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Nadal cresce, mas Fritz acredita
Por José Nilton Dalcim
4 de julho de 2022 às 18:26

As últimas duas semanas sobre quadra de grama mudaram repentinamente o humor e a confiança de Taylor Fritz. O campeão de Indian Wells vinha da contusão no pé e havia perdido completamente o rumo, batido estreias de Hertogenbosch e Queen’s e ainda tendo de defender o título de Eastbourne. Então tudo mudou. Perdeu apenas 2 de seus últimos 22 sets disputados, nenhum deles neste Wimbledon, e de forma inesperada um tanto inesperada está nas quartas de final de um Grand Slam pela primeira vez.

Wimbledon é um lugar especial para ele. Desde criança, sempre ouviu que era “o torneio” e há pouco tempo viu o jogo em que sua mãe enfrentou Billie Jean King ali. “Não parece real”, afirmou ele ao bater sem sustos o australiano Jason Kubler. E tentou explicar o que torna a grama tão compativel com seu estilo: “Meu backhand melhora muito, porque a bola quica mais baixo. É verdade que perco um pouco do forehand pelo mesmo motivo, mas se consigo sacar bem fica tudo mais fácil”.

Fritz se diz pronto e ansioso para reencontrar Rafael Nadal, a quem venceu naquela final atípica de Indian Wells, em março, em que ele vinha de torção de pé e o espanhol sentia a fratura na costela. “Ele vai querer muito ganhar de mim e vamos ver o que acontece com os dois saudáveis”, avaliou. Sua tática para quarta-feira? A mais simples possível: “Tenho que ser agressivo o tempo todo. Isso é até mais fácil porque é uma tática única, não há mais no que pensar. Claro que terei de jogar num nível muito alto e será um alívio poder enfim jogar livre. Em todos os jogos até agora, fui o favorito”.

Ele que se prepare, porque Nadal mostrou mais evolução na vitória sobre o holandês Botic van Zandschulp. Até abrir 5/2 no terceiro set, havia errado apenas dez bolas e fazia perfeitas transições à rede. O primeiro set foi impecável e talvez seja o nível que o espanhol espera sustentar nas rodadas decisivas.

Depois, o primeiro saque caiu muito – apenas 48% de acerto no segundo set – e isso o obrigou a trocar mais bolas. Ainda assim era muito superior ao holandês. Podia ter evitado o aperto do final de jogo, já que sacou com 5/3, e errou longe um backhand quando sacou com match-point no tiebreak. Porém, não correu qualquer risco real.

Apesar de tantas surpresas desde torneio, não se pode esperar tarefa fácil na reta final de um Grand Slam. Se passar pela promessa ofensiva de Fritz, é bem possível que reencontre o imprevisível Nick Kyrgios e a final mais lógica seria diante do hexacampeão Novak Djokovic. Há muito trabalho pela frente.

Jogo a jogo
Kyrgios sofre de novo
– O australiano Nick Kyrgios superou um dia instável e dor no ombro para vencer sua quinta partida em cinco sets em Wimbledon. Brandon Nakashima impôs inesperada resistência e ganhou muitos elogios do australiano. “Sempre que pisei na Central, eu era a zebra. Hoje, pela primeira vez, fui o favorito e isso se tornou completamente diferente. Foi um inferno jogar com ele”. Kyrgios gostou muito de sua postura emocional, ao lidar bem com os erros e as limitações, afirmando que está de bem com a vida e foi a Londres para erguer o troféu.

Garin espetacular – Para quem não se lembra, o chileno Cristian Garin era o adversário de estreia de Matteo Berrettini. Deu considerável sorte e agora está em inéditas quartas de Slam, ainda por cima na grama. O duelo contra Alex de Minaur tirou o fôlego. O australiano abriu 2 a 0, perdeu inúmeras chances e teve até dois match-points, porém Garin jamais se entregou na batalha de 4h34. Louvável a mudança tática, com bolas mais forçadas e tentativas junto à rede. Ele é o quarto chileno nas quartas de Wimbledon, depois de Luis Ayala, Ricardo Acuña e Fernando González.

