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Título olímpico ratifica qualidade de Zverev
Por José Nilton Dalcim
1 de agosto de 2021 às 14:30

É bem verdade que ainda lhe falte um troféu de Grand Slam, mas o alemão Alexander Zverev ratifica com sua medalha de ouro deste domingo em Tóquio a condição de maior nome da nova geração do tênis.

Aos 24 anos, sua coleção de 16 títulos e nove finais no circuito tem qualidade. Estão ali também o ATP Finals, uma conquista maiúscula em cima de Roger Federer e Novak Djokovic, quatro Masters 1000 em diferentes pisos e 500 de respeito em Acapulco e Washington. A lista de finais não é menos imponente: US Open e mais quatro Masters.

Também já atingiu o terceiro lugar do ranking, um feito notável na Era do Big 4. No entanto sempre estamos cobrando dele algo a mais. Zverev ainda oscila emocionalmente, poderia ter um forehand mais contundente e o jogo de rede só agora começa a se destacar. Com 1,98m. parece menos preguiçoso em se mexer para a frente e isso o colocou pelo menos nas oitavas de final de seus 7 últimos Slam, período em que fez também três semis.

A campanha olímpica não foi espetacular, mas bater de virada o todo-poderoso número 1 liquida discussões. Manteve o alto padrão numa final sem graça contra Karen Khachanov, que fez muito pouco como devolvedor – 5 de 31 pontos – e levou uma surra nos winners (7 a 27). Nem Boris Becker ou Michael Stich conseguiram ouro em simples para a Alemanha – venceram nas duplas – e assim Sascha repete Steffi Graf.

O ouro ficou em mãos corretas e Zverev pode muito bem se candidatar ao bi dentro de três anos em Paris. Porém, muito antes disso, espera-se que Tóquio seja um empurrão importante para a quadra veloz de Cincinnati e do US Open que vêm pela frente. Quem sabe, enfim, não tenha chegado a sua hora.

Nas duplas feminina, Barbora Krejicikova e Katerina Siniakova mantiveram o favoritismo e vingaram Marketa Vondrousova, ao tirar o segundo ouro de Belinda Bencic, que fez parceria com Vikorija Golubic. A República Tcheca nunca havia chegado ao título olímpico desde que passou a competir como país independente, tendo na conta apenas o ouro de 1988 de Miloslav Mecir, que na verdade é eslovaco.

Por fim, as mistas ficaram com Anastasia Pavlyuchenkova e Andrey Rublev, uma certa surpresa já que o russo não é habitual participante em chaves de dupla no circuito, ainda que tenha conquistado seu primeiro ATP em março com Aslan Karatsetv. Eles derrotaram justamente Karatsev e a parceira Elena Vesnina, com uma interessante curiosidade: é a terceira decisão seguida que Vesnina perde match-points, repetindo Wimbledon e a disputa do bronze do sábado.

O que esperar da final de Roland Garros
Por José Nilton Dalcim
12 de junho de 2021 às 18:13

Depois de duas semifinais muito bem disputadas e principalmente da épica vitória de Novak Djokovic sobre Rafael Nadal de virada, Roland Garros decide às 10 horas deste domingo o título masculino num típico duelo de gerações. A distância entre os dois finalistas é enorme e todos os números pendem para o multicampeão, que busca mais uma lista espetacular de feitos históricos. O quanto o debutante Stefanos Tsitsipas poderá ser competitivo é a principal dúvida.

Separados por 11 anos e 82 dias, será a sexta final de maior distância de idade da Era Profissional. Enquanto Nole fará sua 29ª tentativa de troféu – cada vez mais perto do recordista Roger Federer, que soma 31 -, o grego enfim supera a barreira da semi, e vimos como foi nervoso o jogo contra Alexander Zverev. Os dois já se cruzaram sete vezes, com cinco vitórias de Nole, incluindo todas as três sobre o saibro, entre elas a bela semi do ano passado de cinco sets, em que o grego segurou bem até levar um 6/1 definitivo.

