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Nadal pode comemorar
Por José Nilton Dalcim
28 de junho de 2022 às 20:28

A estreia não foi lá aquela maravilha, com alguns golpes muito curtos, ataque por vezes descalibrado e saque ainda abaixo do que parece necessário, mas Rafael Nadal tem motivos para se sentir mais leve neste Wimbledon. Os três adversários que poderiam lhe causar maior dor de cabeça e desgaste não irão mais cruzar seu caminho.

Marin Cilic e Matteo Berrettini pegaram covid e desistiram antes de estrear. O croata, finalista de 2018 e experiente em Grand Slam, poderia cruzar com Rafa nas oitavas. Felix Auger-Aliassime viria em seguida, mas o canadense não achou devoluções e passadas suficientes para segurar o saque-voleio de Maxime Cressy. E o embalado italiano, campeão de Stuttgart e Queen’s e atual vice de Wimbledon, anunciou logo cedo que o coronavírus havia tirado sua energia para jogar.

Aliás, até mesmo Sam Querrey saiu do caminho. O norte-americano já deu sufoco em Novak Djokovic na mesma grama e tem título de Queen’s, mas parou no tênis básico de Ricardas Berankis, que aqui entre nós não é muito mais do que Francisco Cerundolo. Então não sobrou adversário de peso para Rafa? Nem tanto. Talvez um Lorenzo Sonego ou um Botic van de Zandschulp inspiradíssimos possam ser competitivos, já que a lógica diz que o espanhol irá crescer pouco a pouco no torneio.

É ainda essencial falar da entrevista de Alizé Cornet ao L’Équipe, em que revela uma verdadeira epidemia de coronavírus em Roland Garros, que foi estrategicamente abafada pelos próprios jogadores, receosos de serem retirados do Slam, de se submeter a testes constantes ou de entrarem outra vez numa ‘bolha’ preventiva. A francesa contou que alguns nomes de peso pegaram covid e se calaram. citando apenas Barbora Krejcikova. Sintomas clássicos, como tosse e dor de cabeça, foram genéricos nos vestiários e corredores.

Pelo jeito, tudo passou despercebido pelos organizadores e o mesmo se repete agora em Wimbledon, onde o Club não tomou qualquer atitude após os casos autorrevelados de Cilic e Berrettini. Como 98% dos principais tenistas estão vacinados, é bem provável que não surjam complicações.

Jogo a jogo
Stef e Kyrgios não brilham
– Possíveis adversários de terceira rodada, o que seria um reencontro de dias atrás na grama, Stefanos Tsitsipas e Nick Kyrgios venceram na marra. O grego sacou de forma instável e passou por diversos sufocos contra o desconhecido Alexander Ritschard. O australiano teve o atenuante de encarar o local Paul Jubb, bem acostumado à grama, mas falou demais, estava incrivelmente apressado entre os pontos e incomodado com o vento.

Cressy justifica – Era imaginado que Felix Aliassime teria uma estreia dura, mas foi ainda mais desastroso. Maxime Cressy ganhou 94 das 133 vezes em que subiu à rede e só permitiu um break-point. Tipo de jogo que não dá qualquer ritmo ao adversário e o canadense sentiu isso. Cressy enfrenta agora o ex-top 10 Jack Sock, que veio do quali.

Armada americana – Grama é um lugar onde o tênis de saque pesado e bolas retas dos americanos sempre se adapta bem. Taylor Fritz, Jenson Brooksby, Reilly Opelka são cabeças como também John Isner, Frances Tiafoe e Tommy Paul. Se recuperar a confiança, acho que Fritz é o mais perigoso. Mas também passaram da estreia Johnson, Harrison, McDonald, Nakashima e Giron, este com vitória sem surpresa sobre o cabeça mas inexperiente Rune.

Swiatek busca ritmo – Não foi uma exibição à altura da Iga Swiatek dos últimos meses, porém a polonesa só perdeu três games e cravou mais um ‘pneu’. Vai precisar se soltar mais no saque. O índice de acerto foi baixo (59%) e mais ainda o de pontos vencidos com ele (61%). Num ‘apagão’, perdeu dois serviços seguidos e viu Jana Fett abrir 3/1 no segundo set. Porém, tal qual Rafa, a margem para embalar é muito grande.

