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Nadal mostra força
Por José Nilton Dalcim
4 de julho de 2019 às 19:42

Num autêntico teste técnico e emocional, o espanhol Rafael Nadal mostrou força na grande vitória desta quinta-feira sobre o desafeto Nick Kyrgios, que o coloca na terceira rodada de Wimbledon. A exceção de alguns altos e baixos que permitiram duas quebras ao australiano no segundo set, o número 2 do mundo teve uma atuação notável na Quadra Central, onde se destacaram a firmeza do saque, o oportunismo nos tiebreaks e uma gigantesca vontade de vencer.

Era fácil perceber que Rafa estava com sangue nos olhos, e aí tem um pouco de tudo. A importância do torneio, o desafio de jogar na grama, o sonho por mais um Grand Slam mas, acredito, o australiano atravessado na garganta. Tanto pela amarga derrota de Acapulco como pelas declarações e condutas recentes de Kyrgios. E piorou quando recebeu uma pancada em cima do corpo. Dali em diante, Nadal festejou com vigor redobrado. O cumprimento final foi extremamente seco.

No aspecto técnico e tático, Nadal também se portou muito bem. O jogo não lhe deu muitas oportunidades, e assim foi preciso aproveitar ao máximo as que apareceram, como a quebra prematura que lhe garantiu o primeiro set e, especialmente, sua atuação sólida, impecável nos dois tiebreaks. Ganhar de um super-sacador no tiebreak exige uma enorme dose de confiança, concentração e desempenho.

Kyrgios deu seu show particular, como o segundo saque a 230 km/h e o que fez por baixo, tudo no mesmo game, além da irritante postura de reclamar com o árbitro de cadeira. Porém de forma geral até que se comportou bem e, para sorte do público, atuou com seriedade e empenho, fez ótimas jogadas tanto no fundo como na rede, o que sobrevalorizou a vitória do espanhol. Pela diferença de temperamento e estilos, os duelos entre os dois têm se pautado por qualidade e emoção.

Embora a grama seja um piso traiçoeiro, é razoável imaginar que Nadal deu um passo considerável rumo à semifinal. Há de se respeitar a experiência e categoria de Jo-Wilfried Tsonga, adversário de sábado, mas nesta altura das duas carreiras seria uma pequena surpresa se o francês elevasse tanto o nível. João Sousa, que atropelou um irreconhecível Marin CIlic, ou o habilidoso Daniel Evans viriam a seguir e por fim o currículo de Sam Querrey na grama se destaca sobre Fabio Fognini. O italiano já jogou 10 sets e nunca chegou sequer nas oitavas no Club.

Protocolo e adeus
Roger Federer por seu lado continua em marcha reduzida, jogando o suficiente para avançar. Não acredito muito na teoria de que o suíço esteja se poupando. Foi levado a um tiebreak pelo limitado Jay Clarke, porém é difícil imaginar dificuldades reais contra Lucas Pouille no sábado. Precisará de mais cautela caso dê Matteo Berretini nas oitavas e aí aguardaria Kei Nishikori, ligeiro favorito de um setor onde sobrevivem Jan-Lennard Struff e Mikail Kukushkin, autor de uma das surpresas do dia em cima de John Isner.

A rodada ainda marcou o emocionante adeus de Marcos Baghdatis, que escolheu Wimbledon para o adeus da carreira. É bem verdade que foram parcos os momentos marcantes do cipriota nos Slam desde a grande temporada de 2006, quando foi vice na Austrália e semi em Londres. Desde então, só atingiu as oitavas mais três vezes. A personalidade do ex-top 10 no entanto é o que faltará muita falta ao tênis, aquele espírito guerreiro, entre explosivo e divertido, que o tornou tão cativante e popular.

