Sufoco e frustração
Por José Nilton Dalcim
27 de junho de 2022 às 20:18

Nenhum dos quatro ‘top 10’ que estrearam nesta segunda-feira em Wimbledon saiu completamente ileso. Novak Djokovic perdeu set, Carlos Alcaraz ficou contra a parede o tempo todo, Casper Ruud precisou jogar dois tiebreaks e Hubert Hurkacz causou a grande surpresa. E em tal imponente lista é justo incluir também os quatro sets do bicampeão Andy Murray.

Mas frustração mesmo causou Beatriz Haddad Maia. Vinda de atuações empolgantes nas três últimas semanas, a agora top 30 viveu intensos altos e baixos, teve problemas com a devolução e o saque e jogou muito abaixo no terceiro set. Era sabido que Kaja Juvan tinha predicados em pisos mais rápidos e por isso jogar de forma convencional não funcionou.

Decepcionada consigo mesma, o que afinal é um ponto positivo, Bia não se conformava com a postura mais passiva que teve, comparando isso à atuação na derrota para Petra Kvitova da semana passada. Usou palavras duras, mas o desabafo atingiu o ponto crucial: nesse nível que está agora, tem que ser agressiva do começo ao fim, não existe outro caminho.

Sem dúvida foi uma ducha de água fria. Com pés no chão, o esperado era que Bia fosse até a terceira rodada e algo além dependeria de alguns encaixes. Não há no entanto motivo para desânimos. No piso mais difícil do circuito, Bia deu arrancada espetacular no ranking e na carreira, ganhou notoriedade e respeito. Há muito por vir no segundo semestre.

Jogo a jogo
Djokovic enferrujado – Soowon Kwon joga com bolas retas e baixas, portanto natural que cause dificuldades de adaptação. Djokovic avaliou com precisão e sabe que estará um tanto enferrujado nas primeiras rodadas – “é muito diferente treinar de competir” -, admite que o saque funcionou na hora certa e está seguro de que irá melhorar. Enfrenta agora o sacador Thanasi Kokkinakis.

Alcaraz aprende – Mesmo longe dos melhores dias, Jan-Lennard Struff é um tenista muito perigoso num piso veloz. O alemão deixou em Alcaraz o sentimento de que há muito a aprender sobre a grama. “Tudo é muito rápido, é o piso mais difícil de se locomover”, atestou o espanhol, reconhecendo que não se sente à vontade para tentar saque-voleio. A única vantagem: “Não sou favorito, então jogo sem pressão”. Segundo ele, um rali na grama equivale a quatro em outro piso. Seu adversário será Tallon Griekspoor.

Adeus, Hubi – Num duelo completamente maluco, Hubert Hurkacz derrubou muita gente na bolsa de apostas. Quarto maior favorito, sequer passou da estreia. Devia ter levado surra de três sets, mas Alejandro Davidovich não soube fechar ao fazer 40-0. Aí o polonês reagiu, teve quebra à frente no quinto set e abriu 7-4 no match-tiebreak antes de enfim o espanhol virar e vencer. Jiri Vesely vem aí, e é bom não relaxar.

Murray sem dor – Escocês se diz recuperado do estiramento abdominal na vitória de quatro sets sobre James Duckworth. O escocês usou um saque por baixo e diz não entender o preconceito contra isso. “Há muitos jogando muito recuado, então é uma forma de desestabilizar. Taticamente, é inteligente”. Reencontra o ‘freguês’ John Isner, contra quem tem 8 a 0. Gigante cravou 54 aces na estreia de cinco sets.

Raducanu, com louvor – Cercada de expectativa e colocada pela primeira vez na Central, a esperança britânica Emma Raducanu foi bem no importante teste e passou firme por Alison van Uytvanck. Jura que está recuperada fisicamente e muito motivada, mas pede calma: “Foi só o primeiro jogo”. Pega a experiente Caroline Garcia.

Jabeur confiante – Com atuação perfeita e de apenas 54 minutos, Ons Jabeur esqueceu a tragédia de Roland Garros e estreou firme em Wimbledon. A tunisiana diz que a grama combina perfeitamente com ela e avisa: não está satisfeita em ser a número 2 do mundo. A quali polonesa Katarzyna Kawa é o próximo obstáculo.

Swiatek e Bia Haddad são as expectivas
Por José Nilton Dalcim
26 de junho de 2022 às 10:41

Mesmo sem ter jogado qualquer partida preparatória e apesar de seu parco histórico na grama, Iga Swiatek terá novamente todos os holofotes da chave feminina de Wimbledon. A polonesa tem se mostrado tão superior às adversárias no piso duro e no saibro que restam poucos argumentos às demais concorrentes.

