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A ‘Maldição de Londres’ existe!
Por José Nilton Dalcim
13 de fevereiro de 2020 às 20:36

Desde que o primeiro tenista não chamado Roger Federer ou Novak Djokovic ganhou o ATP Finals de Londres nos últimos 10 anos, uma maldição parece ter caído sobre aquele que sai com o troféu da arena O2.

Claro que é uma brincadeira, mas não deixa de ser assustador: Andy Murray, Grigor Dimitrov e Alexander Zverev desabaram em incríveis buracos na temporada seguinte a suas conquistas e o mesmo parece estar acontecendo agora com Stefanos Tsitsipas. Não é coincidência, diriam os místicos.

Murray fez um incrível segundo semestre em 2016, que culminou com o título no Finals e o número 1 do ranking. Na temporada seguinte, só ganhou um torneio, logo em fevereiro, e começaram as contusões no cotovelo e depois no quadril, que acabariam por tirá-lo da ponta do ranking em agosto. O restante da história todos conhecemos.

De reconhecido talento e atleticismo, Dimitrov enfim levantou seu maior troféu no Finals de Londres em 2017. Era de se imaginar que embalaria, mas passou o primeiro semestre seguinte em intensos altos e baixos, fez sua pior temporada de grama e enfim reconheceu não estar na melhor forma. Sequer se classificou de novo para o Finals.

Grande nome da nova geração até então, Zverev ganhou seu primeiro ATP em 2016, chegou a terceiro do ranking com dois troféus de Masters em 2017 mas nunca embalou nos Slam. Juntou suas melhores armas para uma campanha incrível na arena O2, derrotando seguidamente Federer e Djokovic. Não poderia haver maior motivação para uma arrancada, porém 2019 foi terrível. Passou meses sem ganhar dois jogos seguidos e até se deu melhor no saibro do que na grama. Demitiu treinador, viu o pai doente e enfrentou processo judicial de ex-agente.

É muito cedo ainda para dizer que Tsitsipas vai seguir a ‘maldição’, mas o habilidoso grego tem causado decepções, com raros momentos lúcidos neste início de 2020. Na ATP Cup, ganhou de Zverev, mas foi superado por Denis Shapovalov e Nick Kyrgios, com direito a ataques de fúria. Parou ainda na terceira partida de Melbourne totalmente dominado por Milos Raonic. Passou apertado pela estreia de Roterdã e caiu nesta quinta-feira para o mediano Aliaz Bedene. O diagnóstico é desanimador: Stef não mostra confiança com o saque, a devolução está estagnada, bate apressado na base e nem mesmo o vistoso jogo de rede tem aparecido para salvá-lo.

O garoto de 21 anos ainda não pode, nem deve ser crucificado. Viveu um 2019 naturalmente instável e mesmo assim ele entrou na faixa dos top 10 em março e não saiu mais de lá. Atingiu sua segunda final de Masters, decidiu dois ATP 500 e ganhou dois 250, decorando o currículo com vitórias sobre todos os Big 3. Disputará agora quatro torneios seguidos – Marselha, Dubai, Indian Wells e Miami – e tem a versatilidade necessária para se adaptar bem às diferentes situações.

Apesar da queda inesperada de Tsitsipas, Roterdã está muito bem representado pela nova geração: Andrey Rublev desafia veteranos na parte de cima da chave, Felix Aliassime e Jannik Sinner têm chance real de duelar na semi. O russo já soma 13 vitórias na temporada, igualando-se a Djokovic; o canadense reencontrou a confiança com ótimas vitórias em cima de Dimitrov e Jan-Lennard Struff; e o italianinho foi brilhante diante de David Goffin. E olha que Nova York já tem Reilly Opelka, Ugo Humbert e Miomir Kecmanovic nas quartas também.

Thiem se dá mais uma chance
Por José Nilton Dalcim
31 de janeiro de 2020 às 11:11

Físico privilegiado, golpes pesadíssimos misturados com habilidade e cada vez mais experiente, o austríaco Dominic Thiem conquistou com méritos a terceira chance de entrar para a galeria dos campeões de Grand Slam e assim quebrar a longa hegemonia do Big 4.

Desde janeiro de 2004, quando Roger Federer passou a dominar o circuito, apenas cinco jogadores ousaram fazer isso: Gaston Gaudio e Marat Safin, antes de aparecer Rafa Nadal; Juan Martin del Potro, Stan Wawrinka e Marin Cilic na fase de ouro do tênis masculino, já com Novak Djokovic e Andy Murray no auge.

Thiem fez duas finais sucessivas em Roland Garros, mas não teve muita chance. Na primeira, não soube como encarar o todo poderoso Nadal; na outra, foi penalizado pelo calendário do torneio e ficou sem pernas, ainda que tenha vencido um set. Em Melbourne, tirou o espanhol do caminho e já derrotou quatro cabeças de chave em sequência (Taylor Fritz, Gael Monfils, Rafa e Alexander Zverev). Mas ainda terá um último e enorme desafio diante de Djokovic, às 5h30 de domingo.

