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Meninas lideram surpresas. Será que dá?
Por José Nilton Dalcim
27 de julho de 2021 às 14:19

O torneio olímpico de Tóquio viveu mais uma rodada de surpresas, e que surpresas! E entre elas, mais um passo dado por Luísa Stefani e Laura Pigossi rumo a uma inesperada luta por medalhas.

A vitória desta terça-feira foi ainda mais espetacular do que na estreia. Claro que Karolina Pliskova e Marketa Vondrousova não são duplistas efetivas no circuito, mas têm finais de simples de Slam no currículo e um tênis bem pesado na quadra dura. Não por acaso, Vondrousova horas antes havia eliminado nada menos do que Naomi Osaka numa exibição notável.

Stefani não estava muito firme na rede no primeiro set, mas aos poucos a parceria encaixou o jogo. A primeira quebra, logo no começo da segunda série, deu a injeção de ânimo certa e a partir daí as duas cresceram e a devolução passou a ser elemento precioso.

O match-tiebreak provou novamente que as nossas meninas estão com a cabeça no lugar, como haviam mostrado na estreia difícil contra o Canadá. Salvaram quatro match-points a partir de 7-9 e souberam aproveitar a primeira chance que apareceu.

Esta já é a maior campanha do tênis feminino brasileiro em Jogos Olímpicos – Teliana Pereira, Joana Cortez, Vanessa Menga, Andrea Vieira, Cláudia Chabalgoity e Gisele Miró venceram um jogo por edição que participaram – e o desafio será ainda maior na madrugada de quarta-feira diante das norte-americanas Bethanie Mattek-Sands, ex-número 1 do mundo, e Jessica Pegula. Se forem à semi, irão lutar por alguma medalha, algo que o tênis nacional jamais colocou no pescoço.

Djokovic mira outro recorde
Com as derrotas de mais três cabeças do seu lado superior da chave, Novak Djokovic se vê cada vez mais perto de tentar o primeiro ouro olímpico. A vitória sobre Jan-Lennard Struff teve seus momentos delicados, como o break-point evitado logo no terceiro game, e o serviço perdido no começo do segundo set, mas nem de longe houve qualquer ameaça.

Vale registrar que Djokovic já tem 11 vitórias olímpicas na carreira e pode empatar com Andy Murray na próxima rodada e mirar as 13 do recordista Roger Federer. Reencontra nesta madrugada aquele Alejandro Davidovich que só tirou três games meses atrás em Roma e se aproxima de um interessante duelo contra Kei Nishikori, a esperança final da casa em simples.

As quedas de Hubert Hurkacz, Aslan Karatsev e Lorenzo Sonego ampliam o favoritismo de Alexander Zverev rumo à semi. Nestas oitavas, enfrenta Nikoloz Basilashvili, sobre quem possui três vitórias em quatro jogos.

O outro lado da chave está bem mais interessante, com sete dos oito cabeças de pé. Daniil Medvedev tem bom teste contra Fabio Fognini e quem vencer deve pegar Pablo Carreño, um setor que vai exigir muito. Stefanos Tsitsipas anotou exibição brilhante contra Frances Tiafoe, muito agressivo e eficiente, mas tem de cruzar agora com o canhoto Ugo Humbert. Se vencer, terá Diego Schwartzman ou Karen Khachanov. Isso significa muita adaptação a estilos bem diferentes de adversários.

O adeus de Osaka
Um misto de grande noite da canhota Vondrousova com golpes descalibrados e apressados de Osaka marcaram outra enorme surpresa na chave feminina. A tcheca simplesmente não errou no primeiro set e isso talvez tenha provocado ansiedade exagerada na cabeça 2. Ela até reagiu e fez 2/0 no segundo set, porém os 18 erros e o primeiro serviço instável, ainda mais nos pontos grandes, foram barreiras insuperáveis.

Está muito difícil dar algum favoritismo até mesmo para quem vai brigar por medalha, o que será definido nesta madrugada com as quartas de final. Era de se esperar o duelo russo entre Anastasia Pavlyuchenkova e Barbosa Krejicikova, mas Belinda Bencic embalou incrível reação após tomar 1/6 e tirou a campeã de Roland Garros.

