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Dellien tenta recolocar a Bolívia no mapa do tênis
14/12/2018 às 08h00

Dellien se tornou apenas o segundo boliviano a entrar no top 100

Foto: ATP
Felipe Priante

Nascido em Trinidad, uma pequena cidade do interior da Bolívia com população de apenas 130 mil habitantes, Hugo Dellien sonha em colocar seu país novamente no mapa do tênis mundial. O jogador de 25 anos é o único boliviano entre os 450 melhores da ATP e um dos apenas quatro no top 1.000. Atual 118 do mundo, ele teve uma temporada repleta de bons momentos. Venceu seus três primeiros challengers (Sarasota, Savannah e Vicenza) e chegou a acumular 11 vitórias seguidas.

Além disso, Dellien conseguiu um feito ainda maior para sua nação e se tornou apenas o segundo boliviano da história, o primeiro em 34 anos, a entrar para o top 100, repetindo algo que apenas fez Mario Martinez, que em 1980 chegou a ser 32º do mundo. Com toda essa falta de tradição, não é de se espantar que ele tenha enfrentado dificuldades a mais para conseguir chegar no patamar alcançado em 2018.

Em entrevista exclusiva a TenisBrasil, o jogador boliviano contou sua trajetória de vida, saindo do interior da Bolívia rumo a Buenos Aires, na Argentina, para se tornar um tenista profissional. “Tudo foi mais um esforço próprio, sabia que queria muito ser profissional e para isso tinha que focar mais em mim mesmo e aproveitar as poucas oportunidades que tinha para seguir crescendo”.

Dellien quer também aproveitar seus bons resultados na temporada que passou não apenas para buscar saltos maiores, mas também para conseguir divulgar o tênis em seu país. “Gostaria muito de ter um ótimo resultado em um Grand Slam, vencer um deles seria um sonho. Em outro nível, gostaria muito que o tênis na Bolívia cresça, que tenhamos mais jogadores”, declarou o jogador que venceu 49 das 68 partidas que disputou na temporada 2018.

Leia a entrevista completa com Hugo Dellien:

Na Bolívia não há muitos jogadores no circuito. Quais foram suas maiores dificuldades para se tornar um tenista profissional?

Comecei a jogar com 4 anos em Trinidad, uma cidade pequena na Bolívia e foi muito difícil, pois lá não temos história no tênis, não temos jogadores que tenham sido referência e não há qualidade faz muito tempo. O tênis é um campo novo, no qual o caminho é muito difícil, pois não temos apoio econômico, não há academias e só mesmo os clubes privados, nos quais você precisa ser sócio para jogar. É uma coisa de classes sociais e nada profissional. Tive que fazer mais sacrifício, pois com 13 anos precisei mudar de cidade para poder jogar com caras de maior nível, tive que deixar o colégio e passar a estudar à distância. Desde pequeno já passei a respirar e viver para o tênis. Mais tarde tive que fazer outro sacrifício gigante, deixei meu país e fui para a Argentina para ser profissional, o que é muito difícil porque você fica longe de sua família e como não tinha muito apoio quase não podia voltar para casa. Mas isso também me ajudou a me tornar mais forte e assim agarrei todas as oportunidades.

Em um esporte sem tradição no país, como foram seus primeiros passos no tênis?

Há jogadores lá, mas não de um grande nível técnico. Por sorte na minha categoria haviam dois ou três que jogavam bem e se continuassem poderiam ter ido bem, por isso enfrentava uma certa competitividade. Tudo foi mais um esforço próprio, sabia que queria muito ser profissional e para isso tinha que focar mais em mim mesmo e aproveitar as poucas oportunidades que tinha para seguir crescendo. Também sabia que em algum momento teria que deixar meu país para me tornar mais profissional.

Que tipo de apoio você tem? Há patrocinadores, recebe algum dinheiro da federação?

A maior parte da minha carreira quem me apoiou foram meus pais, recebi alguns apoios só que nenhum firme e constante, pois o tênis é muito fraco em relação à publicidade e por isso mesmo o governo federal nunca me deu apoio. Cheguei a receber um par de passagens do governo departamental, mas nada mais concreto do que isso. Hoje em dia eu melhorei, os resultados estão vindo e o conhecimento sobre o tênis aumentou um pouco.