Sem Bia, sem Kerber
Uma pena Bia Haddad Maia não ter embalado. Me surpreendi com o bom tênis de base jogado pela britânica Harriet Dart, que explorou bem as paralelas e raramente permitiu que a brasileira mandasse nos pontos. Bia até foi melhor quando se arriscou na rede, mas no terceiro set pareceu estar sem movimentação ideal, talvez por conta das dores musculares que a grama provoca, e acabou presa fácil. Além do merecido prêmio de US$ 100 mil, deve aparecer no 95º posto do ranking ao final de Wimbledon.

E as ‘zebras’ não param. Derrotada no quali, Lauren Davis entrou de última hora e tirou a atual campeã Angelique Kerber, de virada, e com dois sets muito fáceis. Curioso é que Kerber havia jogado bem em Eastbourne na semana passada. Fez uma estreia sofrível em Wimbledon e hoje foi ainda pior. Aliás, faltou pouco para cair também Kiki Bertens, que viu Taylor Townsend sacar para o jogo e depois chegar a um match-point.

Nesse duríssimo setor da chave, a número Ash Barty passeou de novo e Petra Kvitova confirmou, mantendo assim as duas na luta pelo número 1. Serena Williams teve um começo fraco, com meros três winners no primeiro set, mas pegou ritmo e aí dominou a adolescente Kaja Juven, vinda do quali. Precisará jogar muito mais diante de Julia Goerges.

Sorteio quase perfeito para Djokovic
Por José Nilton Dalcim
28 de junho de 2019 às 13:47

Wimbledon formou suas chaves de simples nesta sexta-feira e provavelmente agradou muito o sérvio Novak Djokovic. Além de não ver adversários de real currículo na grama até ao menos a semi, ainda poderá assistir de camarote a um novo ‘Fedal’. Só ficaria melhor mesmo se ele pudesse trocar Stefanos Tsitsipas ou Alexander Zverev por Dominic Thiem ou Kei Nishikori, mas nada é perfeito. Duro mesmo ficou a parte superior da chave feminina. Vamos a uma análise:

Poucas ameaças a Djokovic
O líder do ranking pode ter um curioso ‘mix’ entre veteranos e novatos em sua trajetória rumo ao quinto título, mas a rigor há poucos jogadores com extenso currículo na grama a ameaçá-lo. Philipp Kohlschreiber já jogou bem no piso, mas desde que fez quartas no torneio em 2012 ele só ganhou três partidas no Club e leva sonoros 10-2 no histórico. Ainda assim, é uma estreia que necessita atenção.

Não há barreiras até as oitavas, quando a lógica diz que Gael Monfils ou Felix Auger-Aliassime seriam os adversários. O francês é totalmente imprevisível, até porque no ano passado se mostrou mais ofensivo e fez oitavas. O garoto canadense vem de dois bons torneios na grama e já cansou de mostrar qualidade, mas Vasek Pospisil logo de cara e talvez Grigor Dimitrov depois serão testes duros. O garoto não deu sorte, definitivamente.

Fico na expectativa para ver o desempenho de Stefanos Tsitsipas numa superfície em que teoricamente pode ir muito longe. Sua sequência prevê o sacador Ivo Karlovic, o ‘baseliner’ Kyle Edmund e talvez o renovado David Goffin, que se mostrou bem versátil em Halle e ganhou respeito. Mas ele também tem seus problemas, com Jeremy Chardy e Daniil Medvedev no horizonte.

A luta pela outra vaga na semi também envolve juventude e experiência. O vice Kevin Anderson é nome forte, mas só fez dois jogos desde Miami e já pega de cara Pierre Herbert, tendo ainda Nicolas Jarry e possível oitavas contra Milos Raonic, se não aparecer contusão no caminho do canadense. O outro forte candidato é Alexander Zverev. Em seu quinto Wimbledon, ainda não passou de oitavas e, em momento instável, pegar o canhoto Jiri Vesely na estreia pode ser um pesadelo. Há chance ainda de cruzar com Benoit Paire na terceira e então ter Karen Khachanov ou Roberto Bautista nas oitavas, mas não duvido nada de uma surpresa nesse setor: Feliciano López.

