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Os Slam mais inusitados da Era Profissional
Por José Nilton Dalcim
13 de julho de 2020 às 20:23

Enquanto a quarentena prossegue para o circuito internacional, atendi a mais uma sugestão dos internautas e escolhi os cinco Grand Slam que me parecem ter tido os resultados gerais mais inusitados da Era Profissional. Não foi apenas uma questão do vencedor ou mesmo da final, mas da sucessão de surpresas que permeou as duas semanas. É uma lista interessante.

Wimbledon 1996
A queda de quatro dos oito principais cabeças de chave na primeira rodada, entre eles Agassi, já seria o suficiente para atestar a loucura que foram estas duas semanas. Grandes sacadores como Edberg, Becker, Rosset nem chegaram nas oitavas, rodada que viu as quedas de Stich e Pioline.

Todo mundo esperava o duelo de Sampras e Ivanisevic na semi, mas o primeiro caiu para Richard Krajicek – que havia acabado de tirar Stich – e o outro parou em Jason Stoltenberg. Parecia ser a grande chance de Henman, mas ele tropeçou nas quartas diante de Todd Martin.

Se Krajicek entrou como cabeça 16 e possuía um saque espetacular, MaliVai Washington era um considerável desconhecido, que escapou por pouco nas quartas diante de Radulescu e virou jogo incrível diante de Martin. A final foi um tanto sem graça, mas será muito tempo lembrada pela moça totalmente nua que invadiu a quadra quando os tenistas postavam para fotos antes de se aquecer.

Roland Garros 1997
Apenas dois dos 16 cabeças chegaram nas quartas, numa edição que viu incríveis derrotas de boa parte da fortíssima armada espanhola antes mesmo da terceira rodada (Moyá, Mantilla, Costa, Berasategui). Dos oito principais cabeças, Sampras e Muster pararam na terceira fase; Chang, Ríos e Corretja, nas oitavas.

O cabeludo garoto de 20 anos com seu poderoso backhand de uma mão desbancou nada menos que Muster e Kafelnikov, cravando três vitórias seguidas no quinto set. Deveria ter feito o primeiro grande duelo contra Norman, mas o sueco parou num também surpreendente Dewulf, que quase foi parado por Meligeni na segunda rodada e depois tirou Portas e Corretja.

O bicampeão Bruguera venceu Chang e deveria ter feito um duelo interessantíssimo contra Ríos não fosse o habilidoso Arazi tirar o cabeça 7. O espanhol tinha é claro favoritismo diante do tal Kuerten. Que nada. Guga, 66º do ranking, varreu o espanhol com apenas nove games perdidos na final, iniciando sua imortalização em Paris.

Roland Garros 1976
Quando Borg, Vilas e Orantes atingiram as quartas de Paris, era difícil imaginar que o título não ficaria entre um deles. Mas o que Roland Garros viu foram dois norte-americanos – Solomon e Dibbs – e um mexicano, Ramirez, avançarem à penúltima rodada ao lado do italiano Adriano Panatta, que acabava de se tornar o único homem em oito anos a derrotar Borg.

Curiosamente, o mais cotado dos americanos era Ashe, então 4º do mundo, que fez 2 a 0 antes de cair para Taroczy nas oitavas. Panatta quase parou logo na estreia, mas se safou do desconhecido Hutka com 12/10 no quinto set, e muita de sua inesperada vitória sobre Borg se deveu à duríssima partida de oitavas do sueco contra Jauffret.

Panatta venceu na final Solomon, um jogador mediano que só faria uma outra semi de Slam na carreira. O italiano foi ainda pior, com uma quartas em Wimbledon.

Wimbledon 1985
Como alguém que eliminou seguidamente Edberg, McEnroe e Connors, sem ceder um único set, poderia perder o título em Wimbledon? Certamente Kevin Curren também não sabe.

Talvez tenham sido os nervos, talvez o saque bombástico e voleio acrobático do garoto Boris Becker, então 17 anos. Vindo do título em Queen’s, o alemão tinha predicados porém contou com uma dose de sorte para escapar das derrotas para Nystrom (terceira rodada) e Mayotte (oitavas).

Becker tirou Leconte e Jarryd para ir à final e aí derrotou Curren num jogo bem equilibrado e um tiebreak decisivo de terceira série, quando o jogo estava empatado em sets. O alemão provaria nos anos seguintes que era mesmo um mestre sobre a grama.

Roland Garros 2004
Numa fase em que os Grand Slam já elegiam 32 cabeças de chave, Gaston Gaudio faturou um dos títulos mais inesperados da Era Profissional. Nomes fortes como Ferrero, Agassi e Gonzalez tiveram quedas muito precoces, Federer foi barrado por Guga na terceira fase, Robredo e Safin pararam nas oitavas.

Guga parecia caminhar para o tetra, mas caiu diante de um consistente Nalbandian, que na rodada anterior já havia tirado Safin. Na outra semi, o embaladíssimo Henman fez o que pôde diante de Coria. Tínhamos então três argentinos concorrendo ao título e Gaudio era, de longe, o menos gabaritado deles.

A final foi um capítulo à parte. Coria deu uma surra nos dois primeiros sets e aí se perdeu nos nervos. Sentiu cãibras, se arrastou pela quadra, sacou fraquíssimo e permitiu um quinto set improvável. Recuperou-se e chegou a dois match-points no 6/5. Gaudio, então 44º do mundo, mostrou cabeça fria e ganhou os três games finais.

Menções honrosas:

Australian Open de 1976 – Num torneio em que apenas 3 dos 16 cabeças não eram da casa, Mark Edmondson entrou como 212 do mundo e venceu seguidamente Rosewall e Newcombe nas rodadas finais. Roche parou nas quartas para um conterrâneo que era mais duplista.

