Arquivo da tag: Arthur Ashe

Começo animador
Por José Nilton Dalcim
15 de novembro de 2020 às 18:39

Rafael Nadal e Dominic Thiem fizeram belas apresentações e saíram vencedores na abertura do grupo 2 do ATP Finals de Londres, o maior título que o canhoto espanhol jamais conseguiu e talvez tenha sua última grande chance em 2020.

Tudo funcionou à perfeição para o canhoto espanhol. Sacou muito bem – e explorou com inteligência o corpo do russo Andrey Rublev -, foi ofensivo nas trocas de bola com o forehand e muitas vezes com a devolução, arrumou seus notáveis contra-ataques. Ao estreante faltou é claro paciência, no conhecido abuso da força. Quando jogou longe a raquete logo ao sofrer a primeira quebra, demonstrou o tamanho da ansiedade.

Thiem e Stefanos Tsitsipas por sua vez reeditaram a final do ano passado e surpreenderam pelo nível muito bom apresentado, afastando qualquer preocupação com contusão ou falta de entusiasmo. Embora tenha sido mais versátil, o grego pecou em pontos importantes, principalmente depois de ter 5-3 no tiebreak do set inicial. Poderia ter ido mais à rede. Me pareceu ter respeitado demais os contragolpes de Thiem, que só não me convenceu com um segundo serviço por vezes curto demais. Agradou acima de tudo a cabeça do austríaco, bem focado.

Os vencedores de hoje se cruzam na terça-feira. Dos 14 duelos entre Nadal e Thiem, apenas dois não foram no saibro e aí o placar está empatado. Dez meses atrás, o austríaco ganhou aqueles três tiebreaks das quartas do Australian Open, num piso mais veloz do que este da O2. Vai ser interessante, principalmente porque os dois devem jogar soltos depois da vitória de estreia.

O jogo decisivo entre Tsitsipas e Rublev é totalmente imprevisível: empatam por 2, com uma vitória para cada um na temporada, ambas no saibro. Na dura, Rublev venceu no US Open do ano passado em quatro sets e o grego levou a melhor no Next-Gen, que convenhamos não é realmente um jogo normal.

Melo perde a primeira
Como se esperava, o torneio de duplas deste Finals já mostra um tremendo equilíbrio. Os dois primeiros jogos foram ao match-tiebreak. Pena que Marcelo Melo e o polonês Lukasz Kubot saíram derrotados logo de cara, mas isso nem de longe tira suas chances de ir à semifinal.

Kubot devolveu muito bem a maior parte do tempo, porém a precisão sumiu justamente no desempate crucial. E olha que Joe Salisbury fez algumas tremendas bobagens na partida, bem menos sólido que o veterano Rajeev Ram.

Como é norma no Finals, na terça-feira duelam os perdedores e então Melo e Kubot precisam reagir diante dos alemães Krawietz/Mies, a quem a parceria do mineiro venceu dias atrás na semi de Viena, num placar bem duro.

50 anos do Finals
A ideia de realizar um torneio nobre para finalizar a temporada foi ‘roubada’ do WCT. O circuito profissional da ITF adotou o padrão de juntar os melhores do ano e fez o primeiro ‘Finals’, então chamado ‘Masters’, em Tóquio, patrocinado pela Pepsi. Os seis homens jogaram todos contra todos e Stan Smith ganhou quatro dos cinco jogos (entre eles contra Rod Laver e Ken Rosewall), faturando US$ 15 mil. Também ganhou duplas ao lado de Arthur Ashe.

Boa hora para lembrar o boicote de Wimbledon
Por José Nilton Dalcim
19 de junho de 2013 às 20:56

Num momento em que tantas manifestações públicas explodem pelo país para tentar modificar nossa história, nada mais apropriado do que lembramos os exatos 40 anos do boicote dos tenistas a Wimbledon. Um movimento tão forte, inesperado e contundente que levou ao fortalecimento definitivo da ATP.

