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Thiem encara o desafio final
Por José Nilton Dalcim
8 de junho de 2019 às 20:02

Com um tênis espetacular, acentuado pelas difíceis condições de dois dias de muito vento, Dominic Thiem se deu a oportunidade de buscar pelo segundo ano consecutivo um troféu do qual parece um herdeiro natural. Não foi em 2018, talvez ainda não seja em 2019, mas Roland Garros muito dificilmente escapará de suas mãos em algum momento.

Atributos técnicos sobre o saibro não faltam a ele, e a batalha diante de Novak Djokovic na semifinal o elevou a um patamar mais alto na delicada questão emocional. Foi o tenista mais focado sob o vento perturbador de sexta-feira, conseguiu retornar no sábado com soluções diante da nova postura do número 1, não se desesperou quando a chuva interrompeu seu domínio no quinto set e ainda segurou a cabeça depois dos dois match-points perdidos. Por incrível que pareça, foi mais forte mentalmente do que Nole e por isso venceu.

A grande dúvida para o domingo é se terá pernas para aguentar a provável exigência física que encarar Nadal sempre gera. Ele ficou apenas duas horas a mais em quadra, cedendo um set nas três primeiras partidas, mas a diferença de esforço nas semifinais foi gigantesca. Enquanto Rafa gastou 2h25 nos três sets contra Roger Federer, o austríaco precisou de 4h13 diante de Djokovic e saiu da Chatrier apenas 23h antes do seu retorno para a final. Injusto? Talvez. Pode prejudicar a qualidade do jogo? Com certeza.

O histórico é favorável a Nadal, com oito vitórias em 12 duelos, dos quais apenas um não foi no saibro. Todos os triunfos de Thiem vieram na terra (Buenos Aires, Roma, Madri e a deste ano em Barcelona). Nadal ganhou as quatro em Slam, sendo três em Paris (2014, 17 e 18) sem perder set e aquela duríssima no US Open do ano passado. Fica claro então que o austríaco sabe o caminho para encurralar Nadal no fundo de quadra com seu spin pesado e angulado, o slice e as curtinhas, o saque violento. Mas a parte física e mental de duelos mais longos pesam indubitavelmente a favor da consistência superior do espanhol.

Thiem pode alcançar um feito gigantesco se conseguir o troféu superando os dois principais cabeças de chave. Isso só aconteceu oito vezes na Era Profissional. E na sequência, é ainda mais raro: sete, a mais recente de Michael Stich em Wimbledon de 1991, quando superou Stefan Edberg e Boris Becker. Em Paris, isso só aconteceu com Mats Wilander, em 1985, em cima de John McEnroe e Ivan Lendl. Thiem também concorre à condição de 150º diferente campeão de Slam da história

Descansado e confiante, Nadal defende a invencibilidade de jamais ter perdido uma final nas 11 tentativas anteriores em Roland Garros e tenta ser o único a ganhar 12 vezes o mesmo Slam. Mais ainda, um eventual 18º troféu o deixará perto do recorde de Federer, o que certamente é um tremendo incentivo adicional. Aos 33, poderá se juntar ainda ao clube dos jogadores com mais Slam como ‘trintão’, ao lado de Federer, Rod Laver e Ken Rosewall, todos com quatro.

E mais
– Caso conquiste o título, Nadal aparecerá quase 4.800 pontos atrás de Djokovic no ranking de segunda-feira. Thiem se manterá como quarto, mas pode diminuir para menos de 1.200 a distância para Federer com o título.
– Uma final repetida por dois anos em Paris só havia acontecido uma vez na Era Profissional (Nadal-Federer, por três edições, entre 2006 e 2008).
– O Big 3 atual venceu todos os nove últimos Slam, terceira maior série (a primeira teve 18 e a outra, 11). A última exceção foi Stan Wawrinka, no US Open de 2016.
– Desde que Nadal ergueu o primeiro troféu em Paris, em 2005, Wawrinka também foi o único de fora do Big 3 a vencer no saibro francês.
– Os últimos 11 troféus de Slam foram erguidos por tenistas com mais de 30 anos, o que vem desde Andy Murray em Wimbledon de 2016. A marca anterior era de 1969, com os quatro troféus de Rod Laver.

