Arquivo da tag: Andy Murray

Federer tenta a maior façanha
Por José Nilton Dalcim
12 de julho de 2019 às 20:16

A 27 dias de completar 38 anos, Roger Federer busca mais um feito inédito na sua carreira, e talvez o mais emblemático de todos eles: vencer um Grand Slam com vitórias sucessivas sobre os outros dois Big 3, que hoje são também os líderes do ranking. Ele teve essa chance em Roland Garros de 2011, quando tirou Novak Djokovic mas parou em Rafael Nadal, e faturou Wimbledon de 2012 em cima de Djokovic e Andy Murray.

Com uma vitória notável em cima de Rafa nesta sexta-feira na grama sagrado, o suíço lutará domingo pelo 9º título no Club diante de Djokovic, repetindo as finais de 2014 e 2015, em que foi superado pelo sérvio. O único triunfo de Federer em cima do Big 3 rumo a um título foi a incrível conquista do Finals de 2010, em que superou também Murray na fase classificatória.

É até difícil escolher qual foi a qualidade de Federer que mais me cativou na vitória de hoje. A cabeça no lugar depois de levar 1/6 no segundo set, buracos que geralmente custam tempo para o suíço absorver; ou a solidez no duelo de fundo de quadra, em que acertadamente não forçou demais o backhand para manter o ponto. Podem ter sido também as devoluções, subindo de eficiência conforme o jogo andou, especialmente as de backhand batido; ou a frieza com que encarou as excepcionais defesas de match-point que Rafa conseguiu.

Acho que faltou sim uma postura mais agressiva do espanhol, e ele admitiu isso na entrevista oficial, porém o desconto deve ser dado ao fato de Federer ter conseguido aprofundar a bola. Nadal subiu apenas 11 vezes à rede, talvez acreditando que segurar o adversário no fundo de quadra lhe daria os erros não forçados necessários. O suíço no entanto falhou bem menos do que se esperava – 27, dois a mais que Rafa – e fechou o fundamental terceiro set com 15 winners e 2 erros, apenas 5 pontos de serviço perdidos.

Vencer o arqui-rival só pode encher Federer de confiança para o outro grande desafio que terá no domingo. Pela quarta vez, Djokovic estará no caminho em Wimbledon – a única vitória veio naquela semi de 2012. Com a grama mais lenta, é de se esperar pequena mas valiosa vantagem do sérvio, que diferentemente de Nadal tem devolução agressiva e pode também optar por chegar à rede antes do oponente.

Djokovic justificou o favoritismo sobre Bautista, mas teve oscilações, tanto na execução técnica como no humor. Fez um grande primeiro set, decidido a pressionar o espanhol logo de cara, com sucessivos avanços para os voleios, mas de repente perdeu intensidade e viu o espanhol se soltar. Bautista segurou a quebra obtida e levou o segundo set, o que deixou o sérvio irritado a ponto de ironizar aplausos do público e a ameaçar a raquete.

Mas assim que recobrou a frieza, Djoko sobrou em quadra. Devolveu cada vez melhor, foi tirando os ângulos do espanhol e insistiu em alternativas inesperadas, incluindo deixadinhas e lobs. Fechou a vitória do mesmo jeito que começou, ou seja, totalmente senhor das ações. Somou 53 subidas à rede – muito mais do que as 33 de Federer – com 79% de sucesso.

Chegar ao pentacampeonato em Wimbledon, algo que poucos na história fizeram, é a primeira meta de Djokovic, que voltou a classificar o torneio como o mais importante de todos.  Mas lá no fundo ele sabe a importância de se evitar o 21º troféu de Federer. Isso aumentaria dolorosamente a distância para o recordista de Slam. Ao invés de ficar a quatro e vislumbrar o empate já em 2020, ele ficaria a seis e aí teria a necessidade de uma carreira bem mais longa.

E mais
– Djokovic entrará domingo com a vantagem de 25 vitórias em 47 partidas, tendo vencido 3 das 4 finais de Grand Slam disputadas.
– Este é o segundo duelo mais repetido na Era Profissional, atrás dos 54 entre Djokovic e Nadal, mas se torna agora o mais comum em Grand Slam, com 16, em que o placar é de 9-6 para o sérvio.
– Djoko disputará 25ª final de Slam e ficará apenas uma atrás de Nadal. Federer atinge 31.
– Ninguém fez mais finais em Wimbledon do que Federer, agora com 12. Djoko se iguala a Borg, Connors e Laver, com seis, mas está atrás de Becker e Sampras, com 7.
– Aos 37 anos e 340 dias, suíço é tenista de maior idade numa final de Slam desde Rosewall no US Open de 1974, quando tinha 39 anos e 310 dias. Outro recorde, é sua quinta final em Wimbledon após os 30 anos.
– Ao derrotar Nadal, suíço lidera a temporada 2019 em números de vitórias (38 em 42).
– Não há ameaça à liderança de Djokovic no ranking, mas Federer pode ultrapassar Nadal e assumir segundo lugar se for campeão.
– Este será o 11º título de Slam seguido do Big 3, que venceu tudo depois de Wawrinka no US Open de 2016. Nesta série, Nadal venceu 4, Federer e Djokovic levaram 3. A maior sequência foi de 18, entre Roland Garros-2005 e Wimbledon-2009.

