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Rublev garante mais renovação
Por José Nilton Dalcim
16 de abril de 2021 às 18:36

Um dia depois de ser sacudido pela inesperada queda do número 1 do mundo para um adversário de parco currículo no saibro, Monte Carlo assistiu ao domínio do tênis-força do russo Andrey Rublev sobre o multicampeão Rafael Nadal, justamente na mesma lenta quadra principal em que o canhoto espanhol ergueu seus 11 troféus. Foi na verdade a segunda decepção seguida de Rafa no Principado, já que em 2019 parou em dois sets frente ao eventual campeão Fabio Fognini.

Tal qual Novak Djokovic, o cabeça 2 viveu um dia difícil em primeiro lugar por conta de sua própria ineficiência. O saque funcionou muito pouco e isso permitiu que Rublev buscasse sempre o domínio dos pontos com seus espetaculares golpes de base. Pressionado o tempo todo, Nadal cometia erros com o backhand – gráfico da ATP mostra que 65% dos forehands do russo foram cruzados – e ficou à mercê de uma derrota ainda mais acachapante, visto que Rublev ficou pertinho de abrir 6/2, 4/1 com saque.

Curioso é que Rublev, ao invés de festejar o grande feito, preocupou-se em desculpar Nadal, lembrando antes de tudo que o espanhol joga sob enorme pressão no saibro europeu, como se fosse obrigado a vencer tudo e não tivesse o direto a um mau dia. Humilde, o russo admitiu que o adversário não jogou seu melhor, mas deu ênfase à forma com que segurou a cabeça. “Parecia irreal que eu tivesse 6/1, 3/1 e break-point”, disparou. Ele ainda chegou a fazer 4/2, teve bolas confortáveis para manter a vantagem, porém abriu mínima janela para o incansável Rafa e aí perdeu quatro games seguidos e o set. “Não podia mostrar emoções depois de perder o segundo set, e essa foi a chave. Controlei muito bem os nervos nesta semana”, ratificou, com toda a razão.

Para mostrar como o tênis é complexo, Rublev forçou muito mais da base, no entanto saiu com menos winners (23 a 25) e erros (28 a 36). Fato marcante, ganhou 23 dos 39 lances acima de nove trocas. Nadal perdeu sete vezes o serviço e cometeu sete duplas faltas, o que ainda não foi seu recorde pessoal (fez oito em Indian Wells de 2014). E olhem que coisa: Rublev também surpreendeu Roger Federer em Cincinnati dois anos atrás, torneio em que o suíço detém o recorde de sete conquistas. Este foi a terceira vitória do russo sobre um top 3, incluindo Dominic Thiem.

Seu desafio agora é a recuperação física, uma vez que vem de duas notáveis batalhas seguidas de grande tensão, como aconteceu diante de Roberto Bautista na véspera. Enfrentará o também jovem norueguês Casper Ruud, de 22 anos, que tirou Fognini numa atuação firme, em que combinou com muita eficiência o binômio saque-forehand. O italiano vinha bem até ter 40-15 para empatar tudo no 10º game, mas saiu repentinamente de jogo e ficou próximo de levar 4/0 no segundo set. Certamente, deve ter lembrado das incríveis viradas obtidas há dois anos, mas não foi desta vez. Ruud perdeu os três duelos diante de Rublev,

Backhans de uma mão duelam
A outra semifinal de Monte Carlo verá confronto entre backhands de uma mão, coisa pouco comum no saibro lento desde a final entre Federer e Stan Wawrinka de 2014. O grego Stefanos Tsitsipas surge agora como o mais gabaritado dos quatro postulantes ao título – é sua sexta semi de Masters, a terceira seguida que faz no saibro – e certamente estará muito mais inteiro do que o britânico Daniel Evans, que ainda por cima jogará também a semi de duplas.

Um dia depois de tirar Djokovic numa atuação incrível, Evans vacilou ao sacar com 5/4 e permitiu a reação de David Goffin. Aliás, o belga optou justamente pela tática que faltou a Nole, fugindo constantemente do backhand para arriscar paralelas firmes na direita do adversário. Mas Evans achou um jeito de ir mais à rede. Salvou três break-points no 1/1 e mais quatro num crucial 4/4 do terceiro set para dar outro passo.

Também neste caso, valem duas frases. Evans admitiu que sentiu muito mais pressão depois de eliminar Djoko – “estava difícil manter o foco” – e Goffin diz não compreender como o britânico perdeu 10 jogos seguidos no saibro antes do torneio deste ano: “Apenas ele não acredita que pode jogar bem na terra”.

Tsitipas leva todas as vantagens. Além de ter vencido os dois duelos contra Evans, disputou apenas 12 games antes do abandono do espanhol Alejandro Davidovich Fokina, com problema muscular na coxa esquerda.