Campeãs como Petra Kvitova e Simona Halep, a versátil Ons Jabeur e a embaladíssima Beatriz Haddad Maia se mostraram as adversárias de maior gabarito. ao menos antes de a primeira bola ser lançada ao ar no All England Club. Gente de ranking alto, como Paula Badosa, Maria Sakkari e Garbiñe Muguruza, estiveram abaixo da crítica. Anett Kontaveit, Danielle Collins e Jessica Pegula optaram por ir direto a Wimbledon.

Swiatek tem mostrado grande trabalho de pernas e força nos golpes, com especial dedicação às devoluções agressivas. Isso já é mais do que suficiente para competir bem na grama, ainda que não assustará se ela encontrar certa dificuldade nas primeiras rodadas. Jabeur tem muito menos força, mas os slices lhe garantem versatilidade necessária no piso. Kvitova possui o jogo perfeito para a grama, ainda que se mexa um pouco pior, e é talvez nesse mesmo padrão que devamos encaixar Bia, que fica um ou dois passos atrás por sua menor experiência. Halep é o tipo de jogadora que consegue fazer de tudo e só tem deficiência a explorar quando precisa jogar muito com o segundo saque.

Em sua segunda participação no torneio, tendo sido oitavas em 2021, a líder disparada do ranking pode ter algum trabalho com Yulia Putintseva antes de oitavas mais quentes diante de Jil Teichmann ou Barbora Krejcikova. A maior candidata a sua adversária nas quartas é Jessica Pegula.

Halep e Kvitova ficaram no forte segundo quadrante, podem duelar já nas oitavas e portanto uma delas tende a cruzar com Iga na penúltima rodada. Nesse setor, ficaram também Serena Williams, a atual vice Karolina Pliskova e as jovens Cori Gauff e Amanda Anisimova. Se já era difícil para Serena voltar depois de um ano, a tarefa fica hercúlea numa chave desse quilate. Mas pode ao menos chegar na terceira rodada e não seria impossível bater Pliskova.

O lado inferior da chave coloca Ons Jabeur e Maria Sakkari com maior favoritismo do que Anett Kontaveit e Danielle Collins entre as tenistas de nível top 10, e ali também ficou a estrela da casa Emma Raducanu, que estreia nesta segunda-feira contra a perigosa Alison van Uytvanck. A tunisiana tem Kaia Kanepi e Angelique Kerber antes de chegar em Collins, Raducanu, Madison Keys ou Alison Riske.

O que nos interessa muito, claro, é o quarto quadrante da chave. Bia tem uma estreia perigosa contra a jovem Kaja Juvan, a quem venceu duas vezes mas a eslovena fez terceira rodada em Wimbledon no ano passado com vitória sobre Belinda Bencic, a mesma habilidosa suíça que poderá ser a terceira adversária da canhota brasileira. Bencic se contundiu na final de Berlim há uma semana e ganhou o único duelo contra Bia em janeiro.

Dá facilmente para acreditar nas chances de Bia chegar nas oitavas, o que seria então o maior resultado nacional em Wimbledon desde André Sá (2002) e das meninas desde Maria Esther (1976). E aí o caminho parece aberto, porque não dá para apostar em Kontaveit e pode aparecer Anhelina Kalinina ou Lesia Tsurenko. Por fim, Maria Sakkari e Jelena Ostapenko devem brigar pela vaga e, evidentemente, a torcida seria por Sakkari reencontrar Bia. A brasileira foi muito elogiada por Kvitova depois da revanche que a tcheca conseguiu em atuação impecável na semi de Eastbourne, onde depois faturou o título.

Laura Pigossi enfim jogará seu primeiro Slam. Começa contra a eslovaca Kristina Kucova, de 32 anos e atual 90 do mundo e, se surpreender, enfrentará Shelby Rogers ou Petra Martic. A paulistana de 27 anos é atual 124 do mundo. O Brasil não tinha duas tenistas na chave principal desde 1988, com Patrícia Medrado e Gisele Miró.