Halep rumo ao bi – A romena Simona Halep voltou à Central depois de três anos, justamente no jogo de seu título de 2019, e fez gato e sapato de Paula Badosa. Quando precisou ser consistente, sobrou. Na hora de definir pontos, estava precisa. É exatamente a receita para encarar a debutante Amanda Anisimova, que chega pela segunda vez nas quartas de um Slam, a primeira na grama. Também em 2019, quando tinha 17 anos, Anisimova surpreendeu com a campanha no saibro de Roland Garros, mas contusões e problemas pessoais atrasaram seu amadurecimento.

Rybakina invicta – A outra vaga para a semi estará entre Elena Rybakina e Ajla Tomljanovic. A cazaque de 23 anos também fez suas primeiras quartas de Slam no saibro de Paris. Ainda não perdeu set nesta campanha, com atuações firmes diante de Coco Vandeweghe e Bianca Andreescu, e contou que ainda sente sequelas da covid que pegou em janeiro. A australiana repete a campanha do ano passado com virada em cima de Alizé Cornet sempre no estilo ofensivo.

Sinner se reinventa e desafia máquina sérvia
Por José Nilton Dalcim
3 de julho de 2022 às 21:05

Provável grande rivalidade de futuro bem próximo, Jannik Sinner me surpreendeu na merecidíssima vitória sobre Carlos Alcaraz. Não por sua qualidade, já bem conhecida, mas por ter ousado na postura tática e ter executado o plano com acuidade ferrenha do começo ao fim. Arriscou o saque, forçou devolução, mexeu-se muito bem, deu curtinhas e foi 40 vezes à rede. Um cardápio bem mais completo do que costuma fazer.

Alcaraz jogou abaixo do seu potencial? Não há dúvida, e ele enfatizou isso mais de uma vez nas explicações oficiais, quando argumentou que o saque e a devolução estiveram abaixo do necessário e deixou escapar muitas chances. Não é a primeira vez que Carlitos desse um degrau em jogo grande. Vimos isso também em Roland Garros contra Alexander Zverev, com enredo bem parecido. Ele aliás reconheceu que entrou nervoso ao ver a imponência da Quadra Central, que como se vê continua a ser um mito também para a novíssima geração.

Com quartas de final de Grand Slam agora em três diferentes pisos – e pela segunda vez na temporada -, Sinner garante que isso é reflexo de sua evolução física, ainda que tenhamos visto nos últimos meses abandonos ou quedas abruptas, algo que me preocupa para quem tem 20 anos. E ele próprio admite sua surpresa com a campanha neste Wimbledon, já que nunca havia vencido partida sobre a grama até a estreia.

O desafio contra Novak Djokovic é obviamente enorme. O italiano vem de incrível atuação defensiva contra John Isner, o que não é fácil na grama, e agora mostrou diferentes armas para desestabilizar Alcaraz. Se conseguir juntar as duas habilidades, ou seja achar o difícil equilíbrio entre defesa e ataque a partir do saque e da devolução, a chance aumenta.

Ainda que tenha já perdido dois sets nesta campanha, Djokovic está de fprma clara à frente de todos seus concorrentes. O segredo principal é a profundidade de suas bolas, algo extremamente difícil de se safar num piso tão traiçoeiro. O tempo de reação é curto, a bola quica mais baixo do que o normal e ainda pode haver os inevitáveis desvios.

O holandês Tim Rijthoven fez o que pôde e confirmou seu potencial, mas ficou patente a dificuldade que se encontra diante das bolas tão próximas da linha que Djokovic tem sido capaz de executar, tanto de forehand como de backhand e quase sempre na devolução de segundo saque, o que cria uma pressão sufocante. Resta ao adversário torcer para que venham mais erros. Por enquanto, não aconteceu. Mesmo com esse grau de exigência, foram apenas 19 falhas do sérvio em 221 pontos disputados.