Barty dá a arrancada
A australiana Ashleigh Barty era uma aspirante ao top 10 quando começou sua temporada 2019. Fez final em Sydney e de repente deu o salto de qualidade em Miami, fazendo funcionar à perfeição sua gama tão repleta de golpes e um preparo físico mais apurado.

Brilhar no saibro, o piso que menos aprecia, não estava nos seus planos. Mas tudo se encaixou, jogo após jogo, desafios sucessivos e então a final e seu primeiro título de Grand Slam. A partida deste sábado contra Marketa Vondrousova foi, é verdade, um tanto sem graça, ainda que Barty tenha tido a oportunidade de mostrar como ataca e defende com enorme destreza.

Ela admite a surpresa da conquista, embora garanta que sempre acreditou no potencial. Agora como número 2 do mundo, dá facilmente para vislumbrar mais sucesso quando a fase de grama chegar, aí sim uma superfície em que se sente totalmente à vontade.

Barty também dá o primeiro título a seu país no saibro parisiense desde a multicampeã Margaret Court, em 1970, e de certa forma passa a integrar a comemoração dos 50 anos da conquista de Rod Laver na temporada em que ele daria em Paris o segundo passo para concluir o genuíno Grand Slam.

Título brasileiro
Quem segue este Blog há dois anos deve se lembrar que alertei para um garoto paulista de muito talento que precisava ser trabalhado para ter boas chances no circuito profissional. Matheus Pucinelli conquistou neste sábado o título de duplas juvenis de Roland Garros.

Pode parecer pouco, mas foi exatamente assim que Guga Kuerten começou a brilhar em Paris, em 1994. Lapidado no Instituto Tênis, Pucinelli deu ao tênis brasileiro um troféu de peso que andava faltando. E muito.

Nem vento para Nadal
Por José Nilton Dalcim
7 de junho de 2019 às 18:56

Nunca foi tão óbvio cumprir uma profecia. Desde que voltou a jogar em alto nível em Roma, e ainda por cima com título em cima de Novak Djokovic, era evidente que Rafael Nadal recuperaria a confiança e o tênis mágico sobre o saibro para tentar o 12º título de Roland Garros. Não houve adversário, nem histórico, nem vento que pudesse impedir isso. Não se sabe contra quem ou quando, mas isso não faz diferença. Rafa é o favorito.

Conforme a previsão, o vento forte de até 40 km/h foi um ingrediente importante nos jogos desta sexta-feira. Prejudicou a qualidade das duas semifinais, obrigou os tenistas a fazer curiosas improvisações e quem usou mais topspin conseguiu esfriar a cabeça antes. Nadal jogou bem demais para estas condições radicais, Dominic Thiem abriu vantagem sobre Nole até a chuva chegar pela segunda vez e forçar um adiamento controverso para o sábado cedo.

Federer resistiu o quanto pôde, e desperdiçou chances valiosas nos dois primeiros sets que poderiam ao menos tornar o jogo bem duro. Mas falhou na hora de empatar por 3/3 a primeira série e desperdiçou 2/0 na outra. A esperada dificuldade de controlar seus golpes mais retos ou de chegar bem à rede diante do vento somou-se a uma atuação magnífica de Nadal.

O espanhol cravou 82% do primeiro saque e surpreendeu duplamente com o backhand, ora batido na paralela no pé do adversário, ora violento e cruzado. Se é fato que não fica fácil volear naquelas condições, também é extremamente difícil achar passadas e ângulos tão milimétricos. Saiu de quadra com 33 winners, oito a mais que Federer, um padrão que eu tenho ressaltado em todos os jogos de Rafa neste torneio.

