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A força mental de Medvedev
Por José Nilton Dalcim
20 de janeiro de 2022 às 13:03

Só havia uma chance para Nick Kyrgios complicar a vida do cabeça 2 do Australian Open: o russo entrar na ‘pilha’ de seus devaneios e na guerrinha da torcida, perder a cabeça e a consistência necessárias. Ainda que tenha cedido um set e jogado outros dois bem apertados, Danill Medvedev confirmou o favoritismo e saiu muito forte rumo à terceira rodada.

Na maior parte do tempo, Medvedev sacou com grande qualidade, explorando o maior defeito do australiano, que sempre foi a devolução. Quando precisou do segundo serviço e não foi contundente o bastante, Kyrgios agrediu com a incrível habilidade que possui. O russo também se aventurou bem mais à rede, aproveitando certa lentidão do adversário. Este jogo foi um grande exemplo de como Kyrgios desperdiça sua carreira por falta de entusiasmo, já que exigiu atenção máxima de Medvedev o tempo inteiro, com variações táticas e técnicas de enorme qualidade diante do jogador talvez em melhor momento em todo o circuito.

No entanto, o que chama de novo a atenção é a fortaleza mental que Medvedev construiu em tão pouco tempo. Encarou a torcida barulhenta, os ruídos provocativos entre o saque, os delírios de Kyrgios e sua própria frustração. E na hora da entrevista, diante de vaias, ainda deu bronca e exigiu que o público respeitasse pelo menos o entrevistador, o bicampeão Jim Courier. Esse Urso não é pouca coisa.

Outros pontos altos da rodada masculina foram os jogos muito equilibrados e de enorme empenho em que Felix Aliassiame superou Alejandro Fokina e Benoit Paire barrou Grigor Dimitrov. Na soma, oito sets e seis tiebreaks. O francês aliás é mais um que melhorou o forehand e hoje nem foge mais do golpe como antes. Stefanos Tsitsipas demorou para bater o baixinho Sebastian Baez, mas garante que o cotovelo direito parou de doer desde domingo.

Bem mais tranquilas foram as vitórias de Andrey Rublev, Jannik Sinner e Roberto Bautista. Frustrações enormes vieram com as quedas em sets diretos de Diego Schwartzman e Andy Murray. O argentino parou no 175º do ranking, o local Christopher O’Connell que não tem nada de muito especial mas é brigador. Murray não sacou bem, errou demais e encarou um animado Taro Daniel, que não deu bola para a torcida em peso para o escocês.

Ficam marcados encontros promissores na luta pelas oitavas: Rublev x Marin Cilic, Aliassime x Daniel Evans, Paire x Stefanos Tsitsipas e Bautista x Taylor Fritz. De todos eles, acho que Rublev é o único favorito mais destacado.

Zebras e duplas faltas no feminino
Mais quatro cabeças de chave se despediram na sempre imprevisível chave feminina, dando oportunidade para muitos nomes pouco badalados. Garbiñe Muguruza e Anett Kontaveit foram as top 10 eliminadas, Elena Rybakina abandonou e Emma Raducanu não superou bolhas na essencial mão direita.

Agressiva, Alizé Cornet fez uma belíssima partida diante de uma Muguruza muito instável e sem confiança, enquanto a garota dinamarquesa Clara Tauson deu um espetáculo de força, precisão e frieza com sua capacidade de trocar direções diante de Kontaveit.

E Aryna Sabalenka achou um cheio de sobreviver ao show de horrores que seu saque proporcionou até a metade do jogo contra Xinyu Wang. Foram seis duplas faltas no game inicial, nove em dois serviços de abertura e 12 ao final do primeiro set. Parecia que a cabeça 2 não iria se achar, mas aos poucos ela controlou a situação, despachou seus pesadíssimos golpes de base, fez então até aces de segundo saque e avançou.

Enquanto isso, Iga Swiatek fez outra partida muito tranquila e vai crescendo. Anastasia Pavlyuchenkova, como era esperado, marcou a despedida emocionada e a justa homenagem a Samantha Stosur, que ainda seguirá nas duplas ao menos nesta temporada.

