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Alcaraz sobe mais um degrau
Por José Nilton Dalcim
6 de maio de 2022 às 19:08

Ainda que Rafael Nadal não esteja no seu melhor momento, vencê-lo sobre o saibro continua a ser uma façanha. O garoto Carlos Alcaraz, logo na terceira tentativa, abraçou sua chance. Jogou um tênis de primeiríssima linha, tomou a necessária postura ofensiva e, mesmo após um enorme susto com a torção de tornozelo, foi superior ao ídolo por considerável margem. Para coroar mais um momento mágico na sua arrancada, ainda deu uma aula de controle de ansiedade e de ousadia na sempre difícil hora de concluir uma vitória de tamanha relevância.

O primeiro set foi assustador. Alcaraz partiu para cima e fechou a parcial com uma contabilidade notável: 19 winners e apenas 10 erros. Rafa pareceu acreditar que seria possível administrar as trocas de bola, evitando o risco, mas isso foi um erro de avaliação. Mesmo colocando 74% do primeiro saque em quadra, só ganhou 43% desses pontos porque o forehand não tinha a penetração necessária. Marcou meros dois winners e errou oito bolas, sinais evidentes de sua passividade.

Tentou mudar essa postura no começou do segundo set, mas é pouco provável que teria alcançado placar tão elástico se Alcaraz não sofresse perigosa torção de pé logo de início. Ele claramente perdeu confiança e embalo, passou a apressar os pontos e chegou a tentar saque-voleio no segundo serviço num sintoma evidente de que estava perdido.

O susto passou e aí Alcaraz recuperou o domínio. Nadal vivia altos e baixos, com ótimos lances e grandes bobagens, e bastou uma quebra para que a diferença fosse determinada. Alcaraz ainda precisou sacar três vezes e suportou a pressão. Começou o game derradeiro com um saque-voleio de extrema qualidade, surpreendeu com uma curtinha pouco depois e fechou a batalha com enorme correria e poder defensivo. Marcou a décima vitória sobre um top 10, seis em oito nestes quatro meses de temporada.

Não vai dar tempo de festejar porque a próxima tarefa é nada menos que um duelo inédito contra o número 1 Novak Djokovic, com quem treinou durante a semana. Claro que Nole também não vive seu ápice e desta vez a torcida será maciça a favor do espanhol, mas Nole possui ingredientes diferenciados aos de Nadal que Alcaraz terá de lidar: saque mais incisivo, devoluções agressivas e posicionamento em cima da linha. Vamos ver como o pupilo de Juan Carlos Ferrero se adaptará a isso.

A atuação de Hubert Hurkacz foi tão ruim nesta sexta-feira que até fica difícil dizer se Djokovic subiu de nível em relação ao jogo contra Gael Monfils. O polonês se mexeu muito mal, parecia sempre atrasado e fez muito pouco com seus golpes de base, evitando um vexame maior graças ao saque. O fato é que sua irregularidade não deu grande ritmo ao sérvio, que já vinha de um dia inesperado de folga por conta do abandono de Andy Murray. De qualquer forma, estar numa semifinal de gabarito é um alívio e deve deixar Nole bem mais solto.

A outra semi não é menos interessante. O atual campeão Alexander Zverev elevou mais um pouquinho a qualidade até chegar no final do segundo set e aí deu uma incrível ‘viajada’, abusando das duplas faltas e dos erros, que reanimaram Felix Aliassime e esticou o jogo para além da meia-noite local. Contra Stefanos Tsitsipas, carregará um pequeno tabu quando se trata da terra batida, tendo perdido os três duelos para o grego. O primeiro deles foi exatamente em Madri há três anos, outro aconteceu em Roland Garros do ano passado e o mais recente veio na recente semi de Monte Carlo.

Tsitsipas venceu um jogo duro diante de Andrey Rublev. Seu ponto realmente positivo é a versatilidade que consegue no saibro, já que possui todas as variações e tem explorado bem a transição para a frente, não raramente com swing-volley. Como prometeu, mostrou paciência na parte defensiva contra o bombardeio russo. Pode decidir seu segundo Masters seguido e quem sabe repetir a final de Madri de 2019 diante de Djokovic.


Sexta-feira mágica na Caixa
Por José Nilton Dalcim
5 de maio de 2022 às 18:52

O aguardadíssimo reencontro entre Rafael Nadal e Carlos Alcaraz coroa uma sexta-feira do mais alto gabarito nas quartas de final do Masters 1000 de Madri. Nada menos que sete top 10 estarão em quadra, seis deles com no máximo 25 anos, além é claro dos dois maiores ganhadores de Masters da história. Será que existem favoritos?