A façanha de Nadal é recheada de números. Para começar, nenhum tenista em qualquer nível ATP já fez 12 finais num mesmo torneio e agora iguala Margaret Court nos Grand Slam, ela que tem 11 títulos e 1 vice na Austrália. Jamais perdeu uma semi em Paris, e na soma de todas elas só perdeu 3 sets. Está agora com 92 vitórias em 94 possíveis no torneio, tendo vencido os dois únicos jogos em que foi levado ao quinto set, e estende a incrível marca sobre o saibro em partidas de melhor de 5 sets para 117 em 119 feitas na carreira.

Em seus duelos diante de Federer, encerrou a série de cinco derrotas consecutivas e o jejum que vinha desde janeiro de 2014. Sobe para 24-15 no geral (sendo 14-2 no saibro), vai a 10-3 nos Slam (dos quais 6-0 em Roland Garros) e 4-0 em semis de Slam (as outras duas na Austrália).

E quem será seu adversário? Thiem se adaptou muito melhor ao vento com seu topspin pesado dos dois lados e viu Djokovic contrariado e falível num primeiro set bem abaixo do que vinha jogando. A chuva chegou em boa hora, o sérvio conseguiu colocar a cabeça no lugar no final do segundo set, mas o austríaco voltou a abrir vantagem com 3/1. Aí outra vez choveu e a organização decidiu por adiar de vez a partida para o sábado, ainda que já tivesse aparecido o sol em Paris e faltassem pelo menos três horas para escurecer.

Impossível prever como irão reagir cada um no retorno. O sábado promete tempo seco porém o vento de 30 kim/h continua. A organização não se antecipa e aguarda os sets finais para dizer se a final permanece no domingo ou vai para segunda-feira. Se Thiem completar a vitória até o quarto set, imagino que a decisão será no dia seguinte, mas se Djoko reagir ou levar ao quinto set – e principalmente se vencer -, a chance de adiamento é enorme.

Final imprevisível entre as meninas
O vento acordou cedo e também atrapalhou muito as semifinais femininas, disputadas simultaneamente nos estádios secundários. A vitória de Ashleigh Barty foi uma das mais notórias gangorras da temporada. A australiana teve set-point para 6/0, mas foi perder no tiebreak. Aí Amanda Anisimova fez 3/0 sem ceder um ponto sequer e caiu por 3/6. No terceiro, a adolescente abriu 2/1 com saque, Barty virou para 5/2 e precisou de seis match-points para enfim disputar a primeira final de Slam da carreira, aos 23 anos.

Se Anisimova lembra fisicamente Monica Seles, será Marketa Vondrousova quem tentará repetir a iugoslava, que foi a última (e apenas segunda) canhota a vencer a fase profissional de Roland Garros, em 1992. A tcheca de 19 anos mostrou maturidade num jogo em que a experiente Johanna Konta liderou por algumas vezes, incluindo 5/3 e três set-points, depois 5/4 e saque.

A final tende a ser nervosa, ainda mais se com a expectativa de vento forte, o que torna tudo um pouco mais lotérico. Vondrousova tem o saibro como piso predileto, se mexe muito bem e também gosta de variar. No entanto, perdeu os dois duelos feitos contra Barty. A australiana, aliás, concorre a assumir a vice-liderança do ranking em caso de título.

Boa notícia, a final feminina passará ao vivo na Band aberta também.

Grandes semifinais, mas dois amplos favoritos
Por José Nilton Dalcim
6 de junho de 2019 às 18:18

Roland Garros viverá uma sexta-feira para lá de especial. Pela primeira vez em oito anos, terá todos os quatro principais cabeças na semifinal masculina, reunindo nada menos do que 52 títulos de Grand Slam e os três melhores jogadores da história.

Mais divertido ainda, Novak Djokovic e Rafael Nadal têm enorme chance de se manter ainda mais vivos na perseguição ao recorde de 20 troféus de Roger Federer. O sérvio pode ir a 16, o espanhol mira o 18º. E o suíço, é claro, colocaria uma pá de cal nesse sonho se cometesse a façanha de ganhar o Aberto francês uma década depois.

O austríaco Dominic Thiem é o ‘patinho feio’ nessa briga de gigantes, já que só tem uma final de Slam até hoje. A seu favor, está a juventude: aos 25 anos, possui sete a menos que seu adversário desta sexta-feira e 12 atrás do mais idoso. Mas a questão física não parece ser o item mais relevante.

