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Djokovic e Berrettini, a final mais lógica
Por José Nilton Dalcim
8 de julho de 2021 às 19:50

Há uma distância abismal entre a experiência e o currículo de Novak Djokovic para os demais semifinalistas deste Wimbledon. Cinco vezes campeão e imbatível na superfície há 18 jogos, é o único dos quatro que já decidiu um Grand Slam e também a ter atingido uma semi no All England Club, sem falar que está no ápice de sua forma e no grau máximo de confiança.

A diferença para seu adversário desta sexta-feira é tão ampla quanto o retrospecto de 6 a 0 nos confrontos diretos. Aos 34 anos, 12 a mais que o canhoto Denis Shapovalov, entrará outra vez na mágica Quadra Central com 15 de suas últimas 16 semifinais de Slam vencidas. O canadense atinge seu maior resultado nesse nível de competição.

O italiano Matteo Berrettini também tem diversas vantagens sobre o polonês Hubert Hurkacz. Será sua segunda tentativa de chegar numa final de Slam, repetindo o US Open de 2019, e tem na galeria dois troféus sobre a grama, um deles há quatro semanas, ali pertinho, no Queen’s Club. Nos duelos diretos, há um empate sobre a quadra dura.

Vejam as principais curiosidades das semifinais masculinas:

– Wimbledon não via três estreantes em semifinais desde Nadal, Bjorkman e Baghdatis, em 2006.
– Se atingir 7ª final, Nole iguala Becker e Sampras. Chegará também a 30 em Slam, apenas 1 atrás de Federer. A última vez que perdeu uma semi em Wimbledon foi em 2012, tendo vencido cinco seguidas.
– Shapovalov tirou 2 sets de Djokovic nos seis duelos, ambos na quadra dura e um deles em Slam (AusOpen de 2019).
– Djokovic ganhou 23 de seus últimos 24 confrontos diante de canhotos em Slam (a exceção foi Nadal em Paris-2020). Na carreira, sua marca é de 124-38 frente a canhotos.
– Canadense tem recorde negativo na carreira em tiebreaks (53-62) e na temporada (5-9). Djoko está empatado em 2021, com 8-8.
– Sérvio ganhou 9 dos 10 jogos que chegaram ao quinto set em Wimbledon, com única derrota para Ancic em 2006. Shapovalov jogou dois e venceu, ambos nesta edição.
– Último canhoto a decidir o torneio foi Nadal, em 2011. Espanhol também foi último a ganhar, em 2010.
– Shapovalov tenta ser terceiro canadense numa final em Wimbledon, repetindo Raonic (2016) e Bouchard (2014). e o quarto em Slam, juntando-se também a Andreescu, única a ser campeã.
– Berrettini e Hurkacz tentam ser os primeiros tenistas de seus países a decidir o torneio. O último italiano na final de um Slam foi Panatta (Paris-1976). A Polônia teve apenas mulheres finalistas, com Radwanska em Wimbledon e Swiatek em Paris.
– Berrettini é agora único de seu país na história a ter ao menos oitavas nos quatro Slam.
– Hurkacz pode bater o terceiro top 10 na semana, após tirar Medvedev e Federer. Também ganhou de Tsitsipas e Rublev rumo ao título de Miami, em março.
– Berrettini ganhou todos seus 10 jogos na grama em 2021.
– Quando chegou ao torneio, polonês vinha de seis derrotas seguidas e não vencia jogos desde abril.
– Italiano e polonês estão muito bem nos tiebreaks nesta temporada: 13-4 para Berrettini e 11-3 para Hurkacz

Nova campeã no sábado
Wimbledon terá certamente uma nova campeã neste sábado e os Grand Slam também poderão ter um nome estreante na lista. Ashleigh Barty jogou como digna número 1 do mundo nesta quinta-feira num embate de ótimo nível diante de Angelique Kerber e tenta ganhar seu segundo troféu de Slam em superfícies tão distintas como o saibro e a grama.

Karolina Pliskova mostrou sangue frio e maturidade para virar o jogo contra Aryna Sabalenka, no imaginado duelo de força: 38 a 32 nos winners, sendo 18 a 14 nos aces, para a bielorrussa. A tcheca de 29 anos ganha assim a oportunidade de lutar pela segunda vez por um inédito troféu de Slam, cinco anos depois de ter sido vice no US Open. Ela chegou a liderar o ranking meses depois e ficou na ponta por oito semanas.

