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O que importa é vencer
Por José Nilton Dalcim
21 de janeiro de 2020 às 15:20

Rafa Nadal, Daniil Medvedev e Dominic Thiem não tiveram estreia de encher os olhos, mas num Grand Slam o que interessa é superar a primeira rodada, achar o ritmo e se encher de confiança. Afinal, o longo caminho terá sua hora certa para o show.

O cabeça 1 cedeu apenas cinco games e aplicou ‘pneu’, o que seria sinal de atuação invejável, mas não foi bem assim. Os dois primeiros sets foram brigados contra um Hugo Dellien de pouca potência e que ainda assim tomou muitas vezes a iniciativa. O espanhol jogou para o gasto, poupou energia e tem Federico Delbonis e quem sabe Pablo Carreño para finalizar a primeira semana bem mais afiado.

Medvedev perdeu um set para Frances Tiafoe e deixou a quadra com 12 duplas faltas! Vamos colocar na conta a tensão da estreia e observar o que ele faz diante do inexperiente Pedro Martinez. Apesar de perder um serviço e salvar seis break-points, Thiem começou melhor, ainda que 56% de primeiro saque nesse piso veloz sejam pouco.

Monteiro perde, mas surpreende
Apesar da derrota que o ameaça de sair do top 100, Thiago Monteiro merece todos os elogios pelo ótimo desempenho diante do terrível saque de John Isner num piso sabidamente favorável ao norte-americano. O cearense fez 18 aces, mas o adversário abusou e fez 46.

Monteiro aliás venceu mais pontos com o primeiro saque do que Isner (85% a 82%) e teve real chance de fazer 2 sets a 0. Mas naquele fatídico 15-40, levou  um ace e um voleio de grande qualidade. Aliás, foram muitas ótimas devoluções e passadas do canhoto brasileiro, que sempre mexeu o grandalhão quando conseguiu trocar bolas. Os quatro tiebreaks mostram o quanto o jogo foi parelho e devem animar Ceará para o restante da temporada.

Next Gen fica sem Aliassime
Fora dos holofotes, Alexander Zverev teve estreia sem sustos e até vislumbra uma chave promissora, onde está também Andrey Rublev, esse num momento de ascensão. Os russos também avançaram com Karen Khachanov, em rota de reencontro com Nick Kyrgios (quem não se lembra da bagunça que foi em Cincinnati?). Taylor Fritz foi outro que venceu bem, porém pega Kevin Anderson e pode cruzar com Thiem em seguida.

A decepção – mais uma – fica por conta de Felix Aliassime. Nem tanto pelo adversário: Ernests Gulbis, apesar dos pesares, tem um currículo a se respeitar. O que incomoda é a falta evidente de segurança do garoto canadense, com erros terríveis nos momentos delicados, incluindo as dolorosas duplas faltas.

Sete tenistas com até 22 anos conseguiram nesta rodada sua primeira vitória em Grand Slam, com destaque para o mais jovem deles, Jannik Sinner; a promessa espanhola Alejandro Davidovich e o chileno Alejandro Tabilo, apenas 208 do mundo. Os outros foram Marc Polmans, Michael Mmoh, Tommy Paul e Pedro Martinez.

As Ovas dão adeus
Cinco cabeças de chave caíram no feminino, três delas ‘ovas’: Marketa Vondrousova, Amanda Anisimova e Anastasija Sevastova (a outra foi Johanna Konta). A queda mais sentida no entanto couberam à convidada Maria Sharapova. Foi um tanto constrangedor ver a russa tão frágil no saque – quatro quebras – e nos golpes de risco, que somaram 31 erros, ainda que Donna Vekic não seja qualquer adversária.

As cinco top 10 em quadra não perderam set, mas Karolina Pliskova e Belinda quase se enrolaram no segundo set e Simona Halep sofreu contusão no punho, após uma queda em quadra, que pode comprometer. Elina Svitolina teve jogo exigente e só mesmo Kiki Bertens passeou.

