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Como um dos grandes, Tsitsipas insiste, luta e vira
Por José Nilton Dalcim
17 de fevereiro de 2021 às 12:27

Assim como os grandes tenistas, aqueles que geralmente merecem títulos, Stefanos Tsitsipas viu uma chance, agarrou com unhas e dentes e não desperdiçou. Numa batalha de 4h05 que exigiu o máximo de sua frieza e capacidade técnica, o grego de 22 anos se tornou apenas o terceiro a virar em cima de Rafael Nadal depois que o espanhol fez 2 sets a 0. E com um desempenho desse quilate, tentará pela terceira vez decidir um Grand Slam.

Foi um jogo épico de vários capítulos, bem definidos. No primeiro deles, Nadal jogou num nível assombroso, tomando a iniciativa nos dois primeiros sets e sufocando Tsitsipas o tempo inteiro. A segunda parte da história veio num terceiro set totalmente equilibrado e com mínimas falhas dos sacadores. Nadal continuava a trabalhar muito bem com o saque, mas o grego conseguiu enfim calibrar o forehand, elemento crucial na evolução que viria a seguir.

O tiebreak mudou tudo. Stef errou uma bola boba logo de cara e Nadal teve um smash absurdamente fácil para 2-0. E errou. E errou de novo, este outro um pouco mais difícil lá do fundo de quadra. Agressivo e concentrado, Tsitsipas agradeceu e iniciou a reação. De forma espantosa, sem gritarias ou comemoração exagerada. Era um bom sinal.

A terceira parte do jogo viu Nadal cada vez mais lento, o que o fazia errar bolas tolas, mas salvando-se com o saque e sua inigualável capacidade de lutar e encontrar soluções, como subidas inesperadas à rede. Porém do outro lado da quadra estava agora um adversário que se mexia esplendidamente, sólido nos golpes, sóbrio na atitude, ciente de que havia surgido uma oportunidade de ouro.

O espanhol merece todos os créditos pelo esforço enorme que fez para se manter vivo no quinto set, mas era evidente que faltavam pernas, algo muito semelhante ao que aconteceu no terceiro set diante de Daniil Medvedev no Finals de pouco meses atrás.

Quem diria, Nadal perdeu no físico. Não tinha mais forças para manter a maior parte das trocas, errava bolas no meio da rede e muitas vezes nem tentou a defesa. Mas lutou como pôde e ainda quase arrancou uma quebra para levar ao match-tiebreak diante da natural tensão que o oponente sentiu frente à façanha gigantesca que tinha diante de si.

O desafio agora é Medvedev
Stef está assim pela terceira vez numa semi de Slam e tenta evitar a frustração de Melbourne-2019 e de Roland Garros do ano passado. A missão é outra vez muito difícil, já que o russo Daniil Medvedev está bem mais descansado e ganhou quatro dos cinco confrontos já feitos entre eles.

‘Urso’ também está em sua terceira semi de Slam – mas tem o vice do US Open de 2019 – e aumentou sua incrível série invicta para 19 jogos ao superar com certa folga o amigo e compatriota Andrey Rublev. Ele aliás busca o quarto título seguido, que se somaria ao Masters de Paris, ao Finals de Londres e à ATP Cup. Com toda justiça, assumirá o terceiro posto do ranking na segunda-feira no lugar de Dominic Thiem e pode até superar Nadal, caso conquiste o título no domingo.

Medvedev bateu Rublev sem perder set pela quinta vez. Sua solidez diante do jogo de risco do conterrâneo faz toda a diferença, ainda que Rublev tenha sentido cãibras para complicar ainda mais. Fato curioso, esta foi apenas a segunda vez que Medvedev derrotou um top 10 em Slam, repetindo a vitória sobre Stan Wawrinka em Wimbledon de 2017.

O estranho adeus de Barty
A segunda vaga na final feminina do Australian Open ficará com uma tenista que está hoje fora do top 20. A líder do ranking Ashleigh Barty sofreu uma atípica virada diante da tcheca Karolina Muchova, 27ª colocada, e Jennifer Brady ganhou o duro duelo norte-americano com Jessica Pegula.