O grande desafio
Por José Nilton Dalcim
10 de julho de 2019 às 19:57

Roger Federer pode estar diante da maior façanha de sua carreira; Se quiser recuperar o troféu de Wimbledon e erguê-lo por uma impensável nona vez, terá muito provavelmente de derrotar Rafael Nadal e Novak Djokovic. E isso parece especialmente difícil porque tanto o espanhol como o sérvio jogaram até aqui um tênis superior ao do próprio suíço.

Adversário de sexta-feira, num reencontro que não acontecia na Quadra Central desde as três finais consecutivas de 2006 a 2008, Nadal está jogando um tênis tão exuberante que Federer o encheu de elogios. Reconheceu antes de tudo que o espanhol é um tenista muito superior ao de 11 anos atrás e que está longe de ser apenas um jogador de saibro.

Federer no entanto fez seus três melhores sets no torneio diante de Kei Nishikori. Surpreendido no começo por um tênis consistente do japonês, optou por bater mais o backhand e atacar as devoluções. A virada veio quase com naturalidade, ainda que ele tenha desperdiçado muitos break-points por vezes exagerando na força com que batia na bola. Fez um lance defensivo de incrível qualidade, cruzando a quadra de uma ponta à outra para obter a passada de backhand no contrapé a 150 km/h. Os voleios… bem, os voleios do suíço dispensam adjetivos.

O backhand batido e as devoluções agressivas serão chave diante de Nadal. O espanhol no entanto está sacando demais e contra Sam Querrey incluiu mais uma variação de sucesso, com muitos serviços sobre o corpo do grandalhão. Como se esperava, o norte-americano deu trabalho e endureceu o primeiro set, mas ficou difícil viver quase exclusivamente do primeiro saque e pouco a pouco foi dominado pelo espanhol. Voleios curtos, slices e passadas milimétricas complementaram outra atuação vistosa do número 2, com nada menos do que 42 winners.

Não resta dúvida de que o 40º capítulo do ‘Fedal’, e o segundo seguido de Grand Slam, tende a roubar todas as cenas da semifinal de sexta-feira, ainda mais porque parece haver pequeno favoritismo de um lado ou de outro. No entanto, Djokovic e Roberto Bautista também podem dar um belo espetáculo, principalmente se o espanhol se livrar com rapidez do nervosismo natural da inédita presença numa penúltima rodada de Slam e se lembrar das duas vitórias obtidas em 2019 sobre o número 1.

Finalista em cinco das últimas oito edições de Wimbledon, período em que ergueu seus quatro troféus, Djokovic levou um pequeno susto com o grande começo de partida de David Goffin. Solto, leve e determinado, o belga desceu o braço, apertou todos os serviços do sérvio até obter a quebra, abrir 4/3 e 30-0. Aí virou abóbora. Passou 10 games em quadra totalmente perdido,  incapaz de fazer frente ao jogo cada vez mais acelerado do líder do ranking. Djoko atropelou o finalista de Halle dando-se ao luxo de desacelerar no terceiro set.

Bautista joga diferente. Não força tanto o saque e procura sempre um percentual alto para manter o adversário sob pressão. Bate bem mais reto na bola, o que na grama funciona bem, e fica pertinho da linha na procura dos contragolpes. Tem surpreendido em Wimbledon com idas mais frequentes à rede, média superior a 20 por jogo. O duelo contra Guido Pella foi bem divertido, os dois muito empenhados o tempo todo, games longos e chances para os dois lados. Prevaleceu o oportunismo do espanhol, que converteu 4 de 16 break-points, salvando-se em 11 de 13 chances que cedeu.

Em que pese os resultados de Doha e de Miami – houve outra vitória do espanhol nos 10 confrontos, na veloz Xangai em 2016 -, o favoritismo é todo de Djokovic porque possuiu duas grandes habilidades essenciais sobre a grama: saque e devolução.