Não se pode achar que Tsitsipas é um tenista inexperiente. Ele já ganhou três de seus seis confrontos diante de top 5 em torneios de Grand Slam e derrotou dois vice-líderes, Nadal e Daniil Medvedev. Também bateu o próprio Djokovic enquanto já líder do ranking, no piso rápido de Xangai. Mas é claro que há ainda um abismo para as estatísticas do poderoso adversário. Nole tem 33 vitórias em 54 duelos diante de top 5 em Slam e saldo positivo na carreira em geral de 104 a 70.

O aspecto técnico e tático no entanto pesam mais que a fria estatística. Vimos quatro semanas atrás que Tsitsipas conseguiu equilibrar a batalha num saibro pesado e exigiu muito de Djokovic em Roma, onde venceu o set inicial por 6/4 e cedeu os dois seguintes por 7/5, tendo real chance de vitória. Na ocasião, Djokovic diria que foi sua maior exibição da temporada e eu próprio incluiria que houvera sido a partida de melhor nível técnico de 2021. E tomara que isso se repita neste domingo.

Tsitsipas sustentou então trocas duríssimas, arriscou backhands e usou o máximo de seu forehand para tentar barrar o extraordinário poder defensivo do sérvio, que por seu lado fazia as conhecidas devoluções impecáveis e não economizava na agressividade. O terceiro set aliás foi de uma riqueza ímpar, ambos buscando surpreender com deixadas ou voleios. Para quem não se lembra, o grego chegou a sacar para a vitória, mas recebeu respostas de saque milimétricas.

Como é óbvio, Djokovic me parece confiante para manter esse altíssimo padrão, mas e o grego? Conseguirá dominar os nervos e conter a ansiedade? Para mim, será a questão essencial. Na soma de todas as variantes, acredito que Djoko entre em quadra com 70% de favoritismo. E seu maior risco é justamente esse: engolir a euforia da sexta-feira e jamais achar que já ganhou o título. Experiência para isso ele tem de sobra.

Comparações
– Djokovic luta também pelo 84º título da carreira e o grego, pelo oitavo. Nesta temporada, cada um venceu dois.
– O campeão fatura 1,4 milhão de euros. O sérvio é o recordista, com US$ 148 milhões na carreira, grego embolsou 10% disso.
– Nole já tem 309 vitórias em Slam contra 31 do grego, sendo 80 a 15 em Roland Garros e 243 a 61 no saibro.
– Tsitsipas tenta 40º triunfo da temporada em 48 jogos, Nole tem 26 em 29.
– Grego se saiu bem nos tiebreaks em 2021, com 9 positivos em 14, enquanto Djokovic está com 50% (7-7).
– No geral, Djokovic ganhou 34 jogos que foram ao quinto set (31 em Slam). O grego tem apertados 5-4.

Mais façanhas
Djokovic concorre também a:
– Primeiro profissional e terceiro na história a vencer ao menos duas vezes cada Grand Slam (Rod Laver e Roy Emerson o fizeram na fase amadora)
– Será oitavo tenista na Era Aberta a ter ao menos dois títulos em Roland Garros.
– Campeão em 2016, terá a maior distância entre primeiro e segundo troféus no torneio na Era Aberta.
– Terceiro na história a ganhar por mais de uma vez a Austrália e Roland Garros na mesma temporada (Laver e Emerson também foram os outros)
– Aos 34 anos e 22 dias, será o terceiro mais velho a ganhar Paris na Era Aberta, atrás de Andrés Gimeno e Rafael Nadal
– Será o tenista com mais de 30 anos com mais troféus de Slam, desempatando com Nadal

Tsitsipas pode ser:
– Primeiro grego em todos os tempos a vencer um Slam
– Será o 56º diferente campeão de Slam da Era Aberta e 151º desde 1877.
– Assumirá o terceiro posto do ranking, ultrapassando Nadal (já garantiu o quarto posto com a final).
– Será o nono tenista da Era Aberta a derrotar os cabeças 1 e 2 e vencer um Slam e o quarto em Roland Garros. O mais recente foi Wawrinka, em 2015.
– Aos 22 anos e 305 dias, será o mais jovem campeão de Paris desde Nadal em 2008 e mais jovem em Slam desde Juan Martin del Potro no US Open de 2009.
– Primeiro a ganhar um Slam logo em sua primeira final desde Marin Cilic no US Open de 2014

Krejcikova resgata o tênis tcheco
Numa final muito tensa como era previsível, Barbora Krejcikova recolocou o tênis tcheco no topo em Roland Garros ao se tornar a segunda tenista de seu país a conquistar o torneio, exatos 40 anos depois de Hana Mandlikova (quando Martina Navratilova venceu em Paris, ela já jogava pelos EUA).