Não deu para Bia
Era importante para Bia Haddad Maia que a ex-número 1 Simona Halep não estivesse num bom dia ou sentisse algum tipo de pressão por voltar à Rod Laver. Nada disso aconteceu e, de forma cristalina, a romena foi superior do primeiro ao último game. Mexeu muito bem a bola, sacou com qualidade acima da esperada e vibrou o tempo todo.

A canhota brasileira, que mais uma vez ficou sem uma terceira rodada de Slam, demorou para achar um ritmo que equilibrasse o duelo de base. Aí passou a bater mais forte e mais reto, obtendo alguns pontos excelentes, além de realizar transições corretas à rede. Mas quando deixou Halep tomar conta precoce dos lances, esteve sempre correndo atrás da bola. De qualquer forma, não há motivo para desânimos. Esse é o nível em que precisará jogar daqui em diante para ter chances nos eventos de nível WTA.

Ela, Bruno Soares, Marcelo Melo e Thiago Monteiro estão na segunda rodada da chave de duplas. Se vencerem a segunda rodada, os mineiros fazem duelo direto nas oitavas.

Que os adversários sofram
Por José Nilton Dalcim
19 de janeiro de 2022 às 11:32

Enquanto Alexander Zverev e Rafael Nadal economizam forças e ganham confiança, alguns de seus principais concorrentes na parte superior da chave se esfacelam em jogos duríssimos. No dia mais quente até agora em Melbourne, com temperatura na casa dos 29 graus, Denis Shapovalov, Cristian Garin e Pablo Carreño encararam maratonas, Matteo Berrettini e Aslam Karatsev não convenceram e Hubert Hurkacz foi inesperadamente atropelado. Certamente, Sascha e Rafa não têm nada a reclamar de tanto sofrimento.

Nadal encontrou resistência de Yannick Hanfmann, que mostrou em alguns momentos nível bem mais alto do que seu ranking e currículo, e isso exigiu pernas e concentração do cabeça 6. Na entrevista oficial, Rafa contou que prefere jogar de dia em Melbourne por conta das bolas que foram alteradas em 2021, que ‘pegam menos efeito à noite’, em suas palavras. Isso favorece quem joga mais reto, que é exatamente o caso de Karen Khachanov, seu próximo rival. No histórico de sete jogos, cinco deles no piso duro, Rafa só perdeu um set e ganhou todos os sete tiebreaks.

Com apenas oito pontos perdidos com o poderoso primeiro saque, Zverev mostrou-se tranquilo diante do natural apoio da torcida a John Millman e procurou novamente ser brincalhão na entrevista em quadra. Deve ter outro jogo pouco exigente contra Radu Albot e provavelmente vai torcer para Shapovalov barrar Reilly Opelka. O canhoto canadense esteve perto de cair diante do coreano Soonwoo Kwon mesmo tendo anotado a incrível diferença de 81 a 29 nos winners. Opelka ainda não perdeu set e curiosamente jamais enfrentou Zverev.

O italiano Matteo Berrettini, terceira maior força da parte inferior da chave, não esconde sua insatisfação com o nível apresentado nos dois jogos feitos, mas de novo o saque apareceu nas horas importantes. Com isso, confirma-se o aguardado reencontro com o garoto Carlos Alcaraz, que voou em quadra de novo e só tem 14 games perdidos. O espanhol venceu o único duelo, dois meses atrás no piso fechado de Viena. Quem passar, pega Carreño ou Sebastian Korda, os dois sobreviventes de cansativos duelos de cinco sets. O holandês Tallon Griekspoor joga direitinho e Carreño suou 4h10.

Destaque por fim a Gael Monfils e outra atuação muito séria contra Alexander Bublik, que só tirou dele cinco games. O veterano francês, que é adorado pelo público australiano, fica favorito diante de Cristian Garin e seus 10 sets feitos. Se passar, terá duelo contra Lorenzo Sonego ou Miomir Kecmanovic. Nada ruim.

