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A incansável luta do tênis profissional feminino
Por José Nilton Dalcim
26 de julho de 2020 às 23:27

Embora Suzanne Lenglen tenha sido a precursora do próprio tênis profissional, as mulheres sempre tiveram maior dificuldade em ganhar dinheiro com a raquete na mão. Basta ver que depois das exibições da Divina, entre 1926 e 27, somente em 1941 houve uma nova tentativa de duelos femininos contratados, na ocasião entre Alice Marble e Mary Hardwick.

O pós-Guerra viu uma curta série entre Pauline Betz e Sarah Palfrey Cooke, duas campeãs de Forest Hills, em 1947, e outra um pouco mais extensa, entre 1950 e 51 com Betz e Gussie Moran. A fenomenal Althea Gibson se tornou profissional em 1958, imediatamente após ganhar Wimbledon, e duelou com Karol Fageros em aberturas para os Harlem Globetrotters. Um longo hiato de quase 10 anos se sucedeu até o promotor George McCall contratar Billie Jean King, Ann Jones, Françoise Dürr e Rosie Casals em 1967, em que atuavam junto a oito homens.

Mas desde sempre o tênis feminino ficou à sombra do masculino e tal realidade não mudou quando a Era Aberta chegou, em 1968. Wimbledon daquele ano pagou duas vezes e meia a mais para a chave masculina.

Embora contratadas pela NTL, Billie Jean e as três parceiras também realizavam torneios por sua conta e isso não agradou a Federação Internacional, que as penalizou. A Associação Norte-americana chegou a excluir King e Casals do ranking anual da entidade, em 1968 e 69.

O descontentamento aumentava. Em 1970, Margaret Court embolsou apenas US$ 15 mil mesmo vencendo os quatro Grand Slam, já que a proporção de premiação entre os dois sexos, que beirava 5 para 1 em 1969, chegou a absurdos 12 para 1 em 1970. “Todo mundo está ganhando dinheiro com o tênis, menos as mulheres”, esbravejou Billie Jean.

Pouco antes do US Open de 1970, as tenistas se revoltaram contra o Pacific Championship de Jack Kramer, que dava bolsa de US$ 50 mil para o masculino e apenas US$ 7.500 ao feminino. Um grupo de nove tenistas decidiu boicotar o evento e disputar um torneio em Houston. Foi o embrião do Virginia Slims, que contava com apoio promocional de Gladys Heldman, editora da revista World Tennis. Disputado pela primeira vez em setembro, acabou tendo 19 etapas e premiação total de US$ 310 mil. Do Virginia Slims, surgiu a Liga Feminina e em seguida a WTA.

O grande ano de 1973
Muita coisa mudou para o tênis feminino num único ano: 1973. Pouco antes de Wimbledon, em junho, surgiu oficialmente a Women’s Tennis Associaton. Mais importante ainda, uma vitória na Justiça americana enfim obrigou o US Open a pagar premiação idêntica a homens e mulheres, que se estenderia mais tarde para todo e qualquer evento disputado no país que abrigasse ao mesmo tempo os dois sexos.

Dias depois do US Open, Billie Jean aceitou o desafio do já veterano Bobby Riggs, um campeão de Wimbledon, no que ficou conhecido como “Batalha dos Sexos” e virou até filme. King venceu por 3 sets a 0 no Astrodome de Houston, diante da maior plateia até então para uma partida de tênis, com 30.492 assistentes e enorme repercussão internacional.

Animadas, as mulheres trariam outras evoluções fundamentais: um sistema de ranking semelhante ao da ATP e contrato de televisão com a CBS, em 1975. O circuito feminino, aliás, criou alguns itens revolucionários, adotados muito depois pelos homens, como a pontuação para o qualificatório e o “ranking protegido”. Outras ideias, como a final do Masters em melhor de cinco sets, não vingaram.

Ao longo de sua história, a grande batalha da WTA foi manter um circuito ativo, com uma série mínima de 60 torneios anuais. Muitas vezes, esbarrou no problema dos patrocinadores, que geralmente compravam o calendário inteiro e tinham sua marca exibida no mundo todo. Depois do Virginia Slims, vieram Avon, JP Morgan, Sanex e Sony.

Já a longa briga pela igualdade de premiação nos Grand Slam levou décadas  e só era respaldada no US Open por uma lei federal. Até que o Aberto da Austrália aderiu, em 2005, seguido por Roland Garros, em 2006. O sisudo torneio de Wimbledon resistiu até onde pôde, mas enfim anunciou a equiparação em 2008.

Foram recompensas fundamentais e deram às tenistas privilégios incríveis, como o feito de Justine Henin, que em 2007 se tornou a primeira atleta a ganhar US$ 5 milhões numa temporada, ou o de Serena Williams, que é a esportista mais bem paga do mundo.

