Arquivo da tag: Andrey Rublev

Analisando 2019: nova geração cava espaço
Por José Nilton Dalcim
7 de dezembro de 2019 às 00:46

É bem verdade que o topo do ranking continua firme e forte nas mãos do Big 3, mas se tirarmos o mais poderoso triunvirato já visto no tênis masculino é fácil perceber que a nova geração enfim chegou para ocupar seu lugar no circuito.

Cinco dos outros top 10 estão entre os 21 e 26 anos, e somando triunfos cada vez mais relevantes. Stefanos Tsitsipas, o mais jovem deles, conquistou o quinto mais importante torneio do calendário, troféu aliás que também já está na galeria de Alexander Zverev.

Com inesperado salto de qualidade em 2019, Daniil Medvedev faturou dois Masters e chegou a um vice de Grand Slam, desempenho semelhante ao do bem mais experiente Dominic Thiem, que somou nada menos que seis vitórias sobre o Big 3 em diferentes pisos. Por fim, Matteo Berrettini foi a grande surpresa, com títulos no saibro e na grama e a incrível semi no US Open.

Não restam dúvidas sobre o potencial diferenciado de Stef. O grego é dono de um arsenal poderoso. Ao mesmo tempo que o saque faz estragos e simplifica pontos, ele evoluiu na consistência na base e transformou o backhand numa arma, pegando as bolas mais na subida sem sair de cima da linha. Voleia com desenvoltura. Ficou muito perigoso nos pisos mais velozes, e olha que foi mal na grama. O essencial, no entanto, foi dominar a cabeça. Realizou uma reta final de temporada madura, sem chiliques e com ótimo físico. A seguir assim, pode ganhar de qualquer um, em qualquer piso.

Apesar de todo mundo ainda estar boquiaberto com Medvedev, acredito que o segundo nome da ‘nova geração’ a ser observado seja Thiem. Ainda que tenha 26 anos, não vejo motivo para tirá-lo da lista do Next Gen. O austríaco reúne habilidades e tem conseguido aparar seus defeitos. Tenista de golpes muito pesados e físico privilegiado, deixou de jogar tão atrás da linha, evoluiu nas devoluções e treinou a transição para a rede. Ficou bem mais completo e isso explica o sucesso inédito na quadra sintética. Pela primeira vez, venceu mais sobre o piso duro do que no saibro. Com exceção a Wimbledon, é sensato colocá-lo entre os candidatos para os demais Slam em 2020.

Medvedev é um caso à parte, a começar pelo estilo pouco ortodoxo. Joga ofensivo a partir do saque, mas se defende muito bem para seus 1,98m. Ganhou títulos de gabarito em quadras muito velozes, como Cincinnati e Xangai, sem ter um jogo de rede sequer razoável. O segredo é talvez menos técnico e muito mais mental, e vimos essa fortaleza em jogos longos e duros ou frente à torcida irada. No entanto 2020 tende a ser um outro universo. Ele já não é mais surpresa, os adversários estudaram suas fraquezas e haverá um caminhão de pontos a defender a partir de abril. É hora portanto de sabermos o tamanho de sua fome.

Zverev e Berrettini estão em extremidades opostas. O alemão já fez muito para seus tenros 22 anos, e isso gera cobrança constante, vinda de fora e, pior ainda, de dentro. Vejo o rapaz com dois problemas graves: a lenta evolução técnica – principalmente se comparada aos demais jovens – e a exagerada instabilidade emocional. Será que uma queda maior, que o tirasse do foco, não seria uma solução a médio prazo? Já o italiano ainda me parece um bom mas limitado jogador, que explora bem a força. É fato que muitos tenistas com um golpe de base fraco, como é o caso de seu backhand, foram longe em suas carreiras, mas aos 23 anos espera-se que ele trabalhe incansavelmente nisso.

Logo abaixo, eu listaria seis nomes a se observar: os canadenses Denis Shapovalov e Felix Aliassime, os russos Karen Khachanov e Andrey Rublev, o australiano Alex de Minaur e o norte-americano Taylor Fritz. São reais candidatos ao top 10, ao menos em algum momento da temporada. O dueto canadense é espetacular e promissor, mas ainda falta estabilidade emocional, um por ser explosivo demais, o outro por ser um tanto passivo.