Jogo a jogo
Goffin contra Norrie e a torcida
– Jogo também espetacular envolveu David Goffin e Frances Tiafoe. O belga repetiu a vitória de Roland Garros de semanas atrás com ambos se empenhando por 4h37 numa batalha recheada de pontos espetaculares. Goffin, que sofreu no ano passado diferentes problemas físicos, repete as quartas de 2019 e fará duelo de ex-top 10 diante do canhoto Cameron Norrie, que só tinha três vitórias em Wimbledon e agora se juntou a Andy Murray como único jogadores da casa nas quartas do torneio desde 2004.

Jabeur segura cabeça – Maior favorita do seu lado da chave para ir à final, a tunisiana Ons Jabeur viveu altos e baixos, ficou contra a parede no final do primeiro set mas sempre achou boas soluções para superar a lutadora Elise Mertens. O saque foi um problema constante. Ela terá a vantagem da experiência dinate da tcheca Marie Bouzkova, de 23 anos, que tem golpes respeitáveis de base e exigirá todo cuidado.

Festa alemã – A mamãe Tatjana Maria, 34 anos, e a debutante Jule Niemeier, 22 e apenas no segundo Slam da carreira, tentarão resgatar a tradição alemã em Wimbledon, marcada por títulos inesquecíveis de Graf, Becker, Stich e Kerber. Depois de tirar Maria Sakkari, Tatjana enlouqueceu Jelena Ostapenko com seu estilo pouco usual, com backhand simples e muito slice de forehand, golpes que funcionam na grama. Salvou dois match-points e era o retrato da felicidade. Niemeier joga pertinho da linha, também usa bons slices e gosta de colocar a adversária para correr.

Fim e começo – Rafael Matos e o parceiro espanhol David Vega foram muito bem e tiraram set dos cabeças 1 antes da despedida. Bia Haddad e a polonesa Magdalena Frech não foram páreo e depois ela e Bruno Soares amargaram dura virada dos bons Peers/Dabrowski. O destaque brasileiro do domingo foi o carioca de 15 anos João Lourenço, que jogou muito solto e tirou o cabeça 13.

100 anos – A festa que marcou o centenário da mudança de sede do All England Club reuniu um painel notável de campeões e, para quem acompanha o tênis dos velhos tempos, emocionou rever tantos rostos que fizeram a história da Quadra Central, especialmente Chris Evert, Billie Jean, Rod Laver e Roger Federer, sob comando de John McEnroe. Ponto alto foi o aplauso de pé para Sue Baker, campeã de Roland Garros e semi de Wimbledon que irá se aposentar dos comentários na BBC depois de 30 anos.

Enlouquecedor Kyrgios
Por José Nilton Dalcim
2 de julho de 2022 às 19:38

Ele não é apenas maluco, no bom e no mau sentidos. Também enlouquece o juiz, a torcida e principalmente o adversário. Nick Kyrgios jogou um grande tênis neste sábado para voltar às oitavas de final de Wimbledon após cinco anos ao travar um duelo intenso de nervos à flor da pele com o não menos esquentadinho Stefanos Tsitsipas.

O australiano venceu a guerra emocional em que começou por baixo, enfurecido com marcação errada do juiz antes de perder o tiebreak do primeiro set. Mesmo falando demais, conseguiu o empate logo depois de ser penalizado por palavra obscena e daí em diante foi Stef quem não se controlou mais. Jogou bola perigosamente na arquibancada – Nick queria de qualquer jeito a desclassificação, algo bem pouco ético – e deu boladas no adversário.

