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Bagunçou geral
Por José Nilton Dalcim
30 de maio de 2022 às 18:56

Atuações espetaculares do veterano Marin Cilic e do estreante Holger Rune deixaram um clima de completa imprevisibilidade na parte inferior da chave masculina de Roland Garros. O atual vice Stefanos Tsitsipas e o cabeça 2 Daniil Medvedev saíram de cena e abriram espaço também para a força de Andrey Rublev e o tênis todo certinho de Casper Ruud. Um deles decidirá o título no domingo.

Rune, de 19 anos e adversário de Carlos Alcaraz desde os tempos de juvenil, já vinha mostrando grande qualidade, com um jogo de base muito firme e agressivo, mas também com saque apurado e toques geniais, um arsenal que lembra mesmo a sensação espanhola. Seu apuro tático contra Tsitsipas foi notável, forçando backhand e tomando iniciativa, bem como a cabeça fria nos pontos importantes.

Se mantiver tal padrão, tem chances reais contra Ruud, que começou muito mal a fase do saibro mas que vem crescendo desde Roma. Hoje foi muito oportuno diante de Hubert Hurkacz, que não se mexe tão bem no saibro, mas o norueguês depende muito do forehand.

O velho Cilic, por sua vez, deu aula em Medvedev. Desde o começo, entrou decidido a comandar os pontos e a aproveitar o recuo excessivo do cabeça 2. Sua bola andou muito o tempo inteiro, ainda mais diante dos golpes muito curtas do russo nos dois primeiros sets. A distância no placar lhe deu confiança e foi um rolo compressor. Muito bom vê-lo com tamanha desenvoltura outra vez e ainda mais no saibro lento.

Rublev teve alguma sorte. Jogou um péssimo primeiro set vendo um Jannik Sinner muito competente em tudo, mas o italiano foi perdendo mobilidade e acabou por desistir nos primeiros games do terceiro set com dor no joelho. Rublev venceu quatro dos seis duelos contra Cilic, mas acabou de perder na terceira rodada no Australian Open onde o croata também jogou em alto padrão. Como são dois jogadores que optam pelo risco, vai ser uma questão de quem segura melhor a cabeça.

E vai ser à noite
A polêmica foi rapidamente resolvida pela organização e, por questões mercadológicas um tanto óbvias, Novak Djokovic e Rafael Nadal irão mesmo jogar na rodada noturna. Nenhum dos dois gosta de condições lentas, porém neste caso específico o canhoto espanhol sai perdendo mais, já que a umidade e o frio tiram não apenas a velocidade de seu poderoso topspin como ainda faz a bola quicar mais baixo do que aconteceria de dia.

Depois de 59 duelos, 27 deles sobre o saibro, a maioria de enorme importância na carreira de ambos, é difícil imaginar que haverá surpresas táticas. Djokovic saca melhor, tem devolução agressiva e o backhand não sente tanto o spin. Irá causar algumas surpresas com o voleio e as curtinhas, aproveitando a posição mais recuada do adversário.

Nadal sabe tirar a bola da altura da cintura do sérvio, varia muito bem com slice na paralela e possui um forehand que consegue empurrar o adversário para trás. Alternativa interessante a explorar seriam as bolas mais centralizadas, tirando ângulos e o peso, algo que desagrada o sérvio.

A questão passa por fim pelo lado físico e neste momento Nole parece mais inteiro. Isso influencia na parte mental, já que qualquer limitação traz perigosas dúvidas. Ao mesmo tempo, Rafa deve ter maioria absoluta da torcida, o que tende a aumentar conforme o placar. Tem tudo para ser o jogo do ano.

Pequeno susto para Iga
Será que o favoritismo começou a pesar para Iga Swiatek? Pela segunda rodada seguida, a polonesa teve altos e baixos e precisou reunir sua grande força mental para não deixar a adversária animada.

Vencia a jovem chinesa Qinwen Zheng, de 19 anos, com tranquilidade até que começou a errar e acabou perdendo seu segundo set desde fevereiro. Depois, fez valer sua qualidade técnica superior e confirmou vaga pela terceira vez seguida em Paris.

Buscará a segunda semi da temporada contra Jessica Pegula, que está surpreendendo sobre a terra batida desde Madri, e pode atingir a 33ª vitória seguida, que se tornará a terceira maior série deste século.

A outra vaga na semi será russa. Daria Kasatkina continua em grande momento e está atropelando todo mundo. Perdeu apenas 14 games em quatro jogos. Cruzará com Veronika Kudermetova, que anotou grande virada em cima de Madison Keys.

O adeus brasileiro
Faltou muito pouco para Bia Haddad e Bruno Soares estarem na semi de duplas mistas. Concordo com o mineiro, que avaliou terem jogado melhor do que os adversários, Nicole Melichar e Kevin Krawietz. Os dois prometem repetir o dueto em Wimbledon.