Se não mostrou seu melhor tênis neste sábado contra uma instável Anastasia Pavlyuchenkova, ao menos Krejcikova esbanjou simpatia. Não economizou palavras na longa cerimônia, lembrou histórias divertidas sobre sua heroína Justine Henin e rendeu homenagens à compatriota Jana Novotna, já falecida, que tanto a ajudou a deslanchar na carreira.

Dona de um estilo variado, em que tanto pode disparar um winner como dar um balão nas alturas, Krejcikova será a número 15 do mundo na segunda-feira e isso a colocará entre as cabeças de Wimbledon, um lugar que também combina com sua facilidade junto à rede. Não por acaso, neste domingo ela e a parceria Katerina Siniakova buscarão o bi em Paris e o terceiro troféu Slam, o que poderá recolocar Barbora na liderança do ranking. A última tenista a ganhar os dois troféus numa mesma edição de Paris foi Mary Pierce, em 2000.

Com mínimo sucesso em simples, o tênis francês também comemorou o título de duplas, outra vez com os brilhantes Nicolas Mahut e Pierre Herbert, numa virada notável, e levou o juvenil masculino, em que duas promessas decidiram: Luca van Assche venceu Arthur Fils, de apenas 16 anos.

Djoko depõe ‘rei’ e tenta coroação contra Stef
Por José Nilton Dalcim
11 de junho de 2021 às 20:30

Novak Djokovic provou que é mesmo o único tenista em condições técnicas e físicas para barrar Rafael Nadal em Roland Garros. Pela segunda vez em seis anos, ele conseguiu ganhar aqueles três sets tão difíceis em cima do ‘rei do saibro’ e ainda o fez de virada, o que aumenta o grau de exigência de tamanha façanha.

Mas por incrível que pareça a tarefa ainda não terminou. No domingo, o sérvio volta à quadra para lutar por seu 19º troféu de Grand Slam, o bi em Roland Garros e o feito único de ter dois títulos em cada Slam na Era Profissional. O único que pode impedi-lo do novo salto no livro de história é o grego Stefanos Tsitsipas, em sua primeira decisão desse porte.

Apesar de ter tido ‘apenas’ quatro sets, a batalha desta sexta-feira na Philippe Chatrier talvez tenha sido um dos jogos mais intensos que Djokovic e Nadal já disputaram ao longo dos 58 duelos realizados em exatas 15 temporadas, principalmente quando se sabe que cada chance de ganhar um Slam agora parece crucial para eles. Havia tensão evidente no ar, o que não impediu um nível técnico excepcional.

Nole conseguiu reagir a várias situações tensas e por isso mereceu mais a vitória. Como aconteceu algumas vezes nesta temporada, teve um começo nervoso e, depois de ter chances de quebra logo de cara, perdeu um smash fácil e a confiança. Só foi reagir no sexto game e aí passou a mostrar um tênis mais consistente. Isso na verdade seria fundamental para lhe dar ritmo no segundo set, quando enfim atingiu seu melhor nível e a partida ficou eletrizante. O sérvio quase sempre tomou a iniciativa, procurando buracos, mas esbarrava nas defesas inteligentes do espanhol.

O terceiro set decidiu tudo. Extremamente equilibrado, pontos longos, games incríveis. Djokovic esteve por duas vezes à frente do placar sem conseguir capitalizar a diferença, principalmente quando sacou com 5/4 e viu um Nadal brilhante em suas paralelas de contragolpe. Pior ainda, o sérvio teve de salvar um set-point antes do tiebreak. E aí o desempate se mostraria crucial. Nadal errou um voleio incrivelmente fácil para permitir 5-3 e não deu tempo de se recuperar.