Rodada sem sustos no feminino
Como se esperava, a segunda partida dos grandes nomes no lado superior da chave feminina foram muito tranquilas. Ashleigh Barty, Barbora Krejcikova, Maria Sakkari, Paula Badosa e Naomi Osaka não tiveram qualquer trabalho. Só mesmo Elina Svitolina continua instável. Belinda Bencic caiu, mas vinha de covid.

Barty continua sacando muito bem, deve ter um teste um pouco mais exigente contra Camila Giorgi e aí encarar Osaka, que é favorita natural diante de Amanda Anisimova, que ainda busca retomar sua melhor forma. Esse também é o setor onde está Sakkari. A grega subiu de nível após estreia um tanto apagada, precisa tomar cuidado com Veronika Kudermetova e em seguida deve cruzar com Jessica Pegula, mais uma que ainda não me passou segurança.

O outro quadrante marca dois ótimos jogos para a terceira rodada. ao menos no papel. Krejcikova e Jelena Ostapenko fazem encontro de campeãs de Roland Garros em que a tcheca é muito mais adaptável ao piso duro. Azarenka por sua vez me parece favorita contra a irregular Svitolina e ainda leva 4 a 0 nos confrontos diretos. Também nome forte deste setor, Paula Badosa marcou novo ‘pneu’ e terá agora testes reais contra a solidez de Marta Kostyuk e, espera-se, a experiência de Madison Keys.

Levante cedo
Há ótimos motivos para você madrugar nesta quinta-feira. A rodada noturna local abre com Daniil Medvedev contra Nick Kyrgios, às 5h de Brasília, e logo em seguida Bia Haddad desafia Simona Halep. E você ainda pode dar uns pitacos em Andy Murray diante do quali Taro Daniel, ver Jannik Sinner frente Steve Johnson e olhar um ótimo duelo de novatos entre Felix Aliassime e Alejandro Davidovich.

Bia já encarou Halep na grama de Wimbledon de 2017, onde perdeu por 7/5 e 6/3, e sabe que a romena acaba de ganhar o WTA de Melbourne. A tarefa de enfim chegar na terceira rodada de um Slam é bem dura, mas a canhota brasileira gosta de jogos grandes, como fez contra Karolina Pliskova em outubro. “Sei que posso”, afirma.

Kyrgios ganhou os dois jogos profissionais e um outro juvenil que já fez diante de Medvedev e vai usar toda sua imensa popularidade local e carisma para tirar força da torcida. O russo deixou claro: não gosta de enfrentar Kyrgios, nem pelo estilo, nem pela fanfarrice. Promete ser muito divertido.

Vai esquentar
Por José Nilton Dalcim
18 de janeiro de 2022 às 12:08

Ainda será a segunda rodada na parte inferior da chave masculina, mas a promessa é de que as coisas esquentem precocenente no Australian Open. O agora favorito Daniil Medvedev terá encarar a torcida fanática por Nick Kyrgios, o que pode ser o ponto alto da primeira semana. E não é só: haverá o duelo direto entre Taylor Fritz e Frances Tiafoe e o de Grigor Dimitrov e Benoit Paire. Será difícil dormir muito.

Medvedev teve pequenos altos e baixos na estreia, mas dificilmente será surpreendido por Kyrgios, que vem de covid e provavelmente vai jogar na maior lentidão da noite. Claro que se espera um grande confronto por dois ou três sets. O polêmico australiano deu o tradicional show na fácil vitória sobre o canhoto Liam Broady e é evidente que vai arriscar tudo e abusar de saques por baixo e dos voleios. Imperdível.

Na contramão, Stefanos Tsitsipas deixou outra vez muitas dúvidas sobre a chance de ir longe no torneio e foi instável contra o frágil Mikael Ymer, apesar de vencer em sets diretos. Não duvido que o baixinho Sebastian Baez lhe dê sufoco. Se mantiver o favoritismo, deve ter mais trabalho contra Dimitrov ou Paire.