Há duas espanholas na luta, uma em cada lado da chave. Garbiñe Muguruza pega Elena Rybakina tendo feito três ótimas exibições até agora, enquanto Paula Badosa, que tirou Iga Swiatek, será a adversária de Vondrousova. Outra campanha chamativa é a da italiana Camila Giorgi, que adora um piso rápido e se torna um perigo quando o saque entra. Só perdeu 15 games e desafia Elina Svitolina, que disputou seu terceiro jogo seguido em três sets e marcou já duas viradas.

Duplas emocionantes
As duplas masculina e feminina também decidem quem vai lutar na semi por medalhas. Os favoritos Mektic/Pavic continuam de pé e podem cruzar Zverev/Struff. O lado inferior tem o bicampeão Andy Murray, que ganhou jogo duro ao lado de Joe Salisbury. Encaram agora Cilic/Dodig e se vencerem jogam contra Cabal/Farah ou Daniell/Venus.

Krejcikova/Siniakova enfrentam Barty/Sanders nestas quartas e dificilmente não estarão na final. Bencic é outra que está firme também nas duplas, ao lado de Golubic.

As mistas começam nesta quarta e obviamente o destaque é para o duelo entre Stefani e Marcelo Melo contra Djokovic. Muita gente boa entrou, como Barty, Swiatek, Rublev, Carreño, Aliassime e os gregos Sakkari/Tsitsipas. Vai ser bem duro e divertido.

Suor olímpico
Por José Nilton Dalcim
25 de julho de 2021 às 13:55

Chegar às medalhas no Ariake Tennis Park vai ser um ato de heroísmo, ao menos a julgar pelas duríssimas condições climáticas a que os tenistas foram expostos nestes dois primeiros dias de ação em Tóquio.

O forte calor do verão local, associado a intensa umidade, transformou o ambiente numa sauna a céu aberto. E aí vêm complicadores: o início das rodadas às 11h, jogos equilibrados e muita gente disputando simples e duplas. Doze dos 32 jogos de primeira rodada masculina foram ao terceiro set. Haja físico.

Parece então crucial que se poupe ao máximo, mas isso é claro depende muito de quem está do outro lado da rede. Novak Djokovic teve uma estreia fácil, mas agora encara o experiente Jan-Lennard Struff e não dá para economizar. O sérvio viu o russo Andrey Rublev dar adeus precoce nas mãos de Kei Nishikori, mas ainda tem Alexander Zverev e Aslan Karatsev no caminho das medalhas.

Tanto Nole como Daniil Medvedev pediram mudança no horário dos jogos, o que seria plenamente possível numa competição sem venda de ingresso. O russo literalmente suou muito para passar por Alexander Bublik, mas a quadra está a seu perfil, muito veloz de dia. Stefanos Tsitsipas viveu altos e baixos e reencontra Frances Tiafoe, em jogo muito perigoso.

Triste mesmo foi a desistência de Andy Murray. O bicampeão olímpico voltou a sentir a parte muscular, decidiu arriscar só na dupla e seu substituto, o australiano Mel Purcell, sacou muito e tirou Felix Aliassime. O escocês faz parceria com o ótimo Joe Salisbury e os dois tiraram na estreia nada menos que Nicolas Mahut/Pierre Herbert. A escolha de Murray parece esperta.

A chave feminina foi chacoalhada pela inesperada queda de Ashleigh Barty logo na estreia. Culpa de seus 55 erros e da firmeza tática de Sara Sorribes, espanhola muito chata de se encarar se você não consegue ser agressiva. Barty continua viva nas duplas.

Mas o grande nome do torneio olímpico é mesmo Naomi Osaka. A dona da casa recebeu a honraria de acender a pira, num momento mágico para o tênis, para o esporte feminino e para quem luta por igualdades sociais, como é justamente o caso dela. Foi reaparecimento em grande estilo, depois das polêmicas de Paris que a tiraram de dois Grand Slam.

E para não dizerem que ela está sendo privilegiada em seu país, vai jogar de novo no primeiro horário. Claro que, se o sol está a pino, o piso também fica um pouco mais veloz e isso combina muito com suas golpes de força.

