Todos juntos?
Por José Nilton Dalcim
23 de abril de 2020 às 13:04

Roger Federer lançou a ideia, Rafael Nadal e Billie Jean King aderiram na hora e ficou aberta a porta para que ATP e WTA se unam numa entidade só. A ideia vai além de um trabalho conjunto para o tênis pós-pandemia, mas sim uma ação definitiva e permanente. Pela reação de alguns jogadores, a sugestão já vinha sendo discutida nos bastidores.

Há muitos lados dessa moeda. A ATP aprofundou sua distância da Federação Internacional (ITF), que historicamente sempre contou com apoio irrestrito da WTA. E talvez a criação de uma entidade profissional única conseguisse aparar mais as arestas. Sempre importante lembrar que a ITF mantém controle sobre os quatro Grand Slam, da Copa Davis e da Fed Cup, além do circuito juvenil.

Também não é novo que ATP e WTA estudam incansavelmente uma forma de realizar mais eventos simultâneos aos dois sexos fora dos Slam. Isso começou com Miami, passou para Indian Wells e chegou a Madri, Cincinnati, Pequim e Roma (que antes fazia em semanas sucessivas). O Canadá faz o mesmo, ainda que em cidades diferentes. Até mesmo os ATP 500 abriram brecha, como Acapulco e Washington, onde existem chaves femininas menores, como já houve aqui no Brasil Open e no Rio Open. Entre os pequenos, Moscou também faz um 250 e uma versão das mulheres.

O problema esbarra na questão estrutural, já que apenas lugares com muitas quadras de tênis, vestiários e restaurantes podem se candidatar a eventos conjuntos. Sem falar num forte patrocinador para bancar as duas premiações e hospedagens. Mas não resta dúvida de que esses eventos encorpados aumentam o interesse do público e diminua custos para as TVs ou ‘streamings’. O torcedor sairia ganhando sempre, tanto quem vai ao estádio como quem assiste em casa.

Assim, imagina-se que a fusão de ATP e WTA almeje aumentar a quantidade de torneios conjuntos, o que pode também melhorar e desafogar o calendário, ainda que não seja possível abrir mão de campeonatos menores de cada sexo espalhados pelos continentes de forma isolada, já que o circuito precisa continuar forte e dar oportunidade aos tenistas de ranking menos privilegiado.

A possível retomada do circuito a partir do segundo semestre já pode ser um excelente teste para essa tentativa de união, uma vez que me parece essencial a criação de um novo calendário neste restante de 2020 que seja mais enxuto, prático e econômico.

A saída do confinamento
O tênis se prepara para sair do confinamento. Em vários lugares, a aposta imediata são torneios nacionais ou regionais que evitem ao máximo o deslocamento dos tenistas. Todos eventos sem público.

Assim, está bem firme o projeto de Patrick Mouratoglou para um evento de várias semanas no Sul da França, outro com boas perspectivas na Alemanha. Também já falaram do assunto espanhóis, indianos e australianos.  O primeiro programado é o da Alemanha, já no começo de maio. O da França começaria dia 16 e duraria cinco semanas.

É sem dúvida o caminho mais curto para que os tenistas retomem atividade com segurança. A TV e a Internet certamente terão papel essencial na transmissão desses jogos. Stefanos Tsitsipas, Fabio Fognini, David Goffin, Jo-Wilfried Tsonga,  Lucas Pouille e Dustin Brown são alguns dos tenistas de ponta a endossar a proposta.

O Tennis Channel se prontificou a transmitir para os EUA.

O novo tênis
Tenho lido interessantes propostas na imprensa internacional de como o tênis terá de se adaptar aos tempos de coronavírus quando sair da quarentena.

As mais ousadas falam na extinção dos juízes de linha (viável, mas financeiramente pouco prática fora dos grandes torneios), porém algumas mais realistas sugerem reduzir ou eliminar os boleiros e principalmente o ato de os garotos levar a toalha ao tenista. Outras ideias falam da necessidade de vestiários mais amplos ou de vários vestiários para diminuir a aglomeração de tenistas, assim como horários bem mais espaçados na programação.

Há muitos tenistas admitindo a possibilidade de haver redução drástica na premiação dos eventos, já que a pandemia causará efeitos duros na economia global. Na quarta-feira, a toda poderosa Adidas pediu ajuda bilionária ao governo alemão para sobreviver.

Apoio da nova geração
O TenisBrasil Crowdfunding recebe todo dia apoio de tenistas. A nova geração aderiu à ‘vaquinha’ de ajuda aos informais. João Menezes, Orlando Luz, Carol Alves, Felipe Meligeni e Marcelo Zormann doaram lindos uniformes para ser sorteados entre os que contribuírem com R$ 60. Para doar ou ver detalhes, acesse benfeitoria.com/juntospelotenis.