Cabeças caem – Cinco favoritas, entre elas as suíças Bencic e Teichmann, deram adeus logo de cara, seguindo Giorgi, Putintseva e Rogers. Outras como Gauff e Kvitova tiveram de virar jogo. O destaque positivo desta terça-feira foram Halep e Anisimova. É bom lembrar que Kvitova e Halep podem se cruzar ainda nas oitavas.

Serena fica no quase – Sobrou esforço, faltaram pernas e confiança. O retorno de Serena Williams empolgou o público por mais de 3 horas, apesar de o nível não ter sido grande coisa. A francesa Harmony Tan usou a tática certa de fazer Serena jogar e correr, mas ainda assim a hexacampeã de Wimbledon sacou para a vitória no terceiro set. Fez péssimas escolhas e também não segurou a vantagem inicial no match-tiebreak. De qualquer forma, pertinho dos 41 anos, Serena mostra que ainda dá para ser competitiva lá no US Open, mas sem sonhar demais.

Agora, duplas – Laura Pigossi imitou Thiago Monteiro, tentou achar um padrão tático mas a grama não combina com seus estilos. Valeu como ótima e merecida experiência para a paulistana. O Brasil agora se concentra nas duplas. Bia Haddad está numa chave dura, mas dá para acreditar nas mistas outra vez ao lado de Soares.

Como um número 1
Por José Nilton Dalcim
26 de janeiro de 2022 às 12:22

Daniil Medvedev conseguiu uma vitória para lá de heroica. Sem mostrar seu melhor tênis, sufocado por um determinado e eficiente Felix Aliassime, o russo escapou da eliminação que parecia inevitável, suportou a pressão da torcida e admitiu ter sido favorecido pelo fechamento do teto justamente durante o tiebreak decisivo do terceiro set. Ainda assim, teve de encarar um match-point e evitou sucessivos breaks na última série. Esse Urso é duro de matar.

Aliassime merece todos os elogios, porque fez exatamente o que tinha de fazer. Foi agressivo o tempo todo, o que obviamente lhe custou muitos erros não forçados – principalmente no quinto set onde o cansaço era evidente -, mas lhe deu a oportunidade de estar na semifinal. Sacou bem e com inteligência, fez ótimas transições à rede com incríveis 41 pontos de 48 tentativas e usou o forehand na paralela como meio de desestabilizar Medvedev. Lutou com todas as forças e recursos numa maratona de 4h42.

Medvedev pareceu ter sido pego de surpresa com a tática adotada pelo canadense no começo da partida, já que recebia bolas muito anguladas na direita e deixava o outro lado descoberto. E falhou feio na hora da pressão, com duplas faltas comprometedoras. A coisa piorou no segundo set, porque Aliassime se mantinha muito confiante a ponto de perder apenas quatro pontos com o serviço.

O russo evitou quebra que seria desastrosa no começo do terceiro set e só conseguiu abafar o ritmo do jovem adversário quando o teto fechou no terceiro ponto do tiebreak. Com o piso um pouco mais veloz, o saque de Medvedev cresceu e foi exatamente um ace que o salvou da derrota no 10º game do quarto set. Imediatamente, Felix jogou seu pior game até então e o russo enfim empatou apesar de se mostrar apressado e ansioso.

O nível físico e consequentemente de precisão caíram no quinto set, principalmente do lado de Aliassime, que fez então apenas 6 winners e 16 erros, perdendo agora a maioria das trocas mais longas. Ainda assim, teve seis break-points e ao menos num deles a bola estava na mão. Sofreu uma quebra boba logo no terceiro game e quase reagiu no final. Medvedev afirmaria minutos depois que se inspirou nas grandes viradas do número 1 Novak Djokovic e deixou um recado claro na lente da câmera: “Não estou cansado”. Esta foi apenas sua terceira vitória em quinto sets em 10 partidas na carreira e a segunda virada de 0-2, como aconteceu contra Marin Cilic em Wimbledon-2021.

Portanto, Stefanos Tsitsipas que se cuide. O grego deu um salto de qualidade e atropelou de forma um tanto inesperada o italiano Jannik Sinner sem ter o saque ameaçado uma única vez e, mais notável, aproveitando sem pestanejar os quatro break-points que construiu. Nem sacou tão bem, mas o fato é que a mão estava abençoada e permitiu quase o dobro de winners (30 a 16) diante de um adversário um tanto passivo. No único jogo da rodada a não chegar ao quinto set, Stef economizou energia e manteve a sina de vencer todas as cinco quartas de Slam que já disputou.

