua campanha de poucos sustos e nenhum set perdido, e por isso mesmo permanece como favorita. Mas todo cuidado é pouco.

Jessica Pegula surge como próximo desafio. A norte-americana repete as quartas do ano passado ao passar por Sakkari sendo superior em todos os campos, mas com destaque aos 71% de aproveitamento do primeiro saque. Barty, que tenta ser a primeira tenista da casa a ganhar o torneio desde 1978, superou Pegula na campanha do título em Roland Garros de 2019.

Em que pese um problema no pescoço que claramente limitou movimentos de Vika, Krejcikova fez uma bela partida, tirando tudo de sua capacidade de trocas de direção e velocidade de golpes. E isso coloca ótimo tempero no duelo inédito contra Madison Keys, que também é uma excelente estrategista. A norte-americana entrou em Melbourne fora do top 50 e atropelou Badosa com um tênis muito consistente mas também agressivo (26 a 10 nos winners).

Grande atuação e façanhas de Bia
Ninguém ganha jogo de dupla sozinho, mas é inegável que Bia Haddad Maia foi o grande nome em quadra na dura partida e excepcional virada que conseguiu ao lado da cazaque Anna Danilina. Elas perdiam de 1/4 no terceiro set, com duas quebras sofridas, mas brigaram muito e venceram Aliona Bolsova e Ulrikke Eikeri no supertiebreak. Agora, pegam Rebecca Peterson e Anastasia Potapova, que são acima de tudo jogadoras de simples.

Bia é a primeira brasileira a atingir as quartas do torneio na Era Aberta. Maria Esther ganhou duplas em 1960 e foi vice de simples em 1965, durante a fase amadora. Bia acabou de ganhar seu terceiro e maior troféu de duplas no WTA 500 de Sydney e agora tem sete vitórias seguidas ao lado de Danilina.

Com o resultado, a canhota paulista repete a façanha de 2018 e passará a figurar no top 100 dos dois rankings na próxima lista, dia 31 de janeiro. Naquele ano, ela foi 61ª de simples e 79ª de duplas na mesma semana e agora garantiu provisoriamente o 75ª e o 94ª. Se vencer mais uma, entrará então no top 70 da especialidade.