E mais

  • Os campeões da 135ª edição do The Championships, a 54ª da Era Profissional, embolsarão 2 milhões de libras. Quem perde na primeira rodada já leva 50 mil, nada desprezíveis R$ 320 mil.
  • Este será o primeiro Slam desde o Australian Open de 1999 sem os dois líderes do ranking. Isso nunca aconteceu em Wimbledon desde o uso do ranking, a partir de 1974.
  • Se vencer sua estreia nesta segunda-feira, Djokovic se tornará o único tenista, homem ou mulher, com ao menos 80 vitórias em cada Slam. Ele tem 79 em Wimbledon, 85 em Paris, 82 na Austrália e 81 nos EUA.
  • Aos 36 anos e 34 dias, Nadal concorre a ser o mais velho campeão profissional de Wimbledon, marca que pertence a Federer, com 35 anos e 342 dias. E iguala feitos de Laver (1969) e Djokovic (2021) de erguer os três primeiros troféus de Slam de uma temporada.
  • Ao disputar seu 20º Wimbledon, Feli López repete Connors e atinge os mesmos 81 Slam de Federer, que jogou 22 vezes no Club. Aos 40 anos e 293 dias, López também é o mais velho a jogar desde Fraser, em 1975, aos 41.
  • O último tenista a ganhar Wimbledon na primeira participação foi Dick Savitt, em 1951.
  • Apenas quatro campeões juvenis chegaram ao título principal masculino (Borg, Cash, Edberg e Federer) e três no feminino (Hingis, Mauresmo e Barty).
  • Com 365, Serena está apenas a quatro vitórias do recorde absoluto de Slam de Federer. E faltam dois para fazer contagem centenária em Wimbledon.
  • Rafael Matos chegou a seu quarto ATP, o mesmo número de Marcelo Demoliner, e é agora top 40, superando Marcelo Melo. A campanha na grama de Mallorca foi surpreendente. Ele e o espanhol Vega serão cabeças em Wimbledon, mais um marco na carreira do canhoto gaúcho de 26 anos.
  • Enquanto a chave masculina tem 5 campeões de Slam, três doa quais com título em Wimbledon (Djoko, Nadal e Murray), há 11 vencedoras de Slam na chave feminina, cinco delas com triunfo no Club (Halep, Kerber, Muguruza, Serena e Kvitova).
  • Cornet empata com Ai Sugiyama em Slam consecutivos, com 62.
  • Em 122 edições da chave feminina, apenas 11 países chegaram ao título. Entre eles, o Brasil de Maria Esther.
Djoko reforça favoritismo com chave dura de Nadal
Por José Nilton Dalcim
25 de junho de 2022 às 09:02

Novak Djokovic entra como o favorito natural para este Wimbledon, isso não se discute. Atual tricampeão e dono de mais três títulos nas últimas dez edições do mais tradicinal e importante torneio do circuito, invicto portanto por 21 jogos, pode encarar uma série de bons sacadores, o que dificulta mas nunca foi um obstáculo para sua devolução primorosa. Certamente, o mais perigoso tende a ser Reilly Opelka, mas o gigante de bons golpes de base anda mal das pernas.

A expectiva por duelo contra a sensação Carlos Alcaraz diminuiu muito para mim ao constatar o garoto espanhol jogando a exibição com proteção no cotovelo, uma das regiões diretamente impactadas pelo golpe torto que pega fora do centro da quadra, tão típico da grama. Se não for ele, surgem Jannik Sinner ou o velho John Isner para ocupar lugar nas quartas, com chance distante porém nunca desprezível de Andy Murray estar por lá ou aparecer uma novidade como Oscar Otte.

Semi do ano passado, quando tirou Roger Federer, e campeão em Halle no último domingo, Hubert Hurkacz surge como nome forte no segundo quadrante da chave de cima, um setor sem grandes estrelas na grama. Ele começa contra o espanhol Alejandro Davidovich, precisa de cuidados contra Jiri Vesely e teria Tommy Paul em seguida antes de Cameron Norrie ou Grigor Dimitrov. O outro quadrante é muito fraco, com os saibristas Casper Ruud e Sebastian Baez, o que deixa Pablo Carreño e Frances Tiafoe mais cotados. Daí que apostar no cazaque Alejandro Bublik não seria loucura.

De volta a Wimbledon, onde não joga desde 2019 e fez última final em 2011, Rafael Nadal tem mais ‘senões’ no caminho, entre eles Sam Querrey na segunda rodada e Marin Cilic nas oitavas. O reencontro com Felix Auger-Aliassime me parece ter boa chance de se repetir e, se o canadense levou o espanhol a cinco sets no saibro de Paris, na grama tende a ser muito mais perigoso, até porque nunca sacou tão bem, arma essencial na vitória sobre Rafa na exibição desta sexta-feira. Felix no entanto tem uma estreia delicadíssima contra o saque-voleio ‘vintage’ e incessante de Maxime Cressy e ainda vê Daniel Evans e Taylor Fritz em sua rota. Por isso precisará remar muito antes das quartas.

Estilo perfeito para a grama como já cansou de provar, Matteo Berrettini é também sério concorrente na chave de baixo. Atual finalista e bicampeão em Queen’s no domingo, tem ainda por cima trajetória muito favorável, com algum trabalho previsto se Jenson Brooksby jogar muito e se Alex de Minaur devolver mais do que o normal. Não é nada impossível que chegue bem descansado para quartas e aí pode vir Stefanos Tsitsipas. Mas o grego deve encarar Filip Krajinovic ou Nick Kyrgios na terceira rodada e Roberto Bautista em seguida. Terá de subir o nível que apresentou nos três torneios de grama que fez.

Thiago Monteiro jogará Wimbledon pela quarta vez e não pode se queixar da estreia diante do espanhol Jaume Munar, ainda que tenha perdido dele em challenger no saibro dias atrás numa maratona de 3h30. O também canhoto Cameron Norrie seria o adversário seguinte e, quem sabe, chegue em Grigor Dimitrov.

No post de domingo, falarei das meninas