Arquivo do Autor: José Nilton Dalcim

Pobre Medvedev
Por José Nilton Dalcim
28 de setembro de 2020 às 20:30

Não se podia esperar uma campanha espetacular de Daniil Medvedev no saibro lentíssimo de Roland Garros, mas outra vez ele sequer passou da primeira rodada. Nunca venceu um único jogo em Paris e, para seu azar, ainda encarou um adversário aplicadíssimo na parte tática, o húngaro Marton Fucsovics.

Mas o que falta ao russo? Um padrão de jogo mais bem elaborado. Medvedev quis resolver os lances na base da pancada, lá no fundo de quadra, raramente ousando uma transição à rede ou uma bola curta, algo que Fucsovics explorou com inteligência. Como era óbvio nas condições atuais, Medvedev sentiu dificuldade também para ganhar pontos com o saque e acabou perdendo seis games de serviço. Aliás, perdeu também a vergonha e fez um saque por baixo ao melhor estilo Kyrgios.

O número 5 do mundo se despede de forma um tanto melancólica, mas em boa companhia. No mesmo lado superior da chave, Filip Krajinovic e Hubert Hurkacz foram surpreendidos e, na parte de baixo, Fabio Fognini, Gael Monfils e Felix Aliassime ampliaram o mau momento, todos com atuações muito abaixo de suas qualidades. Será culpa só da bola nova?

Favoritos começam bem
Bom, os dois grandes nomes da segunda-feira não deram importância às condições atípicas de Roland Garros. É bem verdade que Dominic Thiem começou um pouco lento diante de Marin Cilic e por vezes pareceu não estar com o ‘timing’ ideal. Enquanto Cilic foi ofensivo e encurtou os pontos, se mostrou competitivo. Depois, o austríaco se soltou e o sinal mais claro disso esteve nos plásticos winners de backhand. Enfrentará agora Jack Sock, que há muito não vencia no saibro, e fica mais perto do interessante duelo contra Casper Ruud.

Rafael Nadal entrou logo a seguir e a boa notícia para ele é que Egor Gerasimov jogou bem. Isso permitiu que o espanhol exercitasse vários aspectos de seu jogo e principalmente encarasse bons ralis, em que ficou claro o quique mais baixo de seu topspin avassalador, mas que a grosso modo continuou sendo um martírio para o backhand alheio. Também sacou com qualidade. O próximo na lista é Mackenzie McDonald, estritamente um jogador de base e de quadra dura, que joga em cima da linha e corre muito. Nada mau.

Sustos e zebras
Ao contrário do domingo, os principais nomes da chave feminina tiveram um dia difícil. Elina Svitolina, Kiki Bertens, Serena Williams e Petra Kvitova não puderam vacilar e Garbiñe Muguruza flertou com a derrota, vendo-se forçada a jogar 36 games.

A impressão deixada é que Svitolina não teve tempo hábil para a transição de Estrasburgo e que a quadra pesada será um martírio para Serena e Kvitova. Jogadora de grande visão tática, Tsvetana Pironkova pode exigir de Williams na quarta-feira.

Não escaparam a atual vice, a jovem canhota Marketa Vondrousova, nem a experiente e também canhota Angelique Kerber, ambas com atuação muito abaixo do padrão. A lista de cabeças eliminadas se estendeu a Madison Keys, Karolina Muchova, Svetlana Kuznetsova e Magda Linette.

O adeus de Teliana
Afastada há algum tempo das quadras, não chegou a surpreender a decisão de Teliana Pereira de se aposentar do circuito, ainda mais depois da pandemia. Pena que a notícia tenha chegado no meio de Roland Garros e não permita uma homenagem como ela merece por seus grandes feitos na carreira diante de tantas dificuldades que encarou desde criança.

Teliana foi acima de tudo um exemplo magnífico de determinação e competência, sempre com sorriso no rosto. Recomendo o artigo de Mário Sérgio Cruz como um resumo bem apurado.

