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É preciso acreditar
Por José Nilton Dalcim
24 de janeiro de 2022 às 12:39

A segunda semana começou literalmente fervendo no Australian Open. Mesmo sob um calor sufocante durante a sessão diurna da rodada, a primeira parte das oitavas de final foi sensacional e viu nada menos que cinco viradas em oito partidas, marcando histórias espetaculares para as já veteranas Alizé Cornet e Kaia Kanepi.

Jannik Sinner foi o único dos homens a ter vida relativamente fácil, depois de um primeiro set sem quebras diante de Alex de Minaur e sua ruidosa torcida. Depois dominou com mais clareza. Aos 20 anos e meio, Sinner já tem duas quartas de Slam. Já Daniil Medvedev suou muito mais do que o esperado para superar o saque-voleio constante de Maxime Cressy, com dois tiebreaks disputados e um perdido. Depois, reclamou de não ter jogado na Rod Laver, alegando que é o principal cabeça e o último campeão de Slam e que enfrentar o norte-americano num estádio maior facilitaria as coisas.

Ainda na madrugada, Felix Auger-Aliassime encarou um Marin Cilic incrivelmente inspirado por set e meio, mas conseguiu manter a cabeça fria. Os golpes descalibrados passaram a entrar, os aces apareceram e aí ele encerrou o pequeno tabu de três derrotas para o croata ao vencer dois tiebreaks, mostra evidente de que a cabeça melhora a cada semana. Aos 21 anos, é o terceiro Slam seguido em que atinge pelo menos as quartas.

Mais eletrizante foi a reação de Stefanos Tsitsipas diante de um aplicadíssimo Taylor Fritz. O norte-americano chegou a ter 2 sets a 1 e era o melhor em quadra. O grego no entanto parou de errar nos momentos importantes, arrancou duas quebras no final dos sets decisivos e continua vivo aos trancos e barrancos. Sua qualidade é inquestionável, com uma final e outras três semis de Slam na curta carreira, duas delas em Melbourne.

Agora, Medvedev enfrenta Aliassime com ampla vantagem de 3 a 0 no histórico, incluindo recente vitória fácil na ATP Cup. Favoritismo natural. Já Tsitsipas só cruzou com Sinner no saibro, tenho perdido uma e vencido outra em Roma e levado a melhor no ano passado em Barcelona.

Note-se que a média de idade entre esses quatro candidatos à semi é de 22,4 anos e todos ocupam hoje o top 10 do ranking. O futuro chegou.

Surpresas e emoção
Todos os jogos femininos foram ao terceiro set, três deles de virada e duas veteranas fizeram história numa rodada muito especial em Melbourne. Aos 32 anos e após 63 tentativas, Alizé Cornet enfim atingiu as quartas de um Slam. Ainda mais velha, aos 36, Kaia Kanepi soma em Melbourne as únicas quartas que faltavam a seu quadro de Slam.

E foram atuações eletrizantes, derrubando grandes favoritas. Cornet vinha de maratona e até parecia mais exausta do que Simona Halep até que as duas passaram a mostrar dificuldades com o calor de 32 graus e umidade de 42% sem jamais desistir de lutar por cada bola ou, mais incrível, perder a noção tática. Ao final de autêntico espetáculo de resiliência das duas guerreiras, Cornet caiu em lágrimas.

Já na noite, mais protegida do clima severo, Kanepi perdeu o set inicial para Aryna Sabalenka – a bielorrussa não perdeu serviços – e permaneceu acreditando. A cabeça 2 começou a falhar no saque, vieram as duplas faltas e a estoniana pôde sacar para o jogo com 5/3, chegando a abrir 40-0. Sabalenka foi corajosa, levou ao tiebreak e chegou a ter 6-5 antes de perder os dois serviços e a confiança que restava. Fato curioso, Kanepi chegou a comemorar quando fez 9-7, mas só então se deu conta que era um supertiebreak.

Cornet enfrentará pela primeira vez Danielle Collins, de 28 anos e semi do torneio em 2018, que marcou grande virada sobre Elise Mertens. Já Kanepi terá outra pedreira, a jovem Iga Swiatek. A polonesa perdeu seu primeiro set da campanha com reação em cima de Sorana Cirstea e comemora sua primeira presença nas quartas de Melbourne.

