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Doloroso adeus da mágica Barty
Por José Nilton Dalcim
23 de março de 2022 às 11:34

De repente, fui remetido ao dia 23 de janeiro de 1983, quando chegava para cobrir rodada do torneio do Guarujá logo pela manhã e acabei surpreendido com a notícia de que Bjorn Borg, então com 26 anos. havia decidido se aposentar.

O sentimento de incredulidade diante do anúncio de Ashleigh Barty no finalzinho de noite desta terça-feira foi muito semelhante. Parecia brincadeira, um 1º de abril antecipado.

Até que veio o vídeo da própria australiana explicando sua decisão e aí não houve mais dúvidas: no auge absoluto de sua carreira, dona dos atuais títulos de Wimbledon e do Australian Open, número 1 do mundo por 113 semanas consecutivas, Barty não tem mais motivação para seguir no circuito. Chocante, mas compreensível.

Não foi a primeira vez que Barty sentiu o peso do circuito e se afastou. Depois de um promissor início de carreira, em que se tornou profissional ainda aos 15 anos, ela saiu das quadras logo depois do US Open de 2014 justamente porque se achava imatura demais para encarar tantas viagens e queria viver como uma adolescente comum. Ficou em casa e passou a jogar críquete com sucesso.

O amor pelo tênis no entanto ainda estava lá. Voltou em fevereiro de 2016 e se dispôs a jogar duplas em pequenos torneios de US$ 25 mil. Seu gigantesco talento rapidamente deu frutos e na temporada seguinte já ganhou seu primeiro WTA e virou top 20. Continuava a ser uma grande duplista, porém seu estilo único sempre chamava a atenção, aquela capacidade incrível de variar efeitos e velocidades, de alternar táticas, de ter coragem de ousar nos pontos decisivos.

Esse conjunto levou Barty ao primeiro sonho: vencer um Grand Slam em 2019. Porém, de forma totalmente inesperada, o fez no saibro de Roland Garros, relembrando os feitos de Margaret Court de quase 50 anos antes. Pouco depois, virou também número 1, igualando-se a outro fenômeno australiano, Evonne Goolagong.

Nessa altura, era impossível não se comparar a destreza de Barty sobre as quadras com a habilidade de Justine Henin. Curiosamente, a espetacular belga também anunciou aposentadoria – a primeira delas – dias antes de completar 26 anos e como líder do ranking, dona de sete troféus de Slam. Voltou em 2010 sem o mesmo embalo, porém ainda conseguiu um vice em Melbourne.

Ao menos por enquanto, Barty não abre brechas para um retorno. Ela diz que ganhar Wimbledon no ano passado foi mais do que a realização do maior desejo como tenista e que isso mudou sua perspectiva como pessoa e como atleta. Porém, ainda faltava ganhar em casa e se impôs esse desafio, plenamente concretizado há dois meses.

Então, em suas palavras, se fechou o ciclo e acabou a motivação para treinar e especialmente viajar. Como disse antes, é compreensível. A Austrália é muito longe de qualquer coisa e demanda grande esforço de deslocamento ou muitos meses fora de casa.

Me parece que são justamente os dois fatores que mais pesam. Em primeiro lugar, a pandemia pode ter mostrado a Barty – como há muitos outros – as delícias de uma vida normal. Vale lembrar que ela demorou a encarar de novo o circuito, o que só fez já em 2021 após 11 meses de parada total.

Ao mesmo tempo, Ash sempre se mostrou diferenciada, com muita atenção a sua vida fora das quadras, às amigas e à família. E certamente há um peso grande no fato de estar agora noiva do golfista Garry Kissick, a quem conheceu em 2017 e anunciou pretensão de casamento em novembro.

No seu bate papo de despedida com Casey Dellacqua, que publicou no Instagram, Barty afirma que não tem mais a gana física e emocional para o desafio que é se manter no altíssimo nível. ‘Estou desgastada’, foi sua definição.

Uma pena em todos os sentidos, porque Barty colocou o tênis feminino num outro patamar, onde a força física deu muito mais espaço para o refino técnico e tático. Deixará enorme saudade do toque genial, da deixadinha, do voleio, do slice, mas principalmente de sua simplicidade e do bom humor. Um conjunto um tanto raro e que fazia bem demais ao circuito.