Vida dura para Rafa
Duas derrotas nas exibições de Hurlingham foram o preparativo de Rafael Nadal na fase competitiva para Wimbledon e, para complicar, o sorteio sugere trabalho duro, desde é claro que Nick Kyrgios jogue sério. O terceiro adversário pode ser Denis Shapovalov, Jo-Wilfried Tsonga ou Bernard Tomic, mas qualquer um merece máximo empenho. Para as oitavas, Marin Cilic surge como obstáculo e parece difícil que o vice de 2017 não some três vitórias até tranquilas.

O eventual duelo Nadal-Cilic vale muito porque parece praticamente impossível que um deles não avance à semi. O quadrante adjacente não tem um único especialista na grama: Dominic Thiem, Laslo Djere, Gilles Simon ou Fabio Fognini. Aliás, o austríaco se poupou desde Roland Garros, depende muito de boa chave para sonhar num piso tão veloz e vai estrear logo contra Sam Querrey. É bem provável que o vencedor desse jogo embale para as quartas, ainda que Simon tenha feito uma semana incrível em Queen’s.

Federer tem boa primeira semana
Os grandes tenistas costumam dizer que é importante economizar energia e pegar confiança na primeira semana de um Slam. E foi exatamente isso o que ficou reservado para o octacampeão Roger Federer. Lloyd Harris, Noah Rubin e quem sabe Richard Gasquet são a caminhada natural até as oitavas diante de Borna Coric ou do ousado Jan-Lennard Struff, um tenista que só venceu três jogos em Wimbledon em seis edições mas tem estilo para dar muita dor de cabeça na grama.

Se mantiver o favoritismo, Federer terá um adversário imprevisível nas quartas. Claro que Kei Nishikori e John Isner são os mais cotados e o gigante americano, a grande ameaça, mas Isner não joga desde Miami. Entre eles, aparece Matteo Berrettini, que parece estar em ritmo perfeito e poderia surgir como novidade, apesar de jogar apenas seu segundo Wimbledon.

Diante da perspectiva de um novo ‘Fedal’, vale lembrar que os dois nunca mais se cruzaram no Club desde a série de três finais seguidas, entre 2006 e 2008.

Grupo da morte no feminino
Não me lembro de ter visto uma quadrante tão incrivelmente equilibrado num Grand Slam como este de cima da chave feminina de Wimbledon. A nova número 1 Ash Barty e quatro campeãs do torneio lutam nessa faixa por uma vaga na semi. Notável. Estão aí a atual detentora do título Angie Kerber, que pode cruzar com Maria Sharapova na terceira fase e com Serena Williams nas oitavas. Já Garbine Muguruza tem chance de encarar Barty na terceira rodada e olha que a australiana ainda vê Sveta Kuznetsova, dona de dois troféus de Slam, numa possível segunda partida.

Quer dizer então que a campeã sairá desse apertado setor? Nada disso. Porque nessa parte de cima também ficaram outra vencedora de Wimbledon, Petra Kvitova, e a embaladíssima Kiki Bertens. É bem verdade que Kvitova ainda é dúvida para entrar em quadra e há no seu setor pelo menos três nomes a atrapalhá-la: Amanda Anisimova e depois Sloane Stephens ou Johanna Konta.

O outro lado da chave ficou obviamente mais fraco, mas não menos interessante. Naomi Osaka reencontra Yulia Putintseva, para quem perdeu em Birmingham, e pegaria na terceira fase Sofia Kenin, a campeã de Mallorca. A outra vaga nas quartas pode ser de Simona Halep, mas a estreia é um alerta diante de Aliaksandra Sasnovich, que surpreendeu Kvitova na primeira rodada do ano passado, sem falar em Vika Azarenka na terceira. Ainda estão por ali Madison Keys, Aryna Sabalenka… e Venus Williams.

Dureza para Thiago e Bia
Depois de grandes campanhas no quali, faltou sorte para Thiago Monteiro e Bia Haddad, que poderiam ter adversários menos gabaritados na estreia e assim repetir a campanha de 2017, quando o casal avançou uma rodada na grama sagrada. O cearense faz duelo inédito contra Kei Nishikori e sua importante vantagem é que o japonês não joga nada desde Paris.