Muchova, que também reagiu de um péssimo início contra Karolina Pliskova, esteve perto de levar um ‘pneu’ de Barty no set inicial. Pediu atendimento para um mal estar e daí em diante apostou num tênis sólido. A australiana saiu completamente do eixo, passou a errar tudo e perdeu o ímpeto agressivo. A Austrália continuará sem uma campeã. A última foi em 1978.

De qualidade muito superior, o duelo americano foi de reviravoltas. Cada uma dominou um set e no terceiro Pegula saiu com quebra, mas Brady foi muito mais eficiente daí em diante e disparou no placar.

O jogo desta madrugada promete ser equilibrado. Se Brady já esteve na semi do US Open do ano passado e está no 21º posto do ranking, Muchova levou a melhor no único duelo entre elas, em Praga-2017.

Público volta para alegrar semifinais
Com o retorno autorizado de público às arquibancadas, a arena Rod Laver terá quase 8 mil espectadores nesta quinta-feira para ver jogos bem interessantes.

Com ares de final antecipada, Naomi Osaka reencontra Serena Williams com a vantagem de ser 16 anos mais jovem e ter vencido dois dos três duelos entre elas. Osaka nunca perdeu uma semi de Grand Slam nas três vezes que chegou lá e Serena busca igualar o recorde de 34 finais desse nível de Chris Evert. Em seguida, acontece a inesperada semi entre Brady e Muchova.

Às 5h30, o líder do ranking Novak Djokovic entra com favoritismo absoluto diante do russo Aslan Karatsev, que está 113 posições atrás do ranking e nunca havia disputado um Slam na carreira, ainda que tenha 27 anos. O sérvio jamais perdeu uma semi no Melbourne Park. Nenhum quali ou debutante em Slam decidiu um título na Era Aberta.

Recorde garantido para Djokovic
A ATP confirmou: com a queda de Nadal, é certo que Djokovic permanecerá na liderança do ranking até o dia 8 de março e portanto atingirá as 311 semanas como número 1, superando a incrível marca de Roger Federer. Que feito!

E mais
– As outras duas viradas que Nadal sofreu após abrir 2 sets a 0 foram em Miami-2005 para Federer e no US Open-2015 frente a Fognini. Sua marca de qualquer forma é assombrosa: 243-3.
– Tsitsipas já tinha obtido uma reação desse naipe, mas foi frente ao também espanhol Jaume Munar em Roland Garros do ano passado.
– O tiebreak perdido no terceiro set, que abriria caminho para a reação do grego, impediu Nadal de igualar a marca de 36 sets seguidos vencidos em Slam, que assim permanece com Federer.
– Medvedev se torna o quinto russo a alcançar as semifinais em Melbourne, se juntando a Aslan Karatsev. Apenas Kafelnikov (1999) e Safin (2005) foram campeões.
– Soares e Murray confirmaram sobre Arevalo/Middlekoop e têm grande desafio na semi diante dos atuais campeões, Ram e Salisbury. Se chegar ao bi em Melbourne, o mineiro grudará nos colombianos e ficará a 180 pontos da liderança do ranking.
– Sabalenka e Mertens estão na final de duplas contra Krejcikova e Sianiakova. Se forem campeãs, assumirão o número 1 do ranking de duplas por apenas 5 pontos sobre Hsieh.

Equilíbrio da chave não tira favoritismo de Djokovic
Por José Nilton Dalcim
5 de fevereiro de 2021 às 11:01

O sorteio da chave masculina realizado nesta madrugada foi muito generoso para quem gosta de emoções e grandes jogos. A distribuição dos principais nomes indica dificuldades crescentes para os dois grandes favoritos, mas é certo que Novak Djokovic sai à frente de Rafael Nadal na disputa particular por façanhas em Melbourne.

Não parece haver qualquer adversário com capacidade de dificultar a vida do oito vezes campeão nas quatro primeiras rodadas, já que a estreia é contra Jeremy Chardy e depois a lógica aponta Frances Tiafoe, Taylor Fritz e Stan Wawrinka ou Milos Raonic.

