Big 2 ensina a arte da consistência aos garotos
Por José Nilton Dalcim
7 de junho de 2021 às 19:03

Novak Djokovic levou um susto ao perder os dois primeiros sets para um atrevido e aplicado Lorenzo Musetti, Rafael Nadal esteve ameaçado de ceder o primeiro set no torneio desde a final de 2019 para o já top 20 Jannik Sinner, mas os ‘velhinhos’ mostraram que lhes sobram consistência técnica, tática e física e que ainda é preciso fazer muito mais sobre o saibro de Roland Garros para tirá-los da luta pelo título.

Musetti deve ter surpreendido todo mundo. Nem tanto pela reconhecida qualidade de seus golpes, mas pela fidelidade ao plano de jogo e cabeça fria que o levou a ganhar dois tiebreaks do número 1 do mundo, o que não é para qualquer um. Aliás, o garoto nunca perdeu um tiebreak em torneios de primeira linha e ganhou todos os oito que fez nesta temporada, o que reafirma sua capacidade de ser ousado e frio.

Bem orientado, Musetti usou dois recursos que sempre incomodam Djokovic: o slice no backhand e a bola sem peso no centro da quadra. Soube esperar a hora certa de mudar o ritmo e atacar, aplicando-se ao máximo no serviço. O cabeça 1 então cometeu mais erros do que o habitual, porque muitas vezes precisou dar o peso na bola com o forehand acima da cintura, o que nem sempre é tão confortável como parece.

Mas num Slam não basta ser brilhante por dois sets. É preciso dosar o físico para uma eventual batalha e isso talvez tenha sido a experiência que faltou ao italiano. Djoko vendeu muito caro esses dois sets perdidos, fez o adversário se mexer muito, atrás de ângulos e deixadas, e o preço foi pago já no terceiro set.

Enquanto o adversário 15 anos mais jovem desabava, Nole continuou no seu ritmo firme e sufocante, resultando num massacre. Completamente esgotado, com dor lombar e cãibra conforme revelou depois, Musetti nem conseguiu terminar a partida. De qualquer forma, foi o grande nome do dia e provou, logo no seu primeiro Slam, que tem mesmo muita chance de brilhar no circuito.

O entusiasmo de Sinner durou bem menos. Depois de falhar nos dois games iniciais, ganhou consistência e virou o placar anotando quatro seguidos, vantagem que permitiria a ele sacar para o set com 5/4. Não colocou um único primeiro saque na quadra, foi quebrado de zero e aí Nadal se agigantou, ganhando oito games seguidos.

O espanhol no entanto voltou a oscilar, jogou mal em mais dois serviços no segundo set e deu a chance do empate, que Sinner desperdiçou. Seria querer demais que Rafa lhe desse mais alguma cancha. Nadal foi absoluto daí em diante, arrancou para mais uma série de oito games consecutivos e permitiu apenas 10 pontos ao italiano no terceiro set, dos quais apenas dois foram erros não forçados do megacampeão.

Nadal e Djokovic ficam assim a apenas uma vitória do aguardadíssimo reencontro na semifinal de sexta-feira. O espanhol terá antes de aumentar a ‘freguesia’ sobre Diego Schwartzman, que já está em 10 a 1. O argentino fez um péssimo começo contra Jan-Lennard Struff e chegou a estar 5/1, tendo de salvar sete set-points. Achou a forma de segurar o alemão no fundo de quadra e estava pertinho de fechar o terceiro set com rapidez quando outra vez veio a instabilidade e Struff quase empatou no 10º game. Ou seja, o valente Peque não está nem perto do nível que mostrou em Roma do ano passado na sua única vitória sobre Nadal. Está muito mais para o fácil placar da semi de Paris em 2020.

Djokovic por seu lado terá outro italiano pela frente, mas curiosamente só cruzou com Matteo Berrettini uma vez, na fase classificatória do Finals de 2019, quando perdeu meros três games. Se obtiver alto índice de primeiro saque, que permita principalmente disparar seu excelente forehand, Berrettini tem condições de ser competitivo e quem sabe empurrar os sets para tiebreaks. Ainda que seu backhand tenha evoluído a olhos vistos, não me parece ter consistência e muito menos confiança para aguentar a artilharia pesada do número 1 se ficar no fundo de quadra. Vão faltar pernas se fugir o tempo todo para o lado esquerdo, como costuma fazer.

Swiatek amplia favoritismo
Se Iga Swiatek chegou a Paris cheia de moral após seu título em Roma, o andamento da edição 2021, com a sucessão de queda das favoritas em Roland Garros, deixa a polonesa de 19 anos cada vez mais candidata a conquistar o bicampeonato. Curiosamente, ela foi quem teve mais trabalho nesta segunda-feira para avançar às quartas de final, já que ucraniana Marta Kostyuk, um ano mais jovem, mostrou qualidades e resistência. Foi quem mais tirou games de Swiatek até aqui.

Assim como seu ídolo Nadal, a polonesa também está sem perder set desde o início da campanha do ano passado. Sofreu um pouco porque encarou a sempre diferente sessão noturna, que deixa tudo mais lento. Kostyuk foi esperta, abusou das deixadinhas e até quebrou antes. Continuou ameaçando, games longos, mas por fim prevaleceu a consistência de Swiatek. O próximo desafio também é inédito: a divertida Maria Sakkari, que atropelou a finalista de 2020 Sofia Kenin e aumentou a festa grega no saibro parisiense. Nunca o país teve dois nomes nas quartas de um mesmo Slam.