E mais
– Os Masters 1000 terão um campeão inédito pelo segundo torneio consecutivo, repetindo o início de 2018 em que Delpo levou Indian Wells e Isner ganhou Miami.
– E como se vê, três dos quatro semifinalistas são da nova geração e há chance assim de acontecer como em Miami dias atrás.
– Nadal permanecerá no terceiro lugar do ranking, 360 pontos atrás de Medvedev, mas lutará para recuperar a vice-liderança. Basta conquistar o título de Barcelona na próxima semana, onde é o amplo favorito.
– Rublev assumirá inédito 7º posto do ranking se for à final de Mônaco, rebaixando Federer, e ainda poderá ser sexto em caso de título, superando Zverev.
– O russo também já é o número 2 do ranking da temporada e poderá chegar à liderança se for à final.
– Tsitsipas também pode superar Medvedev e subir para terceiro posto do ano. E se for campeão, também atingirá o número 1.
– Tal qual aconteceu após Miami com Hurkacz e Sinner, o top 20 pode ter mais duas inovações caso Ruud seja finalista e Evans, campeão.

A seca continua
Por José Nilton Dalcim
15 de abril de 2021 às 19:02

Monte Carlo é onde Novak Djokovic reside na maior parte do tempo, mas o saibro lento do Principado deixou de ser um paraíso para ele há algum tempo. Desde que chegou ao segundo título, em 2015, com campanhas inesquecíveis em que barrou até mesmo Rafael Nadal, ele nunca mais passou das quartas de final. Após uma estreia tão firme na véspera, parou num adversário que tem um currículo paupérrimo sobre a terra batida.

Por algum motivo que só ele próprio poderá explicar, Djokovic entrou completamente frio na partida, mudança muito radical em relação à postura diante de Jannick Sinner. Aliás, tão frio que até usava uma camiseta branca por baixo da oficial, que só foi retirar lá no segundo set. De cara, fez duas duplas faltas e parecia sem antídoto para o slice malicioso do britânico. De repente, Evans já tinha duas quebras e 3/0, com direito a curtinhas espertas que encontravam um adversário plantado demais em quadra.

Quem acompanha Djokovic com atenção sabe que slices sempre o incomodaram, até mesmo na quadra dura, porque a bola chega sem peso e com pouca altura, o que tira a ofensividade natural de seu backhand. Não permite que se pegue bolas na subida e exige força adicional para alcançar profundidade. Talvez tenha faltado confiança para que Nole arriscasse mudar de direção para a paralela e tirar Evans da zona de conforto em alguns lances capitais.

Insistência e consistência do britânico levaram o adversário a incríveis 45 erros não forçados, números que costumamos ver num jogo de Grand Slam bem apertado, não em dois sets. Evans é claro merece todos os elogios por apostar numa alternativa e ousar com a criatividade. Arrancou algumas paralelas de backhand totalmente inesperadas, fez saque-voleio e disfarçou perfeitas deixadinhas de forehand. Como escrevi ontem, Evans raramente se saiu bem no saibro em sua carreira, mas não há algo tão problemático no seu estilo que justifique isso. É baixo, leve, versátil e chega a disparar primeiro serviço a 200 km/h.

Claro que o número 1 não esteve em seus melhores dias, e ficou indisfarçável uma postura negativa, frustrada, naqueles lances decisivos de um set em que geralmente é ele quem se sobressai. Houve um momento no primeiro set em que Nole parecia ter acordado. Quebrou, encostou com 3/2 após game de saque perfeito e teve 15-40 para empatar, o que teria grande chance de abalar o britânico. Não conseguiu, mas dois games depois chegou à igualdade para imediatamente perder outro serviço e logo depois o set. Na outra série, chegou a ter 3/0 e atingiu set-point no 5/4. Evans nunca recuou da proposta, aguentou firme pontos longos e tensos, fechou a partida com enorme autoridade.

Decidirá agora vaga na semi contra David Goffin, e não ficaria surpreso se repetisse a dose, ainda que o belga tenha feito três jogos bem decentes até agora, incluindo a vitória exigente diante de Alexander Zverev, em que sofreu muito em vários games de serviço. Aliás, o alemão perdeu os quatro pontos em que sacou no início do tiebreak e teve uma chance de levar ao terceiro set. Quem vencer, cruzará com Stefanos Tsitsipas ou Alejandro Fokina. O grego fez uma bela exibição diante de Cristian Garin e surge como favorito até para ir à final.

Nadal por sua vez encontrou mínima resistência num Grigor Dimitrov apático. Mais tarde, o búlgaro explicaria que tem dormido e se alimentado muito mal devido a um problema dentário e isso então justifica a surra de 55 minutos e de pontos vencidos (55 a 26). O canhoto espanhol passou assim por dois jogos muito fáceis – cinco games perdidos – e talvez tenha de se concentrar em dobro ao encarar o fogo cerrado de Andrey Rublev. O russo superou batalha de intensas trocas e muita pancadaria contra Roberto Bautista, mas ainda acho que o saibro lento poderá levá-lo ao destempero muito rapidamente caso Nadal se segure bem no começo da partida. E isso o multicampeão sabe fazer com maestria.

