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Nem tempo, nem vento derrubam Nadal
Por José Nilton Dalcim
19 de março de 2022 às 23:40

Não foram os aces, o topspin devastador, a capacidade inesgotável de defesa ou os slices maliciosos. Rafael Nadal continua o rei supremo da temporada graças a uma sequência de voleios precisos, intuitivos, corajosos, verdadeiramente mágicos.

Após 3h12 de uma insana batalha contra a juventude e talento de Carlos Alcaraz, a maior parte do tempo sob condições climáticas incompatíveis com um tênis de alto padrão, Rafa sacramentou sua volta ao top 3 do ranking com a 20ª vitória seguida e pode neste domingo somar seu recorde exclusivo de troféus de Grand Slam com o de títulos de Masters 1000, igualando novamente a luta particular com Novak Djokovic em 37.

A expectativa por um duelo equilibrado e decidido nos detalhes se confirmou, mas o vento prejudicou demais os dois jogadores entre o final do primeiro set e o começo do terceiro, tornando muitas disputas em verdadeiras loterias. Na verdade, é elogiável a qualidade que ambos conseguiram ainda fazer lances, muitos sob pressão, diante do vendaval.

Alcaraz raramente sacou bem e isso pesou muito. Teve 2/0 no começo do jogo antes de perder quatro games seguidos, mas ainda empatou no oitavo game antes de sofrer a quebra fatal, num set em que cometeu 23 erros contra 9. Liderou sempre o segundo set a partir do quinto game, porém não conseguia confirmar as quebras obtidas. Nadal usava o máximo de spin para segurar a bola em quadra e tinha dificuldade evidente quando tentava forçar uma paralela, já que a precisão estava muito comprometida pela ventania.

O game crucial para Alcaraz foi o quinto do terceiro set, quando viu Nadal salvar três break-points com brilhantismo e o primeiro de seus voleios desconcertantes que viriam. O veterano de 35 anos já era um tenista bem mais agressivo com a melhoria do clima mas encontrava resistência ferrenha no jovem adversário, que mais uma vez lembrou o gigantesco poder defensivo do próprio Nadal. Por fim, com devolução seguida de subida à rede ao melhor estilo ‘chip-and-charge’, Rafa foi a 5/3 para liquidar em seguida, sem qualquer susto.

O duelo espanhol teve paridade nos erros (41 a 35 para Alcaraz), porém os winners foram muito favoráveis ao garoto (39 a 20). No total, foram disputados 35 break-points, uma marca expressiva para um jogo masculino de três sets.

Fritz sobe outro grande degrau
Lembro de ter alertado lá em janeiro de que Taylor Fritz vinha jogando o melhor tênis que eu já havia visto e estar enfim numa final de nível 1000 faz com que o garotão de 24 anos e 1.96m atinja um patamar definitivamente elevado na carreira.

Não teve uma atuação perfeita diante de Andrey Rublev neste sábado por conta de natural instabilidade, mas cravou um resultado muito justo depois de uma excepcional atuação nos cinco ou seis primeiros games e por se manter sólido depois que Rublev passou a jogar um tênis digno de seu currículo. O norte-americano tem todos os golpes, embora é claro que o saque faça muita diferença. O backhand seja agressivo, se vira bem na rede e a movimentação é bem satisfatória para seu tamanho.

A oportunidade neste domingo é para lá de especial. Desde que Andy Roddick ganhou Miami em 2010, apenas outros dois compatriotas conseguiram erguer Masters 1000 e de forma inesperada: Jack Sock em Paris de 2017 e John Isner em Miami de 2018. Fritz garante o mais alto ranking da carreira, o 15º, e a condição de norte-americano mais bem classificado. Um eventual título o levará ao 13º.

Ele porém possui alguns fantasmas a espantar. Em seis finais, perdeu todas na quadra dura – a maior delas o 500 de Acapulco em 2020 – e só venceu mesmo na grama de Eastbourne há quase três anos.

