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Lógica suada
Por José Nilton Dalcim
11 de janeiro de 2020 às 11:55

Espanha e Sérvia, e principalmente Rafael Nadal e Novak Djokovic, vão decidir a ATP Cup, como era de se esperar. Mas esteve longe de ser fácil. Os melhores tenistas do mundo foram colocados à prova com jogos fisica e emocionalmente muito exigentes e desgastantes, viveram alguns momentos críticos mas deixam claro por que são os favoritos para o Australian Open. E a final deste domingo, que forçará o brasileiro a acordar cedo, promete ser um avant-premiére imperdível.

Djokovic permanece invicto. Foi obrigado a jogar perto do máximo já na estreia contra Kevin Anderson. Sobreviveu a duelos exaustivos contra Denis Shapovalov e Daniil Medvedev, onde sua solidez na base não se mostrou o suficiente, obrigando o sérvio a explorar voleios notáveis e deixadinhas milimétricas para achar soluções alternativas. Nem mesmo sua poderosa devolução facilitou a tarefa, embora em ambos os casos seja preciso dar muitos créditos aos adversários. O russo deixa cada vez mais claro que é o nome da nova geração com o tripé técnica-resistência-cabeça para encarar os superfavoritos.

Nadal oscilou um pouco mais, e sofreu uma derrota um tanto esquisita para David Goffin, que o obrigou a emendar uma dupla não menos sufocante, em que os belgas estiveram muito perto da surpresa. Desde a fase inicial, Rafa mostrou certas dificuldades. Quase se enrolou com Nikoloz Basilashvili e suou contra Yoshihito Nishioka, dois jogadores um tanto limitados. E só mesmo sua excepcional capacidade de jogar sob pressão permitiu a virada categórica em cima do inspirado garotão Alex de Minaur, a melhor ‘surpresa’ desta ATP Cup.

Me preocupou o aparente esgotamento de Djokovic, que perdeu a paciência algumas vezes e voltou a arrebentar raquete, discutir com a torcida e apressar os pegadores. Mas a rigor o sérvio me parece em ritmo bem mais apurado do que Nadal, muito sólido no fundo de quadra, fazendo trocas de direção com rara eficiência. O espanhol tem demorado para se soltar e adotar postura ofensiva. Vale lembrar que Nole já reclamou de dor no braço e Rafa, do joelho.

Em que pese toda a importância do 55º capítulo do mais repetido duelo do tênis profissional – curiosamente, houve apenas cinco confrontos nas últimas três temporadas -, há de se destacar a importância que os números 2 de cada país tiveram nesta ATP Cup.

É bem verdade que Roberto Bautista pegou vários oponentes fracos, mas a forma com que dominou Nick Kyrgios neste sábado reforça como ele sabe usar os recursos da bola na subida e golpes mais retos sobre a quadra dura. Dusan Lajovic sofreu apenas uma derrota (três sets para Benoit Paire), mas depois compensou com um tênis rico em variedade em cima de Nicolas Jarry, Felix Aliassime e Karen Khachanov.

Absolutos coadjuvantes na final deste domingo, eles no entanto terão papel crucial na luta pelo título. Bautista venceu os três duelos contra Lajovic, todos no sintético. O eventual vencedor certamente irá tirar um pouco da pressão sobre Nadal ou Djokovic, embora eu acredite que, às vésperas do Australian Open e com o tremendo ‘espírito de Davis’ que possuem, os dois irão ao limite para sair com a vitória em Sydney e ganhar moral. E isso pode incluir uma curiosíssima batalha também nas duplas.

Quem vence? Eu apostaria na Sérvia. E você?

Analisando 2019: nova geração cava espaço
Por José Nilton Dalcim
7 de dezembro de 2019 às 00:46

É bem verdade que o topo do ranking continua firme e forte nas mãos do Big 3, mas se tirarmos o mais poderoso triunvirato já visto no tênis masculino é fácil perceber que a nova geração enfim chegou para ocupar seu lugar no circuito.