E mais

  • Na mesma terça-feira, outra notícia ruim: Rafael Nadal está com fratura por estresse em uma das costelas e isso o obrigará a ficar entre 4 e 6 semanas fora da quadra. Ou seja, de imediato ficará de fora de Monte Carlo e de Barcelona, com possível volta em Madri.
  • Há quem aposte que ele só jogue em Roma, o que seria a única preparação para Roland Garros. Ou seja, a sempre esperada fase do saibro europeu ficará drasticamente reduzida para o canhoto espanhol, que perderá 680 pontos no ranking.
  • Excepcional atuação de Bia Haddad Maia em sua estreia de Miami, voltando a jogar um tênis agressivo e consistente diante de Nuria Parrizas, 49ª do ranking, para quem havia perdido os dois duelos anteriores. Agora, vem um desafio enorme: Maria Sakkari.
  • Medvedev precisa de semi em Miami para recuperar o número 1. O caminho pode ter Murray na estreia, Bautista nas oitavas e Hurkacz nas quartas. Não está o fim dos tempos.
  • Alcaraz ficou nesse lado superior e pode ter duelos difíceis diante de Cilic e Tsitsipas. Ficaram também nesse quadrante Fritz e Aliassime.
  • Excelente entrevista de Bellucci para Felipe Priante. Recomendo a leitura.
Barty resgata anos dourados do tênis australiano
Por José Nilton Dalcim
29 de janeiro de 2022 às 13:15

A Austrália foi uma das maiores potências do tênis até que a Era Profissional embalou. A fase amadora viu gigantescas estrelas dominarem o circuito, recheando o currículo de troféus de Grand Slam. Além é claro da habilidade com a raquete, os australianos introduziram o preparo físico apurado e isso fez notável diferença.

Margaret Court, Rod Laver e Ken Rosewall ainda conseguiram brilhar no começo da fase profissional, embora não tenham tido a sorte de o ranking ter surgido em tempo hábil para classificar corretamente seus desempenhos espetaculares. John Newcombe e Evonne Goolagong apareceram como herdeiros, venceram Grand Slam na metade da década de 1970 e conseguiram liderar brevemente o ranking.

Apesar de alguns grandes nomes terem surgido no masculino e resgatado o passado de ouro, como Lleyton Hewitt, Patrick Rafter e Pat Cash, o feminino nunca mais conseguiu ter uma australiana à altura de sua história. Até que surgiu Ashleigh Barty. Como todo mundo sabe, por pouco ela não se aposentou precocemente. Para sorte do tênis, voltou em 2017 e levou apenas duas temporadas para atingir sucesso com um estilo tão admirável.

Ao conquistar neste sábado seu terceiro troféu de Slam, tendo agora um em cada piso possível, e número 1 do mundo por mais de 100 semanas, Barty se firma como maior nome do tênis australiano ao menos dos últimos 40 anos. É também uma resposta convincente para aqueles que a criticaram quando não aceitou voltar ao circuito pós-covid em 2020 e a acusaram de se valer do congelamento do ranking.

Barty reintroduziu no tênis feminino a supremacia da habilidade sobre a força. Não que possua um saque ruim ou golpes pouco contundentes, mas a base primordial está na criação tática das jogadas, na variação de velocidades e efeitos. E para completar, irradia alegria, simplicidade, bom humor e prazer. Daí é fácil entender por que ganhou o status de ídolo esportivo local.

É bem verdade que a final deste sábado contra Danielle Collins não foi seu melhor momento no torneio. As duas pareciam nervosas demais no primeiro set. A norte-americana enfim se soltou, bateu na bola e deu seus gritos, embalou 5/1 e parecia às portas de um terceiro set imprevisível. Mas Barty reagiu e subiu de nível, voltando a dificultar os ataques de Collins. O saque fez muita diferença: 10 a 1 em aces, 82 a 63% de pontos com o primeiro serviço.

Aos 25 anos, idade bem próxima a de suas principais rivais, Barty só precisa manter a motivação e evitar contusões para escrever um capítulo todo seu na história do tênis feminino.