Façanha de Djoko terá de esperar 2021
Por José Nilton Dalcim
15 de abril de 2020 às 18:07

Finalmente, a ATP saiu das trevas e se pronunciou: está mesmo congelada a contagem de semanas na liderança do ranking internacional. A última lista oficial é a de 16 de março e nenhuma outra será divulgada ou atualizada até que a bolinha amarela volte a rolar. Por enquanto, a data prevista para isso é 13 de julho.

Com a decisão, Novak Djokovic permanecerá com 282 semanas na liderança do ranking, o que significa que as últimas cinco semanas não valerão nada, assim como as próximas 13. Ou seja, o sérvio perderá 18 semanas do calendário em que poderia não apenas já ter ultrapassado Pete Sampras – o norte-americano somou 286 na carreira – e se aproximado mais do recorde de 310 do suíço Roger Federer.

Mesmo que o calendário reinicie no dia 13 de julho e Nole consiga permanecer na ponta até o fim do ano, ele não poderá mais superar uma das maiores façanhas de Federer em 2020, ficando a chance matemática adiada para fevereiro de 2021. Se mantiver o posto seguidamente, Djokovic atingirá 300 semanas no dia 16 de novembro e igualaria as 310 no dia 25 de janeiro de 2021, teoricamente no meio do Australian Open, o que abriria a chance de quebrar a marca na segunda-feira seguinte, 1º de fevereiro.

Nada porém parece tão simples assim. Em primeiro lugar, porque não se tem ainda a menor ideia de qual será a programação dos torneios a partir de 13 de julho. E muito menos de como  ATP fará descartes de pontos desse momento em diante. O que se sabe é que não serão tirados de qualquer tenistas os pontos dos torneios cancelados – e isso inclui Monte Carlo, Madri, Roma e Wimbledon -, porém como ficará a defesa a partir da retomada do calendário ainda precisa ser explicado.

Por exemplo: se o circuito voltar na data prevista, os pontos de 2020 em defesa serão os de Hamburgo, Newport e Bastad; os da semana seguinte, Los Cabos, Gstaad e Umag, vindo por fim Atlanta e Kitzbuhel. Se esses pontos passarem a cair normalmente, entrando no lugar os torneios do novo calendário, a disputa entre Djokovic e Rafael Nadal estará aberta. Djoko tem vantagem de 370 pontos e nenhum dos dois atuou nesse período em 2019. Portanto, Rafa poderia tentar o bote caso algum torneio de nível 500 ou 1000 aconteça logo nesse retomada.

Resumo da ópera: até que saibamos quando e como o tênis voltará às quadras, a única certeza é que o coronavírus fez de Djokovic também uma vítima.

P.S.:  A WTA também anunciou o congelamento da conta para o ranking feminino. Assim, Ashleigh Barty permanecerá com as 35 atuais. Ela tem o 13º mais extenso reinado, a apenas quatro de Amélie Mauresmo, 16 atrás de Victoria Azarenka e 29 de distância para Simona Halep.

P.S. 2: Clique aqui para ver a lista de semanas na liderança do masculino. E aqui para ver a relação do feminino.

Otimista, ATP faz projeções e pede mudanças
Por José Nilton Dalcim
9 de abril de 2020 às 20:28

O novo presidente da ATP, o italiano Andrea Gaudenzi, não está tendo vida fácil. Depois de quase ver o Australian Open ser adiado devido às queimadas de janeiro, agora vive um momento mais do que incerto, tendo como pior notícia o cancelamento de  Wimbledon, de boa parte da temporada de saibro e todo o calendário da grama.

Mas ele mantém o otimismo. Em entrevista ao Ubitennis, afirma que a entidade trabalha com “50 alternativas diferentes” de calendário para reiniciar a temporada de tênis, por enquanto previsto para 13 de julho. Segundo ele, o Conselho de Jogadores e o Big 3 concordam que a prioridade será realizar Grand Slam, Masters 1000 e o Finals. “Se conseguirmos realizar o US Open e Roland Garros e sete dos Masters 1000 que ainda estão no calendário, teremos 80% dos grandes eventos disputados”;

No momento, a ATP acha que será possível ter uma temporada de verão antes do US Open, depois quatro semanas sobre o saibro incluindo Roland Garros, completar a temporada asiática e voltar para a Europa e realizar Paris e o Finals de Londres. Ele no entanto admite que adiar mesmo por poucos dias o Finals é um problema imediato, porque a arena O2 não possui novas datas à frente e até mesmo outros ginásios multiusos da Europa estão ocupados.