Pelo que mostrou na ATP Cup, Djokovic está em forma exuberante e as vitórias de simples sobre Denis Shapovalov e principalmente Alexander Zverev só podem enchê-lo de confiança. Ao mesmo tempo, vimos Stan e Raonic sem condições físicas ideais para um duelo de cinco sets.

Se Zverev mantiver o embalo e fizer quartas, aí sim teremos um confronto muito interessante. O alemão está sacando muito e adotou o estilo Kyrgios de segundo saque, alguns deles a 240 km/h. Também se mexeu muito bem e não duvidou na hora de ir à rede. Sua sequência é muito promissora, já que os cabeças no seu quadrante são Adrian Mannarino e depois Gael Monfils ou Dusan Lajovic.

Dominic Thiem ficou no lado de Djokovic, o que possibilita antecipar a final de 2020 para a semi. Mas o austríaco foi um fiasco na ATP Cup e precisará aproveitar muito bem as primeiras rodadas para recuperar o ritmo e a cabeça. O canhoto Ugo Humbert na terceira rodada já é respeitável, Pablo Carreño ou Grigor Dimitrov nas oitavas podem complicar e as quartas potencialmente têm Diego Schwartzman e Denis Shapovalov como alternativas. Isso é claro se Shapo passar pela duríssima estreia diante de Jannik Sinner, de longe o melhor jogo da primeira rodada.

Dúvidas cercam Nadal
Dores lombares impediram até aqui Nadal de jogar na ATP Cup, o que pode ser bom ou ruim. Ele já havia declarado que não costuma disputar torneios antes de um Grand Slam e está cumprindo a norma. Ao mesmo tempo, entrará no Australian Open com uma única exibição disputada e isso deixa dúvidas.

As duas primeiras rodadas são muito tranquilas, com Laslo Djere e depois Viktor Troicki ou Michael Mmoh, mas o habilidoso Daniel Evans na terceira partida exige atenção. Alex de Minaur se saiu pior na ATP Cup do que Fabio Fognini, mas o italiano aguentaria cinco sets contra Rafa? As quartas têm como candidatos Stefanos Tsitsipas, Matteo Berrettini ou Karen Khachanov. O grego é um adversário à altura do cabeça 2, ainda que Berrettini claramente melhorou o backhand.

Os russos top 10 no entanto são a barreira mais expressiva para Nadal repetir a final de 2019. Daniil Medvedev tem desafios interessantes, já a partir de Vasek Pospisil e depois com Filip Krajinovic, Borna Coric ou David Goffin, mas somente um dia muito ruim o tiraria do aguardado reencontro com o amigo Andrey Rublev.

Único brasileiro nas chaves de simples, Thiago Monteiro estreia diante do eslovaco Andrej Martin e em seguida desafiaria justamente Rublev. Não foi um grande sorteio, mas o canhoto cearense venceu com louvor três rodadas no ATP 250 de Melbourne. Sacou muito bem na hora certa e mostrou outra vez um forehand bem agressivo, que o ajudou nos contragolpes graças à ótima movimentação lateral. Dá para acreditar.

No próximo post, analiso a chave feminina, as finais da ATP Cup e dos outros cinco torneios em andamento.

Thiem brilha e complica Nadal
Por José Nilton Dalcim
17 de novembro de 2020 às 19:47

O austríaco Dominic Thiem trouxe para Londres sua máxima disposição e isso lhe garantiu duas grandes atuações, vitórias e o primeiro lugar do grupo 2, ou seja, está pela segunda vez seguida na semi em seu quinto ATP Finals. Ao mesmo tempo, a vida de Rafael Nadal se complicou. Ainda que a vaga dependa apenas da vitória sobre Stefanos Tsitsipas por qualquer placar na quinta-feira, o eventual segundo lugar aumentará a chance de ele cruzar com Novak Djokovic no sábado e isso certamente reduzirá sua chance de erguer o troféu inédito.

Thiem e Nadal fizeram um duelo espetacular, digno de uma decisão. Além do conhecido empenho físico e da força dos golpes cheios de topspin, os dois procuraram variações. Troca de direções, slices, subidas à rede, curtinhas, lobs. Arsenal completo para uma partida intensa, de lances magníficos, decidida em pequenos detalhes.