E mais

  • Além do 21º troféu, Nadal pode repetir Djokovic e também ter ao menos dois títulos em cada Slam. Seria a primeira vez que o espanhol somaria mais Slam do que Federer.
  • Nadal e Djokovic ganharam 12 dos últimos 14 Slam. As exceções foram Thiem e Medvedev. Russo perdeu as primeiras finais de Slam que fez contra Nadal e Djokovic, mas depois bateu o sérvio.
  • Medvedev pode ser o quinto profissional a vencer o torneio após salvar match-point. Newcombe, Kriek, Edberg e Safin também o fizeram.
  • Medvedev ganhou 4 de seus últimos 6 jogos diante de top 5. Em quadra dura, ele tem 9-15 na carreira. Já Nadal perdeu suas últimas quatro partidas e sua marca geral é de 27-43 no piso.
  • Os dois chegam à final com esforço muito parecido: Nadal passou 17h04 em quadra e Medvedev, 17h29. Russo ganhou 5 de 7 tiebreaks, espanhol só jogou um e venceu.
  • Nadal pode chegar ao sétimo Slam após os 30 anos e ficar um atrás de Djokovic. Com 4, aparecem Federer, Laver e Rosewall.
  • Jogo começa às 5h30 (de Brasília) e não há previsão de chuva. Será apenas o segundo jogo noturno de Rafa na campanha deste ano, já que ele pediu para jogar sempre de dia.
  • Pouco antes, à 1h, Bia Haddad Maia busca o título de duplas ao lado de Danilina numa missão muito dura diante de Krejcikova/Siniakova, as líderes do ranking e campeãs olímpicas. O título valerá US$ 435 mil para a parceria, as vices ficam com a metade.
  • Mais festa australiana: Kyrgios e Kokkinakis foram claramente apoiados pelo público e se tornaram a primeira dupla local a ganhar o torneio desde os Woodies em 1997. Os dois tiraram Mektic/Pavic logo na estreia e agora aparecerão no top 50 do ranking, além de ter grande chance de disputar o Finals de Turim.
  • Nascido em São Paulo mas radicado nos EUA desde criança, Bruno Kuzuhara ganhou o juvenil após incrível esforço de 3h43 em que o vice Jakub Mensik passou tão mal que sequer foi à cerimônia de premiação. Bruno, de 17 anos, falou em português e japonês. Ele era o cabeça 1 e pode aparecer no top 3 do ranking. O título feminino ficou com a croata Petra Marcinko, também favorita.
Só Medvedev pode impedir o 21. Outra vez.
Por José Nilton Dalcim
28 de janeiro de 2022 às 12:10

Daniil Medvedev está de novo no caminho da história. Há quatro meses, impediu de forma categórica que Novak Djokovic realizasse um dos maiores feitos do tênis e ainda por cima chegasse ao 21ª troféu de Grand Slam. Agora, é o único que pode impedir Rafael Nadal de se isolar como o maior campeão de Slam. Às 5h30 de domingo, ele buscará suas façanhas particulares e abrirá as portas para o número 1. O Australian Open não poderia terminar de forma mais eletrizante.

Tal qual aconteceu em 2017, Rafa chegou pouco cotado a Melbourne, obrigado a se afastar do circuito desde julho devido ao problema crônico no pé. Para piorar, ainda contraiu covid e atrasou a preparação. Não empolgou com o título de 250 conquistado pouco antes e tudo isso o colocava atrás na lista dos favoritos. Sua capacidade de superar desafios o levou a evoluir rapidamente ao longo das rodadas, viu o temido duelo com Alexander Zverev sair do caminho e usou o máximo de sua experiência na reta final. Terá a quinta chance de repetir o título já longínquo de 2009 e se recolocar na discussão sobre quem afinal é o Goat.

Medvedev ao contrário era dado como favas contadas, ainda que suas apresentações na ATP Cup tivessem oscilado. A trajetória no entanto se mostrou mais difícil do que o imaginado quando sorteada a chave, já que Nick Kyrgios e Maxime Cressy chegaram a tirar um set e, mais tenso ainda, Felix Aliassime o encarou de frente e ainda teve match-point para acabar com a festa. Mostrou por algumas vezes estar com os nervos à flor da pele, fez papelão nesta sexta-feira ao gritar com o árbitro porém recuperou a frieza sempre na hora certa. Se ganhar domingo, será o primeiro tenista da Era Aberta a vencer seu segundo Slam imediatamente após o primeiro.

Os dois sets iniciais de Nadal na semi contra Matteo Berrettini foram assustadores, lembrando o jogo contra Denis Shapovalov. Mesmo com teto fechado, o espanhol comandou a partida diante de um italiano incrivelmente frágil. Rafa por certo o surpreendeu ao se posicionar perto da linha para encarar o poderoso saque adversário e golpeou sempre a devolução de segundo serviço com um pé já dentro da quadra. Isso encurtou o tempo de reação de Berrettini e seu backhand foi um fiasco. Mesmo na postura ofensiva, disposto claramente a encurtar pontos, Nadal cometeu apenas sete erros nesses dois sets contra 24 do perdido oponente. Massacre.