Khachanov deu na verdade um pequeno e compreensível passo para trás em 2019 e Rublev reagiu muito bem à fase de contusões. São jogadores de golpes muito pesados e que precisam ganhar versatilidade. Rublev me agrada especialmente. São casos bem diferentes do incansável De Minaur, um lutador a quem carece iniciativa. O tênis no entanto já fez muitos guerreiros heróis. Por fim, Taylor Fritz é esperança real do tênis americano, porque não depende exclusivamente do saque e se vira muito bem na base, o que é a síntese do jogo moderno.

Não deixemos de observar Jannik Sinner, a sensação italiana de 18 anos que navega entre a consistência e a ousadia. Neste ano, ganhou futures e challengers, fez semi de ATP e entrou no US Open. Se ganhar massa muscular, será um perigo, ainda mais com a prestigiada orientação do genial Riccardo Piatti.

E mais
– Dos 15 novos campeões que surgiram nesta temporada,  oito têm no máximo 23 anos: De Minaur (19), Opelka (21), Djere (23), Garin (22), Fritz (21), Jarry (23), Hurkacz (22) e Shapovalov (20).
– Este é o maior número de campeões inéditos numa só temporada, superando os 13 de 2018 e 2004. Importante ressaltar que em 2012 houve apenas um.
– Dos 67 títulos em jogo, apenas 13 ficaram com o Big 3, embora se incluam aí os quatro Slam e cinco Masters. Foram 40 campeões diferentes, a lista mais diversificada desde os 41 de 2001.
– Seis novos tenistas chegaram pela primeira vez ao top 10 e quatro deles são da Next Gen: Tsitsipas, Medvedev, Berrettini e Khachanov. Os outros foram Bautista e Fognini.
– Desde que Nadal chegou à vice-liderança do ranking, em julho de 2005, nenhum outro tenista ocupou o número 2 que não fosse o Big 4.

Nadal salva a Copa Davis
Por José Nilton Dalcim
24 de novembro de 2019 às 22:47

O número 1 do mundo jogou um tênis espetacular nas oito vezes que entrou em quadra, foi essencial na conquista do sexto título da Espanha e salvou a primeira edição em que a Copa Davis mudou radicalmente seu formato. Sim, porque ao levar a Espanha até a final, jogando simples e duplas, ele garantiu casa lotada o tempo inteiro nos jogos de seu país, diminuindo a sensação de vazio que se viu nas arquibancadas durante os outros confrontos da semana. O que aconteceria se dessem canadenses contra argentinos ou russos frente britânicos na decisão deste domingo?

Além do mais, Rafa tem aquilo que pode se chamar de ‘espírito de Davis’: extremamente competitivo, vibrante, envolvente. Ganhou tudo na Caixa Mágica: cinco de simples sem perder set ou ter sequer o serviço quebrado, e mais três de duplas, duas delas para marcar viradas diante de Argentina e Grã-Bretanha em jogos duríssimos e de tirar o fôlego. Atinge agora 29 vitórias individuais consecutivas desde 2004.

Sua importância para o time é indiscutível, tendo participado de cinco dos seis títulos conquistados – o único foi justamente o primeiro, em 2000 -, e entrado em quatro finais, a começar por 2004 quando ainda era juvenil. A contusão de 2008 o impediu de ir a Buenos Aires na vitória histórica sobre a Argentina. As outras conquistas vieram em 2009 e 2011, curiosamente em temporadas nas quais Nadal não estava no auge da carreira.

Ficam as dúvidas
No quesito meramente esportivo, que deveria ser o que mais importa, o novo formato da Davis não foi nada ruim. Ainda que alguns nomes mais conhecidos do circuito tenham faltado, três dos Big 4 competiram e houve jogos de nível muito bom, partidas decididas no detalhe, emoção em diversos confrontos. E muito brilho da nova geração, com destaque para Denis Shapovalov, Andrey Rublev e Kyle Edmund.

Mas é claro faltou algo essencial quando se pensa em Davis: a torcida. Andy Murray chegou a convocar ‘britânicos que estivessem em Madri’ pelas redes sociais, dando ingresso, na tentativa de engrossar as vozes na semifinal contra a Espanha. O irmão Jamie pesquisou e divulgou até os preços das passagens aereas. Situação um tanto patética para uma competição que sempre se prezou por lotar estádios nos grandes confrontos.