Ao contrário, Angelique Kerber e Garbine Muguruza pareceram inteiras após dúvidas geradas na semana passada, quando a alemã sentiu dor lombar em Adelaide e a espanhola pegou virose.

Destaques do dia 2
– Nada menos que 12 jogos foram ao quinto set, com duas viradas espetaculares, de Fognini sobre Opelka e de Hurkacz diante de Novak, sendo três desses jogos decididos no supertiebreak, regra que passou a valer em 2019.
– Fognini levantou a torcida. Entrou em quadra com 2 sets abaixo, brigou com Bernardes, quebrou raquete e eliminou um irritadíssimo Opelka no seu melhor estilo.
– Karlovic venceu o 398º tiebreak da carreira e pode se juntar a Federer (457) e Isner (434) como únicos a superar a faixa dos 400. Como se vê, o norte-americano se aproxima do suíço, ainda que o percentual de vitórias de Federer seja maior (65% a 61%). Karlovic mal passa dos 50%.
– Comandados por Kyrgios, cinco outros australianos passaram a primeira rodada. Popyrin se favoreceu do abandono de Tsonga e Millman tirou Humbert, o campeão de Auckland. Ainda avançaram Thompson, Polmans e Bolt.
– Atual 145ª do ranking, Sharapova irá despencar ainda mais com sua terceira eliminação seguida em estreia de Slam e deve até mesmo sair do top 300.
– Como era previsto, Djokovic e Federer invertem de posição para a segunda rodada. O sérvio deve ter jogo facílimo diante de Ito, mero 145º do ranking, e o suíço precisa jogar com atenção diante do bom sacador Krajinovic, que no entanto terá de jogar em dia seguido a uma maratona de cinco sets.

Nem vento para Nadal
Por José Nilton Dalcim
7 de junho de 2019 às 18:56

Nunca foi tão óbvio cumprir uma profecia. Desde que voltou a jogar em alto nível em Roma, e ainda por cima com título em cima de Novak Djokovic, era evidente que Rafael Nadal recuperaria a confiança e o tênis mágico sobre o saibro para tentar o 12º título de Roland Garros. Não houve adversário, nem histórico, nem vento que pudesse impedir isso. Não se sabe contra quem ou quando, mas isso não faz diferença. Rafa é o favorito.

Conforme a previsão, o vento forte de até 40 km/h foi um ingrediente importante nos jogos desta sexta-feira. Prejudicou a qualidade das duas semifinais, obrigou os tenistas a fazer curiosas improvisações e quem usou mais topspin conseguiu esfriar a cabeça antes. Nadal jogou bem demais para estas condições radicais, Dominic Thiem abriu vantagem sobre Nole até a chuva chegar pela segunda vez e forçar um adiamento controverso para o sábado cedo.

Federer resistiu o quanto pôde, e desperdiçou chances valiosas nos dois primeiros sets que poderiam ao menos tornar o jogo bem duro. Mas falhou na hora de empatar por 3/3 a primeira série e desperdiçou 2/0 na outra. A esperada dificuldade de controlar seus golpes mais retos ou de chegar bem à rede diante do vento somou-se a uma atuação magnífica de Nadal.

O espanhol cravou 82% do primeiro saque e surpreendeu duplamente com o backhand, ora batido na paralela no pé do adversário, ora violento e cruzado. Se é fato que não fica fácil volear naquelas condições, também é extremamente difícil achar passadas e ângulos tão milimétricos. Saiu de quadra com 33 winners, oito a mais que Federer, um padrão que eu tenho ressaltado em todos os jogos de Rafa neste torneio.

A façanha de Nadal é recheada de números. Para começar, nenhum tenista em qualquer nível ATP já fez 12 finais num mesmo torneio e agora iguala Margaret Court nos Grand Slam, ela que tem 11 títulos e 1 vice na Austrália. Jamais perdeu uma semi em Paris, e na soma de todas elas só perdeu 3 sets. Está agora com 92 vitórias em 94 possíveis no torneio, tendo vencido os dois únicos jogos em que foi levado ao quinto set, e estende a incrível marca sobre o saibro em partidas de melhor de 5 sets para 117 em 119 feitas na carreira.