Final feminina decide nova número 2
O tênis feminino certamente terá uma vice-líder inédita no ranking e o nome sairá justamente da final de Indian Wells entre Iga Swiatek e Maria Sakkari. As duas já deixaram para trás Barbora Krejicikova e quem vencer terá chance de tirar ainda mais diferença para a ausente Ashleigh Barty ao longo de Miami.

As pretendentes vivem situações bem distintas e por isso o favoritismo natural cai para a polonesa, que vem do título no 1000 de Doha onde justamente ganhou pela primeira vez em quatro tentativas de Sakkari.

A vitória sobre Simona Halep, que mostrou certa limitação por um desconforto na coxa, teve como principal componente trocas longas e muito equilíbrio emocional, como destacou a própria Iga. Na sua avaliação, o crescimento na quadra dura se dá porque está atuando de forma mais agressiva, porém acima de tudo na escolha dos momentos certos para isso.

Já a grega tem um problema pessoal a resolver, uma vez que, apesar de seu tênis muito competitivo e da ascensão contínua no circuito, ainda lhe faltam títulos. Seu único troféu até hoje, em quatro finais feitas, foi o pequeno 250 de Rabat e em 2019. É verdade que fez semis importantes, como em Roland Garros, US Open e Finals do ano passado, porém seria justamente a falha mental nas rodadas realmente grandes o que atrapalha Maria.

Eis uma chance de ouro para acabar com isso e fazer jus ao número 2, já que tecnicamente a grega é uma tenista bem completa. Foi o que mostrou por exemplo na semi contra a atual campeã Paula Badosa, em que terminou com um placar acachapante de winners (28 a 6) e ainda obteve três quebras no set decisivo com devoluções oportunas.

‘Tiozão’ Cilic é o penetra da balada
Por José Nilton Dalcim
22 de janeiro de 2022 às 12:26

A nova face do tênis masculino ficou bem perto do domínio absoluto no lado inferior da chave deste Australian Open, ao se concluir os classificados para as oitavas de final do primeiro Grand Slam da temporada. A exceção é Marin Cilic, que aos 33 anos destoa da média dos demais concorrentes, nenhum deles com mais de 25.

Campeão do US Open tal qual Cilic, o russo Daniil Medvedev mal tomou conhecimento do saque poderoso do holandês Botic van Zandschulp e terá amplo favoritismo diante de Maxime Cressy, norte-americano de 24 anos que pratica o mais autêntico saque-voleio e disputa apenas seu quarto Slam. Parece impossível uma surpresa para o atual vice.

Stefanos Tsitsipas fez seu melhor jogo deste começo de temporada diante do talentoso Benoit Paire, colocou o primeiro saque para funcionar (21 aces) e foi bem econômico nos erros (26). Seu adversário é Taylor Frtiz, que nunca chegou tão longe num Slam e mostra tênis e cabeça de qualidade desde a ATP Cup. Suportou a batalha contra Roberto Bautista, em que aplicou ‘pneu’, depois ficou 2 sets a 1 atrás e ainda manteve a frieza para reagir. Destaque para seus 73 winners. O grego, 23 anos, ganhou os dois duelos já feitos contra Fritz, de 24.

A ruidosa torcida levou Alex de Minaur à inédita quarta rodada em Melbourne – ele foi quartas no US Open-2020 – e desafiará o garotão Jannik Sinner. O italiano tem agora oitavas em três diferentes Slam e pode repetir as quartas de Paris-2020. Para isso, terá de provar sua força mental diante de um adversário que vibra o tempo todo e sabe envolver o público. Nos jogos deste sábado, De Minaur justificou a superioridade sobre Pablo Andujar e Sinner levou um 1/6 de Taro Daniel antes de dominar os dois sets finais. Nos dois confrontos já realizados e na quadra dura, deu Sinner, de 20 anos, quatro a menos que o australiano.