Com os resultados, apenas Barbora Krejcikova ainda ameaça o número 1 de Ashleigh Barty, mas precisa do título e que a australiana caia na próxima partida. Swiatek irá recuperar o quarto posto caso atinja a semi.

E mais

  • Nadal tem favoritismo natural sobre Shapovalov à meia-noite, com 3 a 1 no histórico. Apenas dois canhotos – Verdasco e Muller – venceram o espanhol num Slam até hoje. Nadal tenta a 499ª vitória sobre quadra dura da carreira.
  • Berrettini venceu os dois duelos contra Monfils, incluindo notável quartas do US Open-2019 em cinco sets. Francês não perdeu set ainda e ficou em quadra 5h a menos. Nenhum italiano chegou na semi da Austrália na história.
  • Barty ganhou o único duelo contra Pegula, 21ª do ranking, em Roland Garros-2019. Australiana só perdeu 15 games até agora.
  • Krejcikova enfrenta Keys pela primeira vez. A norte-americana é 51 do mundo mas já tem quatro semis de Slam, a mais recente no US Open de 2018, um ano depois do vice. São duas grandes estrategistas.
  • Bia Haddad pode se tornar primeira brasileira na semi da Austrália desde 1965 e também repetir façanha de Stefani no US Open do ano passado às 22h30 desta segunda-feira. Ela e Danilina enfrentam Peterson e Potapova, duas top 100 do ranking de simples.
‘Shapo’ dá lição no preguiçoso nº 3, Bia atinge façanhas
Por José Nilton Dalcim
23 de janeiro de 2022 às 12:41

Perder é obviamente parte do jogo, mas Alexander Zverev mostrou aquele velho conformismo que parecia ter sido superado com a ascensão dos últimos anos. Diante de um talentoso e animado Denis Shapovalov, esse sim um garoto que raramente se entrega, o número 3 do mundo foi um fiasco e levou verdadeira aula. Foi sua 15ª derrota para um top 20 em Grand Slam em 19 tentativas. Ele aliás jamais ganhou de um top 10 nos quatro maiores torneios em 11 duelos.

‘Shapo’, é preciso frisar, venceu agora três dos últimos quatro duelos contra Zverev. Semifinalista de Wimbledon no ano passado, está toda hora à procura de corrigir defeitos. Trocou Mikhail Youzhny por Jamie Delgado, o ex de Andy Murray, e parece menos afoito. Começou o ano com covid, mas se recuperou e foi essencial no título canadense da ATP Cup semanas atrás. Aliás, se Felix Aliassime também avançar, será a primeira vez que dois tenistas do país alcançam as quartas do Slam australiano.

O jogo contra Sascha foi um tanto estranho. O alemão quase quebrou de cara, aí cedeu o saque e o primeiro set. Parecia perdido ao sair de 0/2 na outra série, mas aí reagiu e chegou a sacar com 5/3, no que poderia mudar totalmente a história. Jogou errado, ficou frustradíssimo e a partir daí Shapovalov dominou, com muito mais atitude. O cabeça 3 insistia em trocar bolas no backhand, jogando lá atrás, e caiu diante de um adversário muito consistente.

Quem não poupou críticas a Zverev foi Boris Becker, ao comentar para a Eurosport. “Se ele sonha com um Slam, sua postura precisa ser diferente”, disparou. “Nunca o vi tão passivo e sem agressividade”, emendou. O campeão olímpico não achou desculpas, mas revelou que não se sentiu bem em quadra em toda a semana. Ele anotou apenas três aces na partida. “Foi meu pior desempenho desde Wimbledon”, assinalou, lembrando da derrota sofrida então para Aliassime.

Esta foi a segunda vitória de Shapovalov sobre um top 5. A outra foi justamente contra seu próximo adversário, o embaladíssimo Rafael Nadal, num resultado surpreendente em Montréal de 2017. Depois disso, perdeu três vezes mas em Roma do ano passado levou o espanhol ao tiebreak do terceiro set.

Rafa mostrou-se cirúrgico contra Adrian Mannarino. O primeiro set foi extremamente parelho, com domínio absoluto dos sacadores até o tiebreak. Então veio o grande momento do jogo e talvez do torneio, com ambos jogando em nível magistral por 28 minutos e 30 pontos. O francês teve suas chances, bateu muito na bola porém o campeão de 2009 sempre achou uma resposta, algumas vezes realizando seus lances impossíveis sob pressão. Muita confiança e principalmente postura determinada. Que contraste para Zverev. Nos sets seguintes, sentindo a virilha, Mannarino foi presa fácil.