Olimpíadas. E o tênis é de novo amador.
Ao atingir a metade da década de 1980, o tênis já era o esporte mais internacionalizado de todos, disputado simultaneamente e semanalmente em dezenas de países, onde competiam por sua vez centenas de diferentes nacionalidades, não apenas entre jogadores, mas até mesmo de árbitros. Ao mesmo tempo, havia criado padrões para o profissionalismo que acabaram por ser copiados ou adaptados por várias grandes modalidades, como o sistema de ranking, a disputa em forma de circuito, o masters, a premiação por rodada, as chaves eliminatórias.

Por ironia, o tênis que tanto demorou para enterrar o amadorismo acabaria por se tornar a primeira modalidade a oficialmente colocar atletas profissionais nas Olimpíadas, a partir de Seul em 1988, e abriria as portas para que outros esportes, como o basquete da NBA, também fossem admitidos com suas principais estrelas. A exigência sine qua non era que os tenistas não fossem pagos, ficassem hospedados na Vila e não ostentassem patrocinadores individuais.

Banido após os Jogos de 1924, a primeira tentativa de o Comitê Olímpico Internacional recolocar o tênis no quadro foi ainda no México, em 1968, onde aconteceu um torneio de exibição. Los Angeles de 1984 veria a tentativa real de reinclusão, após dezenas de negociações com a Federação Internacional, entre elas a de promover com assiduidade o controle antidoping – que se tornou rigoroso em 1986. Sem valer medalhas e disputado por tenistas até 21 anos, Los Angeles viu Steffi Graf e Stefan Edberg saírem campeões.

Embora tenha encontrado resistência de alguns jogadores importantes, o retorno em 1988 fez história ao consagrar o único Golden Slam em favor de Graf. Em Barcelona, o tênis foi sucesso de público e subiu outro degrau em Atlanta quatro anos depois, quando viu o ídolo local Andre Agassi chegar à medalha de ouro. Realizada em outro país de forte tradição tenística, a disputa em Sydney de 2000 também agradou. Nessas edições, caíram as barreiras da Vila e dos patrocinadores individuais.

Disposta a todos os esforços para romper a resistência dos líderes, ATP e WTA concordaram que o torneio olímpico passasse até a contar pontos para o ranking em Atenas-2004, e o torneio olímpico chegou ao ápice durante os Jogos de Pequim de 2008, ao colocar em suas chaves todos os melhores do mundo, em simples e duplas.

O que todos julgavam improvável aconteceu: o espírito amador voltou ao multimilionário tênis internacional e Pierre de Coubertin enfim descansou em paz.

A Divina iniciou tênis profissional há quase um século
Por José Nilton Dalcim
20 de julho de 2020 às 21:17

Quem pensa que pagar tenistas para jogar partidas e campeonatos seja algo que surgiu em 1968, talvez se surpreenda ao saber que o tênis profissional já tem 94 anos e seu primeiro século será comemorado em 2026.

O conflito entre esporte amador e profissional é ainda mais antigo e a primeira disputa conhecida entre as duas vertentes data de 1895, quando o rúgbi se dividiu em dois: a liga amadora e a liga profissional. Isso se deu principalmente porque os trabalhadores do Norte da Inglaterra exigiam pagamento em cima do tempo que deixavam de ir às fábricas para treinar e jogar.

O tênis competitivo por sua vez ganhou real projeção depois da Primeira Grande Guerra e despontaram dois nomes: Bill Tilden, o Big Bill, e Suzanne Lenglen. Os dois dominavam a cena no início da década de 1920, com conquistas de peso e portanto popularidade.

Isso chamou a atenção de Charles C. Pyle, um bem sucedido promotor de esportes nos Estados Unidos. Ao perceber o fascínio que Lenglen causava no público – elegante e atlética, acredita-se que tenha vencido 179 partidas consecutivas como amadora -, finalmente convenceu A Divina a se tornar profissional.

O empresário ofereceu a então fabulosa bolsa de US$ 50 mil para que Lenglen disputasse uma série de partidas contra Mary Browne, campeã do Nacional dos EUA (hoje US Open) entre 1912 e 1914, ao longo de quatro meses. Três anos antes, Lenglen havia recusado outra ótima proposta para se tornar profissional. A ideia de Pyle eram duelos contra Helen Wills, mas a excelente norte-americana não aceitou.

Também foram contratados quatro homens para o circuito de Pyle. O mais famoso deles era o campeão olímpico Vinnie Richards, que formou o grupo com Paul Féret, Howard Kinsey e Harvey Snodgras, já que Tilden preferiu se manter amador e só viraria pro em 1930, quando estava com caixa apertado. Com esse grupo, Pyle realizou 40 etapas do seu ‘circuito’ em grandes arenas nos EUA, Canadá e até em Cuba, com público lotando arquibancadas e pagando ingressos. A primeira noite no Madison Square Garden atingiu 13 mil espectadores.

