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Brasil em crise atrapalha transição dos jovens
06/12/2017 às 08h00

Orlandinho, Matos e Zormann amargam escassez de patrocínios

Foto: Fotojump
Felipe Priante

Na segunda parte da entrevista com o paulista Marcelo Zormann e com os gaúchos Orlando Luz e Rafael Matos, eles falam mais um pouco sobre os primeiros passos no circuito e as maiores dificuldades que enfrentam na transição do juvenil para o profissional.

Uma delas é a situação econômica do país, que depois de abrigar a Copa do Mundo, em 2014, e os Jogos Olímpicos, em 2016, viu o investimento no esporte diminuir drasticamente. Os jovens tenistas não sentiram apenas a perda de patrocínios, mas também a ausência de torneios dentro do país.

Os três também falaram um pouco sobre as mudanças de regra propostas pela ATP e implementadas no Next Gen Final e sobre seus jogadores favoritos e quem gostam de pegar como modelo. Para fechar, eles traçaram brevemente as metas para a próxima temporada.

Veja como foi o complemento da entrevista:

Como que vocês sentem estes primeiros anos de transição? Muda um pouco a pressão do juvenil para o profissional?

Orlandinho: É complicado, quando você ia jogar estes torneios como juvenil estava como franco atirador, o que fizer estava bom. Depois que vira profissional não tem mais escape, você acaba sentindo mais pressão, pois depende daquilo, e joga um pouco mais travado. Às vezes pensa um pouco na parte financeira, lembra da família quando está muito tempo longe. Isso sempre acaba passando na cabeça, principalmente quando está passando dois ou três meses seguidos na Europa e não consegue treinar direito, pois não tem uma base perto.

Matos: Com certeza há uma mudança. É muito diferente jogar um future como juvenil do que como profissional. Acho que a dificuldade é pegar às vezes uns adversários muito experientes. Tecnicamente, no juvenil o nível pode ser até melhor, mas nos futures o jogo é muito mais encardido de se ganhar.

Zormann: O grande desafio é lidar com essa pressão: agora sou profissional, este é meu trabalho. Na época de juvenil você perdia para um jogador bem ranqueado e não importava tanto como agora. Às vezes você joga com um cara bom, mas que o ranking não é tão bom e você se pressiona para ganhar e isso acaba te atrapalhando, cria uma certa pressão de resultados. Tem também a expectativa de querer passar por essa fase dos futures e ir para os torneios maiores.

Qual a importância que tem a confiança no desempenho dentro de quadra?

Matos: A confiança é importantíssima, porque treinar todo mundo treina. Mas na hora do jogo, quem consegue jogar mais solto e confiante se dá melhor. Quando você não está assim precisa ter bastante atitude, para tentar na luta buscar o melhore resultado.

Depois de muito tempo o Brasil está sem um top 100 na ATP e muita gente, através das redes sociais, se mostra pessimista com a nova geração. Como vocês encaram isso?

Zormann: Todos nós acabamos vendo comentários do pessoal, mas não chega a afetar tanto, é mais uma coisa do momento. O mesmo cara que pode falar mal agora porque a gente perdeu, se depois ganhar um torneio já te transforma no próximo Bellucci, no próximo top 100 do Brasil. Não dá para levar sempre a sério, mas claro que às vezes tem uma crítica construtiva para você refletir. O tênis é um esporte de longo prazo e que muitas vezes as coisas não acontecem de repente, é preciso ter paciência.

Vocês costumam receber muita mensagem através das redes sociais? Qual o contato que vocês têm com os fãs de tênis através delas?

Zormann e Matos: Essa é para o Orlando, que é o cara das redes.

Orlandinho: Gosto bastante de mexer em todas as redes sociais. Tem comentário positivo e negativo. É muito fácil, hoje em dia, de entrar em contato com qualquer pessoa. Eu acabo não falando com quem não conheço, mas quem me manda mensagem positiva eu respondo, pois são as pessoas que acreditam em mim e que dão valor ao meu trabalho. Quem está criticando não tem muito o que fazer, cada um tem sua opinião. O negócio é ficar tranquilo e não levar muito a sério.