A imprensa boliviana fala alguma coisa sobre tênis? Quando você entrou para o top 100 houve algum destaque?

Quando venci meu primeiro challenger foi quando começaram a ver que podiam cobrir um pouco mais de tênis e estudar um pouco mais sobre o esporte, pois não tinham muita ideia. A imprensa de lá é toda voltada para o futebol e não explicavam muito, apenas colocavam se ganhava ou perdia. Não falavam de ranking, da importância do torneio. Teve uma vez que o presidente da Bolívia retuitou um tuite meu e os jogadores da seleção de futebol me parabenizaram. Foi então começaram a ver que lá havia um personagem e a imprensa passou a tentar entender mais sobre o tênis e cobrir mais. Hoje em dia está um pouco melhor.

Qual o tamanho do tênis na Bolívia? Há outros esportes de destaque por lá que além do futebol?

Agora que o rali Dakar passa pela Bolívia há algum destaque para isso, pois o governo colocou muito dinheiro e acabou ganhando atenção. Mas antes disso era basicamente o futebol e nada mais, os outros esportes estavam todos no mesmo plano.

Como foi a volta para casa depois de vencer seu primeiro challenger?

Não voltei logo em seguida, na verdade só uns 3 ou 4 meses depois, quando havia entrado no top 100. Fui a vários canais de televisão, mas não foi nada de muito incrível, pois não há tanto reconhecimento.

Que balanço você faz deste ano no circuito?

Acho que foi um ano muito bom para minha carreira, no qual passei a acreditar um pouco mais que posso estar nesse nível, que posso entrar nas chaves dos Grand Slam e jogar os torneios grandes. Foi um ano muito duro, mas muito legal.

Qual as principais dificuldades que enfrenta no circuito um jogador vindo de um país sem tradição no tênis?

Acho que há um pouco mais de pressão, pois todos ficam na expectativa de ver seus resultados e querendo que vá bem, sem entender como funciona o circuito. Mas já faz alguns anos que estou jogando e aprendi a manejar de uma maneira boa tudo isso.

Quais são seus sonhos no tênis?

Gostaria muito de ter um ótimo resultado em um Grand Slam, vencer um seria um sonho. Em outro nível, gostaria muito que o tênis na Bolívia cresça, que tenhamos mais jogadores. Você vai aos torneios (challengers) e vê vários argentinos, um bom número de brasileiros. Gostaria que isso também acontecesse com a Bolívia no futuro.

Você chama atenção da imprensa local nos torneios que disputa por ser um boliviano?

Ultimamente até que sim. Tenho dado algumas entrevistas e é muito legal ver esse reconhecimento de todo o esforço que tive. Consigo aproveitar um pouco, mas o foco é manter minha concentração no tênis, para seguir buscando bons resultados.

Quais as melhores coisas de ser tenista profissional e quais as piores?

O pior é estar longe de minha família, pois não vivo na Bolívia. Outra coisa ruim é a exigência, porque você precisa estar 100% bem durante o ano todo, tem pouco tempo de férias para relaxar. Você acaba tendo que viver o tênis 24h por dia para ser um bom profissional. Entre as coisas que eu gosto mais é poder viajar, conhecer muita gente, ser bem tratado e receber carinho das pessoas diferentes. Tem também a vida saudável de ser um esportista.

Você tem amigos no circuito?

Tenho alguns amigos sim, mas a maioria são colegas de circuito. Um dos amigos meus é Martin Cuevas, um cara que treina comigo, pois compartilhamos o mesmo técnico.

Um de seus patrocinadores na manga é uma empresa que trabalha com bitcoins. Como surgiu esse patrocínio?

Começa que o criador da empresa joga tênis e é amigo de vários jogadores. Eu não o conhecia, mas falei com ele, que estava interessado em promover sua marca com os tenistas. Ele é argentino. Gostei da iniciativa dele entrar no esporte.

Qual seu conhecimento sobre criptomoedas?

Não conheço quase nada, tenho pouquíssima ideia de como funciona. Estou aprendendo um pouco, é uma coisa muito complexa e parece ser algo que vai funcionar bastante no futuro.

E você recebe em dinheiro normal ou em bitcoins?

Vem em bitcoins e por ora é uma aposta para o futuro que estou fazendo, quase uma poupança, e esperando para ver se sobe mais o valor.

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