Só então Berrettini conseguiu fazer aquilo que foi sua marca no torneio: sair do aperto com o primeiro serviço. Encarou games longos, achou enfim um ritmo lá da base e até foi firme à rede. Isso forçou Nadal a recuar cada vez mais e de repente lá estava ele atrás do ‘Melbourne’, sinal de que precisava agora de muito mais tempo para se defender e contraatacar, embora isso custasse abrir ângulos. O italiano esteve bem perto de esticar o quarto set, mas cometeu erros absurdos com o forehand, tanto num 15-30 decisivo como logo em seguida na perda final do serviço, em que mandou três direitas no meio da rede. Aí é pedir demais frente um adversário com a categoria do espanhol.

O reencontro entre Medvedev e Stefanos Tsitsipas foi talvez o jogo de melhor qualidade técnica do torneio, especialmente o primeiro set. Os dois se encararam em batalha de tirar o fôlego e o grego mostrava uma leitura magnífica, com backhand muito consistente, transições à rede atrás das bolas anguladas, saque preciso e devoluções agressivas. Exigiu o máximo do russo e sua única falha foi também a mais crucial: desperdiçar o 4-1 no tiebreak. Mas ele não se perturbou, seguiu na mesma balada para faturar o segundo set e levar Medvedev à loucura.

Após discussão muito ríspida com o árbitro Jaume Campistol ao ser quebrado e outra frase muito irônica no intervalo, sempre se referindo às instruções do pai Apostolos, Medvedev quase se perdeu no começo do terceiro set, o que poderia ser desastroso. Segurou a cabeça, evitou dois break-points com coragem e daí em diante perdeu um único ponto com o serviço. Ao permitir a quebra no game final do set, Tsitsipas enfim se rendeu e parecia não ter mais pernas para manter o ritmo ofensivo alucinante, chegando geralmente um passo atrasado. Só acertou dois voleios. Coincidência ou não, a partir do terceiro set a comissão de arbitragem colocou a grega Eva Asderaki pertinho de Apostolos.

Como todos devem se lembrar muito bem, Nadal e Medvedev farão a segunda final de Slam entre si, remetendo à emocionante decisão do US Open de 2019, em que o espanhol abriu 2 sets a 0 e depois levou um grande susto. Pouco antes, haviam lutado pelo título do Masters canadense, então com vitória super fácil de Rafa. Ainda no final de 2019, o espanhol venceu na fase classificatória do Finals com 7/6 no terceiro set. Um ano depois. enfim Medvedev venceu no mesmo Finals e de virada.

Claro que o russo evoluiu muito desde então, principalmente na forma de encarar os grandes nomes do circuito. Rafa sabe que terá de mudar radicalmente de estratégia e fazer o adversário correr sempre para a direita, já que o forehand defensivo é o golpe menos eficiente do russo. Os dois devolvem muito atrás da linha, sempre com objetivo de entrar em todos os pontos. Tecnicamente, Nadal tem mais recursos, isso não se discute, porém um duelo muito longo tende a ajudar o número 2 do ranking. Quem sabe, seja sua ideia principal.

E mais

  • Barty tenta às 5h30 deste sábado um feito de peso no circuito: ganhar um Slam em três pisos diferentes, algo que gente do gabarito de Monica Seles, Justine Henin, Venus Williams, Kim Clijsters e Arantxa Sanchez não conseguiram.
  • Primeira tenista da casa numa final em 42 anos e na luta para dar um título feminino que a Austrália não vê desde 1978, pode haver um considerável peso sobre a líder do ranking.
  • Collins faz primeira final de Slam aos 28 anos, já se garantiu no top 10 e venceu Barty no duelo mais recente, há um ano, em Adelaide, depois de sofrer três derrotas.
  • Os estilos são diferentes. Collins joga mais reto e busca pontos curtos, o que exigirá enorme precisão contra Barty, que se defende muito bem com slices e tem sacado com grande qualidade. O título também vale pouco mais de US$ 2 milhões.
  • Logo depois, às 7h30, a Austrália verá final caseira nas duplas masculinas, com parcerias surpreendentes. Kyrgios/Kokkinakis derrubaram os cabeças 1, 3, 6 e 15, enquanto Ebden/Purcell tiraram os 2, 4, 10 e 13.
  • Mladenovic e Dodig ganharam as mistas. A francesa tem agora oito Slam, sendo três nas mistas, e o croata chega ao sexto troféu, sendo quatro nas mistas.