E o tênis brasileiro deu agradável surpresa, ainda que apenas a dupla feminina tenha passado da estreia. João Menezes esteve incrivelmente perto de uma vitória espetacular sobre Marin Cilic, em que o mineiro jogou melhor nos dois sets e embalou uma reação na série decisiva que ficou a um mísero ponto de ser histórica. Tomara que Menezes use isso como motivação para o segundo semestre.

Thiago Monteiro fez o que pôde diante de Struff, mas enquanto o alemão aproveitou suas chances de quebra o cearense não foi tão feliz, muito é claro em função do saque aplicado do adversário. Já Marcelo Melo e Marcelo Demoliner perderam num jogo de detalhes contra os croatas Mate Pavic e Nikola Mektic, com pecado mortal ao desperdiçar 5-0 no tiebreak do primeiro set. Para uma parceria formada em cima da hora, é justificável.

Por fim, Luísa Stefani e Laura Pigossi fizeram uma exibição de gala diante das canadenses Gabriela Dabrowski e Sharon Fichman. Enquanto Luísa se virava bem na frente, Pigossi devolveu firme e explorou mais a bola em cima de Fichman. O destaque foi o controle emocional das duas, que perderam chances e mantiveram a cabeça no lugar.

A chance de chegar perto das medalhas é ainda pequena. A próxima rodada será diante das tchecas Karolina Pliskova e Marketa Vondrousova, muito mais experientes ainda que não duplistas de ofício. Mas depois podem aparecer Bethanie Mattek-Sands e Jessica Pegula, e o sarrafo vai subir muito. Vale é claro acreditar.

Shapovalov rouba a cena
Por José Nilton Dalcim
2 de julho de 2021 às 19:52

Num dia em que o número 1 do mundo venceu sem tanto brilho e os heróis locais se despediram, Denis Shapovalov lembrou os bons tempos em que os canhotos faziam da grama um terreno fértil para grandes exibições. O canadense fez uma das mais sólidas partidas em palcos gigantes que me lembro de ter visto e avança pela terceira vez à segunda semana de um Grand Slam.

É bem verdade que Andy Murray esteve num dia muito apagado e na verdade escapou de um placar verdadeiramente vexatório na Central, mas isso tem muito a ver com as armas utilizadas pelo adversário. Atacado em seu lado direito, Shapovalov exibiu um backhand extremamente firme o tempo inteiro, trocando de direções na hora certa. Chegou a ter 5/1 no primeiro set, antes de o escocês reagir e dar um susto, tendo ficado a um ponto do empate.

Foi só. Sem achar buracos, apressou-se e ainda por cima sacou mal, o que permitia a Shapovalov atacar seu segundo serviço. Vieram outros dois 5/1 e eu diria que Murray levou até alguma sorte para escapar de ‘pneus’. A diferença de winners foi assombrosa – 45 a 16 – e Shapovalov nem precisou forçar tanto seu excelente jogo de rede, ainda assim tendo vencido 16 das 21 subidas à rede.

Para tentar a segunda quartas em Slam e repetir o US Open do ano passado, terá um perigoso Roberto Bautista pela frente, semifinalista dois anos atrás e que promete exigir muito mais nas trocas da base do que Murray foi capaz de fazer. Como de hábito, o espanhol faz uma campanha sem holofotes, tendo superado John Milmann, Miomir Kecmanovic e Daniel Koepfer. O duelo será inédito, o que deixa tudo ainda mais incerto.

Fica aberta a oportunidade para a nova geração brilhar em mais um Slam, já que o vencedor aqui cruzará com Sebastian Korda ou Karen Khachanov. O norte-americano fez outra belíssima atuação e não se incomodou com os golpes variados de Daniel Evans, nem com o apoio da torcida. Forçou sempre – 51 winners e 43 erros – e chegou a perder três serviços, porém mostra arsenal e tranquilidade admiráveis para seus 20 anos. Khachanov me surpreende, tendo feito poucas coisas empolgantes nos últimos 10 meses. Foi muito superior a Frances Tiafoe nesta sexta-feira e, confiante, é muito perigoso.