Roland Garros de 1989 – É bem verdade que Chang não precisou cruzar com Wilander, Agassi ou Courier, mas sacar por baixo e ganhar de Lendl o colocou num patamar especial. O torneio viu ainda uma semi inesperada de sacadores entre Edberg e Becker. Chang tinha quebra atrás no quarto set antes de se transformar no mais jovem campeão de Slam da história, aos 17 anos e 3 meses.

Australian Open de 1998 – Sampras ficou ainda mais favorito quando viu Rafter perder para Berasategui,  Chang parar em Raoux, Moyá cair para Fromberg e Philippoussis, para Arazi nas duas primeiras rodadas. Ele não contava com Kucera, que o tirou nas quartas e abriu caminho para o título de Korda diante de Ríos.

ATP estuda mudar o tênis
Por José Nilton Dalcim
30 de julho de 2015 às 11:49

A ATP deu um tiro no pé, embora nunca reconheça. Ao diminuir a velocidade do jogo e padronizar os pisos, não levou em conta a evolução tecnológica de equipamentos e do preparo físico. O que se tem visto no circuito de hoje desagrada muita gente: partidas longas, excesso de trocas de bola sem objetividade, estilos muito parecidos e duelos com pouca emoção. Como mudar isso e manter o interesse do público?

Em entrevista ao importante Wall Street Journal, Chris Kermode, o presidente da ATP, é cauteloso nas declarações mas deixa claro que quer principalmente diminuir ao máximo a duração das partidas, e isso envolveria um pouco de tudo. Reduzir o aquecimento tradicional de cinco minutos, tirar o “let” no saque e quem sabe adotar o “no-ad”, ou seja, os games sem vantagem, que certamente são a principal causa de jogos mais demorados.

Kermode no entanto observa que tais tentativas precisam ser testadas em torneios menores. A ATP pretende fazer isso com o evento extra-oficial que criou no final deste ano para os oito melhores jogadores até 21 anos, que dará prêmios mas não contará pontos para o ranking. “Podemos então experimentar mudanças, estou curioso para ver isso”, admite ele, que tem perfil ousado.

Desde que foi criado o circuito profissional, em 1970, muito pouca coisa mudou nas regras do tênis. O tiebreak foi a maior e mais importante inovação, já que reduziu drasticamente os sets. Ainda assim, não é adotado no quinto set de três dos quatro Grand Slam nem na Copa Davis, o que gerou as 11h05 de Isner-Mahut ou as 6h43 de Feijão-Mayer. Bem mais recente, houve a adição do Hawk-Eye, o sistema eletrônico para sanar dúvidas, o que gerou um excepcional show mas não alterou o tempo.

O famoso World Team Tennis, que acontece nos EUA desde 1974 e atrai muitos profissionais com sua boa premiação, foi o primeiro a permitir instrução dentro de quadra – hoje, apenas a WTA permite isso com limitações – e nesta temporada irá copiar a Premier League e instalar um cronômetro para controlar o tempo entre os pontos. Mas o WTT é antes de tudo uma grande brincadeira.

Em janeiro, durante exibições na Austrália, Federer e Nadal jogaram com sets limitados a quatro games, sem vantagem para finalizar os games e sem o “net”, além de a contagem ser chamada de “1, 2, 3 e 4”, ao invés do secular “15, 30, 40…”. O sistema foi batizado de Fast4 e imita a tentativa de outras modalidades, como o Twenty20 do críquete ou o Sevens do rúgbi.

Para o comandante máximo do tênis australiano, Craig Tiley, “o público quer mais pontos de pressão no tênis, ao invés de partidas longas e menos objetivas”. Na sua visão, os jogos são demoradas demais e limitam muito a participação do fã. “Se você observar o estádio, apenas a partir do 3/3 do primeiro set o público realmente se interessa. Temos um vazio muito grande de emoções”.

Chris Widmaier, porta-voz da USTA, revela que o US Open continua na luta por mudanças. Foi o Slam que introduziu o tiebreak e o Hawk-Eye. Entre as ideias, permitir que o público se movimente mais livremente a qualquer momento do jogo, até mesmo para quem se senta próximo da quadra. “Com isso, se poderia acrescentar serviço de alimentação e bebida em todos os locais da arquibancada”, sugere.

Poucos tenistas se manifestaram publicamente sobre o tema polêmico. Milos Raonic acha que o tênis “está perfeito do jeito que é”, Jelena Jankovic rejeita o no-ad e mais ainda a liberdade de movimento do público porque “já temos stress demais dentro de quadra”. O duplista Daniel Nestor é favorável: “Mudaria imediatamente para o no-ad, assistir a 200 trocas de bola a cada jogo é um tanto entediante”. Bob Bryan opina que “no começo os tenistas vão reclamar, mas depois se acostumarão”.

Notinhas
– Benoit Paire tem um feito raro no circuito: numa mesma temporada, ganhou torneios de nível future, challenger e ATP. Ele é o quinto tenista do ano a erguer troféus de challenger e ATP, repetindo Rajeev Ram, Nicolas Mahut, Jiri Vesely e Victor Estrella.
– Novak Djokovic igualou nesta segunda-feira Rafael Nadal no número de semanas consecutivas na liderança do ranking, com 56. Fatalmente também irá alcançar as 58 de John McEnroe.
– Frase de Adriano Panatta comentando na Eurosport: “Bjorn (Borg) destruia seus adversários na quadra, mas Roger (Federer) é o tênis em sua essência”.