O histórico entre eles tem peculiaridades: sérvio venceu 6 dos 10, porém perdeu 4 dos últimos 5, incluindo duas batalhas fisica e emocionalmente exigentes, na semi de Roland Garros e na fase de grupos do Finals. Melbourne no entanto é território do sérvio, com vitória em todas as sete finais disputadas até hoje.

Fica patente que o austríaco acertou na contratação de Nicolás Massu quando planejou melhorar seu desempenho no piso duro. No ano passado, ganhou Indian Wells em cima de Federer e decidiu o ATP FInals, onde voltou a ganhar do suíço e superou também Djoko. O que mudou acima de tudo foi uma postura mais ofensiva nas devoluções, além de entrar na quadra para tirar o tempo do adversário. Quando faz isso com seu bombástico forehand e pernas tão fortes , é um tenista difícil de ser batido.

Semifinal nervosa e equilibrada
Na tensa partida contra Zverev desta sexta-feira, é justo dizer que foi tudo decidido nos detalhes, sem um grande domínio de nenhum lado. Thiem não teve a consistência da partida contra Nadal mas achou seus melhores golpes nos momentos certos e outra vez foi soberbo nos tiebreaks, enquanto Zverev veio com uma proposta diferente, com transições muito bem feitas à rede (36 pontos em 51 subidas), além de ficar competitivo até a última bola.

O jogo ficou bom mesmo quando os dois deixaram as trocas longas da base, muitas sem grande objetividade, por um tênis mais agressivo. Claro que isso gerou altos e baixos. Austríaco fez 43 a 42 nos winners e 40 a 33 nos erros. Ambos venceram 33% pontos como recebedores. Dado curioso, Zverev acertou 81% de saques, com média acima de 200 km/h, e chegou a cravar 90% no segundo set que ainda perdeu. Mas não foi o suficiente para ir enfim à primeira final de Slam.

Há no entanto que se destacar o grande torneio de Sascha, principalmente no aspecto emocional. Segurou a cabeça mesmo quando pressionado, evoluiu na parte defensiva e recuperou a confiança no saque, com poucas duplas faltas comprometedoras. Depois de uma ATP Cup tão ruim e histérica dias antes, a perspectiva para o restante do calendário melhorou muito.

Thiem lutará no domingo também por um inédito terceiro lugar no ranking, o que rebaixaria Federer, e tentará repetir Thomas Muster, até hoje único austríaco a faturar um Slam, em Roland Garros de 1995. Curiosamente, Muster foi demitido da equipe às vésperas do Australian Open apenas duas semanas depois de ser contratado.

Thiem e Zverev derrubam os campeões
Por José Nilton Dalcim
29 de janeiro de 2020 às 13:32

A nova geração levou a melhor sobre os ‘trintões’ no complemento das quartas de final do Australian Open e farão uma semifinal toda renovada. Caíram aliás dois campeões de Melbourne: Dominic Thiem ganhou um jogo de detalhes, força bruta e muitas emoções diante de Rafael Nadal, o vencedor de 2009, e Alexander Zverev virou em grande estilo sobre Stan Wawrinka, ganhador de 2014. Assim, mantém-se a expectativa do primeiro triunfo peso pesado da Next Gen, ainda que do outro lado estará Novak Djokovic ou Roger Federer.

Seria justo dizer que o set-point perdido por Nadal no primeiro set, que lhe daria um folgado 6/3, pode ter influenciado todo o andamento da partida. Thiem ainda não tinha adquirido toda a confiança – a quebra sofrida foi um momento ruim – e via um espanhol cheio de surpresas, com saque-voleio, contrapés e devolução mais perto da linha. O austríaco se agigantou com a chance recuperada e daí em diante deu um show com seus golpes pesadíssimos, precisos e ousados.

O segundo set foi quase uma repetição, com Rafa outra vez quebrando antes, cedendo empate e sendo dominado no tiebreak pouco depois de salvar um set-point. E tudo isso sem que Thiem usasse todo o poder de seu serviço. Mas contra Rafa nada está garantido até a última bola, e o espanhol manteve a cabeça no lugar. Esperou a primeira brecha para fechar o terceiro set. Thiem jogou muito para quebrar no terceiro game do quarto set, manteve a vantagem até sacar para a vitória. Aí bateu o nervosismo, errou forehands bobos enquanto Nadal espertamente enchia a bola de spin apostando na ansiedade do oponente.

O terceiro tiebreak foi ainda mais interessante. Nenhum dos tenistas segurou o saque nos cinco primeiros pontos, e Nadal poderia ter chegado a 4-1. Ao contrário, foi Thiem quem fez 4-2 e aí ganhou um ponto totalmente improvável: caiu na quadra, levantou-se e rebateu ainda duas bolas antes de Nadal mandar um backhand para fora. Mas não seria o fim. Com 6-4, Thiem perdeu o match-point com um forehand incrivelmente fácil de meio de quadra. Nadal salvou outro e foi impossível não lembrar Federer da véspera. Porém com o saque na mão, o espanhol falhou e aí seria pedir demais que o já tão experiente Thiem deixasse outra chance tão preciosa escapar.

