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‘Tiozão’ Cilic é o penetra da balada
Por José Nilton Dalcim
22 de janeiro de 2022 às 12:26

A nova face do tênis masculino ficou bem perto do domínio absoluto no lado inferior da chave deste Australian Open, ao se concluir os classificados para as oitavas de final do primeiro Grand Slam da temporada. A exceção é Marin Cilic, que aos 33 anos destoa da média dos demais concorrentes, nenhum deles com mais de 25.

Campeão do US Open tal qual Cilic, o russo Daniil Medvedev mal tomou conhecimento do saque poderoso do holandês Botic van Zandschulp e terá amplo favoritismo diante de Maxime Cressy, norte-americano de 24 anos que pratica o mais autêntico saque-voleio e disputa apenas seu quarto Slam. Parece impossível uma surpresa para o atual vice.

Stefanos Tsitsipas fez seu melhor jogo deste começo de temporada diante do talentoso Benoit Paire, colocou o primeiro saque para funcionar (21 aces) e foi bem econômico nos erros (26). Seu adversário é Taylor Frtiz, que nunca chegou tão longe num Slam e mostra tênis e cabeça de qualidade desde a ATP Cup. Suportou a batalha contra Roberto Bautista, em que aplicou ‘pneu’, depois ficou 2 sets a 1 atrás e ainda manteve a frieza para reagir. Destaque para seus 73 winners. O grego, 23 anos, ganhou os dois duelos já feitos contra Fritz, de 24.

A ruidosa torcida levou Alex de Minaur à inédita quarta rodada em Melbourne – ele foi quartas no US Open-2020 – e desafiará o garotão Jannik Sinner. O italiano tem agora oitavas em três diferentes Slam e pode repetir as quartas de Paris-2020. Para isso, terá de provar sua força mental diante de um adversário que vibra o tempo todo e sabe envolver o público. Nos jogos deste sábado, De Minaur justificou a superioridade sobre Pablo Andujar e Sinner levou um 1/6 de Taro Daniel antes de dominar os dois sets finais. Nos dois confrontos já realizados e na quadra dura, deu Sinner, de 20 anos, quatro a menos que o australiano.

Muito boa mesmo foi a vitória de Felix Auger-Aliassime sobre Daniel Evans, com um placar elástico demais. O britânico só ganhou seis games e pareceu se perder depois de deixar escapar chances valiosas no set inicial. O canadense de 21 anos sacou muito e está cada vez mais sólido nos Slam. Ele vem de quartas em Wimbledon e semi no US Open, mas agora terá de encarar um pequeno tabu diante do experiente Cilic, que ganhou todos os três encontros.

Fazia exatos dois anos que Cilic não chegava nas oitavas de um Slam, mas ele claramente se sente à vontade em Melbourne, onde fez final em 2018. Encarou bem a batalha de força pura contra Andrey Rublev, num jogo de mínimas variações táticas, e tirou o melhor do seu ótimo primeiro serviço (24 aces e 85% de pontos vencidos) e do mortal forehand (20 winners). O russo, como de hábito, exagerou nos momentos delicados e falhou taticamente ao não investir com mais paciência no backhand do adversário.

Swiatek e Halep empolgam, Aryna se vira
Difícil dizer quem está mais afiada ao término da primeira semana deste Australian Open: a polonesa Iga Swiatek ou a romena Simona Halep. Em comum, as duas têm despachado adversárias sem maior desgaste, mostram opção tática por forçar as jogadas e um saque mais contundente. E, em quadrantes diferentes, podem muito bem fazer uma disputa direta na semi.

Swiatek chega de novo nas oitavas de um Slam na quadra dura, como aconteceu no US Open, mas agora a chance de avançar é bem maior, já que enfrenta pela primeira vez Sorana Cirstea. Finalista do torneio em 2018, Halep tem uma barreira mais perigosa, Alizé Cornet, para quem perdeu três de quatro vezes embora a mais recente tenha sido em 2015. Cornet é enjoada, briguenta, corre muito e tem vasta experiência. Aos 31 anos, no entanto, nunca fez quartas em qualquer Slam.

Quem vai sobrevivendo aos trancos e barrancos é a cabeça 2 Aryna Sabalenka. Mais 10 duplas faltas – ao menos, a metade de sua média da temporada – e nova virada, agora em cima da canhota Marketa Vondrousova. A bielorrussa ainda sonha com uma final de Slam, e desta vez isso pode até valer o número 1 do ranking. Isso talvez explique a instabilidade. O próximo passo é diante de Kaia Kanepi, que aparece como 115 do ranking, mas não se enganem. A estoniana já foi 15 e adora um piso rápido.

Por fim, Danielle Collins e Elise Mertens fazem duelo de duas semifinalistas do torneio. Uma vitória para cada lado no histórico. Collins deu seu showzinho de irritação tão costumeiro na virada sobre a garota Clara Tauson, que vinha da vitória sobre Anett Kontaveit. A belga ainda não perdeu set.