Rafael Matos e o parceiro espanhol David Vega chegaram a ter set-point na primeira série antes de cair para Marcelo Arevalo e Jean Rojer. Depois, tiveram pouca sorte nos break-points. De qualquer forma, Matos será muito provavelmente 42º do mundo na próxima lista e manterá a dupla para a fase de grama.

‘Urso’ surfa no saibro
Por José Nilton Dalcim
28 de maio de 2022 às 19:29

Para sua própria surpresa, Daniil Medvedev jogou tão bem, mas tão bem que deixou Miomir Kecmanovic no chinelo e colocou dúvida sobre aqueles que não o acham capaz de conquistar um grande título no saibro. Pode ter sido apenas um daqueles dias em que tudo dá certo e o russo, de forma humilde e esperta, prefere continuar fora dos holofotes.

Medvedev deslocou-se com maestria pela quadra, mesclou muito bem ataque e defesa, fez até mesmo o forehand andar muito e está de novo nas oitavas de final de Roland Garros. Para repetir a campanha de 2021, precisará superar Marin Cilic, que já fez quartas também, e por duas vezes, em 2017 e 2018.

Questionado se está mesmo muito à vontade no piso, Medvedev diz que ainda não se acha um saibrista autêntico, mas admite que não esperava ter atingido este nível porque fez apenas um jogo preparatório em Genebra, onde perdeu de Richard Gasquet. Sua felicidade é ainda maior porque sente o físico em dia e nenhuma dor após a cirurgia da hérnia.

Seu setor prevê Andrey Rublev ou Jannik Sinner em caso de chegar nas quartas. O compatriota fez seu terceiro jogo em quatro sets na semana e escapou por milagre de disputar uma perigosa quinta série porque Cristian Garin errou um voleio absurdamente fácil no finalzinho do tiebreak. O chileno foi um teste para a solidez e a cabeça de Rublev e talvez tivesse ido mais longe se colocasse versatilidade no seu estilo.

O italiano fez 3 a 0 enganosos contra Mackenzie McDonald. Com um tênis agressivo, o norte-americano teve 11 chances de ganhar o segundo set a partir de 5/3, no melhor momento técnico da partida. Tanto Sinner como Rublev foram quartas de Roland Garros em 2020 e o italiano tem favoritismo teórico por ter vencido os dois duelos no saibro entre eles.

Não menos promissor é o primeiro encontro entre Stefanos Tsitsipas e Holger Rune. Como se esperava, o atual vice fez enfim um jogo rápido e sem sustos contra Mikael Ymer, porém terá agora um garotão de golpes muito pesados, pernas velozes e saque respeitável. O dinamarquês de 19 anos, em seu terceiro Slam e primeiro Roland Garros, encarou com maturidade entrar na Chatrier para encarar a última esperança da casa e poderia ter vencido ainda com maior facilidade o habilidoso Hugo Gaston.

Casper Ruud enfim chega à quarta rodada do Slam onde mais se espera que ele construa um bom currículo. Teve tremendos altos e baixos contra Lorenzo Sonego e chegou a estar 2 sets a 1 atrás, mas sua firmeza e confiança na reta final compensaram as falhas. Terá pela frente um surpreendente Hubert Hurkacz, que não perdeu set até agora e mostrou como funciona bem seu jogo forçado também no saibro ao tirar David Goffin. Os dois nunca se enfrentaram e eu não apostaria contra o polonês.

Até Iga tem dias ruins
E por falar em tênis da Polônia, Iga Swiatek deu mais um passo rumo ao esperado bicampeonato. Pela primeira vez nesta edição de Paris, não jogou seu máximo. Dominava a montenegrina Danka Kovinic quando de repente saiu de giro, passou a errar tudo e obviamente fez com que a adversária acreditasse mais. Ainda assim, não deixou ir para o terceiro set e atinge a 31º vitória consecutiva.

Enfrenta agora a chinesa Qiunwen Zheng, que ganhou todos os nove games disputados contra Alizé Cornet e viu a tenista da casa sair de quadra vaiada pela torcida. Chateada, a francesa explicou mais tarde que estava com problemas no adutor e nem deveria ter tentado jogar.

A rodada viu a queda de mais duas favoritas, Paula Badosa e Aryna Sabalenka, a espanhola novamente com problemas físicos e a bielorrussa numa derrocada incrível diante da italiana Camila Giorgi, com apenas um game vencido nos dois sets finais.

Destaque para a vitória de Madison Keys sobre Elena Rybakina em que a americana marcou notáveis 44 winners. Aliás, são cinco norte-americanas nas oitavas, com chance ainda que remota de Keys enfrentar Pegula numa semi. Do outro lado da chave, estão Coco Gauff, Amanda Anisimova e Sloane Stephens.