Barty ganhou o título juvenil de Wimbledon quando tinha 15 anos e agora tenha encerrar longo jejum de seu país na galeria feminina do Club. A última a vencer foi Evonne Goolagong, bicampeã em 1980, ídolo que Barty resolveu homenagear neste ano ao vestir o mesmo traje da célebre campeã de 50 anos atrás. No masculino, a Austrália não triunfa em Wimbledon desde Lleyton Hewitt, em 2002.

A ótima campanha nestas duas semanas é uma volta por cima para Pliskova, que amargou aquela triste ‘bicicleta’ na final de Roma e, pior ainda, acabou por deixar o top 10 pela primeira vez desde 2016 justamente no dia que começou o Slam da grama. Suas seis vitórias já a recolocam no sétimo lugar e o eventual título, em quarto. Seria mesmo uma redenção espetacular.

O histórico entre as duas finalistas aponta vantagem de 5 a 2 para Barty. Elas se cruzaram há muito tempo na grama, em 2012 e 2016, com uma vitória para cada lado, e no momento Barty tem três triunfos seguidos, incluindo o saibro de Stuttgart, em maio, com 7/5 no terceiro set.

Federer cai feio e agora é Djoko contra sonhadores
Por José Nilton Dalcim
7 de julho de 2021 às 17:44

Horas depois de marcar virada notável sobre o número 2 do mundo, o polonês Hubert Hurkacz avisou: “não vou tremer diante de Roger (Federer)”. E cumpriu com máximo louvor. Jogou de forma sólida, aproveitou todas as chances de ser agressivo, foi preciso nos contragolpes e não se importou com o natural apoio da torcida ao multicampeão. Encerrou a atuação de gala com um histórico ‘pneu’ em cima daquele que o inspirou a jogar lá na infância. E diante da qualidade demonstrada, sua primeira semi de Grand Slam pode não ser ainda seu limite neste Wimbledon.

Hurkacz tem tido uma evolução constante, mas nem sempre tão vistosa. Ganhou seu primeiro ATP às vésperas do US Open de 2019, mas dois meses antes havia levado Novak Djokovic a um duro quarto set lá mesmo em Wimbledon, já mostrando qualidades sobre a grama. No final de 2020, juntou-se a Felix Aliassime para conquistarem o primeiro Masters 1000 da carreira e isso parece ter dado confiança ao polonês. Em março deste ano, faturou outro Masters, desta vez em simples, em cima de Stefanos Tsitsipas, Andrey Rublev e Jannik Sinner, pouco depois de ganhar Delray contra Sebastian Korda.

O polonês – que não tinha currículo expressivo nos Slam, com apenas seis vitórias em 18 jogos até este Wimbledon – chama a atenção pela mobilidade em quadra, mesmo com 1,96m. Além de um saque afiado, possui golpes firmes dos dois lados, devolve com categoria e sabe se virar muito bem junto à rede. Contra Federer, mostrou algumas vezes também habilidade, como um lob milimétrico ao buscar uma bola curta e baixa, além de disparar perfeitos drop-shots.

Cruzará na sexta-feira pela segunda vez com outra sensação deste Slam, o italiano Matteo Berrettini, que repete campanha do US Open do ano passado e obviamente sonha com sua primeira grande final. Os duelos anteriores foram na quadra dura, com vitória do italiano no quali do Australian Open-18 e vingança do polonês em Miami-19. Apesar de ter cedido um set ao amigo Felix Aliassime e passado alguns apertos com o ataque constante a seu backhand, Berrettini soube ter paciência para achar a hora certa de fulminar seu magnífico forehand sobre o jovem canadense. Mas os dois erraram muito:  45 a 41.

O futuro de Federer
E claro fica a pergunta: o que será de Federer após sua pior derrota em Wimbledon e o quinto 6/0 sofrido em toda a carreira? Imagino que sua equipe terá a dura missão agora de motivá-lo, porque após a queda no tiebreak do segundo set vimos um suíço muito semelhante àquele que desabou no terceiro set de Halle frente a Aliassime, ou seja, total falta de poder de reação.

E muito mais do que física, ainda que tenha ficado evidente sua falta de pernas para fugir de determinadas bolas ou chegar inteiro em outras, a parte mental de Federer nunca pareceu à vontade neste Wimbledon. E isso tenho destacado desde a estreia. Seus primeiros sets contra Richard Gasquet, Cameron Norrie ou Lorenzo Sonego não pareceram naturais. Demorou sempre para ganhar confiança e desta vez Hurkacz o abafou e não lhe deu o tempo imaginado. A imagem do set final não foi ruim apenas no placar, mas principalmente na atitude perdida, sem alternativa tática.