Existem outros problemas claros a resolver. Para garantir o mínimo de público participante, parece pouco provável que a fase final saia da Europa, já que o Velho Continente reúne a maior parte dos países envolvidos e a curta distância de fronteiras ainda permite a presença de torcedores mais diversos, como vimos em Madri. Os EUA poderiam ser uma opção, ainda que mais cara; a América do Sul traz um complicador evidente e a Austrália, nem pensar.

A se manter o atual calendário – e não há brechas no momento para uma mudança -, o piso sempre será o duro coberto, porque não teria o menor sentido forçar os tenistas a mudar repentinamente para o saibro tão no fim da temporada. Até a Caixa Mágica foi obrigada a evitar a terra. E como o aperto da programação não dá espaço para adiamentos, o teto é sine qua non.

Ou seja, a Davis perde todo seu caráter secular de imprevisibilidade e adaptação. Mas ok, é um detalhe que pode ser relegado num momento em que o tênis está bem padronizado. Claro que as chances de um país de saibro ir longe ficam prejudicadas. E daí?, devem pensar os promotores.

Será inevitável a comparação com a estreante ATP Cup de janeiro, que terá 24 países, portanto seis a mais que a fase final da Davis, e acontecerá em três locais diferentes da Austrália. Porém o sistema será parecido: seis grupos de quatro, todos contra todos, com campeão da chave indo às quartas, tudo em melhor de três sets. A diferença substancial é que valerá pontos para o ranking, servirá de aquecimento para o Australian Open e deve reunir a maior parte dos top 20 do ranking.

E mais
– Roberto Bautista perdeu o pai Joaquin na sexta-feira, mas voltou a Madri no domingo para vencer o primeiro duelo da final. Sua mãe Ester havia falecido no ano passado.
– Feliciano Lopez é o outro integrante do time atual da Espanha a ter disputado quatro finais de Davis.
– O Canadá eliminou Itália, EUA, Austrália e Rússia, repetindo um feito de 106 anos, quando atingiu a final do ‘challenge round’ então pela única vez.
– Os quatro semifinalistas deste ano – Espanha, Canadá, Rússia e Grã-Bretanha – estão garantidoso na fase final de 2020, ao lado dos convidados França e Sérvia.
– Os outros 12 participantes serão definidos no quali de 6 e 7 de março, e o Brasil deu azar: terá de ir à Austrália. Duelos interessantes: Argentina x Colômbia, Áustria x Uruguai, Japão x Equador e Suécia x Chile.
– A Sérvia sofreu dolorosa derrota nas duplas decisivas contra a Rússia nas quartas de final, tendo dois match-points. Isso também marcou o adeus definitivo do ex-top 10 Janko Tipsarevic, que atuou em simples na semana.

No seu melhor estilo, Murray enfim está de volta
Por José Nilton Dalcim
20 de outubro de 2019 às 22:07

Não foi apenas um título de redenção em cima de um adversário de gabarito indiscutível. Antes de tudo, veio uma conquista no autêntico estilo Andy Murray. Sofrida, suada, arrancada de dentro da alma. Compreensíveis portanto as lágrimas que caíram minutos após a virada em cima de Stan Wawrinka, numa final de ótimo nível e muitas emoções no tradicional ATP da Antuérpia.

Murray não disputava quatro partidas seguidas desde que fez o milagre de atingir as quartas de Wimbledon de dois anos atrás, no exato momento em que percebeu que não daria mais para continuar em quadra com tantas dores no quadril. Fez a primeira cirurgia, tentou a volta um ano depois, mas só jogou seis torneios de simples, arrastando-se várias vezes pela quadra. Quando começou 2019, perdeu na segunda rodada de Brisbane e decidiu em Melbourne que iria se aposentar em Wimbledon. Sugerida a prótese metálica, arriscou nova cirurgia e, cinco meses depois, fez um retorno de sucesso primeiro em duplas. Arriscou nas simples somente em Cincinnati, cauteloso mas com evolução progressiva desde então.