Muito boa mesmo foi a vitória de Felix Auger-Aliassime sobre Daniel Evans, com um placar elástico demais. O britânico só ganhou seis games e pareceu se perder depois de deixar escapar chances valiosas no set inicial. O canadense de 21 anos sacou muito e está cada vez mais sólido nos Slam. Ele vem de quartas em Wimbledon e semi no US Open, mas agora terá de encarar um pequeno tabu diante do experiente Cilic, que ganhou todos os três encontros.

Fazia exatos dois anos que Cilic não chegava nas oitavas de um Slam, mas ele claramente se sente à vontade em Melbourne, onde fez final em 2018. Encarou bem a batalha de força pura contra Andrey Rublev, num jogo de mínimas variações táticas, e tirou o melhor do seu ótimo primeiro serviço (24 aces e 85% de pontos vencidos) e do mortal forehand (20 winners). O russo, como de hábito, exagerou nos momentos delicados e falhou taticamente ao não investir com mais paciência no backhand do adversário.

Swiatek e Halep empolgam, Aryna se vira
Difícil dizer quem está mais afiada ao término da primeira semana deste Australian Open: a polonesa Iga Swiatek ou a romena Simona Halep. Em comum, as duas têm despachado adversárias sem maior desgaste, mostram opção tática por forçar as jogadas e um saque mais contundente. E, em quadrantes diferentes, podem muito bem fazer uma disputa direta na semi.

Swiatek chega de novo nas oitavas de um Slam na quadra dura, como aconteceu no US Open, mas agora a chance de avançar é bem maior, já que enfrenta pela primeira vez Sorana Cirstea. Finalista do torneio em 2018, Halep tem uma barreira mais perigosa, Alizé Cornet, para quem perdeu três de quatro vezes embora a mais recente tenha sido em 2015. Cornet é enjoada, briguenta, corre muito e tem vasta experiência. Aos 31 anos, no entanto, nunca fez quartas em qualquer Slam.

Quem vai sobrevivendo aos trancos e barrancos é a cabeça 2 Aryna Sabalenka. Mais 10 duplas faltas – ao menos, a metade de sua média da temporada – e nova virada, agora em cima da canhota Marketa Vondrousova. A bielorrussa ainda sonha com uma final de Slam, e desta vez isso pode até valer o número 1 do ranking. Isso talvez explique a instabilidade. O próximo passo é diante de Kaia Kanepi, que aparece como 115 do ranking, mas não se enganem. A estoniana já foi 15 e adora um piso rápido.

Por fim, Danielle Collins e Elise Mertens fazem duelo de duas semifinalistas do torneio. Uma vitória para cada lado no histórico. Collins deu seu showzinho de irritação tão costumeiro na virada sobre a garota Clara Tauson, que vinha da vitória sobre Anett Kontaveit. A belga ainda não perdeu set.

A força mental de Medvedev
Por José Nilton Dalcim
20 de janeiro de 2022 às 13:03

Só havia uma chance para Nick Kyrgios complicar a vida do cabeça 2 do Australian Open: o russo entrar na ‘pilha’ de seus devaneios e na guerrinha da torcida, perder a cabeça e a consistência necessárias. Ainda que tenha cedido um set e jogado outros dois bem apertados, Danill Medvedev confirmou o favoritismo e saiu muito forte rumo à terceira rodada.

Na maior parte do tempo, Medvedev sacou com grande qualidade, explorando o maior defeito do australiano, que sempre foi a devolução. Quando precisou do segundo serviço e não foi contundente o bastante, Kyrgios agrediu com a incrível habilidade que possui. O russo também se aventurou bem mais à rede, aproveitando certa lentidão do adversário. Este jogo foi um grande exemplo de como Kyrgios desperdiça sua carreira por falta de entusiasmo, já que exigiu atenção máxima de Medvedev o tempo inteiro, com variações táticas e técnicas de enorme qualidade diante do jogador talvez em melhor momento em todo o circuito.