Já Bia revê Garbine Muguruza, campeã de 2017 e vice de 2015, um desafio e tanto. No único duelo, fez apenas dois games em Cincinnati. No entanto, Muguruza não anda aquelas coisas no quesito confiança e a brasileira fez ótimas partidas em Ilkley e no quali. Resta torcer muito.

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Domingo morno
Por José Nilton Dalcim
26 de maio de 2019 às 18:36

A queda do semifinalista Marco Cecchinato, a grande atuação da russinha Anastasia Potapova e estádios vazios foram as primeiras surpresas da edição 2019 de Roland Garros.

Roger Federer foi o único a receber um público do tamanho do seu prestígio, mas o duelo contra Lorenzo Sonego não empolgou por culpa exclusiva do italiano, que entrou nervoso demais e foi rapidamente engolido pelo tênis variado do suíço.

Para ‘correr por fora’, como ele mesmo sintetizou na entrevista oficial, Federer precisa mesmo de jogos tranquilos nesta primeira semana. E por enquanto vai dando certo: o próximo adversário será o pouco conhecido Oscar Otte, alemão de 25 anos e 144º do ranking, que joga seu segundo torneio de primeira linha da carreira.

Se mantiver o amplo favoritismo, o campeão de 2009 cruzará com Matteo Berrettini ou Casper Ruud. E já se viu livre de Cecchinato, que levou uma incrível virada do veteraníssimo Nicolas Mahut, 37 anos. O recordista de convites em Slam marcou apenas a sétima vitória em 13 tentativas em Roland Garros. Aliás, por pouco Diego Schwartzman também não se foi, levado ao quinto set pelo bom Marton Fucsovics. El Peque fará duelo argentino com Leo Mayer, enquanto Mahut pega Philipp Kohlschreiber.

Possível adversário lá das quartas de final, o grego Stefanos Tsitsipas mandou recado e fez uma bela exibição diante de Maximilian Marterer, menos pelo placar de 3 a 0, mais pelo volume de jogo apresentado. Enfrentará agora Hugo Dellien, um jogador de toque refinado que marca a primeira vitória da Bolívia em Slam após 35 anos.

Russa surpreende
Não era segredo para ninguém que Angie Kerber não estava em sua melhor forma, mas isso não tira o mérito da russa Anastasia Potapova, ex-número 1 juvenil e que já fez duas finais de WTA. Ainda aos 18 anos, foi sua primeira vitória em nível top 10 – logo em cima de seu ídolo – e não dá para descartar uma caminhada mais longa.

Também causou decepção o tênis frágil mostrado por Venus Williams, com  34 erros diante de Elina Svitolina. Como Garbiñe Muguruza escapou da ‘zebra’ e virou bem, as duas caminham para um interessantíssimo duelo já na terceira rodada. No mesmo quadrante, aparece a vice de 2018 Sloane Stephens, que venceu sem empolgar.

Lá no pé da chave, Karolina Pliskova manteve o embalo do título em Roma, mas chegou a perder três serviços num jogo rápido de 60 minutos diante de Madison Brengle, longe de ser uma especialista no saibro.

Segunda-feira nobre
Talvez em função do público inesperadamente pequeno do domingo, a organização de Roland Garros mudou o que havia anunciado previamente e promoverá nesta segunda-feira uma super-rodada na Chatrier com Rafael Nadal, Novak Djokovic e Serena Williams.

É muito pouco usual que um Grand Slam coloque os cabeças 1 e 2 para jogar no mesmo dia, ainda que a rodada de domingo force mesmo uma mistura maior de programação entre os lados superior e inferior das chaves. Li comentários de que Nole teria pedido para jogar.

Sorte de quem for ao complexo, porque também irão para quadra Dominic Thiem, Petra Kvitova, Kiki Bertens, Borna Coric, Stan Wawrinka e Jo-Wilfried Tsonga.