O digno adeus de Tsonga
Por José Nilton Dalcim
24 de maio de 2022 às 20:47

A última partida se tornou um fiel espelho do que foi a carreira profissional de Jo-Wilfried Tsonga. Jogou num nível muito alto a maior parte do tempo, deu espetáculo com lances geniais, Suou, vibrou e sorriu até que veio a contusão que acabou com suas chances.

Tsonga pertence à lista daqueles que tiveram o azar de ter nascido na era do Big 4. Provavelmente, teria feito mais do que uma final de Grand Slam ou somaria outros Masters 1000 aos dois que ganhou, já que sempre se mostrou competitivo em todos os pisos. Não por acaso, integra o grupo dos raros que ganharam de Federer, Nadal e Djokovic enquanto líderes do ranking e em torneios de Slam.

Sempre foi um dos meus tenistas prediletos, principalmente quando se dispunha a abusar do jogo de rede, onde sempre deu show. Entre suas atuações emblemáticas, estão a semi de Melbourne contra Nadal e as quartas de Wimbledon frente a Federer. Mas o corpo grande e pesado lhe custava todo tipo de contusões e isso se agravou ao longo da carreira, com paradas cada vez mais frequentes e longas.

Número 5 do ranking por 12 semanas o levou à condição de maior destaque do tênis francês das últimas duas décadas, período em que ganhou 18 torneios e integrou o time campeão da Copa Davis que resgatou a memória dos Quatro Mosqueteiros.

A comemoração entusiasmada nas vitórias e a semelhança com Muhammad Ali o deixaram ainda mais icônico. Tsonga, tal qual Juan Martin del Potro, fará muito falta ao circuito pela competência, dedicação, carisma e comportamento digno, qualidades que cada dia mais são relevantes neste planeta.

Presente de grego – Stefanos Tsitsipas ganhou o lado mais fácil da chave, mas todo mundo sabia que a estreia seria perigosa. Outra vez, Lorenzo Musetti esteve 2 sets à frente e não levou em Paris por absoluta falta de físico. Isso precisa ser revisto. A parte boa foi ver que Stef não perdeu a cabeça.

Russo em pé de guerra – Tal qual ocorreu com Djokovic, Andrey Rublev está procurando uma desclassificação e vai achar. Descontou raiva na bola e ela passou a centímetros da cabeça de um auxiliar de quadra. Depois se controlou e venceu Soonwoo Kwon. O outro russo. o cabeça 2 Daniil Medvedev, mostra aquele forehand pouco convincente para o saibro mas o contundido Facundo Bagnis não fez mais do que seis games e duas quebras de saque.

Nórdicos avançam – Além de Casper Ruud e sua suadíssima vitória sobre Tsonga, o tênis nórdico avançou com Holger Rune, Emil Ruusuvuori e Mikael Ymer. Nada mal. Destaque absoluto para o garoto Rune, que acabou de fazer 19 anos e ganhar Munique. que não deu chance a Denis Shapovalov e pega o suíço Henri Laaksonen.

Festa francesa – A torcida foi demais, tanto na homenagem a Tsonga como no apoio a Gilles Simon e Hugo Gaston, que fizeram milagres para virar o quinto set. Despedindo-se do torneio, o veterano Simon ganhou os últimos quatro games para surpreender Pablo Carreño. Já o canhoto Gaston, rei das deixadinhas, perdia o set final por 0/3 e levou no supertiebreak diante de Alex de Minaur. O não menos veterano Richard Gasquet atropelou, mas Paire, Mannarino, Pouille, Humbert, Rinderknech e Bonzi deram adeus. No feminino, Cornet e Garcia não perderam set.

Badosa e Halep acordam – Enfim, a espanhola Paula Badosa jogou o que se espera dela sobre o saibro e só perdeu dois games da convidada Fiona Ferro. Tomara que embale. Simona Halep levou um susto com a canhota poderosa da juvenil alemã Nastasja Schunk, mas se achou no terceiro set. Mostrou um tênis mais agressivo, porém o saque precisa melhorar.

Americanas seguem – As quatro americanas que figuram como cabeças de chave no feminino estrearam bem. Danielle Collins, Jessica Pegula e Madison Keys se juntaram a Amanda Anisimova. Curiosidade foram os 9 match-points evitados por Qiang Wang antes de enfim Pegula concluir.

Duplas brasileiras – Rafael Matos ganhou seu primeiro jogo de Grand Slam, sinal do bom momento ao lado do espanhol David Hernandez. Já Marcelo Melo, finalista em Lyon no sábado, entrosou bem com o argentino Maximo Gonzalez e vai encarar agora o incansável Feliciano López que joga com Maxime Cressy;