O primeiro set não viu break-points e Nadal deixou escapar chance preciosa, ao abrir 5-2 com dois saques para fechar o tiebreak. Depois de reagir, Thiem fez dupla falta e ofereceu set-point no serviço do espanhol, mas desta vez jogou muito bem e embalou com sucesso em lances de risco. Note-se que o sacador só venceu 2 dos 12 primeiros pontos e 5 dos 16 totais, algo pouco usual nesse nível.

Nadal é claro não desanimou e o ritmo intenso se manteve em todo o segundo set. Que batalha. O espanhol sacou com 4/3, mas outra vez não se sustentou. Pouco depois, saiu de 0-40 e evitou três match-points, e ao menos em um deles Thiem teve chance clara. O austríaco no entanto manteve o foco, algo aliás que tem sido seu ponto forte nestes dois jogos iniciais. Saiu de novo atrás do tie-break, tirou então três serviços do adversário e jamais recuou da tática ofensiva, totalizando 37 winners. Um dos grandes jogos do ano, sem dúvida.

Não menos interessante foi o jogo entre Tsitsipas e Andrey Rublev. O grego começou de forma sufocante, agressivo nas devoluções, preciso na rede. Mas o russo elevou o nível no segundo set. Bem mais consistente na base, também começou a trabalhar melhor com o saque e a pressão sobre o adversário ficou grande.

Rublev teve tudo para ganhar seu primeiro jogo no Finals e se manter vivo por vaga na semi. Fez 0-30 no game imediatamente anterior ao tiebreak derradeiro, pecando por forçar demais uma devolução essencial no 30-iguais. Novamente agressivo, o grego fez 5-2 mas levou a virada diante dos golpes pesadíssimos de Rublev. No match-point, o russo cometeu dupla falta tipicamente nervosa e Tsitsipas agradeceu.

A situação do grupo é simples. Thiem e Rublev jogam amistoso que vale US$ 153 mil e 200 pontos no ranking, Nadal e Tsitsipas lutam pela vaga com vantagem histórica do espanhol de amplos 5 a 1. Curiosamente, a única vitória do grego foi no saibro. Rafa levou as três no sintético. O duelo mais recente aconteceu na mesma arena O2 de um ano atrás, com eletrizante placar de 6/7, 6/4 e 7/5.

Melo e Kubot dão adeus
A segunda derrota na fase classificatória de Londres, somada à nova vitória da parceria formada por Koolhof e Mektic, decretaram o fim das chances de Marcelo Melo e Lukasz Kubot atingirem a semi do Finals. Em duelo direto, Krawietz/Mies e Ram/Salisbury decidirão na quinta-feira a outra vaga do grupo.

A dupla do mineiro perdeu o serviço três vezes seguidas no set inicial. Reagiu no outro, mas jamais conseguiu um break-point e permitiu que os alemães abrissem diferença importante logo no início do tiebreak.

O fato é que, apesar dos dois troféus conquistados nesta temporada em nível 500, Melo e Kubot tiveram raros bons momentos nos grandes eventos. Venceram apenas dois jogos nos três Grand Slam e três nos três Masters. É bem pouco para a qualidade do dueto. Tomara que não desanimem para 2021.

50 anos do Finals
A partir de 1977, o Finals se fixou em Nova York e encontrou uma casa espetacular, onde desfilaram gênios da raquete: o Madison Square Garden. O bom contrato permitiu mais do que dobrar o prêmio do campeão, que saltou imediatamente de US$ 40 mil para US$ 100 mil, chegando no final a US$ 300 mil. Sobre um veloz tapete, Connors e McEnroe brilharam nos dois primeiros anos, mas a versatilidade deu um bi a Borg e outro a Lendl nas quatro edições seguintes, até que Mac ganhou mais duas vezes. Lendl no entanto foi o grande nome desse período, com mais três troféus (85-87) e um total de nove finais seguidas. Becker e Edberg fecharam o período do Madison. Nas duplas, destaque absoluto para o hepta seguido de McEnroe/Fleming (78-84). Entre 1986 e 89, as duplas foram separadas e sediadas em Londres.