Esta foi apenas a segunda vez que Nadal precisou jogar três tiebreaks numa mesma partida de Slam, mas na anterior conseguiu ganhar um deles na vitória sobre Fernando Verdasco rumo ao título do Australian Open de 2009. Quatro jogadores já haviam tirado dois tiebreaks dele (Federer, Isner, Darcis e o próprio Verdasco).

Com 59% de primeiro saque em quadra, Thiem ganhou mais pontos do que Rafa devolvendo o primeiro serviço (31% a 22%). Fez 65 winners contra 49, mas 49 erros diante de 33. Era o que tinha de fazer para chegar à quinta vitória geral sobre Nadal, a primeira em Slam (1-5 agora) e na quadra dura.

Dado muito significativo levantado pela ATP mostra que Thiem venceu 7 dos 9 duelos diante do Big 3 nos últimos 12 meses, o que inclui 3-0 sobre Federer, 2-1 em Djokovic e 2-1 contra Nadal. Desde o começo de 2018, sua marca também é positiva com 9 triunfos em 15 confrontos: 3-1 sobre Federer e Djokovic, 3-4 frente Nadal. Soma agora 11 triunfos nos 14 duelos mais recentes.

Ao atingir sua quinta semifinal de Slam, a primeira fora de Roland Garros, o austríaco de 26 anos também anota sua quarta vitória da carreira em cima de um número 1 em 12 tentativas, sendo duas sobre Nadal e uma diante de Djoko e de Murray.

Como todo mundo sabe, Nadal adia o sonho do 20º troféu de Grand Slam para Roland Garros e outra vez falha na tentativa do bi na Austrália, o que o tornaria o único homem com ao menos dois troféus em cada Slam. De quebra, fica ameaçado de perder o número 1, caso Djokovic conquiste o octa no domingo.

O grande momento de Sascha
E Alexander Zverev reencontrou grande parte de seu melhor tênis, alcançando com justiça sua maior campanha num Slam. Levou um passeio no primeiro set diante de Stan Wawrinka, quase perdeu o saque no começo da outra parcial porém jamais se desesperou. E isso fez toda a diferença.

Pouco a pouco, o saque começou a fazer estragos – chegou a notáveis 90% de acerto e terminou na média de 80% – e a paciência no fundo de quadra foi recompensada com a pressa que tanto atrapalha Wawrinka. O alemão conhecia o caminho, afinal havia batido Stan nos dois duelos anteriores, ainda que não se cruzassem há quase três anos. E quando o suíço começou a errar o backhand, o sinal de que a confiança tinha sumido era evidente.

Aparentemente, faltaram pernas para Wawrinka no quarto set, já que ele vinha de dois jogos muito duros e ainda encarou um sol bem mais forte em Melbourne. Primeiro alemão na semi de um Slam desde Tommy Haas em Wimbledon-2009, Sascha ganhou dois dos oito duelos diante de Thiem, um no piso veloz de Xangai e outro no saibro rápido de Madri, e levará para a quadra uma animadora estatística: ganhou 10 de seus últimos 11 jogos que foram ao quinto set.

Atrás de mais um Slam
Experiência é o que não faltará na segunda semifinal feminina da Austrália, entre Simona Halep e Garbiñe Muguruza, ambas com títulos e finais de Grand Slam.

Vice do torneio em 2018, a romena está voando e gastou 53 minutos para dominar Anett Kontaveit com um jogo bem vistoso. Na entrevista oficial, destacou a volta do treinador Darren Cahill e uma intensa pré-temporada pela ótima forma física e técnica que demonstra.

Campeã de Wimbledon e Roland Garros, a espanhola faz sua primeira semi em Melbourne e admite surpresa por ir tão longe saindo de uma virose pouco antes do torneio. Pouco a pouco, recuperou a confiança para executar seu jogo agressivo e tem pequena vantagem de 3 a 2 sobre Halep nos confrontos diretos.

Saiba mais
– Esta foi a derrota número 200 na carreira de Nadal, que tem 985 vitórias e deve alcançar a história marca de quatro dígitos no mais tardar no saibro europeu.
– Cada Big 3 tem agora 29 vitórias sobre adversários top 5 em torneios de Slam. Como Rafa perdeu, a liderança será a disputa direta entre Djoko e Federer.
– Aos 22 anos e 288 dias, Zverev pode ser o mais jovem campeão em Melbourne desde Nadal e de um Slam desde Del Potro, ambos em 2009.
– Federer foi multado em US$ 3 mil pelo palavrão que soltou na partida contra Sandgren. Ele reconhece o erro, mas diz que falou em alemão suíço e ainda foi para si mesmo e não tão alto que o público pudesse ouvir.
– A rodada desta quinta-feira começa à meia-noite com as semis femininas (Barty-Kenin e Halep-Muguruza) e às 5h30 será o 50º encontro entre Djokovic e Federer.
– A simpática Ekaterina Makarova anunciou aposentadoria, aos 31 anos. Ex-top 10, liderou em dupla, onde ganhou três Slam e os Jogos do Rio. Foi ao lado dela que Soares venceu mistas do US Open-2012.