Saiba mais
– Como se esperava, o piso lento já propiciou quatro maratonas no quinto set longo, a maior delas com 18/16, mas outra com 14/12. A vitória do anônimo Lorenzo Giustini sobre o local Corentin Moutet bateu recorde de games disputados na Era Aberta (74).
– Abusado, Bublik fez dois lances notáveis diante de Monfils: um lob de improviso entre as pernas e o saque por baixo desconcertante, como já fizera em Hamburgo. Clique aqui e veja.
– Faltam apenas duas vitórias em Roland Garros para Djokovic somar ao menos 70 em cada um dos Slam. Federer é o único com esse primazia. Nole enfrenta o garoto sueco Ymer, que só fará seu terceiro jogo em Paris.
– Devido a contusões, Rublev não disputou Roland Garros nos últimos dois anos. Ele e Tsitsipas entram em quadra apenas 48 horas depois da final em Hamburgo. Se o russo pega o veterano Querrey, o grego tem pela frente um real especialista no saibro, Munar.
– Pospisil, adversário do forte Berrettini, nunca venceu uma partida no torneio em seis participações anteriores.
– Simon é 14 anos mais velho que Shapovalov e venceu todos seus adversários canhotos em Roland Garros.
– Por volta das 11h de Brasília, Thiago Monteiro encara a má fase de Nikoloz Basilashvili e tem chance real de marcar sua segunda vitória no torneio. O seu setor da chave é promissor.
– Bautista e Gasquet duelam pela nona vez, com 6 a 2 para o espanhol. Será a primeira no saibro.
– Pliskova fez ótima campanha em Roma, mas abandonou final com problema na coxa esquerda. Semi em 2017, pega a egípcia Sherif, 172ª do mundo.
– Kenin volta à quadra depois da ‘bicicleta’ que tomou de Azarenka em Roma. Sua adversária é Samsonova, 125º do ranking.

A hora dos saibristas
Por José Nilton Dalcim
27 de setembro de 2020 às 20:10

A combinação tão diferente deste Roland Garros não está agradando a maciça maioria dos jogadores, desde os favoritos até os que estão lá atrás no ranking, mas o tênis talvez ganhe algo interessante com quadra pesada e bola lenta: a volta dos autênticos saibristas.

Alguns homens merecem uma observação mais apurada, além é claro dos três grandes candidatos ao título. Quem viu a desenvoltura de Andrey Rublev em Hamburgo e de Jannik Sinner em sua estreia em Paris devem ter percebido que os garotos se viram bem nessas condições, digamos, mais radicais, que exigem um tripé complexo formado de potência, perna e paciência.

E é fácil incluir aí o rodado Diego Schwartzman e ter certa esperança que Alexander Zverev se inspire em David Ferrer. A potência que sobra ao alemão falta para o argentino, mas podemos dizer exatamente o inverno das pernas. Se El Peque tem paciência e solidez, Sascha possui boa mão para a transição cuidadosa para os voleios. Ele aliás cravou 10 aces.

É possível que eu esteja com otimismo exagerado, mas gostei do que esses jogadores mostraram neste domingo de garoa fina irritante, em que também economizaram energia. Poderíamos incluir nessa lista de saibristas autênticos Stan Wawrinka e Marco Cecchinato.

O suíço teve pouco trabalho com um Andy Murray claramente sem armas no saibro úmido, mas sempre fica a dúvida de quanto Stan está com físico e com cabeça para a tarefa tão difícil que é construir pontos nessa lentidão toda. O italiano nunca mais foi o mesmo depois da semi de três anos atrás, mas é um típico jogador para esse novo Roland Garros.

Os primeiros jogos femininos também me agradaram porque mostraram algumas variações táticas interessantes, com apostas óbvias nas curtinhas, pouca importância ao primeiro saque e a evidência de que é possível sim machucar com um topspin mais profundo.

Simona Halep ganhou 10 games seguidos, Victoria Azarenka foi firme da base e Elise Mertens se mexeu muito bem. Mas isso não é lá muito novidade. São três nomes para ir muito longe nesse lado superior da chave.

Duas outras tenistas que encantaram pela ousadia. A adolescente Cori Gauff não se afastou tanto da linha e manteve seu padrão bem ofensivo diante de uma Johanna Konta que foi semi no ano passado. E Caroline Garcia comprovou que, apesar de tudo, é plenamente possível jogar na rede.

Foi um primeiro dia divertido.

Saiba mais
– Nishikori bateu Evans e manteve sua notável performance em jogos que vão a cinco sets. Foi o nono consecutivo que venceu. Em Roland Garros, sua marca agora é de 6 em 7. Na carreira, ganhou 24 de 30.
– Venus só venceu um jogo em oito torneios na temporada e sofreu a terceira queda na estreia de Paris. Nos seis últimos Slam disputados, só avançou uma rodada.
– Halep festejou em quadra seu 29º aniversário. Consciente das limitações do piso, colocou 81% do primeiro serviço em quadra.
– Nadal enfrenta Gerasimov, 83º do ranking. A única vez que perdeu para um tenista de ranking semelhante no saibro foi em 2004.
– Cilic e Thiem são o 149º e o 150º campeões de Slam da história e se cruzaram semanas atrás no US Open, com vitória do austríaco em 4 sets.
– Medvedev tenta sua primeira vitória em quatro participações em Roland Garros contra Fucsovics, contra quem penou para ganhar em Monte Carlo de 2018.
– Monfils joga sua 50ª partida em Roland Garros contra Bublik, que soma apenas 4 vitórias no saibro em torneios de primeira linha (e 2 delas em Hamburgo da semana passada).
– Serena encara Ahn, que exigiu no recente US Open: 7/5 e 6/3. Será a partida de número 408 em Slam para Williams.