Na Antuérpia, Murray finalmente rompeu a barreira das quatro partidas e colecionou cinco vitórias, sendo quatro em dias sucessivos e as três últimas no terceiro set, apenas a segunda vez que isso aconteceu em seus 46 títulos. A final contra Wawrinka não poderia ser mais emblemática, porque o suíço também estava atrás de seu primeiro título desde as duas cirurgias que fez no joelho em agosto de 2017. Vê-los lutar em nível tão alto por 2h27 foi muito especial para quem admira o tênis.

Claro que o jogo teve altos e baixos. Stan foi muito ofensivo e parecia dono da situação até fazer 6/3 e 3/1. Apareceu então o magistral e conhecido espírito de luta do escocês. Reagiu, salvou dois break-points cruciais no 4/4, levou ao terceiro set e ficou sempre atrás do placar, tendo de recuperar quebras duas vezes seguidas. A recompensa se concretizou com ótimas devoluções que induziram o suíço ao erro no game final. Como já não bastasse o espetáculo técnico que propiciaram, os dois se sentaram lado a lado antes da cerimônia para uma animada conversa.

Ao levantar seu primeiro título desde Dubai, em fevereiro de 2017, quando era o número 1 e não o 243º deste domingo, Murray revelou nervosismo antes do jogo e surpresa com o resultado final. “Não esperava estar nesta posição outra vez. Antes da temporada asiática, avaliei a situação com meu time e afirmei que queria ser competitivo, não ser esmagado em quadra, dar trabalho aos meus adversários. Não pensava em ganhar de Stan ou (Matteo) Berrettini ou quase derrotar (Fabio) Fognini”.

Enquanto Stan voa para a Basileia e tentará em Paris um último esforço para tentar chegar ao Finals, Murray não sabe se arriscará um convite em Bercy. Nesta segunda-feira, ele será o 127º do ranking, a 114 pontos do top 100 e da vaga direta no Australian Open.

Nova geração brilha de novo
Mas o fim de semana também foi da garotada. Denis Shapovalov, que até então amargava sete derrotas em semifinais, superou o trauma e faturou Estocolmo, se tornando o 15º tenista a levantar o primeiro troféu da temporada, o oitavo entre os NextGen e o segundo mais jovem (20), atrás somente de Alex de Minaur (19). O canadense vinha bem até Miami, mas aí perdeu o rumo no saibro e na grama. Reconheceu ter feito calendário errado e que uma parada após Wimbledon se mostrou essencial para reencontrar o prazer de jogar. Elogiou ainda a parceria recente com Mikhail Youhzny.

Em caso, Andrey Rublev comemorou o 22º aniversário erguendo o troféu de Moscou, o segundo título depois de Umag-2017. Recuperado fisicamente e em grande ascensão outra vez, ele entrará no top 25 nesta segunda-feira após somar 19 vitórias nos últimos 25 jogos. E ficou emocionado, já que diz ter passado seus tempos de juvenil vendo o torneio e sonhando em ganhá-lo um dia. Nas seis participações anteriores, jamais tinha vencido uma vez sequer.

WTA Finals definido
Na chance derradeira, Belinda Bencic conseguiu vaga inédita para o WTA Finals, que será disputado dentro de sete dias em Shenzhen. A suíça precisava ir à final em Moscou, porém fez ainda melhor e levou o título, o quarto da carreira. Vale lembrar que a prodígio sofreu com lesões e começou este ano como 54ª, tendo alcançado a semi do US Open e vencido seis duelos contra adversárias top 5 em 2019.

Com a vaga de Bencic, o Finals feminino terá cinco participantes com até 25 anos (Ashleigh Barty, Naomi Osaka, Bianca Andreescu, Bencic e Elina Svitolina). A mais velha será Petra Kvitova, de 29, um a mais que Simona Halep e dois acima de Karolina Pliskova.

Nadal e Federer
Muita festa para Rafael Nadal, que após 14 anos se casou com a namorada de adolescência Maria Francisca Perello, a Xisca. Muitos esportistas foram ao casório, mas o destaque foi o antigo rei Juan Carlos I.

Na Basileia, onde estreia já nesta segunda-feira, Roger Federer revelou que não foi convidado, mas não demonstrou qualquer mágoa. Ele tenta o 10º troféu no ATP caseiro, algo que conquistou este ano também em Halle. A chave no entanto é dura, já que pode cruzar Wawrinka nas quartas e Stefanos Tsitsipas na semi. O cabeça 2 é Sascha Zverev.