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Brasileiro faz sucesso e desbanca academia de Nadal
05/12/2018 às 08h00

Cristiano Oliveira montou a melhor escola de tênis na Espanha

Foto: Divulgação
Felipe Priante

País de forte tradição no tênis, repleto de grandes nomes na história do circuito e com inúmeras academias de primeira linha, como a Equelite Sport (de Juan Carlos Ferrero) e a recém-criada Rafa Nadal Academy, a Espanha viu um brasileiro comandar o centro tenístico mais indicado para os jovens. A Academia Oliveira Tennis Pro foi reconhecida pelo Registro Profissional de Tênis com o prêmio de melhor escola de 2018.

Ex-boleiro, o mineiro Cristiano Oliveira ralou muito até alcançar tal status. Passou antes por Portugal até finalmente chegar na Espanha, onde fixou residência. Lá começou como técnico na Federação de Tênis de Castilla e León, foi crescendo no meio até que de um dia para o outro resolveu tirar do papel um sonho antigo e montou ao lado da esposa uma academia para chamar de sua.

Os anos de experiência no tênis espanhol aliados ao jeitinho brasileiro parecem ter sido a combinação perfeita para que a empreitada desse fruto. Mas não foi nada fácil conseguir alcançar o patamar premiado. “No primeiro dia éramos eu, Jose Miguel, minha esposa e a nossa filha Leticia de apenas 7 anos”, lembra o treinador brasileiro.

“Já no segundo dia éramos mais de 20 pessoas entre pais e alunos. Todos queriam colaborar de alguma maneira porque sabiam que ali estava nascendo duas quadras que chamariam a atenção de toda Espanha”, complementou Oliveira, que levou reconhecimento no tênis para uma região sem tradição alguma na modalidade.

Veja o bate-papo com Cristiano Oliveira, no qual ele conta um pouco de sua história e a de sua academia:

Como você começou no tênis e por que você optou por seguir carreira como treinador?

Comecei no tênis com nove anos como boleiro, função que exerci durante cinco anos. Como não tinha raquete para jogar, improvisava com uma tábua de bater bife da minha mãe. Desde o primeiro dia que pisei numa quadra percebi que queria ser treinador. Ainda que tenha jogado alguns campeonatos no Brasil, sendo campeão minero aos 18 anos, sempre fui apaixonado por ensinar e por isso aos 15 anos tirei meu primeiro curso de treinador

Como você foi parar na Espanha?

Na verdade, fui primeiro para Portugal onde vivi por seis anos. O primeiro ano foi em Lisboa, trabalhando com o pai do Pedro Sousa, que hoje é jogador profissional. Lá meu principal objetivo era levar o grupo de cinco jogadores que tinha no Brasil para viajar e competir. Neste período, também colaborei por seis meses com Rogerinho Silva, que treinou e viveu em minha casa. Depois fui para Évora, uma cidade de 50 mil habitantes a 120 quilômetros da capital, onde tive a oportunidade de ser diretor técnico da escolinha do Clube de Tênis de Évora.

Contudo, meu grande sonho era trabalhar na Espanha e conhecer o tênis de base do país. Foi quando tomei a decisão de buscar novos ares, mandei currículos para academias e clubes espanhóis e acabei recebendo a oportunidade de trabalhar durante quatro anos na Federação de Tênis de Castilla e León, no centro técnico na cidade de Burgos, onde conheci um grupo muito motivado de pais, que decidiram criar um novo clube e me convidaram para ser diretor técnico. Depois de dois anos, decidi, juntamente com a minha esposa, que também é treinadora de tênis, abrir nossa própria academia.

Fale um pouco sobre sua academia. Desde quando ela existe e de onde surgiu a ideia de apostar nisso?

A academia Oliveira Tennis Pro existe há apenas três anos, fruto de uma loucura minha e da minha esposa. Nós alugamos um galpão onde não tinha absolutamente nada. Falei com ela, que não teve nenhuma dúvida e me disse: "Vamos arregaçar as mangas e colocar a mão na massa". Tínhamos um pai de aluno, Jose Miguel Sobrado, que era construtor na cidade, e falou que nos ajudaria a fazer as quadras. Foi então que começamos o nosso grande sonho. Eu me lembro que no primeiro dia fiquei de 19h até as 4h da manhã do dia seguinte pintando a quadra. Quando acordei depois, mal podia andar, mas tinha que seguir pintando, pois nossa academia tinha que sair do papel.