Se Nick queria desestabilizar o grego, o objetivo foi cumprido. Durante os dois primeiros sets, Tsitsipas estava muito bem na parte tática, defendendo-se com qualidade e fazendo o adversário jogar. Ele só recuperou a cabeça no quarto set, quando então sacou muito e perdeu chances preciosas de esticar o duelo. O australiano sempre achou um saque bombástico para se salvar e fechou o tiebreak final com duas jogadas de pura genialidade.

Os ânimos voltaram a esquentar na sala de entrevistas, com frases de efeito de lado a lado. Kyrgios diz que ele é amado nos vestiários ao contrário do grego, Tsitsipas se queixou de ‘bullying’ e reconheceu que quis mesmo acertar o cada vez mais desafeto.

Kyrgios é franco favorito para derrubar Brandon Nakashima e chegar nas quartas pela terceira vez no torneio, onde poderá reencontrar o amigo Alex de Minaur que é bem menos tenista na grama. Vislumbra-se assim o reencontro com Rafa Nadal. Mas enlouquecer o espanhol será tarefa muito mais difícil.

Jogo a jogo
Nadal impecável
– As chances de Lorenzo Sonego já não eram lá das mais altas, porém encarar um adversário tão disposto e preciso foi demais para ele. Safou-se de levar uma tremenda surra. Nadal fez tudo muito bem, exceção ainda ao serviço, porém foi interessante e promissor vê-lo jogar bem mais perto da linha, com forehand agressivo e esbanjando sua enorme capacidade junto à rede. Também houve uma polêmica, quando ele reclamou ao juiz e depois ao próprio italiano do fato de Sonego estar gritando muito depois de golpear a bola. Ficou uma situação constrangedora e mais tarde o espanhol reconheceu seu erro. Deu outro show. Enfrenta agora o holandês Botic van de Zandschulp, que suou diante do velho Richard Gasquet.

Fritz aproveita chance – Outro que pode reencontrar Nadal é o norte-americano Taylor Fritz, que venceu o espanhol para ganhar Indian Wells em março. A chave tem sido uma maravilha para ele, ainda que eu recomende olhos abertos com Jason Kubler, que já mostrou que sabe jogar na grama e foi muito bem diante de Jack Sock. Aliás, a Austrália não tinha três nas oitavas de Wimbledon desde 2002.

Cornet, mais uma vez – A francesa Alizé Cornet é o tipo de adversária que qualquer favorita quer evitar nas primeiras rodadas e ela provou novamente seu incrível poder competitivo ao superar uma irreconhecível Iga Swiatek, que viu o fim de sua série de 37 vitórias que vinha desde fevereiro. Cornet venceu assim uma líder do ranking pela quarta vez em sete tentativas e já soma 11 vitórias sobre top 5, lista que inclui Serena Williams em Wimbledon de oito anos atrás. Enfrenta Alja Tomljanovic e quem vencer terá Elena Rybakina ou Petra Martic. A australiana Tomljanovic, que aliás namora Matteo Berrettini, tirou Barbora Krejcikova e é uma excelente aposta.

Halep x Badosa – O duelo de campeãs não vai acontecer porque a espanhola Paula Badosa jogou com muita cabeça e aproveitou a pressa de Petra Kvitova. Ganhou o direito de enfrentar SImona Halep, campeã de 2019 que caminha sem alarde. Outra novidade nesse setor foi a virada com sobras de Amanda Anisimova sobre Coco Gauff, jogo cheio de pancadas e mínimas variações. As duas deixam muito a desejar nos voleios. Sua adversária é Harmony Tan, que só perdeu nove game depois de tirar Serena lá na estreia.

Sonho brasileiro continua – Bruno Soares teve até torcida particular na boa vitória que ele e o dono da casa Jamie Murray tiveram na segunda rodada. Mineiro está preocupado com o acúmulo de jogos. Neste domingo volta para as mistas. Marcelo Melo caiu e Rafael Matos vai mesmo encarar os cabeças 1 Rajeev Ram/Joe Salisbury.