Os outros dois jogos foram logo cedo num piso mais veloz e surpreenderam pela rapidez: Coco Gauff nos seus tenros 17 anos não deu muita chance à tunisiana Ons Jabeur, usando o saibro quase como se fosse um piso duro. E enfrentará agora uma sensação, a tcheca Barbora Krejcikova, outra tenista de jogo solto que só permitiu dois games a Sloane Stephens, vice de 2018. Krejcikova também está viva nas quartas de duplas e caiu nesta segunda nas quartas de mistas, prova de que o físico e a disposição estão em dia.

A rodada de terça
– Medvedev e Tsitsipas tentam a quarta semi de Slam, e até hoje nenhum deles perdeu quando chegou nas quartas. Se o russo tem 5-1 nos duelos e única vitória no saibro, Tsitsipas é o líder de vitórias na temporada (37) e na terra (20).
– Grego só ganhou 1 dos últimos 8 jogos contra adversário top 5 e no saibro soma 2 em 8. Mas tem marca muito superior em jogos de 5 sets na carreira: 5-4 diante de 1-7 do russo.
– Zverev ganhou os cinco sets que jogou em duas partidas diante de Davidovich, mas sempre na quadra dura. Espanhol venceu mais jogos no saibro este ano (14 a 13).
– Zverev ganhou todos seus jogos que foram ao quinto set em Paris (7) e tenta semi no terceiro diferente Slam. Davidovich venceu 9 dos 11 tiebreaks que fez nesta temporada.
– Separadas por 10 posições no ranking (22 a 32) e oito anos na idade, Rybakina e Pavlynchenkova fazem duelo inédito e buscam primeira semi de Slam. As duas jogam lado a lado e estão nas quartas de duplas.
– Também não há histórico entre Badosa (35 do ranking) e Zidansek (85). A Eslovênia nunca havia tido uma jogadora sequer nas oitavas de um Slam.


Comentários

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  1. Bruno Gama

    Acho que daqui alguns anos quando Sinner, Musetti, Alcaraz amadurecerem nem vamos sentir tanta falta do Big 3, talvez até roubem o protagonismo de Tsitsipas, Thiem, Medvedev e Zverev que amadureceram tarde, ainda tem alguns talentos perdidos como Aliassime e Shapovalov que podem em algum momento engrenar se acharem o ponto de equilíbrio no jogo deles.

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  2. Enoque

    Vamos aos números: Medvedev chega a 10.143, o Djoko, na pior das hipóteses fica com 10.713. A disputa pela liderança fica aberta em Wimbledon, já que lá o Medvedev não defende quase nada.

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  3. Franco Tassi

    Estou torcendo para a polonesa, Swiatek se tornar a número 1 do tênis feminino porque a maior, Serena, já não é mais a rainha. O tênis feminino é muito irregular, quando penso que vão substitui a Serena, perdem na primeira rodada de qualquer uma vindo do qualifac.

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  4. Marcelo

    Dalcim,

    Acabado esse RG você vai precisar desvendar um mistério que ainda não entendi. Por que os EUA não conseguem embalar mais um jogador de ponta? Apareceram franceses, russos, italianos e nada de um americano com chance em um M1000 faz anos! É muito estranho para um país com a tradição no tenis que eles têm.

    Abraços.

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    1. José Nilton Dalcim

      Tenho certeza de que já respondi isso, Marcelo. A meu ver, eles ficaram para trás ao insistir em manter o padrão americano de jogar, baseado em saque e forehand. Hoje em dia é preciso ter ao menos os dois lados muito firmes ou compensar isso com um excelente slice ou jogo de rede. Depois de muito tempo, finalmente a USTA introduziu o saibro para fazer a base dos juvenis e com isso temos visto aparecer mais jogadores com essa característica que se tornou essencial no circuito. Abs!

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  5. sander

    Dalcim, hoje vc diria que o forehand do Djokovic está mais calibrado que seu back (que sempre foi um dos seus pontos fortes)? Ou o back aparece quando ele precisa? Eu lembro das paralelas milimétricas de Bh que ele dava !!!! show!!abraços

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  6. Luiz Fernando

    Dalcim me mate uma curiosidade: semana q vem já estaremos na temporada de grama. Quem vc considera, na atualidade, um especialista nesse piso? Pelo estilo considero Federer um “gramista”, mas a despeito do sucesso em W não considero Djoko como tal. Além do suíço quem vc consideraria? Haveria claramente algum outro?

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    1. José Nilton Dalcim

      Acho que existem tenistas com estilo bem indicado, mas é mesmo muito difícil falar em especialista para um piso tão pouco praticado hoje em dia. Assim, tenistas como Tsitsipas, Shapovalov, Dimitrov, Gasquet, Isner têm recursos muito perigosos, ainda que dificilmente serão favoritos diante de qualquer dos Big 3, Luiz.

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  7. AKC

    Eu não fiquei lá muito convencido dessa suposta lesão do italiano, fui dar uma olhada rápida na mídia internacional e muitos não compraram essa ideia também… Becker disse que se o problema foi cãibra, tenha dignidade e termine o jogo, mesmo perdendo de 6×0. Pra mim. o italiano criou um factoide para ter uma desculpa e fugir da bicicleta… OBS: Não sou torcedor do Djokovic!

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  8. Luiz Fernando

    Zverev vai seguindo bem rumo a semi, abrindo 2×0 no espanhol. Parece q aqueles jogos intermináveis em 5 sets de campanhas passadas, que o desgastavam sobremaneira, são coisas do passado. Quem tem o serviço e o BH q ele tem e se apresenta bem fisicamente não pode ser desconsiderado…

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          1. Luiz Fabriciano

            Mas já disputa quartas de GS e rodadas avançadas de M1000.
            Ou seja, a regularidade está chegando.