E mais
– É a 13ª vez que o Big 3 domina as semis de um Slam e a segunda seguida. Antes disso, só haviam se reunido em Roland Garros de 2012.
– Federer se torna primeiro homem na história com 100 vitórias num mesmo Slam e assume o recorde de mais vitórias sobre a grama da Era Aberta, com 186. É ainda o mais velho semi de Slam desde Connors no US Open de 1991, quando tinha 39 anos.
– Djoko iguala as 9 semis de Becker em Wimbledon e chega a 70 vitórias no torneio, que passa a ser seu Slam de maior sucesso (tem 69 no US Open ainda a ser disputado).
– Nadal soma agora 32 semis de Slam e assim o Big 3 pontua a lista (Federer tem 45 e Djoko, 36). Os três também são os únicos a ter pelo menos 50 vitórias em cada Slam.
– É a primeira vez na história de Wimbledon que dois espanhóis estão na semi.
– Bautista retornará a seu recorde pessoal do 13º posto. Se for à final, entrará no top 10.
– Magnífica vitória de Bruno Soares e Nicole Melichar (que jogou muito!) sobre Andy Murray e Serena Williams. Cabeças 1, eles avançaram para as quartas. O escocês sai de certa forma decepcionado com as poucas vitórias com Pierre Herbert e Serena.
– Semis femininas começam às 9h com Elina Svitolina diante de Simona Halep, seguindo-se Serena contra Barbora Strycova. A aposta lógica é Halep x Serena na final de sábado. Seria a primeira da romena no Club e a 11ª da heptacampeã.

O sonho continua
Por José Nilton Dalcim
6 de julho de 2019 às 18:21

Os três maiores vencedores de Grand Slam da Era Profissional do tênis continuam sonhando em Wimbledon. Em sets diretos, Serena Williams, Roger Federer e Rafael Nadal completaram o quadro de oitavas de final neste sábado sem dar chances às zebras que atormentam os favoritos no torneio.

Serena jogou sua melhor partida da semana, num constante crescimento desde a estreia enferrujada. E Julia Goerges é uma adversária de respeito sobre a grama. Vai cruzar agora com Carla Suárez, mas sua chave continua muito dura, já que Ash Barty atravessa excepcional momento e Petra Kvitova espancou a bola, dando recado de que está totalmente recuperada. A reta final desse setor da chave promete ser eletrizante.

Rafa foi impiedoso com Jo-Wilfried Tsonga, e ratificou seu favoritismo com uma atuação de encher os olhos. É verdade que o francês está um tanto longe de seu melhor tênis, porém isso não diminui os elogios para a firmeza do espanhol no saque e sua requintada cobertura da quadra. Quando Tsonga se aventurou à rede, o espanhol achou espaços milimétricos para realizar a passada. Se mantido esse conjunto, João Sousa terá de fazer outra mágica. Primeiro português nas oitavas de Wimbledon, ele já tirou Marin Cilic e sobreviveu a um emocionante duelo com Daniel Evans neste sábado em que esteve várias vezes atrás.

Federer demorou para calibrar o backhand e viu Lucas Pouille ousado nas devoluções. Quando o semifinalista do Australian Open rendeu-se à pressão do final de primeiro set, o suíço se soltou e deu exibição na Central, alcançando bolas extremamente difíceis com soluções geniais. Federer ainda não jogou seu máximo em Wimbledon, mas nem precisou. O embalado Matteo Berrettini, uma das grandes surpresas da temporada, talvez exija isso. Ele salvou três match-points no quarto set do duríssimo duelo contra Diego Schwartzman, que se esticou por 4h19 e 374 pontos. O italiano cravou 75 winners, sendo 22 aces.

E mais
– Momento histórico na Central com a parceria de Serena e Andy Murray. Eliminado pouco antes na dupla com Pierre Herbert, o escocês jogou determinado e viu empenho da parceira, que se divertiu muito.
– Mais um recorde para Federer: 17 oitavas em Wimbledon, superando Connors. Somou também a 350ª vitória em Slam.
– Nadal chegou a 51 triunfos no Club, igualando Borg, e a 35 na temporada, dividindo a liderança com Federer.
– Uma espectadora de 60 anos sofreu uma parada cardíaca e precisou ser reanimada na arquibancada, o que causou longa interrupção do jogo em que Mikhail Kukushkin tirou Jan-Lennard Struff e avançou para as oitavas de um Slam pela segunda vez, sete anos depois do AusOpen. O cazaque tirou também John Isner. Enfrentará agora um descansado Kei Nishikori.
– Sam Querrey se irritou com torcedor antes de fechar a vitória sobre John Millman e o chamou de ‘idiota’. Semifinalista do torneio há dois anos, faz duelo nacional contra Tennys Sandgren, que prevaleceu sobre um cansado Fabio Fognini.
– Há quatro tchecas nas oitavas. As Karolinas Pliskova e Muchova fazem duelo direto e Kvitova pode cruzar com Barbora Strycova nas quartas.
– Jo Konta é última esperança britânica nas chaves de simples. Semi de Roland Garros no mês passado, ela só fez uma grande campanha na grama sagrada, há dois anos, quando atingiu a penúltima rodada. A caminhada é difícil: agora pega Kvitova, contra quem tem 1-1 sobre o piso.