Gaudenzi no entanto não disse o que vai fazer com os tenistas abaixo do top 100 do ranking, que têm dificuldade para entrar nos Slam e raramente disputam os Masters. Eles geralmente ficam com os ATPs 250 e por vezes 500, mas esse tipo de evento é impedido de acontecer simultaneamente aos torneios principais. Ou essa norma é revista, ou todos terão de cair para os challengers, acentuando seus problemas financeiros e tirando lugar dos que estão ainda mais abaixo. O presidente da ATP afirmou que “a ATP priorizará o suporte financeiro para jogadores com rankings entre 250 e 500”, no entanto não deu detalhes.

Outro tema que merece atenção na longa entrevista de Gaudenzi é o que fala sobre mudanças na estrutura global do tênis, que teria evidenciado seus problemas com maior profundidade na crise atual. Ele não gosta do fato de os quatro Slam terem várias regras diferentes, como as do quinto set, e o fato de que ainda não existe uma simbiose perfeita entre os Masters e os Slam.

Atacou principalmente a questão dos direitos de TV, e aí pode haver um interesse financeiro declarado. Gaudenzi argumenta que o tênis ocupa pouco tempo (1,2% mesmo tendo 1 bilhão de fãs no mundo) e isso se deve ao fato de que o espectador precisa ter três ou quatro assinaturas diferentes de pacote para acompanhar o circuito, conforme cada região ou país.

“Está tudo fragmentado no tênis e isso dificulta o controle. Os dados sobre as centenas de milhões de fãs que compram ingressos estão espalhados por federações e torneios nacionais; não há banco de dados central para eles. Portanto, não sabemos quem são nossos fãs”. Vale observar que, depois de muita batalha, os direitos de transmissão dos eventos da ATP são comercializados pelo braço chamado ‘ATP Media’, que trabalha em conjunto com a agência IMG. Em 2018, as receitas da ATP Media aumentaram 6,7% e atingiram US$ 121 milhões.

Por fim, o italiano diz estar disposto a sentar com a Tennis Australia e a ITF e discutir a eventual fundição da ATP Cup com a Copa Davis, embora se mostre descrente: “Um evento unificado provavelmente seria a melhor solução. No entanto, não tenho certeza de que conseguiremos isso, porque os acordos comerciais da Cup e da Davis estão previstos para durar muitos anos”.

Seguro salvador
O All England Club calcula ter direito a US$ 114 milhões – quase R$ 600 milhões – provenientes do seguro que assinou há mais de 15 anos, prevendo um possível cancelamento de Wimbledon. A boa ideia surgiu em 2003, quando a crise do SARS ameaçou o torneio. O valor do seguro não chega sequer à metade dos US$ 280 milhões que o torneio costumar arrecadar anualmente, mas “ajudará a pagar as despesas fixas”. Do lucro total, US$ 45 mi são repassados à Liga Britânica (LTA) para desenvolvimento do esporte.

LTA abre o bolso
E a primeira entidade a tomar atitude para ajudar tenistas e centros foi justamente a Lawn Tennis Association, que anunciou pacote de US$ 25 milhões para ajudar jogadores, técnicos, juízes, promotoras e clubes com dificuldades de sobrevivência. O aporte será dado a quem estiver entre 101 e 750 do ranking de simples e 101 a 250 de duplas. Treinadores e clubes poderão pegar emprestado até US$ 6 mil sem juros.

ITF enxuga contas
Com cerca de 900 torneios cancelados pela pandemia, a Federação Internacional anunciou que também está enxugando todas suas despesas, o que inclui colocar muita gente de licença. O presidente David Haggerty diminuiu o próprio salário em 30%; o de dirigentes, em 20% e o de funcionários, em 10%. Entre os eventos não realizados, a final da Fed Cup é o que traria mais dividendos.

Madri virtual
O torneio combinado Masters-Premier de Madri acontecerá entre 27 e 30 deste mês, porém será virtual: 16 jogadores em cada sexo disputarão um ‘todos contra todos’ usando a plataforma do game World Tennis Tour. O melhor de tudo: o prêmio de 150 mil euros será doado a tenistas de ranking mais baixo e 50 mil euros ficarão para ajuda ao combate da pandemia. Andy Murray, Lucas Pouille, Angelique Kerber e Carla Suárez já confirmaram participação.

TenisBrasil Crowdfunding
Com o objetivo de ajudar 25 profissionais informais do tênis, selecionados através de formulários, TenisBrasil lançou na quarta-feira uma ‘vaquinha’ online. Os doadores poderão escolher entre várias “recompensas” por seu gesto, que vão de cupons de descontos a aulas físicas, virtuais e sorteio de raquetes. Para saber tudo e fazer doação, acesse a página: benfeitoria.com/juntospelotenis