Lenglen jogava simples e duplas mistas, ganhou 33 dos 40 jogos contra Browne – que chegou a ser incentivada com um ‘bônus’ caso tirasse ao menos quatro games da francesa em cada jogo – e a Lenglen ainda tinha direito a um percentual da bilheteria. Assim seu faturamento dobrou para US$ 100 mil.

Apesar do sucesso financeiro, Lenglen não quis continuar e pouco depois assinou contrato com o promotor Charles Cochran para jogar profissionalmente na Inglaterra. Foram apenas sete etapas, mas uma delas chegou a reunir 15 mil pagantes. Suzanne recebeu muitas críticas. Wimbledon retirou seu título de sócia, a Federação Francesa a expulsou e assim jamais disputou a fase internacional de Roland Garros. Ela se defendeu: “Fui campeã por 12 anos no tênis, muita gente ganhou fortunas com meus jogos e eu nunca levei nada”.

Lenglen se retirou das quadras em seguida, pediu perdão e tentou reverter para a condição amadora em 1932, mas a Federação Francesa bateu o pé. Escreveu vários livros, teve sua própria escola até falecer de anemia crônica, a mesma doença de seu pai, ainda aos 39 anos.

Expulsão e sucesso
O tênis profissional causou uma grande divisão no circuito. O Comitê Olímpico Internacional tirou a modalidade dos Jogos a partir de 1928 e a Federação Internacional decidiu que os Grand Slam só poderiam ser disputados por amadores.

A semente no entanto estava plantada e a partir da década de 1930 tornou-se comum que os tenistas tentassem uma carreira de destaque no tênis amador, principalmente nos Slam, e chamar a atenção dos promotores. Foi exatamente o caminho seguido por Fred Perry, que se profissionalizou após o bi em Wimbledon, em 1936.

Além dos duelos diretos, que era o formato mais comum, torneios começaram a ser disputados entre os contratados. Os mais famosos eram o US Pro (surgido em 1927), o French Pro (1930) e Wembley (1934).

Um grande salto aconteceria em 1950, quando Jack Kramer criou seu próprio circuito – ele também jogava em alto nível – e conseguiu trazer para seu lado nomes de peso como Bobby Riggs, Pancho Segura e Ken Rosewall. Primeira negra a ganhar um Slam, Althea Gibson se renderia ao tênis profissional em 1958.

É razoável dizer que o circuito de Kramer teve grande responsabilidade pelo surgimento da chamada ‘Era Aberta’, ou seja, quando finalmente o circuito regular voltou a ser permitido aos profissionais.

Bem organizado e rentável, as exibições de Kramer ‘roubavam’ cada vez mais os grandes tenistas e os tirava dos Slam, como foi o caso especialíssimo de Rod Laver, o campeão de todos os grandes torneios em 1962 e que foi contratado a peso de ouro para jogar partidas e torneios nos EUA. Só em seu primeiro ano de pro, Laver embolsou US$ 60 mil.

Cinco anos depois, a coisa explodiu. Mas isso fica para o próximo post.

Rei e súdito lutam pelo trono
Por José Nilton Dalcim
8 de junho de 2018 às 17:37

Atualizado às 23h30

Não haveria final mais correta para este Roland Garros. Esbanjando vitalidade aos 32 anos, Rafael Nadal confirmou a expectativa, não deu bola para pressão e está com um pé em outro gigantesco feito. Possível sucessor, Dominic Thiem juntou suas melhores armas, soube poupar físico, manteve a cabeça fria e enfim decidirá seu primeiro Grand Slam. Apreciemos duas formas distintas de se jogar sobre o saibro.

Rafa comemora sua longevidade nas quadras com a grande oportunidade de ganhar seu terceiro Slam depois de ‘trintão’. O favoritismo para levantar o 17º troféu desse nível reacende a velha discussão sobre a chance de alcançar os 20 títulos máximos de Roger Federer. E a vitória exuberante sobre Juan Martin del Potro nesta sexta-feira deixa poucas dúvidas sobre isso. Depois de desperdiçar valiosos break-points ao longo do primeiro set, o argentino não conseguiu mais competir com a intensidade crescente do decacampeão. Virou presa fácil. Delpo é quem tinha de arriscar, mas foi Rafa quem liderou de longe o número de winners (35 a 20) e fez mais pontos com o primeiro saque (72% a 57%).

Derrotado na estreia de Roma por Fabio Fognini, Thiem anunciou uma preparação pouco usual e foi buscar confiança com o título em Lyon. Deu certo. Concretizou nesta sexta-feira uma trajetória sem sustos, nem desgastes em Roland Garros. Havia apreensão sobre como dominaria a ansiedade diante de Marco Cecchinato e ele passou no teste com louvor, ainda que tenha vacilado no tiebreak e quase esticado a tarefa. O conjunto da obra no entanto agradou, porque jamais se absteve de forçar o jogo.