Matteo Berrettini e Gael Monfils farão o outro duelo de quartas de final nesse lado de cima da chave. A atuação do italiano contra Pablo Carreño beirou a perfeição, tirando o máximo de seu incrível primeiro serviço, mas também se mexendo muito bem, indo à rede na hora certa e novamente mostrando evolução no backhand. Ele vinha dos cinco duríssimos sets contra Carlos Alcarez, fez 28 aces e só encarou um break-point. Berretini tem agora quartas em todos os Slam e chega pela quinta vez nessa fase de um Slam, apenas uma atrás de Adriano Panatta entre os italianos.

Depois de seis temporadas, Monfils volta às quartas em Melbourne e sonha com uma terceira semi de Slam, isso aos 35 anos, apenas três meses mais jovem que Nadal. Porém, apesar do placar de 3 a 0, a missão contra a surpresa Miomir Kecmanovic foi bem exigente. Muito firme na base, o sérvio teve três chances de quebra no 5/5 do primeiro set e ainda liderou o segundo por 3/1 e 4/2. O francês perdeu os dois confrontos diante de Berrettini, o primeiro deles numa memorável batalha de cinco sets que terminou só no tiebreak nas quartas do US Open de 2019.

Tudo aberto no feminino
Fácil vitória de Barbora Krejcikova sobre uma contundida Vika Azarenka, a queda de Maria Sakkari e o dia ruim de Paula Badosa agitaram a abertura das oitavas de final femininas. A número 1 Ashleigh Barty segue sua campanha de poucos sustos e nenhum set perdido, e por isso mesmo permanece como favorita. Mas todo cuidado é pouco.

Jessica Pegula surge como próximo desafio. A norte-americana repete as quartas do ano passado ao passar por Sakkari sendo superior em todos os campos, mas com destaque aos 71% de aproveitamento do primeiro saque. Barty, que tenta ser a primeira tenista da casa a ganhar o torneio desde 1978, superou Pegula na campanha do título em Roland Garros de 2019.

Em que pese um problema no pescoço que claramente limitou movimentos de Vika, Krejcikova fez uma bela partida, tirando tudo de sua capacidade de trocas de direção e velocidade de golpes. E isso coloca ótimo tempero no duelo inédito contra Madison Keys, que também é uma excelente estrategista. A norte-americana entrou em Melbourne fora do top 50 e atropelou Badosa com um tênis muito consistente mas também agressivo (26 a 10 nos winners).

Grande atuação e façanhas de Bia
Ninguém ganha jogo de dupla sozinho, mas é inegável que Bia Haddad Maia foi o grande nome em quadra na dura partida e excepcional virada que conseguiu ao lado da cazaque Anna Danilina. Elas perdiam de 1/4 no terceiro set, com duas quebras sofridas, mas brigaram muito e venceram Aliona Bolsova e Ulrikke Eikeri no supertiebreak. Agora, pegam Rebecca Peterson e Anastasia Potapova, que são acima de tudo jogadoras de simples.

Bia é a primeira brasileira a atingir as quartas do torneio na Era Aberta. Maria Esther ganhou duplas em 1960 e foi vice de simples em 1965, durante a fase amadora. Bia acabou de ganhar seu terceiro e maior troféu de duplas no WTA 500 de Sydney e agora tem sete vitórias seguidas ao lado de Danilina.

Com o resultado, a canhota paulista repete a façanha de 2018 e passará a figurar no top 100 dos dois rankings na próxima lista, dia 31 de janeiro. Naquele ano, ela foi 61ª de simples e 79ª de duplas na mesma semana e agora garantiu provisoriamente o 75ª e o 94ª. Se vencer mais uma, entrará então no top 70 da especialidade.

‘Tiozão’ Cilic é o penetra da balada
Por José Nilton Dalcim
22 de janeiro de 2022 às 12:26

A nova face do tênis masculino ficou bem perto do domínio absoluto no lado inferior da chave deste Australian Open, ao se concluir os classificados para as oitavas de final do primeiro Grand Slam da temporada. A exceção é Marin Cilic, que aos 33 anos destoa da média dos demais concorrentes, nenhum deles com mais de 25.