No entanto, o que chama de novo a atenção é a fortaleza mental que Medvedev construiu em tão pouco tempo. Encarou a torcida barulhenta, os ruídos provocativos entre o saque, os delírios de Kyrgios e sua própria frustração. E na hora da entrevista, diante de vaias, ainda deu bronca e exigiu que o público respeitasse pelo menos o entrevistador, o bicampeão Jim Courier. Esse Urso não é pouca coisa.

Outros pontos altos da rodada masculina foram os jogos muito equilibrados e de enorme empenho em que Felix Aliassiame superou Alejandro Fokina e Benoit Paire barrou Grigor Dimitrov. Na soma, oito sets e seis tiebreaks. O francês aliás é mais um que melhorou o forehand e hoje nem foge mais do golpe como antes. Stefanos Tsitsipas demorou para bater o baixinho Sebastian Baez, mas garante que o cotovelo direito parou de doer desde domingo.

Bem mais tranquilas foram as vitórias de Andrey Rublev, Jannik Sinner e Roberto Bautista. Frustrações enormes vieram com as quedas em sets diretos de Diego Schwartzman e Andy Murray. O argentino parou no 175º do ranking, o local Christopher O’Connell que não tem nada de muito especial mas é brigador. Murray não sacou bem, errou demais e encarou um animado Taro Daniel, que não deu bola para a torcida em peso para o escocês.

Ficam marcados encontros promissores na luta pelas oitavas: Rublev x Marin Cilic, Aliassime x Daniel Evans, Paire x Stefanos Tsitsipas e Bautista x Taylor Fritz. De todos eles, acho que Rublev é o único favorito mais destacado.

Zebras e duplas faltas no feminino
Mais quatro cabeças de chave se despediram na sempre imprevisível chave feminina, dando oportunidade para muitos nomes pouco badalados. Garbiñe Muguruza e Anett Kontaveit foram as top 10 eliminadas, Elena Rybakina abandonou e Emma Raducanu não superou bolhas na essencial mão direita.

Agressiva, Alizé Cornet fez uma belíssima partida diante de uma Muguruza muito instável e sem confiança, enquanto a garota dinamarquesa Clara Tauson deu um espetáculo de força, precisão e frieza com sua capacidade de trocar direções diante de Kontaveit.

E Aryna Sabalenka achou um cheio de sobreviver ao show de horrores que seu saque proporcionou até a metade do jogo contra Xinyu Wang. Foram seis duplas faltas no game inicial, nove em dois serviços de abertura e 12 ao final do primeiro set. Parecia que a cabeça 2 não iria se achar, mas aos poucos ela controlou a situação, despachou seus pesadíssimos golpes de base, fez então até aces de segundo saque e avançou.

Enquanto isso, Iga Swiatek fez outra partida muito tranquila e vai crescendo. Anastasia Pavlyuchenkova, como era esperado, marcou a despedida emocionada e a justa homenagem a Samantha Stosur, que ainda seguirá nas duplas ao menos nesta temporada.

Não deu para Bia
Era importante para Bia Haddad Maia que a ex-número 1 Simona Halep não estivesse num bom dia ou sentisse algum tipo de pressão por voltar à Rod Laver. Nada disso aconteceu e, de forma cristalina, a romena foi superior do primeiro ao último game. Mexeu muito bem a bola, sacou com qualidade acima da esperada e vibrou o tempo todo.

A canhota brasileira, que mais uma vez ficou sem uma terceira rodada de Slam, demorou para achar um ritmo que equilibrasse o duelo de base. Aí passou a bater mais forte e mais reto, obtendo alguns pontos excelentes, além de realizar transições corretas à rede. Mas quando deixou Halep tomar conta precoce dos lances, esteve sempre correndo atrás da bola. De qualquer forma, não há motivo para desânimos. Esse é o nível em que precisará jogar daqui em diante para ter chances nos eventos de nível WTA.

Ela, Bruno Soares, Marcelo Melo e Thiago Monteiro estão na segunda rodada da chave de duplas. Se vencerem a segunda rodada, os mineiros fazem duelo direto nas oitavas.