Cinco dos outros top 10 estão entre os 21 e 26 anos, e somando triunfos cada vez mais relevantes. Stefanos Tsitsipas, o mais jovem deles, conquistou o quinto mais importante torneio do calendário, troféu aliás que também já está na galeria de Alexander Zverev.

Com inesperado salto de qualidade em 2019, Daniil Medvedev faturou dois Masters e chegou a um vice de Grand Slam, desempenho semelhante ao do bem mais experiente Dominic Thiem, que somou nada menos que seis vitórias sobre o Big 3 em diferentes pisos. Por fim, Matteo Berrettini foi a grande surpresa, com títulos no saibro e na grama e a incrível semi no US Open.

Não restam dúvidas sobre o potencial diferenciado de Stef. O grego é dono de um arsenal poderoso. Ao mesmo tempo que o saque faz estragos e simplifica pontos, ele evoluiu na consistência na base e transformou o backhand numa arma, pegando as bolas mais na subida sem sair de cima da linha. Voleia com desenvoltura. Ficou muito perigoso nos pisos mais velozes, e olha que foi mal na grama. O essencial, no entanto, foi dominar a cabeça. Realizou uma reta final de temporada madura, sem chiliques e com ótimo físico. A seguir assim, pode ganhar de qualquer um, em qualquer piso.

Apesar de todo mundo ainda estar boquiaberto com Medvedev, acredito que o segundo nome da ‘nova geração’ a ser observado seja Thiem. Ainda que tenha 26 anos, não vejo motivo para tirá-lo da lista do Next Gen. O austríaco reúne habilidades e tem conseguido aparar seus defeitos. Tenista de golpes muito pesados e físico privilegiado, deixou de jogar tão atrás da linha, evoluiu nas devoluções e treinou a transição para a rede. Ficou bem mais completo e isso explica o sucesso inédito na quadra sintética. Pela primeira vez, venceu mais sobre o piso duro do que no saibro. Com exceção a Wimbledon, é sensato colocá-lo entre os candidatos para os demais Slam em 2020.

Medvedev é um caso à parte, a começar pelo estilo pouco ortodoxo. Joga ofensivo a partir do saque, mas se defende muito bem para seus 1,98m. Ganhou títulos de gabarito em quadras muito velozes, como Cincinnati e Xangai, sem ter um jogo de rede sequer razoável. O segredo é talvez menos técnico e muito mais mental, e vimos essa fortaleza em jogos longos e duros ou frente à torcida irada. No entanto 2020 tende a ser um outro universo. Ele já não é mais surpresa, os adversários estudaram suas fraquezas e haverá um caminhão de pontos a defender a partir de abril. É hora portanto de sabermos o tamanho de sua fome.

Zverev e Berrettini estão em extremidades opostas. O alemão já fez muito para seus tenros 22 anos, e isso gera cobrança constante, vinda de fora e, pior ainda, de dentro. Vejo o rapaz com dois problemas graves: a lenta evolução técnica – principalmente se comparada aos demais jovens – e a exagerada instabilidade emocional. Será que uma queda maior, que o tirasse do foco, não seria uma solução a médio prazo? Já o italiano ainda me parece um bom mas limitado jogador, que explora bem a força. É fato que muitos tenistas com um golpe de base fraco, como é o caso de seu backhand, foram longe em suas carreiras, mas aos 23 anos espera-se que ele trabalhe incansavelmente nisso.

Logo abaixo, eu listaria seis nomes a se observar: os canadenses Denis Shapovalov e Felix Aliassime, os russos Karen Khachanov e Andrey Rublev, o australiano Alex de Minaur e o norte-americano Taylor Fritz. São reais candidatos ao top 10, ao menos em algum momento da temporada. O dueto canadense é espetacular e promissor, mas ainda falta estabilidade emocional, um por ser explosivo demais, o outro por ser um tanto passivo.