Nole mais humano
Não era de se esperar tantas dificuldades para Novak Djokovic no duelo contra Denis Kudla, a se julgar pelo volume de jogo que o número 1 vinha mostrando. Ele no entanto não sacou desta vez tão bem, cometeu mais erros da base e assim chegou a perder dois games de serviço e ficou próximo de ir a um quarto set, quando pareceu desconcentrado e viu o norte-americano chegar a 4/1. Também quase deixou o tiebreak escapar, perdendo três dos cinco primeiros pontos em que sacou, mas no final sua imensa superioridade técnica prevaleceu.

É mais do que natural que numa longa campanha o tenista viva dias menos inspirados e nunca se deve esquecer que Nole é sempre aquele que entra em quadra com a obrigação de vencer e de jogar bem, o que traz pressão inevitável. Mas não há nada que tire seu amplo favoritismo diante do saibrista Cristian Garin nas oitavas de final. O chileno joga um tênis todo certinho, sem nada tão espetacular, e deixa por vezes a cabeça fugir. Na única vez que cruzou com Nole, até que não perdeu feio na ATP Cup do ano passado.

Com 55 presenças nas oitavas de um Slam – a segunda melhor marca da Era Aberta -, sendo 13 delas em Wimbledon, Nole pode ter pela frente nas quartas Andrey Rublev. Depois de tirar Fabio Fognini numa exibição madura, o russo está perto das únicas quartas de final que lhe faltam em nível Slam e me parece em plenas condições de derrotar Marton Fucsovics. O húngaro joga de forma um tanto semelhante, na base de muito risco, e como não tem a mesma força perdeu neste ano os três duelos contra Rublev sem ganhar set.

Jabeur derruba a campeã
No melhor jogo do dia, a tunisiana Ons Jabeur usou seus grandes recursos técnicos e muita perna para superar Garbiñe Muguruza, a campeã de 2017, numa virada empolgante. Com 1,68m, Jabeur sabe entrar na bola para dar mais peso ao golpe, mas também tem muita mão e varia o tempo todo. Pode dar trabalho a Iga Swiatek, que a cada dia está mais confortável nos pisos mais velozes.

Outro duelo que promete é o de Aryna Sabalenka e Elena Rybakina. Nos dois anteriores, a cabeça 2 levou, mas sempre no terceiro set. Todas essas quatro estão no mesmo quadrante, o que deixa tudo muito embolado rumo à semifinal.

Liudimila Samsonova continua suas surpresas e já embalou 10 vitórias seguidas na grama desde o quali de Berlim. Na trajetória, tirou gente grande, como Vika Azarenka e Belinda Bencic e hoje eliminou Sloane Stephens. A russa de 20 anos é o desafio de Karolina Pliskova, que fez 30 winners em 18 games e tirou Tereza Martincova. Quem vencer, cruzará com Madison Keys ou Viktorija Golubic. A norte-americana tem um estilo bom para a grama e já fez quartas em 2015. A suíça de 28 anos e 66ª do ranking é novidade.

E mais
– Grande dia para o tênis brasileiro nas duplas. Melo/Kubot já avançaram às oitavas, Soares/Murray estrearam bem e Matos/Monteiro causaram bela surpresa. E ainda vencemos com Stefani/Demoliner nas mistas.
– O único britânico que venceu Federer em Wimbledon foi Henman, em 2001. Suíço tem 100 vitórias no torneio a mais que Norrie (103-3) e 355 em Slam (367-12).
– Medvedev só ganhou 1 de 8 jogos no quinto set que fez, enquanto Cilic já virou 8 quando atrás por 0-2. Russo levou a melhor no único duelo em 2019.
– Zverev reencontra Fritz em Wimbledon. Há três anos, ganhou lá no quinto set. O norte-americano é treinado por Annacone, ex de Federer.
– Siniakova é uma adversária que merece a atenção de Barty. Já ganhou seis vezes de top 10 e só perdeu um serviço nos jogos anteriores. Nunca se cruzaram.
– Gauff reencontra Juvan, para quem perdia de 3/6 e 0/3 no quali de Adelaide este ano. Nenhuma eslovena chegou até hoje nas oitavas de Wimbledon.
– Depois de fazer contra Sorribes o jogo feminino mais longo do torneio desde 2011, Kerber enfrenta Sasnovich, 100ª do ranking.