Com certeza. A começar pelo próprio Nadal. Ainda que tenha ficado por quatro vezes a um ponto da derrota para o valente David Goffin, o rei do saibro adorou essa extrema dificuldade de 3h09 e garante que isso o ajudou tanto na confiança como no apuro físico. Esteve várias vezes contra a parede. Começou o jogo com quebra atrás, mas tomou o domínio imaginado com distribuição muito firme de bolas e deveria ter completado a vitória em dois sets.

Depois de ter evitado dois match-points, Goffin mudou sua postura e passou a jogar de forma bem mais agressiva, pegando bola na subida para ganhar potência e diminuir o tempo do adversário. Fez um ótimo terceiro set, evitando os dois únicos break-points de toda a série logo no game inicial. E teve toda chance do mundo no tiebreak, principalmente no segundo match-point, quando deixou na rede um forehand de ataque bem fácil.

Inspirado na façanha do Real Madrid na véspera, Rafa colocou todo o coração em quadra, salvou mais dois match-points com curtinhas desconcertantes e por fim saiu vitorioso. Jamais perdeu um tiebreak desde que Madri mudou para o saibro, em 2009, totalizando agora 10.

Quem imagina que isso tudo irá gerar grande desgaste, fica certamente surpreso quando Nadal diz que foi excelente ter passado por todo esse sufoco. “Preciso de dias como este para entrar em forma mais rapidamente”, atestou.

Em sua 99ª presença nas quartas de um Masters 1000, ele será desafiado outra vez pela juventude, potência e variação de Alcaraz. Como presente pelos 19 anos completados nesta quinta, ele passou pelo também canhoto Cameron Norrie, mas sem brilhar tanto. “Estou ansioso pela terceira chance”, afirmou ele, que há um ano perdeu para Nadal lá mesmo em Madri em sets rápidos e poucas semanas trás fez um duelo eletrizante na semi de Indian Wells.

Frustrações
Madri deveria ter tido seu primeiro grande momento nesta quinta-feira com a reedição do duelo entre Djokovic e Andy Murray, mas o escocês frustrou todo mundo ao contrair uma intoxicação alimentar e nem entrar em quadra. O número 1 avançou e talvez essa falta de jogo não seja uma boa notícia, já que vai encarar agora o peso pesado Hubert Hurkacz. É bem verdade que Nole venceu todos os três duelos entre eles, mas o polonês deu enorme trabalho em Bercy no ano passado e tirou um set do sérvio em Wimbledon de 2019.

Os italianos Jannik Sinner e Lorenzo Musetti também decepcionaram. Esperava-se uma batalha entre Sinner e Felix Aliassime, mas o pupilo de Toni Nadal foi absoluto. vencendo 90% dos pontos em que acertou o primeiro saque. Aliás, o canadense havia atropelado Cristian Garin na rodada anterior e assim coloca pulga atrás da orelha de Alexander Zverev, que se favoreceu do abandono de Musetti depois de 10 games. O alemão tem 4 a 2 no histórico, mas Aliassime venceu 2 dos 3 últimos, o que diminui a cotação de Zverev para quem sabe 60%.

Por fim, Stefanos Tsitsipas justificou favoritismo com atuação muito firme diante de Grigor Dimitrov, repetindo a recente vitória em Barcelona, e cruzará pela nona vez com Andrey Rublev, com quatro vitórias para cada lado; “Vou ter que me concentrar no meu jogo defensivo um pouco mais”, avaliou o grego. Os dois aliás já ergueram troféus no saibro deste ano. Tsitsipas foi bi em Monte Carlo e Rublev venceu Belgrado com ‘pneu’ em Djokovic. Este sim é um jogo sem prognóstico.

Título gigante
Embora Ons Jabeur tenha currículo mais vistoso do que Jessica Pegula, as duas finalistas de Madri têm um desafio em comum: ganhar o segundo título da carreira e, de longe, o mais importante deles. Tenho a impressão que dominar a ansiedade será a chave desta curiosa decisão.

A tunisiana já figura no top 10 graças à inegável consistência de suas campanhas, porém lhe falta um troféu de peso, depois de ter perdido quatro das cinco finais que já participou, a maior delas uma de nível 500 em Chicago. É dono de um tênis gostoso de se assistir, com variações constantes. Fica apenas a dever na parte emocional.

Pegula, todo mundo sabe, é de família muito rica e isso merece ser encarado como um elogio a seu grande esforço de arrumar um lugar de respeito no circuito. Esta será apenas sua quarta final, a primeira no saibro. Sem abandonar os golpes mais retos, que no final das contas funcionam nas condições mais velozes de Madri, pode enfim chegar ao top 10 em caso de conquista do título.

Para colocar o molho apropriado, o duelo direto entre elas está empatado por 2 a 2.

Túnel do tempo
Por José Nilton Dalcim
4 de maio de 2022 às 18:26

Novak Djokovic e Andy Murray se cruzaram 36 vezes no circuito, mas apenas uma desde a vitória histórica do escocês em novembro de 2016 que lhe deu o título do Finals e o merecido número 1 do ranking. Eles faziam então a sétima decisão seguida e Nole ganhou em fevereiro de 2017 em Dubai, em emocionantes três sets.