Khachanov deu na verdade um pequeno e compreensível passo para trás em 2019 e Rublev reagiu muito bem à fase de contusões. São jogadores de golpes muito pesados e que precisam ganhar versatilidade. Rublev me agrada especialmente. São casos bem diferentes do incansável De Minaur, um lutador a quem carece iniciativa. O tênis no entanto já fez muitos guerreiros heróis. Por fim, Taylor Fritz é esperança real do tênis americano, porque não depende exclusivamente do saque e se vira muito bem na base, o que é a síntese do jogo moderno.

Não deixemos de observar Jannik Sinner, a sensação italiana de 18 anos que navega entre a consistência e a ousadia. Neste ano, ganhou futures e challengers, fez semi de ATP e entrou no US Open. Se ganhar massa muscular, será um perigo, ainda mais com a prestigiada orientação do genial Riccardo Piatti.

E mais
– Dos 15 novos campeões que surgiram nesta temporada,  oito têm no máximo 23 anos: De Minaur (19), Opelka (21), Djere (23), Garin (22), Fritz (21), Jarry (23), Hurkacz (22) e Shapovalov (20).
– Este é o maior número de campeões inéditos numa só temporada, superando os 13 de 2018 e 2004. Importante ressaltar que em 2012 houve apenas um.
– Dos 67 títulos em jogo, apenas 13 ficaram com o Big 3, embora se incluam aí os quatro Slam e cinco Masters. Foram 40 campeões diferentes, a lista mais diversificada desde os 41 de 2001.
– Seis novos tenistas chegaram pela primeira vez ao top 10 e quatro deles são da Next Gen: Tsitsipas, Medvedev, Berrettini e Khachanov. Os outros foram Bautista e Fognini.
– Desde que Nadal chegou à vice-liderança do ranking, em julho de 2005, nenhum outro tenista ocupou o número 2 que não fosse o Big 4.

Djokovic espanta fantasmas e urubus
Por José Nilton Dalcim
31 de agosto de 2019 às 01:18

O clima era todo de suspense. Novak Djokovic não treinou na quinta ou na sexta, chegou apenas às 19h locais ao estádio, exibiu faixas no ombro esquerdo antes de iniciar o aquecimento leve e até discutiu feio com um espectador mais afoito. Os jornalistas em Nova York apostavam que não ele não entraria em quadra. E se fosse, estaria inteiro? Conseguiria soltar os golpes?

Desde o bate bola, o sérvio mostrou firmeza. Ao longo do primeiro set, deu poucos sinais de estar ainda com algum desconforto, refletidos pela velocidade mais baixa do primeiro saque, em média 181 km/h, e no uso bem mais frequente dos slices de backhand. Em um momento ou outro, fez o gesto típico de quem queria descontrair o ombro.

Mas o importante é que a qualidade estava lá. Sólido no fundo de quadra, com grande variedade de opções táticas, encarou um animado adversário que brigou o tempo inteiro, construiu sete chances de quebra, arriscou mais do que o comum e acabou por valorizar a vitória, bem mais exigente do que indica o placar. Nole jamais pediu atendimento médico e fez jogadas magníficas, com diversos lances de total improviso e perfeição.

Quem gosta de tênis, só pode comemorar a recuperação de Djokovic. Porque no domingo verá o tão aguardado reencontro com o suíço Stan Wawrinka, sempre um tenista capaz de complicar a vida de qualquer dos Big 3. Aliás, Nole e Stan não se cruzaram mais desde a histórica final do US Open de 2016, em que o suíço estava num dia iluminado e conseguiu a virada. O placar geral no entanto é de 19 a 5 para o sérvio, que ganhou outros dois duelos que aconteceram em Flushing Meadows, em 2012 e 2013.

Federer on fire
Ao contrário das duas rodadas anteriores, Roger Federer entrou aceso para a partida diante do britânico Daniel Evans e dominou o jogo em todas as partes da quadra, desde o saque até as devoluções e o trabalho de rede. Selou a rapidíssima vitória de 79 minutos com números expressivos: 48 winners, sendo10 aces; 67% de acerto do primeiro saque e 80% de sucesso; 26 pontos obtidos nas 37 subidas à rede, alguns espetaculares.