Lutador nato, Rafa ainda deu um último suspiro, ao abrir 2/0 no quarto set, empurrado pela torcida que foi autorizada a ficar depois do toque de recolher das 23h locais. Porém, ficou nisso. De forma surpreendente, não se mostrava mais veloz o bastante para acompanhar o ritmo do adversário, que abusava das paralelas ou de bolas muito profundas. O espanhol levou um ‘pneu moral’, o primeiro em seu invejável currículo em Roland Garros, como se Djoko quisesse se vingar da atuação tão sofrível da final de 2020.

Nesse épico de 4h10 e 266 pontos disputados, Djokovic terminou com 37 erros não forçados, mas o que precisa ser ressaltado é sua qualidade nos dois sets finais, quando falhou 10 vezes naquele tenso terceiro set de 80 minutos e apenas cinco no seguinte. Para um jogador que costumeiramente toma a iniciativa do ataque, inclusive a partir da devolução, é uma estatística digna de seu feito.

Momentos tenso para Stef
Tsitsipas por seu lado foi claramente superior a Alexander Zverev nos dois primeiros sets, em que procurou acima de tudo ser sólido da base e mexer o adversário. O alemão no entanto não se rendeu facilmente. Mudou a postura, ficou bem agressivo, foi à rede e pouco a pouco tirou a confiança do grego. Aquele bloco de gelo que Stef vinha se mostrando em toda a campanha destas duas semanas passou a reclamar, gritar e gesticular, sinal evidente de que estava sob pressão.

Por muito pouco Tsitsipas não perdeu o game de abertura do quinto set, o que poderia mudar completamente o rumo da partida, mas mostrou-se confiante e acabou premiado pela quebra no quarto game que abriria o caminho definitivo para a vitória, ainda que ele tenha precisado de cinco match-points. Ao final do jogo, falou ao público com extrema emoção, deixando claro o peso que carregou nessa luta pela primeira final de Grand Slam. Quem sabe, agora na decisão, consiga jogar mais solto para ser competitivo.

O retrospecto é favorável ao número 1, que venceu cinco dos sete encontros, incluindo a semifinal de cinco sets em Roland Garros do ano passado. O grego ganhou em 2018 e 2019, sobre quadra dura, no entanto pode se inspirar na recente quartas de final de Roma em que venceu o primeiro set e ficou muito perto da vitória diante de Djokovic.Quem vencer, será o líder do ranking da temporada. E se der Stef, ele também será o novo número 3 do mundo, superando o próprio Nadal.

A imprevisível decisão feminina
O título feminino de Roland Garros será numa final mais inesperada do que se pensava, entre duas jogadoras que hoje figuram fora do top 30: a russa Anastasia Pavlyuchenkova e a tcheca Barbora Krejcikova. É um confronto ainda por cima inédito no circuito e onde se acredita o controle dos nervos deve ser essencial.

Aos 29 anos, Pavlyuchenkova vem de uma incrível série de vitórias sobre Aryna Sabalenka, Vika Azarenka e Elena Rybakina, onde conseguiu sempre ser agressiva na hora certa, misturando bolas longas com curtas espertas. Precisou esperar 52 Slam para enfim chegar a uma final. É a tenista de fora do top 10 atual que mais vezes derrotou uma adversária entre as 10 primeiras, com 37.

Quatro anos mais jovem e apenas em seu quinto Slam de simples, Krejcikova talvez seja menos brilhante na parte técnica, mas se mostrou uma competidora de mão cheia. Duplista com títulos de Slam, sabe mudar o ritmo das trocas de bola e foi assim que passou por Elina Svitolina, Sloane Stephens, Coco Gauff e uma semifinal tensa diante de Maria Sakkari, em que salvou match-point. Aliás, a tcheca concorre também ao título de duplas desta edição, em busca do bi ao lado de Katerina Siniakova, o que a levará de volta ao número 1 do ranking na especialidade.