Depois de tantas idas e vindas na vida de Murray, que chegou a anunciar aposentadoria, parecia que os dois nunca mais se cruzariam no circuito, mas eis que os dois antigos rivais dos tempos juvenis irão se reencontrar no jogo mais interessante das oitavas de final do Masters 1000 de Madri.

Como bem salientou, com a firmeza e a honestidade que lhe são peculiares, Andy não acredita em chance de vitória, que poderia amortizar o duro placar de 25 a 11 em favor de Djoko. “Ele é o número 1 e eu tenho um quadril de metal”, sintetizou.

Murray nem deveria estar jogando no saibro, mas mudou de ideia e aceitou convite dos organizadores. Aí fez duas belíssimas apresentações, diante de Dominic Thiem e Denis Shapovalov, e afirma que reencontrar Nole é ótima oportunidade para sentir em que nível está seu tênis. Destacou a movimentação muito superior, que enriqueceu sua conhecida capacidade defensiva.

Para aumentar o favoritismo do sérvio, Djokovic fez sua melhor apresentação da temporada diante do ‘freguês’ Gael Monfils, recuperando no saibro veloz da Caixa Mágica boa parte de seu grande poder ofensivo. Além disso, mostrou pernas ágeis, saque contundente e golpes soltos, bem diferente do que vimos em Monte Carlo e Belgrado. Certamente, apresentação firme contra Murray contribuirá com a confiança tendo em vista um muito provável duelo contra Rafa Nadal ou Carlos Alcaraz na semifinal.

No retorno ao circuito e no primeiro jogo sobre a terra batida em 10 meses, Nadal esbanjou qualidade diante do bom Miomir Kecmanovic. O sérvio de 22 anos sofreu no começo a habitual dificuldade de quem enfrenta Rafa pela primeira vez sobre o saibro, mas depois ficou sólido e encarou o espanhol em alto nível. Agora, Nadal reencontra David Goffin, contra quem tem 4 a 2 no geral e 4 a 0 na terra. O belga está longe dos melhores dias e assim cai como uma luva para quem precisa de ritmo.

Alcaraz por sua vez teve alguns deslizes, pareceu perder o controle da bola em alguns momentos mas no geral foi bem diante do jogo pesado de Nikoloz Basilashvili. O duelo contra Nadal na sexta-feira parece inevitável, ainda que o canhoto Cameron Norrie não possa ser desprezado depois de superar dois adversários bem ofensivos: Soonwoo Kwon e John Isner. Contra a sensação espanhola, perdeu todos os cinco sets disputados na quadra dura.

E mais

  • Casper Ruud continua a grande decepção desta fase de saibro, seu melhor piso. Agora, perdeu para Dusan Lajovic, que joga direitinho na terra mas não vencia dois jogos seguidos desde agosto! Ele enfrentará Hubert Hurkacz. O polonês fez jogaço contra Alejandro Davidovich. O vencedor pega Djokovic ou Murray nas quartas.
  • O saibro veloz também causou outra surpresa: Daniel Evans. Ele chegou a Madri com apenas 12 vitórias sobre o saibro em toda a carreira, duas delas justamente no torneio do ano passado. Tirou Delbonis e Bautista e desafia Andrey Rublev, que viveu perigosamente na estreia diante de outro britânico, o convidado e promissor Jack Draper.
  • Stefanos Tsitsipas e Grigor Dimitrov duelam pelo segundo torneio seguido. O grego venceu fácil nas oitavas de Barcelona e subiu para 3 a 1 no geral. O búlgaro teve ótima atuação contra Diego Schwartzman.
  • Confronto inédito entre Felix Aliassime e Jannik Sinner. O canadense tem sido um fiasco no saibro – cinco vitórias em cinco torneios – e o italiano tenta repetir quartas de Monte Carlo.
  • Alexander Zverev admitiu no começo da semana que está duro segurar a cabeça com os problemas extra quadra, mas conseguiu virar contra Marin Cilic. Precisa tomar cuidado com Lorenzo Musetti, que vem de duas ótimas vitórias sobre Ivashka e Korda.
  • As esperadas surpresas vieram na chave feminina. Iga Swiatek abandonou em cima da hora e isso abriu tudo. Ons Jabeur merecidamente está na semi e é a única top 10 de pé, com um tênis muito variado. Destruiu Simona Halep com curtinhas e é favorita diante da qualificada Ekaterina Alexandrova.
  • As quedas de Garbine Muguruza, Maria Sakkari e Emma Raducanu abriram as portas para Jessica Pegula e Jil Teichman fazerem a outra semi. A canhota suíça tem a campanha mais destacada, tendo eliminado Kvitova, Fernandez w Rybakina.