Em seus duelos diante de Federer, encerrou a série de cinco derrotas consecutivas e o jejum que vinha desde janeiro de 2014. Sobe para 24-15 no geral (sendo 14-2 no saibro), vai a 10-3 nos Slam (dos quais 6-0 em Roland Garros) e 4-0 em semis de Slam (as outras duas na Austrália).

E quem será seu adversário? Thiem se adaptou muito melhor ao vento com seu topspin pesado dos dois lados e viu Djokovic contrariado e falível num primeiro set bem abaixo do que vinha jogando. A chuva chegou em boa hora, o sérvio conseguiu colocar a cabeça no lugar no final do segundo set, mas o austríaco voltou a abrir vantagem com 3/1. Aí outra vez choveu e a organização decidiu por adiar de vez a partida para o sábado, ainda que já tivesse aparecido o sol em Paris e faltassem pelo menos três horas para escurecer.

Impossível prever como irão reagir cada um no retorno. O sábado promete tempo seco porém o vento de 30 kim/h continua. A organização não se antecipa e aguarda os sets finais para dizer se a final permanece no domingo ou vai para segunda-feira. Se Thiem completar a vitória até o quarto set, imagino que a decisão será no dia seguinte, mas se Djoko reagir ou levar ao quinto set – e principalmente se vencer -, a chance de adiamento é enorme.

Final imprevisível entre as meninas
O vento acordou cedo e também atrapalhou muito as semifinais femininas, disputadas simultaneamente nos estádios secundários. A vitória de Ashleigh Barty foi uma das mais notórias gangorras da temporada. A australiana teve set-point para 6/0, mas foi perder no tiebreak. Aí Amanda Anisimova fez 3/0 sem ceder um ponto sequer e caiu por 3/6. No terceiro, a adolescente abriu 2/1 com saque, Barty virou para 5/2 e precisou de seis match-points para enfim disputar a primeira final de Slam da carreira, aos 23 anos.

Se Anisimova lembra fisicamente Monica Seles, será Marketa Vondrousova quem tentará repetir a iugoslava, que foi a última (e apenas segunda) canhota a vencer a fase profissional de Roland Garros, em 1992. A tcheca de 19 anos mostrou maturidade num jogo em que a experiente Johanna Konta liderou por algumas vezes, incluindo 5/3 e três set-points, depois 5/4 e saque.

A final tende a ser nervosa, ainda mais se com a expectativa de vento forte, o que torna tudo um pouco mais lotérico. Vondrousova tem o saibro como piso predileto, se mexe muito bem e também gosta de variar. No entanto, perdeu os dois duelos feitos contra Barty. A australiana, aliás, concorre a assumir a vice-liderança do ranking em caso de título.

Boa notícia, a final feminina passará ao vivo na Band aberta também.

Grandes semifinais, mas dois amplos favoritos
Por José Nilton Dalcim
6 de junho de 2019 às 18:18

Roland Garros viverá uma sexta-feira para lá de especial. Pela primeira vez em oito anos, terá todos os quatro principais cabeças na semifinal masculina, reunindo nada menos do que 52 títulos de Grand Slam e os três melhores jogadores da história.

Mais divertido ainda, Novak Djokovic e Rafael Nadal têm enorme chance de se manter ainda mais vivos na perseguição ao recorde de 20 troféus de Roger Federer. O sérvio pode ir a 16, o espanhol mira o 18º. E o suíço, é claro, colocaria uma pá de cal nesse sonho se cometesse a façanha de ganhar o Aberto francês uma década depois.

O austríaco Dominic Thiem é o ‘patinho feio’ nessa briga de gigantes, já que só tem uma final de Slam até hoje. A seu favor, está a juventude: aos 25 anos, possui sete a menos que seu adversário desta sexta-feira e 12 atrás do mais idoso. Mas a questão física não parece ser o item mais relevante.