Medvedev e Tsitsipas vão assim repetir a semi do ano passado, amplamente dominada pelo russo. Stef só venceu dois dos oito duelos, porém o mais recente, nas quartas de Roland Garros. O grego busca a segunda final de Slam e o russo, a quarta. Tanto um como o outro têm histórico negativo contra Rafael Nadal (1-3 e 2-7) e vantagem sobre Matteo Berrettini (3-0 e 2-0). É fácil imaginar para quem vão torcer.

Qualquer que sejam os vencedores de sexta-feira, haverá história no Melbourne Park. Tsitsipas e Berrettini buscam seu primeiro Slam após ter feito finais inéditas em 2021; Medvedev está a dois jogos do número 1 e Rafa, a dois do 21º Slam.

Swiatek também vira
Num jogo tecnicamente fraco mas cheio de emoções e reviravoltas, a polonesa Iga Swiatek reagiu em cima da veterana Kaia Kanepi em duelo de 3 horas sob calor de 32 graus para marcar sua maior campanha de Slam numa quadra dura. Ela também havia perdido o primeiro set no jogo anterior, diante de Sorana Cirstea, e terá missão difícil na semi contra a agressiva norte-americana Danielle Collins já na manhã desta quinta-feira.

A campeã de Roland Garros cometeu 50 erros, sendo 12 duplas faltas, mas ainda foi superior às 62 falhas de Kanepi. A estoniana de 36 anos chegou a sair o segundo set com quebra. O único título no piso sintético de Swiatek veio em fevereiro do ano passado em Adelaide, mas ela jura que está se sentindo cada vez mais à vontade.

Collins fez uma partida bem mais compacta contra Alizé Cornet, arriscou o tempo todo como de hábito e mostrou o backhand tão incisivo. Aos 28 anos, faz sua segunda semi de Slam e no Australian Open. O único confronto com Swiatek foi justamente em Adelaide de 2021.

A quinta-feira também terá a outra semi, em que a número 1 do mundo Ashleigh Barty entra com amplo favoritismo diante da norte-americana Madison Keys, ainda que o histórico seja apertado, com 2 a 1. Barty tenta ser a primeira australiana na final desde Wendy Turnbull em 1980. As duas são as líderes de aces no torneio (35 de Keys e 30 de Barty), mas a australiana venceu 82% de seus games de serviço e a norte-americana, 72%.

Bia na luta pela história
Como bem destacado por Mário Sérgio Cruz em TenisBrasil, Beatriz Haddad Maia joga às 21 horas desta quarta-feira para se tornar a terceira brasileira numa final de Grand Slam, repetindo a multicampeã Maria Esther Bueno e a vice de mistas em Roland Garros de 1982, Claudia Monteiro.

As adversárias são as mesmas que Bia e Anna Danilina derrotaram há duas semanas rumo ao título de Sydney, as japonesas e cabeças 2 Shuko Aoyama e Ena Shibahara. Se vencerem, há uma grande chance de a disputa pelo título ser diante das favoritas Barbora Krejcikova e Katerina Siniakova, na madrugada de domingo.

É preciso acreditar
Por José Nilton Dalcim
24 de janeiro de 2022 às 12:39

A segunda semana começou literalmente fervendo no Australian Open. Mesmo sob um calor sufocante durante a sessão diurna da rodada, a primeira parte das oitavas de final foi sensacional e viu nada menos que cinco viradas em oito partidas, marcando histórias espetaculares para as já veteranas Alizé Cornet e Kaia Kanepi.

Jannik Sinner foi o único dos homens a ter vida relativamente fácil, depois de um primeiro set sem quebras diante de Alex de Minaur e sua ruidosa torcida. Depois dominou com mais clareza. Aos 20 anos e meio, Sinner já tem duas quartas de Slam. Já Daniil Medvedev suou muito mais do que o esperado para superar o saque-voleio constante de Maxime Cressy, com dois tiebreaks disputados e um perdido. Depois, reclamou de não ter jogado na Rod Laver, alegando que é o principal cabeça e o último campeão de Slam e que enfrentar o norte-americano num estádio maior facilitaria as coisas.

Ainda na madrugada, Felix Auger-Aliassime encarou um Marin Cilic incrivelmente inspirado por set e meio, mas conseguiu manter a cabeça fria. Os golpes descalibrados passaram a entrar, os aces apareceram e aí ele encerrou o pequeno tabu de três derrotas para o croata ao vencer dois tiebreaks, mostra evidente de que a cabeça melhora a cada semana. Aos 21 anos, é o terceiro Slam seguido em que atinge pelo menos as quartas.