Djokovic e Thiem superaram com rapidez seus jogos adiados da quarta-feira e entrarão para o duelo direto em pé de igualdade. Impossível não dar o favoritismo ao sérvio, que lidera o histórico por 6 a 2. A rigor, as derrotas para o austríaco aconteceram numa momento de baixa em sua carreira, em Paris de 2017 e em Monte Carlo do ano passado. Desde então, se cruzaram apenas no saibro veloz de Madri há coisa de um mês, onde Djoko venceu por um placar bem apertado e diversos sustos.

O sérvio precisa antes de tudo evitar o começo ruim que viveu nesta quinta-feira diante de Alexander Zverev. Foi quebrado num game tenebroso, o seu pior até aqui no torneio, e só mesmo a fragilidade emocional do alemão evitou a perda do primeiro set. Até então, Sascha se mostrava aplicado e muito focado. De repente, virou um top 100 e levou uma surra. Vale observar que Thiem teve uma atuação notável diante de Karen Khachanov, saindo de quadra com apenas 11 erros. Portanto, me parece importante Djoko se impor desde o início e não deixar o austríaco animado, porque o poder de fogo dele é inegável e proporcional à confiança que for adquirindo.

Nadal e Federer geram enorme expectativa, mas me parece existir apenas uma chance de o suíço sonhar com a vitória: atuar de forma iluminada ou o espanhol jogar abaixo do que vem mostrando. Se estiver ventando forte como diz a previsão, a dificuldade aumentará ainda mais, já que o suíço tende a perder a precisão do saque, de seus golpes retos de ataque e da segurança nos voleios. Por isso, ele detesta vento. Para ser ao menos competitivo, Federer precisa manter Nadal na defensiva, mirar a linha e encurtar seu tempo de reação. Quando for à rede, máxima atenção às paralelas de forehand, que o espanhol voltou a executar com perfeição.

A lógica aponta para vitórias de Nadal e Djokovic, talvez até mesmo em sets diretos, contra seus adversários de backhand simples. Qualquer coisa fora disso, será surpresa. Vale lembrar que a última vez que Roland Garros viu uma final entre dois backhands de uma mão foi a de Guga Kuerten e Alex Corretja, em 2001.

Uma nova campeã de Slam
O sábado também será muito especial para a chave feminina, e aí o motivo é radicalmente diferente: todas as quatro postulantes ao título jamais fizeram sequer final de Grand Slam e há uma clara predominância da nova geração: Amanda Anisimova, de 17 anos, enfrentará Ash Barty, de 23, enquanto Marketa Vondrousova, de 19, duela com a única experiente da turma, Johanna Konta, de 28. Também em contraste com o masculino, três delas não figuram no momento sequer entre as top 25.

Porém, não vejo motivo para se achar que os jogos decisivos serão de qualidade baixa ou menos emocionantes, já que são todas tenistas que gostam de um jogo mais agressivo. Anisimova deu um verdadeiro show de ousadia e competência diante da atual campeã Simona Halep, sem tomar conhecimento do currículo adversário. A norte-americana de pais russos esteve no Brasil em 2017 para se testar no saibro, maravilhou todo mundo no juvenil e ganhou seu primeiro título profissional em Curitiba, ainda aos 15. Era evidente que ali havia um enorme potencial. Se ela e Barty dominarem os nervos, deve ser um jogo espetacular, porque a australiana tem mão de sobra, faz o que quer com a bola e pode enlouquecer Anisimova com essa variação.

Se Konta se candidata a erguer o primeiro título britânico em Paris após quatro décadas, Vondrousova tenta entrar no rol curtíssimo das canhotas que conquistaram Roland Garros. Por conta da chuva de quarta-feira, os dois jogos semifinais acontecerão simultaneamente e fora da Chatrier, e ainda por cima no primeiro horário do sábado (11h locais, 6h de Brasília). Tenta-se preservar alguma equidade para a final de sábado, mas é de se lamentar.