Teremos de esperar para ver se ele realmente vai confirmar a presença em Tóquio, o que exigirá viagem longa, troca de fuso e adaptação ao terceiro piso diferente em seis semanas. Quem sabe, no entanto, o clima da família olímpica não lhe dê a descontração necessária para finalizar a temporada de forma positiva. Apesar de eu imaginar que este Wimbledon tenha sido sua última chance de levantar um troféu de Grand Slam, boas campanhas no piso duro norte-americano podem fazê-lo acreditar em 2022.

Faltam só mais dois para Djokovic
Com 15 sets vencidos seguidamente com pouquíssimos sustos desde o ligeiro tropeço lá da estreia neste Wimbledon, o hexacampeonato se aproxima e com ele o tão sonhado 20º troféu de Grand Slam. Talvez por isso, e somente por isso, Novak Djokovic tenha mostrado pequenas oscilações na sempre traiçoeira quadra de grama. Mas o número 1 está sobrando em qualidade e confiança. Atingiu nesta sexta-feira mais uma série de números arrepiantes: 100 vitórias na grama, 10 semis em Wimbledon e 41 semis em Slam, agora apenas cinco atrás do recordista Federer.

A atuação contra Marton Fucsovics foi até um tanto burocrática e por vezes o jogo se tornou mera troca de bolas de fundo de quadra. Nole sabia que nesse tipo de situação o húngaro dificilmente teria regularidade para ameaçar. E assim disparou com 5/0 antes de enfim o adversário arriscar mais e diminuir a surra. O sérvio soube esperar o momento da quebra no segundo set, forçando devoluções, e já abriu a série final com quebra para liquidar as esperanças do húngaro, que ainda assim lutou até o fim. Economizando energia, Djokovic fez até menos winners (23 a 24) e quase os mesmos erros (30 a 31).

Para atingir sua sétima final em Wimbledon, vai encarar um jovem ‘freguês’, o canhoto e habilidoso Denis Shapovalov, a quem já derrotou por seis vezes. Aos 22 anos, o canadense é outro em sua primeira semi de Slam e tem feito uma campanha admirável na grama, um piso que combina com seus golpes ousados mas onde raramente havia obtido sucesso. No Club, havia ganhado uma só partida até 2021, mas desta vez conseguiu controlar a impetuosidade exagerada, mostra um backhand muito mais sólido e não deixa de aproveitar qualquer chance para praticar seus voleios tão bem feitos.

Ganhou de Karen Khachanov no segundo jogo de cinco sets deste torneio com estatísticas novamente expressivas: 17 aces (mas 10 duplas faltas), 63% de primeiro saque (com 86% de pontos vencidos), 5 de 19 break-points aproveitados, 59 winners e 48 erros, com 29 pontos em 40 subidas à rede. Será um volume capaz de ser competitivo diante de Djokovic? Os dois se cruzaram em fevereiro na ATP Cup e o sérvio ganhou por duplo 7/5. O confronto pode ser um espetáculo se Shapovalov sacar muito e suportar as bolas pesadas nas trocas.

Grandes semifinais femininas
Embora duas postulantes ainda sonhem com o primeiro Slam e apenas uma tenha chegado à final de Wimbledon, as semis femininas reúnem jogadoras bem experientes no circuito. Como bem destaca Mário Sérgio Cruz no TenisBrasil, elas acumulam 50 títulos de WTA e 125 semanas como número 1. E todas têm estilo muito adequado ao jogo sobre a grama.

Ashleigh Barty e Angelique Kerber fazem o duelo das campeãs de Slam. A australiana de 25 anos busca o segundo troféu e a canhota alemã, de 33, o quarto e o segundo em Wimbledon. Os confrontos empatam por 2 a 2, todos na quadra dura e nenhum depois de 2018. Completamente aberto, já que as duas adoram trocar o ritmo e os efeitos.

Aryna Sabalenka e Karolina Pliskova tentam o primeiro Slam. Para a tcheca de 29 anos, a espera é mais penosa. Ela já decidiu o US Open em 2016 e liderou o ranking. Seis anos mais jovem, a bielorrussa nunca chegou tão longe num Slam e leva vantagem de ter vencido os dois duelos anteriores. Gostam acima de tudo de espancar a bola e rapidamente definir os pontos, então vai depender muito do dia mais feliz.