Boa notícia é a recuperação lenta e gradual de Fabio Fognini, que se reencontrou com o lugar de seu maior título e isso parece ter lhe feito muito bem. Sinceramente, esperava agora que ele fosse cruzar com Pablo Carreño, mas o campeão de Marbella não soube fechar o jogo duríssimo contra o bom Casper Ruud e ficou no caminho. Esse norueguês de 22 anos é um saibrista nato. Fez belas campanhas aqui na América do Sul, atingiu semi em Roma do ano passado.e bateu Fognini nos dois duelos já realizados, um deles no saibro de Hamburgo meses atrás.

Vale por fim observar que quatro dos classificados têm no máximo 23 anos e um deles vai avançar. Em termos de saibro, é uma renovação muito bem vinda.

Djoko e Nadal têm início animador
Por José Nilton Dalcim
14 de abril de 2021 às 17:04

Diante de dificuldades bem distintas, Novak Djokovic e Rafael Nadal tiveram início animador no saibro europeu. O sérvio passou dias treinando em Monte Carlo, quase um quintal de casa, e fez uma bela estreia diante de Jannik Sinner. O ultracampeão espanhol mostrou-se à vontade na volta a seu habitat natural e aproveitou cada minuto para se experimentar frente ao irregular Federico Delbonis.

Djokovic teve um teste real já de cara. Sinner faz a bola andar muito, mesmo no saibro lento, mas justamente essa característica de Monte Carlo foi o que mais o atrapalhou. Diante de um jogador de excepcional qualidade na defesa e no contra-ataque, o italiano se perdeu na necessidade de obter bolas milimétricas o tempo todo. Mais uma vez, ficou claro que ainda lhe falta um plano B.

O sérvio deu uma aula ao garoto sobre versatilidade e apuro tático. Entrou em quadra aparentemente já com o plano traçado de evitar que o adversário batesse na bola em posição equilibrada e utilizou as curtas para aproveitar a postura recuada de Sinner. E é essencial observar que as duas propostas não são nada simples de se executar diante de alguém que golpeia tão bem e forte dos dois lados.

É bem verdade que Nole perdeu dois games de serviço no primeiro set, algo que não assusta diante da lentidão do piso e das devoluções ousadas do italiano. Mas nada tirou seu foco e o líder do ranking seguiu até o fim com execução admirável da opção escolhida, subindo de nível no segundo set.

Pena que o reencontro com Hubert Hurkacz não vá acontecer, já que o polonês não se sentiu bem e jogou sem forças diante de Daniel Evans. O britânico de 1,75m até tem um estilo adaptável ao saibro, mas acaba de ganhar seu sexto jogo no piso em toda a carreira, algo que não fazia desde Barcelona de 2017. Assim, Djoko é candidato natural a duelar contra Sascha Zverev ou David Goffin nas quartas. O alemão teve bem menos trabalho do que eu imaginava diante de Lorenzo Sonego. Dos quatro sets que o belga ganhou, dois foram ‘pneus’.

Rafa teve a estreia muito tranquila que era esperada, já que o também canhoto Delbonis está alguns degraus abaixo. O espanhol aproveitou bem a partida para soltar os golpes e fez um primeiro set bem a seu estilo sobre o saibro, com meros quatro erros não forçados. Depois até perdeu um serviço em game longo no melhor momento do argentino, o que ao menos serviu para o espanhol esticar a presença em quadra, rodagem bem vinda neste retorno à atividade.

Nas condições normais de Monte Carlo, Grigor Dimitrov teria poucas chances frente a Nadal. Fato curioso, este será o quarto duelo entre eles no torneio e só lá em 2013 o búlgaro deu trabalho. Em 2018 e 2019, tirou meros cinco games por jogo. O placar geral do confronto é arrasador: 13 a 1, com única vitória de Dimitrov no veloz Pequim de 2016. Me parece lógico acreditar que Rafa cruzará com Andrey Rublev ou Roberto Bautista em seguida.

As três primeiras rodadas do torneio tiveram outros destaques, o principal deles o abandono forçado de Daniil Medvedev por ter contraído covid. Isso já coloca em risco sua presença em Madri e abre grande oportunidade para Nadal recuperar rapidamente o segundo lugar do ranking.

Já Pablo Carreño emendou mais duas vitórias a seu título de domingo em Marbella, a de hoje diante de Karen Khachanov, e terá pela frente um embalado Casper Ruud, que não deu chance a Diego Schwartzman. No caminho dos dois, está o atual campeão Fabio Fognini, que economizou energia em duas atuações firmes e é favorito contra Filip Krajinovic.

Imperdível será o duelo entre Stefanos Tsitsipas e Cristian Garin, um dos setores mais duros da chave. Basta ver que o grego estreou contra Aslan Karatsev e precisou jogar firme, enquanto o chileno virou o jogo de dois dias contra Felix Aliassime. Há uma ótima chance de o vencedor chegar até a semi e desafiar Djokovic.