Campeão do US Open tal qual Cilic, o russo Daniil Medvedev mal tomou conhecimento do saque poderoso do holandês Botic van Zandschulp e terá amplo favoritismo diante de Maxime Cressy, norte-americano de 24 anos que pratica o mais autêntico saque-voleio e disputa apenas seu quarto Slam. Parece impossível uma surpresa para o atual vice.

Stefanos Tsitsipas fez seu melhor jogo deste começo de temporada diante do talentoso Benoit Paire, colocou o primeiro saque para funcionar (21 aces) e foi bem econômico nos erros (26). Seu adversário é Taylor Frtiz, que nunca chegou tão longe num Slam e mostra tênis e cabeça de qualidade desde a ATP Cup. Suportou a batalha contra Roberto Bautista, em que aplicou ‘pneu’, depois ficou 2 sets a 1 atrás e ainda manteve a frieza para reagir. Destaque para seus 73 winners. O grego, 23 anos, ganhou os dois duelos já feitos contra Fritz, de 24.

A ruidosa torcida levou Alex de Minaur à inédita quarta rodada em Melbourne – ele foi quartas no US Open-2020 – e desafiará o garotão Jannik Sinner. O italiano tem agora oitavas em três diferentes Slam e pode repetir as quartas de Paris-2020. Para isso, terá de provar sua força mental diante de um adversário que vibra o tempo todo e sabe envolver o público. Nos jogos deste sábado, De Minaur justificou a superioridade sobre Pablo Andujar e Sinner levou um 1/6 de Taro Daniel antes de dominar os dois sets finais. Nos dois confrontos já realizados e na quadra dura, deu Sinner, de 20 anos, quatro a menos que o australiano.

Muito boa mesmo foi a vitória de Felix Auger-Aliassime sobre Daniel Evans, com um placar elástico demais. O britânico só ganhou seis games e pareceu se perder depois de deixar escapar chances valiosas no set inicial. O canadense de 21 anos sacou muito e está cada vez mais sólido nos Slam. Ele vem de quartas em Wimbledon e semi no US Open, mas agora terá de encarar um pequeno tabu diante do experiente Cilic, que ganhou todos os três encontros.

Fazia exatos dois anos que Cilic não chegava nas oitavas de um Slam, mas ele claramente se sente à vontade em Melbourne, onde fez final em 2018. Encarou bem a batalha de força pura contra Andrey Rublev, num jogo de mínimas variações táticas, e tirou o melhor do seu ótimo primeiro serviço (24 aces e 85% de pontos vencidos) e do mortal forehand (20 winners). O russo, como de hábito, exagerou nos momentos delicados e falhou taticamente ao não investir com mais paciência no backhand do adversário.

Swiatek e Halep empolgam, Aryna se vira
Difícil dizer quem está mais afiada ao término da primeira semana deste Australian Open: a polonesa Iga Swiatek ou a romena Simona Halep. Em comum, as duas têm despachado adversárias sem maior desgaste, mostram opção tática por forçar as jogadas e um saque mais contundente. E, em quadrantes diferentes, podem muito bem fazer uma disputa direta na semi.

Swiatek chega de novo nas oitavas de um Slam na quadra dura, como aconteceu no US Open, mas agora a chance de avançar é bem maior, já que enfrenta pela primeira vez Sorana Cirstea. Finalista do torneio em 2018, Halep tem uma barreira mais perigosa, Alizé Cornet, para quem perdeu três de quatro vezes embora a mais recente tenha sido em 2015. Cornet é enjoada, briguenta, corre muito e tem vasta experiência. Aos 31 anos, no entanto, nunca fez quartas em qualquer Slam.

Quem vai sobrevivendo aos trancos e barrancos é a cabeça 2 Aryna Sabalenka. Mais 10 duplas faltas – ao menos, a metade de sua média da temporada – e nova virada, agora em cima da canhota Marketa Vondrousova. A bielorrussa ainda sonha com uma final de Slam, e desta vez isso pode até valer o número 1 do ranking. Isso talvez explique a instabilidade. O próximo passo é diante de Kaia Kanepi, que aparece como 115 do ranking, mas não se enganem. A estoniana já foi 15 e adora um piso rápido.

Por fim, Danielle Collins e Elise Mertens fazem duelo de duas semifinalistas do torneio. Uma vitória para cada lado no histórico. Collins deu seu showzinho de irritação tão costumeiro na virada sobre a garota Clara Tauson, que vinha da vitória sobre Anett Kontaveit. A belga ainda não perdeu set.