Vem aí um duro Roland Garros
Por José Nilton Dalcim
26 de setembro de 2020 às 19:41

Se as previsões se confirmarem, tenistas, organizadores e espectadores devem estar preparados para difíceis dias em Roland Garros. O próprio site oficial do torneio alertava neste sábado para a tenebrosa previsão do tempo neste começo de outono em Paris: frio, chuva e vento.

Os mais confiáveis serviços de metereologia indicam este domingo de primeiro dia de jogos com muita chuva a partir das 11 horas locais e alguma chance de melhoria no fim de tarde, com não mais do que 16 graus. Para a segunda-feira, é provável que o mau tempo só dê trégua a partir das 14h de Paris. Por fim, terça e quarta prometem ser dias normais, porém o aguaceiro deve voltar no fim de semana de no máximo 15 graus.

Isso quer dizer que somente aqueles escalados para a nova Philippe Chatrier e seu novíssimo teto retrátil terão vida sossegada, tanto nas condições mais amenas como na garantia do calendário. Isso certamente vai criar reclamações e possivelmente, injustiças.

E se a bola já parece pesada, o que pensar então diante desse panorama climático? Quique baixo, muita força para fazer os golpes andarem, prováveis quebras de serviço em número expressivo e chance de jogos bem demorados.

Único Grand Slam com 15 dias de duração, Roland Garros larga às 6h (de Brasília) deste domingo com ótimas atrações, se obviamente os jogos acontecerem. No masculino, estão garantidos Goffin-Sinner e Wawrinka-Murray, além de Halep-Sorribes porque todos serão na Chatrier. Lá fora, seria promissor Zverev-Novak, Schwartzman-Kecmanovic, Evans-Nishikori, Azarenka-Kovinic e Konta-Gauff.

O que esperar das meninas
Halep larga com favoritismo natural, mas pode ter alguns duelos exigentes. A estreia é contra a especialista Sara Sorribes e lá nas oitavas deve vir a atual vice Marketa Vondrousova. As quartas parecem mais fáceis.

O outro quadrante promete mais equilíbrio, já que se prevê Elina Svitolina x Elise Mertens e Victoria Azarenka x Serena Williams. Com tantas incertezas sobre como será o estilo ideal, sugiro  esperar. No entanto, o título deste sábado de Svitolina em Hamburgo, sob condições tão semelhantes, me parece lhe dar favoritismo.

No lado inferior, Karolina Pliskova e Sloane Stephens prometem duelo precoce na 3ª rodada e a eventual partida de quartas seria diante de Petra Kvitova ou Madison Keys, embora eu esteja curioso para ver Angelique Kerber nesse setor.

A quarta semifinalista tem duas fortes candidatas: Aryna Sabalenka e Garbiñe Muguruza, que no entanto devem se cruzar nas oitavas. Elena Rybakina pode dar trabalho nas quartas.

Vale lembrar que quatro das top 10 estão de fora: a atual campeã Ashleigh Barty mais Naomi Osaka, Bianca Andreescu e Belinda Bencic.

Saiba mais
– Esta será a 90ª edição do torneio internacional, que é o que realmente conta em termos de Grand Slam.
– A premiação geral caiu, mas os perdedores de estreia ganharão 60 mil euros, 14 mil a mais do que em 2019. A partir das quartas, no entanto, há queda de quase 30%. Os campeões levam 1,6 mi contra 2,3 do ano passado.
– A tenista em atividade com mais títulos no saibro é, acreditem, Serena, com 13. A recordista na Era Aberta tem 66: Chris Evert.
– Nadal e Djokovic também disputam a honra de ser o ‘trintão’ com mais Slam. Cada um tem 5 no momento.
– A última canhota a ganhar Roland Garros foi Seles, em 1992, e a última a vencer sem perder sets, Henin, em 2007.
– Murray não jogou uma única partida sobre o saibro desde que perdeu para Wawrinka na semi de Paris de 2017.
– Roland Garros é o único Slam em que o campeão do ano anterior jamais perdeu na estreia da edição seguinte na Era Aberta.
– Feli López chega a 75 Slam disputados, agora a 4 do recordista Federer. O espanhol soma também 74 seguidos. Venus totaliza incríveis 87 na carreira e Serena, 76.