Só perdeu o bom humor quando questionado na entrevista oficial sobre o suposto favorecimento apontado por Evans, que reclamou do pouco tempo de descanso, já que havia jogado na véspera devido à chuva de quarta-feira. “Estou cansado disso”, disparou. Interessante também foi sua avaliação sobre o que é jogar no sol da tarde: “O jogo fica muito mais rápido do que à noite. Até mesmo se comparado ao da quadra coberta”.

Será então que ele prefere reencontrar David Goffin fora da sessão noturna? O belga suou para superar Pablo Carreño, tendo salvado três set-points no segundo tiebreak e depois virado 3/5, com mais dois set-points, na outra série. Seu retrospecto contra o suíço é de 8 derrotas em 9 encontros. A se considerar, vive uma fase de ascensão técnica e mental depois do saibro europeu, tendo vencido desde então 18 de seus 24 jogos, a maior parte deles em pisos mais velozes.

Barty e Serena se aproximam do duelo
Com saque afiado, que lhe garantiu 11 aces, Ash Barty passou sem sustos por Maria Sakkari, repetindo Cincinnati dias atrás, e se tornou a única tenista na temporada a estar pelo menos nas oitavas de todos os quatro Grand Slam. Precisará agora encarar a consistência da chinesa Qiang Wang, número 18 do mundo.

Aproxima-se assim o esperado duelo com Serena Williams. A grande estrela da casa atropelou Karolina Muchova, inesperada quadrifinalista de Wimbledon, com uma bela mistura de 20 winners e 15 erros. Nas oitavas, enfrentará pela primeira vez a croata Petra Martic, 22ª do ranking e com história de superações na carreira.

E mais
– Aos 20 anos, Alex de Minaur consegue dois feitos: primeira vitória sobre top 10 na 12ª tentativa, ao tirar Kei Nishikori, e primeira vez nas oitavas de um Slam. Foi muito mais sólido: 29 erros diante de 60 do cabeça 7.
– Seu adversário será o búlgaro Grigor Dimitrov, que enfim dá sinais de reação. E olha, embora lucky-loser, o polonês Kamil Majchrzak é um bom jogador de tênis, muito agressivo. Será o primeiro duelo entre De Minaur e Dimitrov.
– Que jogaço entre Daniil Medvedev e Feliciano López. O russo se indispôs com a torcida ainda no primeiro set, fazendo gesto obsceno, mas não perdeu a cabeça e aguentou as 85 subidas à rede do canhoto espanhol, que ganhou 60 desses lances e deu show. Quando começou o torneio, Medvedev dizia que sua dificuldade era ganhar jogos longos e difíceis, então está indo muito bem. Levou uma tremenda vaia no fim do jogo. Vem agora uma surpresa e tanto: o canhoto Dominik Koepfer, alemão saído do quali que bate uma barbaridade na bolinha.
– Karolina Pliskova levou susto quando perdeu o tempo do saque no começo do segundo set e ofereceu incríveis 23 break-points a Ons Jabeur. Será favorita diante de Jo Konta, contra quem tem 6 a 1 nos confrontos diretos.
– A rodada noturna confirmou o interessantíssimo duelo entre Madison Keys e Elina Svitolina, mas as duas tiveram caminhos distintos para a classificação. Keys fez um primeiro set incrível contra Sofia Kenin até cair repentinamente na intensidade e quase se enrolou. Já a ucraniana arrasou Dayana Yastremska. Avizinha-se um duelo de ataque contra defesa, repetindo as oitavas de Melbourne meses atrás, onde deu Svitolina.

Para a história
Faltam duas vitórias para Serena chegar à 100ª no US Open, marca que apenas Chris Evert obteve em Nova York (101). A única outra tenista a ter número centenário em Slam é Martina Navratilova, com 120 em Wimbledon. Serena joga o US Open pela 19ª vez e só não chegou às oitavas na sua estreia, em 1998.