Urso perde e se conforma
Por José Nilton Dalcim
6 de julho de 2021 às 20:34

Ao contrário do que muitos apostavam, Daniil Medvedev perdeu no complemento de seu jogo suspenso na segunda-feira pela chuva e não reclamou de nada, nem de jogar no terceiro estádio, muito menos da mudança para uma quadra coberta no mesmo dia. Nada. O russo conformou-se: o único motivo de sua queda nas oitavas de final foram, a seu próprio julgamento, os dois piores sets que jogou desde maio.

Ao mesmo tempo, o polonês Hubert Hurkacz deixou extremamente claro que a paralisação pela chuva foi tudo o que ele poderia querer naquela altura da partida, quando perdia por 2 sets a 1 e tinha pequena vantagem de 4/3, mas com saque do Urso. Vejamos o que o campeão de Miami afirmou: “A chuva foi crucial para mim. Pude estudar calmamente (com meu treinador) o que não estava fazendo direito, recalcular a parte tática”.

E foi bem assim. Hurkacz quebrou logo de cara, fechou o quarto set e ganhou enorme confiança para concretizar a virada num quinto set muito bem jogado, onde o saque calibrado e os golpes de base mais bem ajustados fizeram a diferença.

Está pela primeira vez nas quartas de final de um Grand Slam, considera uma honra enfrentar agora Roger Federer, mas o necessário respeito não significa submissão. Hurkacz entrará para vencer e precisará novamente elaborar uma boa estratégia, porque é muito provável que terá de encarar  venenosos slices o tempo todo. Aliás, o adiamento lhe deu outro ponto positivo: “Pude sentir o clima de jogar na Central”. No único duelo diante de Federer, o suíço venceu em sets diretos em Indian Wells-2019, um piso bem mais lento.

As quartas de final masculinas começam às 9 horas desta quarta-feira com o interessante embate entre Karen Khachanov e Denis Shapovalov, que buscam inédita semi de Slam e se enfrentaram apenas uma vez, com vitória do canadense. Pode-se esperar um jogo mais tenso e certamente os erros não forçados farão diferença. Meia hora depois na Central, Novak Djokovic é favorito contra Marton Fucsovics, a quem já venceu duas vezes, em 2018 e 2019, para atingir uma notável 10ª semi em Wimbledon, a 41ª de Slam e nada menos que 100 vitórias na grama. O húngaro tirou Sinner, Schwartzman e Rublev neste torneio.

Os amigos Matteo Berrettini e Felix Aliassime fazem o outro jogo da Quadra nº 1, e o italiano certamente é o mais cotado para atingir a segunda semi de Slam de sua carreira. Ganhou o único duelo entre os dois na final de Stuttgart de 2019, sobre a grama. Por fim, Federer e Hurkacz fecham a Central. O suíço tenta 14º semi no torneio e 47ª de Slam, assim como a 370ª vitória em Slam.

Enfim, lógica total no feminino
Não houve surpresas e sequer set perdido para as quatro favoritas que entraram em quadra para buscar a semifinal de Wimbledon. Ashleigh Barty passeou em cima de Alja Tomjanovic e garante assim sua permanência na liderança do ranking.

Seu adversária de quinta-feira será a campeã de 2018 Angelique Kerber, que após um longo período sem resultados excepcionais volta à penúltima rodada de um Slam e, mais do que isso, a demonstrar um tênis sólido e muita perna, aos 33 anos. Também passou fácil por Karolina Muchova. Já foram quatro confrontos entre Barty e Kerber, com empate. Promete muito!

Aryna Sabalenka e Ons Jabeur fizeram talvez o jogo mais equilibrado do dia. O primeiro set foi decidido nos detalhes e a tunisiana teve chance de reagir, mas desperdiçou break-points essenciais e não teve a precisão das outras partidas. A bielorrusa de 23 anos não sentiu pressão por jogar suas primeiras quartas de Slam.

Karolina Pliskova continua sem ceder set, chega na semi do único Grand Slam em que não havia ido tão longe. Sacou muito, vencendo 75% dos pontos com o serviço, e reage depois de perder na estreia nos dois preparatórios para Wimbledon, sem falar na histórica ‘bicicleta’ em Roma. Nos duelos contra Sabalenka, perdeu ambos, um deles na grama. Tenta repetir final do US Open de 2016.

Afinal das contas, após tantas surpresas, as semifinais serão as melhores possíveis. De um lado, Barty ou Kerber tentará um novo Slam; do outro, Sabalenka ou Pliskova, o primeiro.