Aquilo que parecia impossível se tornou realidade e o que mais me chamou a atenção foi que no primeiro dia éramos eu, Jose Miguel, minha esposa e a nossa filha Leticia de apenas 7 anos. Já no segundo dia éramos mais de 20 pessoas entre pais e alunos. Todos queriam colaborar de alguma maneira porque sabiam que ali estava nascendo duas quadras que chamariam a atenção de toda Espanha.

A decisão de abrir nossa academia veio porque o trabalho desenvolvido com os meninos aqui na cidade tinha dado muito certo e como eles ainda tinham pouca idade para sair de perto de suas famílias preferi abrir minha própria academia para ter autonomia no desenvolvimento do trabalho, uma vez que em um clube ou na federação eu poderia estaria de mãos atadas. Quando cheguei em Burgos a maioria dos meninos tinha de 8 a 9 anos e a cidade não possuía nenhuma tradição no tênis, pois a temperatura é muito baixa em boa parte do ano. Existia uma cultura de que para jogar bem o garoto tinha que se mudar para uma cidade onde o clima é melhor, indo para academias como as que existem em Barcelona e Valência.

Qual a importância desse prêmio de melhor escola de tênis aí na Espanha?

Nem nos meus maiores sonhos eu podia imaginar que um dia um ex-boleiro brasileiro, que via os jogadores espanhóis jogando só pela televisão, como Alex Corretja, que foi uma referência para mim e hoje é um dos agentes de dois dos meus jogadores, conseguiria fazer isso. Jamais poderia imaginar que uma academia com duas quadras pintadas por nós mesmos em uma cidade sem nenhuma tradição no tênis espanhol fosse ganhar este prêmio, ainda mais concorrendo com as grandes academias que existem na Espanha. Este prêmio nos trouxe uma grande satisfação e um imenso orgulho.

Como você se sente tendo vencido academias de renome como a Sánchez-Casal, a Equelite Sport (do Ferrero) e a recém-criada Rafa Nadal Academy?

Na verdade, eu nem penso muito nisso porque se você parar para pensar é mesmo impossível competir com estas academias, mas talvez seja isso que nos faça levantar todos os dias de manhã e ir para a quadra cheio de motivação. Estamos tão atrás deles que precisamos trabalhar mais e dar o nosso melhor. Eles têm sem dúvida nenhuma as melhores estruturas do mundo, mas nós temos o jeitinho brasileiro de fazer tudo com alegria e muito amor, isso talvez seja o ponto fundamental para o êxito de nosso trabalho aqui na Espanha.

Como está a academia atualmente? Há planos para crescer?

Atualmente a academia conta com mais de 120 alunos entre jogadores competição, pré-competição, minitênis, escola de adulto e um projeto social que conta com mais de 50 pessoas com deficiência mental, em um projeto coordenado pela minha esposa. A grande novidade para o ano de 2019 é a abertura da unidade de alto rendimento em Valencia, onde vamos poder dar mais infraestrutura para os meninos que começaram com a gente com 8 e 9 anos, pois este novo clube conta com 12 quadras, sendo que em Burgos temos apenas duas.

Umas das maiores alegrias minhas como treinador foi ver um destes garotinhos que começou comigo aos 8 anos de idade receber um convite da organização do Masters 1000 de Madri para jogar a fase de qualificação, conseguindo tirar um set de Mirza Basic, atual 88º do mundo, tendo conseguido abrir 6/2 e 4/2.

Neste ano levamos nossos atletas juvenis para Roland Garros, Wimbledon e US Open, sem falar nos três anos seguidos que fizemos final no torneio juvenil Mutua Madrid Open (que acontece junto com o Masters 1000). Um dos nossos jogadores, Nicolas Alvarez Varona, se tornou o tenista mais jovem a fazer um ponto na ATP, conseguindo isso com apenas 14 anos e 3 meses. Além disso, conseguimos vários bons resultados que chamaram a atenção da Real Federação Espanhola de Tênis (RFET), colocando dois jogadores da nossa academia na equipe nacional que defendeu a Espanha no torneio europeu.

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