Tudo começou quando a Associação Iugoslava decidiu suspender Nikki Pilic, que havia se recusado a disputar um confronto de Copa Davis. Os organizadores de Wimbledon acataram o pedido de não aceitar a inscrição de Pilic e a revolta foi geral. Nada menos que 81 jogadores decidiram não competir no Slam britânico. Assim, o título caiu no colo do tcheco Jan Kodes.

A confusão começou uma semana antes do torneio, mas foi o estopim de uma longa crise que se instituiu no tênis desde o início da Era Profissional. Em 1968, pressionados justamente pelos britânicos, os dirigentes da Federação Internacional tiveram enfim de autorizar a participação dos profissionais nos seus torneios, que eram os mais importantes do calendário. Nisso se incluíam todos os Grand Slam e a Copa Davis. Foi o que se chamou de Era Aberta.

Mas havia muita divergência, porque várias grupos representavam interesses de diferentes tenistas. Não havia unidade, nem a ITF sabia a quem se reportar. Uma entidade, chamada de Associação dos Tenistas Profissionais, havia sido fundada durante o US Open de 1972, sob o comando do peso pesado Jack Kramer.

A suspensão da Federação Iugoslava a Pilic por nove meses foi anunciada durante Roland Garros. O jogador apelou junto a ITF, que reduziu a pena para 30 dias. Porém, como Wimbledon acontece apenas duas semanas depois de Paris, ele não poderia jogar. Houve um pedido direto para Wimbledon aceitar sua inscrição, mas o Club consultou a ITF e manteve a punição.

A ATP então se reuniu durante o torneio de Queen’s e 70 tenistas decidiram não jogar Wimbledon caso Pilic fosse impedido de competir. “Era um jogo sobre quem controlaria o tênis, tendo a ATP, a ITF e o próprio torneio de Wimbledon, que sempre foi o mais importante de todos, no campo de batalha”, conta Kodes, em livro lançado recentemente sobre a história do esporte em seu país. “Wimbledon bateu o pé e realizou o torneio”.

A lista original de cabeças de chave tinha Stan Smith, Ilie Nastase, John Newcombe, Arthur Ashe, Ken Rosewall, Tom Okker, Marty Riessen, Roy Emerson, Tom Gorman, Cliff Richey, Adriano Panatta, Manolo Orantes, John Alexander, Bob Lutz, Kodes e Roger Taylor. “Eu ainda não era membro da ATP, assim como não eram Nastase, (Bjorn) Borg e (Jimmy) Connors”, lembra o tcheco.

Smith, Newcombe, Panatta, Okker, Gorman e Orantes imediatamente aderiram ao boicote, sendo seguidos por Ken Rosewall..Com isso, Wimbledon determinou apenas oito cabeças de chave: Nastase, Kodes, Taylor, Metreveli, Connors, Borg, Davidson e Fassbender. O tcheco revela que Taylor foi ameaçado de expulsão do All England Club e forçado a jogar. E a chave não diminuiu, permanecendo com 128 participantes.

Apesar de o torneio de 1973 ter sido um sucesso – Wimbledon teve seu segundo maior público da história até então -, a ATP ganhou a quebra de braço e ficou com enorme prestígio, firmando-se como principal entidade do tênis masculino, o verdadeiro sindicato dos jogadores. Como ação imediata e mais importante, apenas dois meses depois, em agosto, criou o sistema matemático do ranking, que passou a ser o único formato aceitável para determinar quem disputaria cada torneio. Dai seu nome de “ranking de entradas”.

Não se pode dizer que o campeão Kodes fosse um anônimo. Ele já havia ganhado Roland Garros por duas vezes e foi à final do US Open de 1971, que era na grama. O tcheco se defende com bons argumentos em seu livro: “No ano anterior, fui às semifinais de Wimbledon. Eu também já havia derrotado Newcombe e Ashe na grama, bati Rosewall apenas três meses antes. Também ganhei de Laver, Okker e Riessen em quadras cobertas. Por que não poderia ter superado todos eles também nesse Wimbledon?”