Tudo é superlativo para Rafa sobre o saibro e em Paris. Esta foi sua 450ª partida sobre o piso e a vitória de número 414, o que é a quarta maior coleção da Era Profissional. Mas Guillermo Vilas, Manuel Orantes e Thomas Muster nem chegam perto do percentual positivo do ‘rei’, que até hoje só perdeu 36 vezes. Ou seja, absurdos 92% de aproveitamento. Em Roland Garros, são agora 85 em 87 possíveis, portanto um domínio de 97,6%. E a marca em partidas de melhor de cinco sets sobre o saibro não é menos impressionante: 110 em 112, acima de 98,2%. Essas duas únicas derrotas aconteceram justamente em Paris, diante de Robin Soderling (2009) e Novak Djokovic (2015).

A eventual conquista no domingo também é um desafio que Rafa cumprirá de forma exemplar em relação ao ranking. Ele suportou a pressão em todas as semanas do saibro europeu, perdeu momentaneamente o posto após Madri e o recuperou em seguida em Roma. Rafa aliás já garantiu o número 1 da temporada, com os atuais 4.240, seguido por Alexander Zverev (3.495).

Thiem por seu lado alcança a primeira final de Slam aos 24 anos e em sua quinta presença em Paris, o que é um marco expressivo no circuito atual se esquecermos do Big 4. Ele é evidentemente um especialista no saibro, tendo somado 109 de suas 206 vitórias da carreira sobre a terra. É provavelmente o único homem hoje capaz de fazer frente a Nadal no saibro, uma vez que há poucas semanas encerrou a série de 21 triunfos e de 50 sets do espanhol.

É possível repetir Roma e Madri? São situações muito diferentes. No ano passado, Thiem pegou um adversário um tanto desgastado e, semanas atrás em Madri, usou muito bem a velocidade maior da Caixa Mágica. Lembremos que no saibro lento de Monte Carlo, pouco antes, levou uma surra, assim como em Roland Garros de 12 meses atrás. Vale lembrar que o placar geral é de 6 a 3 para o espanhol, todos sobre o saibro.

A dúvida real no entanto é se o austríaco terá consistência para suportar um jogo provavelmente bem longo e exigente, em que precisará sacar muito bem, atacar com frequência e golpear o backhand na subida e não quatro passos atrás da linha, com os objetivos essenciais de angular e acima de tudo usar o peso da bola para diminuir o esforço. Do jeito que Nadal vem jogando, vencer será uma façanha colossal.

E mais
– Nadal e Federer são agora os únicos homens da Era Profissional a atingir 11 finais de um mesmo Slam. O suíço tem a marca em Wimbledon.
– Esta será a 24ª final de Grand Slam do espanhol, que fica a seis do recorde de Federer e se distancia das 21 de Novak Djokovic.
– Já são 236 vitórias em Grand Slam para Rafa. Ele se aproxima do segundo lugar de Djokovic (244).
– Thiem pode se tornar apenas o nono profissional e o quatro em Paris a derrotar os cabeças 1 e 2 num Grand Slam, Curiosamente, Wawrinka fez isso nos títulos da Austrália-2014 e Paris-2015.
– O austríaco possui já duas vitórias sobre nº 1, a primeira em cima de Murray e a outra sobre Nadal.

Halep x Stephens
Com 2,2 milhões de euros de aperitivo, a romena Simona Halep e a norte-americana Sloane Stephens fazem duelo imprevisível na final feminina de Roland Garros às 10 horas deste sábado. Líder do ranking, Halep tem sua quarta oportunidade de erguer um troféu de Grand Slam e evitar o sufoco vivido por Kim Clijsters e Helena Sukova, que ficaram com quatro vices. A diferença é que Clijsters acabaria com a sina na quinta tentativa.

Stephens por sua vez tenta o segundo Slam em nove meses. Há quase um ano, quando retornou de longa parada por contusão em Wimbledon, era a 957ª do ranking. Amanhã, com ou sem o título, será a quarta. A conquista no entanto lhe abrirá a oportunidade matemática de brigar pela liderança na grama inglesa, completando um salto extraordinário.

O histórico favorece muito Halep, com cinco vitórias em sete duelos, sendo quatro consecutivas desde as duas quedas de 2013. Venceu também os dois jogos sobre o saibro.

Um registro histórico é importante. Ao contrário do que tanto se diz por aí, o primeiro título de Grand Slam vencido por um tenista negro não foi em Wimbledon, em 1958, mas dois anos antes com a mesma Althea Gibson, em Roland Garros. O Netflix tem um documentário excelente sobre ela. O Youtube tem um outro também valioso.