Djokovic e Thiem superaram com rapidez seus jogos adiados da quarta-feira e entrarão para o duelo direto em pé de igualdade. Impossível não dar o favoritismo ao sérvio, que lidera o histórico por 6 a 2. A rigor, as derrotas para o austríaco aconteceram numa momento de baixa em sua carreira, em Paris de 2017 e em Monte Carlo do ano passado. Desde então, se cruzaram apenas no saibro veloz de Madri há coisa de um mês, onde Djoko venceu por um placar bem apertado e diversos sustos.

O sérvio precisa antes de tudo evitar o começo ruim que viveu nesta quinta-feira diante de Alexander Zverev. Foi quebrado num game tenebroso, o seu pior até aqui no torneio, e só mesmo a fragilidade emocional do alemão evitou a perda do primeiro set. Até então, Sascha se mostrava aplicado e muito focado. De repente, virou um top 100 e levou uma surra. Vale observar que Thiem teve uma atuação notável diante de Karen Khachanov, saindo de quadra com apenas 11 erros. Portanto, me parece importante Djoko se impor desde o início e não deixar o austríaco animado, porque o poder de fogo dele é inegável e proporcional à confiança que for adquirindo.

Nadal e Federer geram enorme expectativa, mas me parece existir apenas uma chance de o suíço sonhar com a vitória: atuar de forma iluminada ou o espanhol jogar abaixo do que vem mostrando. Se estiver ventando forte como diz a previsão, a dificuldade aumentará ainda mais, já que o suíço tende a perder a precisão do saque, de seus golpes retos de ataque e da segurança nos voleios. Por isso, ele detesta vento. Para ser ao menos competitivo, Federer precisa manter Nadal na defensiva, mirar a linha e encurtar seu tempo de reação. Quando for à rede, máxima atenção às paralelas de forehand, que o espanhol voltou a executar com perfeição.

A lógica aponta para vitórias de Nadal e Djokovic, talvez até mesmo em sets diretos, contra seus adversários de backhand simples. Qualquer coisa fora disso, será surpresa. Vale lembrar que a última vez que Roland Garros viu uma final entre dois backhands de uma mão foi a de Guga Kuerten e Alex Corretja, em 2001.

Uma nova campeã de Slam
O sábado também será muito especial para a chave feminina, e aí o motivo é radicalmente diferente: todas as quatro postulantes ao título jamais fizeram sequer final de Grand Slam e há uma clara predominância da nova geração: Amanda Anisimova, de 17 anos, enfrentará Ash Barty, de 23, enquanto Marketa Vondrousova, de 19, duela com a única experiente da turma, Johanna Konta, de 28. Também em contraste com o masculino, três delas não figuram no momento sequer entre as top 25.

Porém, não vejo motivo para se achar que os jogos decisivos serão de qualidade baixa ou menos emocionantes, já que são todas tenistas que gostam de um jogo mais agressivo. Anisimova deu um verdadeiro show de ousadia e competência diante da atual campeã Simona Halep, sem tomar conhecimento do currículo adversário. A norte-americana de pais russos esteve no Brasil em 2017 para se testar no saibro, maravilhou todo mundo no juvenil e ganhou seu primeiro título profissional em Curitiba, ainda aos 15. Era evidente que ali havia um enorme potencial. Se ela e Barty dominarem os nervos, deve ser um jogo espetacular, porque a australiana tem mão de sobra, faz o que quer com a bola e pode enlouquecer Anisimova com essa variação.

Se Konta se candidata a erguer o primeiro título britânico em Paris após quatro décadas, Vondrousova tenta entrar no rol curtíssimo das canhotas que conquistaram Roland Garros. Por conta da chuva de quarta-feira, os dois jogos semifinais acontecerão simultaneamente e fora da Chatrier, e ainda por cima no primeiro horário do sábado (11h locais, 6h de Brasília). Tenta-se preservar alguma equidade para a final de sábado, mas é de se lamentar.