A força mental de Medvedev
Por José Nilton Dalcim
20 de janeiro de 2022 às 13:03

Só havia uma chance para Nick Kyrgios complicar a vida do cabeça 2 do Australian Open: o russo entrar na ‘pilha’ de seus devaneios e na guerrinha da torcida, perder a cabeça e a consistência necessárias. Ainda que tenha cedido um set e jogado outros dois bem apertados, Danill Medvedev confirmou o favoritismo e saiu muito forte rumo à terceira rodada.

Na maior parte do tempo, Medvedev sacou com grande qualidade, explorando o maior defeito do australiano, que sempre foi a devolução. Quando precisou do segundo serviço e não foi contundente o bastante, Kyrgios agrediu com a incrível habilidade que possui. O russo também se aventurou bem mais à rede, aproveitando certa lentidão do adversário. Este jogo foi um grande exemplo de como Kyrgios desperdiça sua carreira por falta de entusiasmo, já que exigiu atenção máxima de Medvedev o tempo inteiro, com variações táticas e técnicas de enorme qualidade diante do jogador talvez em melhor momento em todo o circuito.

No entanto, o que chama de novo a atenção é a fortaleza mental que Medvedev construiu em tão pouco tempo. Encarou a torcida barulhenta, os ruídos provocativos entre o saque, os delírios de Kyrgios e sua própria frustração. E na hora da entrevista, diante de vaias, ainda deu bronca e exigiu que o público respeitasse pelo menos o entrevistador, o bicampeão Jim Courier. Esse Urso não é pouca coisa.

Outros pontos altos da rodada masculina foram os jogos muito equilibrados e de enorme empenho em que Felix Aliassiame superou Alejandro Fokina e Benoit Paire barrou Grigor Dimitrov. Na soma, oito sets e seis tiebreaks. O francês aliás é mais um que melhorou o forehand e hoje nem foge mais do golpe como antes. Stefanos Tsitsipas demorou para bater o baixinho Sebastian Baez, mas garante que o cotovelo direito parou de doer desde domingo.

Bem mais tranquilas foram as vitórias de Andrey Rublev, Jannik Sinner e Roberto Bautista. Frustrações enormes vieram com as quedas em sets diretos de Diego Schwartzman e Andy Murray. O argentino parou no 175º do ranking, o local Christopher O’Connell que não tem nada de muito especial mas é brigador. Murray não sacou bem, errou demais e encarou um animado Taro Daniel, que não deu bola para a torcida em peso para o escocês.

Ficam marcados encontros promissores na luta pelas oitavas: Rublev x Marin Cilic, Aliassime x Daniel Evans, Paire x Stefanos Tsitsipas e Bautista x Taylor Fritz. De todos eles, acho que Rublev é o único favorito mais destacado.

Zebras e duplas faltas no feminino
Mais quatro cabeças de chave se despediram na sempre imprevisível chave feminina, dando oportunidade para muitos nomes pouco badalados. Garbiñe Muguruza e Anett Kontaveit foram as top 10 eliminadas, Elena Rybakina abandonou e Emma Raducanu não superou bolhas na essencial mão direita.

Agressiva, Alizé Cornet fez uma belíssima partida diante de uma Muguruza muito instável e sem confiança, enquanto a garota dinamarquesa Clara Tauson deu um espetáculo de força, precisão e frieza com sua capacidade de trocar direções diante de Kontaveit.

E Aryna Sabalenka achou um cheio de sobreviver ao show de horrores que seu saque proporcionou até a metade do jogo contra Xinyu Wang. Foram seis duplas faltas no game inicial, nove em dois serviços de abertura e 12 ao final do primeiro set. Parecia que a cabeça 2 não iria se achar, mas aos poucos ela controlou a situação, despachou seus pesadíssimos golpes de base, fez então até aces de segundo saque e avançou.

Enquanto isso, Iga Swiatek fez outra partida muito tranquila e vai crescendo. Anastasia Pavlyuchenkova, como era esperado, marcou a despedida emocionada e a justa homenagem a Samantha Stosur, que ainda seguirá nas duplas ao menos nesta temporada.

Não deu para Bia
Era importante para Bia Haddad Maia que a ex-número 1 Simona Halep não estivesse num bom dia ou sentisse algum tipo de pressão por voltar à Rod Laver. Nada disso aconteceu e, de forma cristalina, a romena foi superior do primeiro ao último game. Mexeu muito bem a bola, sacou com qualidade acima da esperada e vibrou o tempo todo.

A canhota brasileira, que mais uma vez ficou sem uma terceira rodada de Slam, demorou para achar um ritmo que equilibrasse o duelo de base. Aí passou a bater mais forte e mais reto, obtendo alguns pontos excelentes, além de realizar transições corretas à rede. Mas quando deixou Halep tomar conta precoce dos lances, esteve sempre correndo atrás da bola. De qualquer forma, não há motivo para desânimos. Esse é o nível em que precisará jogar daqui em diante para ter chances nos eventos de nível WTA.