Mais eletrizante foi a reação de Stefanos Tsitsipas diante de um aplicadíssimo Taylor Fritz. O norte-americano chegou a ter 2 sets a 1 e era o melhor em quadra. O grego no entanto parou de errar nos momentos importantes, arrancou duas quebras no final dos sets decisivos e continua vivo aos trancos e barrancos. Sua qualidade é inquestionável, com uma final e outras três semis de Slam na curta carreira, duas delas em Melbourne.

Agora, Medvedev enfrenta Aliassime com ampla vantagem de 3 a 0 no histórico, incluindo recente vitória fácil na ATP Cup. Favoritismo natural. Já Tsitsipas só cruzou com Sinner no saibro, tenho perdido uma e vencido outra em Roma e levado a melhor no ano passado em Barcelona.

Note-se que a média de idade entre esses quatro candidatos à semi é de 22,4 anos e todos ocupam hoje o top 10 do ranking. O futuro chegou.

Surpresas e emoção
Todos os jogos femininos foram ao terceiro set, três deles de virada e duas veteranas fizeram história numa rodada muito especial em Melbourne. Aos 32 anos e após 63 tentativas, Alizé Cornet enfim atingiu as quartas de um Slam. Ainda mais velha, aos 36, Kaia Kanepi soma em Melbourne as únicas quartas que faltavam a seu quadro de Slam.

E foram atuações eletrizantes, derrubando grandes favoritas. Cornet vinha de maratona e até parecia mais exausta do que Simona Halep até que as duas passaram a mostrar dificuldades com o calor de 32 graus e umidade de 42% sem jamais desistir de lutar por cada bola ou, mais incrível, perder a noção tática. Ao final de autêntico espetáculo de resiliência das duas guerreiras, Cornet caiu em lágrimas.

Já na noite, mais protegida do clima severo, Kanepi perdeu o set inicial para Aryna Sabalenka – a bielorrussa não perdeu serviços – e permaneceu acreditando. A cabeça 2 começou a falhar no saque, vieram as duplas faltas e a estoniana pôde sacar para o jogo com 5/3, chegando a abrir 40-0. Sabalenka foi corajosa, levou ao tiebreak e chegou a ter 6-5 antes de perder os dois serviços e a confiança que restava. Fato curioso, Kanepi chegou a comemorar quando fez 9-7, mas só então se deu conta que era um supertiebreak.

Cornet enfrentará pela primeira vez Danielle Collins, de 28 anos e semi do torneio em 2018, que marcou grande virada sobre Elise Mertens. Já Kanepi terá outra pedreira, a jovem Iga Swiatek. A polonesa perdeu seu primeiro set da campanha com reação em cima de Sorana Cirstea e comemora sua primeira presença nas quartas de Melbourne.

Com os resultados, apenas Barbora Krejcikova ainda ameaça o número 1 de Ashleigh Barty, mas precisa do título e que a australiana caia na próxima partida. Swiatek irá recuperar o quarto posto caso atinja a semi.

E mais

  • Nadal tem favoritismo natural sobre Shapovalov à meia-noite, com 3 a 1 no histórico. Apenas dois canhotos – Verdasco e Muller – venceram o espanhol num Slam até hoje. Nadal tenta a 499ª vitória sobre quadra dura da carreira.
  • Berrettini venceu os dois duelos contra Monfils, incluindo notável quartas do US Open-2019 em cinco sets. Francês não perdeu set ainda e ficou em quadra 5h a menos. Nenhum italiano chegou na semi da Austrália na história.
  • Barty ganhou o único duelo contra Pegula, 21ª do ranking, em Roland Garros-2019. Australiana só perdeu 15 games até agora.
  • Krejcikova enfrenta Keys pela primeira vez. A norte-americana é 51 do mundo mas já tem quatro semis de Slam, a mais recente no US Open de 2018, um ano depois do vice. São duas grandes estrategistas.
  • Bia Haddad pode se tornar primeira brasileira na semi da Austrália desde 1965 e também repetir façanha de Stefani no US Open do ano passado às 22h30 desta segunda-feira. Ela e Danilina enfrentam Peterson e Potapova, duas top 100 do ranking de simples.