Richard Gasquet e Maxime Cressy me surpreenderam positivamente. O veterano francês, acreditem, apresentou um forehand batido e mais veloz. Notável que tenha trabalhado nessa falha técnica grave já no fim da carreira. Tirou de virada e em jogo muito apertado o bom canhoto Ugo Humbert e pode até ser o oponente de Medvedev na terceira fase. Cressy também está nesse quadrante e vem tendo atuações expressivas neste começo de temporada. Adora forçar o saque – 31 aces e 20 duplas faltas – e venceu 82% dos pontos em que encaixou o primeiro serviço. Salvou todos os nove break-points em mais de 4h de duelo. Pega agora um qualificado e talvez Diego Schwartzman.

Por falar em maratona, Andy Murray sobreviveu a mais 4h52, ganhou novamente de Nikoloz Basilashvili e cresceu muito a chance de vê-lo contra Jannik Sinner na terceira rodada. Na entrevista oficial, o escocês reconheceu que ele e o time discutem muito a necessidade de praticar um tênis mais ofensivo e de pontos curtos, mas que reluta em mudar o estilo, porque provavelmente passaria a errar muito.

Por fim, vale ficar de olho em Taylor Fritz, que vem jogando o melhor tênis de sua jovem carreira. O teste contra Tiafoe é dos bons porque logo em seguida deve vir Roberto Bautista.

Salada no feminino
O complemento da primeira rodada feminina foi uma mistura de emoções. Se por um lado Emma Raducanu superou os nervos e a instabilidade para tirar Sloane Stephens, Aryna Sabalenka continua muito insegura com o saque e três estrelas se despediram cedo denais: Petra Kvitova, Angelique Kerber e Leylah Fernandez.

Raducanu abriu a estreia com ‘pneu’, mas o jogo em si não foi divertido. Ambas falharam demais. A britânica fez 15 winners e 30 erros, a experiente Stephens terminou com 14 winners e 42 erros. Talvez agora a campeã do US Open se solte. Esta foi apenas a terceira vitória desde a incrível campanha em Nova York.

Sabalenka fez mais 12 duplas faltas, porém deu tempo de virar contra a convidada local Storm Sanders. Apesar da vitória, Garbiñe Muguruza e Iga Swiatek estão longe do ideal, ainda que tenham tempo de crescer. Péssimas atuações de Fernandez, Kvitova e Kerber e um jogo muito agradável entre Anett Kontaveit e Katerina Siniakova, em que as duas meteram a mão na bola o tempo todo.

Noite suada para os brasileiros
Bia Haddad Maia enfim voltou às vitórias em Grand Slam, nível de torneio que não competia desde Wimbledon de 2019. Anotou seu quinto triunfo desse quilate e o terceiro em Melbourne com virada esforçada sobre a quali Katie Volynets. A canhota paulista só achou mesmo um ritmo a partir da metade do segundo set e colecionou muitos erros (50), apesar de ter feito 36 winners.

Campeã de duplas no domingo no 500 de Adelaide, um tremendo resultado, Bia tem enorme desafio agora diante de Simona Halep, que também ergueu troféu no fim de semana, em Melbourne. Para encarar a solidez da ex-líder e agora número 15 do mundo, Bia terá de ousar e tentar se aproveitar do segundo saque pouco contundente. A romena devolve por sua vez muito bem e aí será preciso manter esse bom padrão de estreia, em que a brasileira colocou 70% do primeiro saque na quadra.

E faltou pouco para o tênis brasileiro sair com outra vitória, a de Thiago Monteiro sobre o habilidoso Benoit Paire. O canhoto cearense teve alguns ótimos momentos, com um quarto set brilhante, e buscou mexer sempre o adversário. Era de se acreditar que um quinto set favoreceria o brasileiro na parte física, mas o saque não funcionou tão bem e Paire foi feliz nas devoluções. Monteiro participou de seu quarto Australian Open, com uma vitória em 2021.