Ela, Bruno Soares, Marcelo Melo e Thiago Monteiro estão na segunda rodada da chave de duplas. Se vencerem a segunda rodada, os mineiros fazem duelo direto nas oitavas.

O poder russo
Por José Nilton Dalcim
6 de dezembro de 2021 às 11:38

Há duas formas de se ganhar uma competição por equipes no tênis: ou se tem um time muito homogêneo e versátil, com várias peças alternativas, ou se aposta num megajogador que consiga resolver tudo em simples e duplas.

A Rússia possui hoje o grupo mais forte e por isso conquistou com justiça e alguma facilidade os dois campeonatos por equipes do atual calendário, disputados em formatos aliás bem parecidos: a ATP Cup e a Copa Davis. Os mesmos Daniil Medvedev, Andrey Rublev e Aslan Karatsev que brilharam em Melbourne lá em fevereiro deram conta também da Davis. E até o capitão Shamil Tarpishchev é especial: três títulos e 100 jogos pela Davis.

O destaque de novo coube ao número 2 do mundo, ainda que Medvedev tenha a rigor enfrentado apenas um top 20 (Pablo Carreño) e outro top 30 (Jan-Lennard Struff) e saído sem perder set. A ATP não dá pontos no ranking para a Davis, mas contabiliza no currículo e assim Medvedev termina a temporada com notáveis 63 vitórias em 76 possíveis, com quatro títulos individuais, entre eles o US Open, e dois por equipe.

A Rússia aliás saiu duplamente coroada na temporada 2021 nas competições coletivas da ITF, já que em outubro levantou a primeira versão da Copa Billie Jean King, ex-Fed Cup, em Praga, superando a Suíça na final. E a nova geração faturou a Davis Júnior, promessa de que vêm mais bons nomes por aí.

É evidente que no campo promocional a competição deixou a desejar em muitos aspectos. Poucos nomes de peso, público inexistente ou fraco, pequeno destaque da mídia e até o azar de ver a Espanha ficar de fora das quartas. Por sorte, alguns duelos foram bem equilibrados, mas esta foi sem dúvida a Davis menos prestigiada e vistosa talvez de toda sua centenária história. Pena.

Mudanças para 2022
Ainda à procura de um modelo menos ruim e controverso, a ITF fará novas mudanças na fase final da Copa Davis para 2022. O número de participantes da luta pelo título cairá de 18 para 16, o que permitirá a disputa de quatro grupos de quatro países, com jogos de todos contra todos e cada grupo em uma cidade, ainda não anunciadas. Os campeões e vices avançaram para as quartas e daí em diante a disputa eliminatória acontecerá em um quinto local. Muito provavelmente, serão todos na Europa para encurtar os deslocamentos. A ideia é um torneio de 12 dias.

A ITF no entanto manteve o tenebroso critério de dar dois convites, já definidos em favor de Sérvia e Grã-Bretanha, o que indica que esses dois países sejam possíveis sedes da fase de grupos. Não dá para aceitar convidados, qualquer porte que sejam, numa competição que deveria ser seletiva. Eles se juntam ao finalistas Rússia e Croácia.

As outras 12 vagas serão definidas no qualificatório entre 4 e 5 de março, que pelo menos manteve o antigo formato de alternância de mandante, embora as partidas sejam em três sets. O Brasil foi sorteado para encarar a Alemanha em casa, o que é importante. Se Alexander Zverev não vier – ele é totalmente contrário à nova Davis -, as chances aumentam diante de Jan-Lennard Struff e Dominik Koepfer, prováveis titulares. Eles têm uma dupla de respeito, caso joguem Kevin Krawietz e Tim Puetz. Tem tudo para ser um evento de peso.

Potências como França, Espanha, Itália e Argentina também jogam o qualificatório de março. Franceses e espanhóis jogam em casa contra Equador e Romênia e são amplos favoritos, enquanto Argentina recebe os tchecos e a Itália terá de ir à Eslováquia. Os EUA jogam em casa contra a Colômbia, a Austrália sedia contra os húngaros e o melhor duelo pode ser entre Holanda e Canadá.

E mais

  • Novak Djokovic atingiu a histórica marca de 350 semanas na liderança do ranking. E somará pelo menos mais oito até o final do Australian Open.
  • O Masters 1000 de Madri foi comprado pela IMG, a empresa de marketing e eventos norte-americana que também é sócia do Rio Open.
  • A ATP Cup está confirmada em Sydney, mas terá apenas 16 participantes e pequeno aumento de premiação em relação a este ano, subindo para US$ 14 milhões, distante dos US$ 22 milhões da primeira edição. O torneio colocou 24 equipes em quadra em 2020 e reduziu para 12 nesta temporada.