Qual dos três é mais reconhecido?

Zormann: Aqui, ó.....Orlandinho Luz

Orlandinho: Não tem muito autógrafo, é mais algumas pessoas que aparecem e pedem para tirar foto.

Quais os jogadores que vocês mais gostam de ver no circuito?

Zormann: Eu gosto de jogadores que são mais parecidos comigo...

Orlandinho: Fala do Berlocq. Ele gosta de jogadores mais trabalhadores.

Zormann: ... gosto bastante de jogadores que jogam pontos mais logos. Para falar a verdade eu gosto muito de tênis como um todo, tanto simples como duplas. Acho que não tenho um jogador favorito.

Então você se inspira mais nos caras mais batalhadores, tipo um Ferrer?

Orlandinho: Ferrer é o ídolo máster dele.

Zormann: Sou um cara de momento, atualmente estou gostando bastante de ver o Goffin jogar. Ele joga um tênis bem moderno. Consegui vê-lo de perto, na Bélgica, e é um negócio que me surpreendeu bastante: sua velocidade de pernas e a maneira como ele dominava o ponto e entrava em quadra.

Orlandinho: Eu gosto muito de ver o Nadal. Claro que tem o Federer, que é uma lenda e não dá para se basear nele, porque é só ele que joga daquele jeito. Nadal é um cara que nos piores dias dele ganha jogos que se a gente não consegue nem se jogar o resto da vida. O mínimo dele é semifinal de Grand Slam, quando ele está mal ele cai na semi. É inspirador a maneira como ele luta mesmo quando não está dando nada certo, além de não mudar a postura jogando contra o 600 do mundo ou número 1.

Matos: Vou repetir o Orlando. Federer é ídolo máximo, só que é difícil imitá-lo. Ele joga muito fácil em cima da linha e é muito difícil jogar assim. O Nadal, no pior dia dele, luta muito e consegue reverter.

Neste ano tivemos o Next Gen Finals com um monte de regras novas. Como vocês viram estas mudanças que testaram lá?

Zormann: A regra do set até 4 é a mais idiota. Acho que as regras do tênis são quase perfeitas, todo mundo aprecia muito bem o jogo. Quem realmente está lá para ver o jogo não vai se importar de ficar mais meia hora ou até uma hora. Pelo contrário, muitas vezes você vê nos Grand Slam a galera torcer para o cara que está perdendo para ter mais jogo. Tem algumas que são boas. A questão do cronômetro na quadra eu acho legal.

Matos: Essa aí ajuda bastante.

Zormann: Porque muitas vezes você passa do tempo e o árbitro te dá um 'warning' e você passa a jogar em 12 segundos, quando tem mais 10 segundos, que parece pouco mais ajuda demais. A questão do 'let' eu não tenho um lado, mas acho que é legal não ter.

Matos: Eu não gosto, porque é meio que um erro no saque que pode beneficiar
Zormann: Nos torneios ATP a rede tem meio que um padrão de tensão, mas em future e challenger é muito diferente. Tem uns lugares em que você joga nos quais a bola bate na fita e morre do outro lado o tempo inteiro. Aí é um pouco diferente, mas em um padrão ATP outra coisa. Quanto ao treinador eu não sei exatamente, mas com certeza é uma coisa que ajuda demais os jogadores.

Vocês disseram que várias vezes não viajam com os técnicos. Então essa regra de conversar com o técnico não pode acabar prejudicando que não está com ele?

Zormann: Acho que sim, mas é uma coisa parecida com a do 'let', porque no nível de ATP 250 para cima acredito que todos os jogadores vão com o treinador. Só que em future e challenger você vê um número grande de jogadores sem treinador e isso faz diferença. Mesmo que você tenha um amigo para te aconselhar, o técnico sabe melhor o que é preciso nos momentos importantes, sabe abordar melhor as questões da partida.

Estou vendo que o Orladinho está mesmo conectado, não para de mexer no telefone. Ele fica sempre fica assim?

Matos: Ele nunca larga o celular, pode mandar um WhatsApp a qualquer hora que ele responde.

Orlandinho: Eu fico muito conectado mesmo, até porque minha namorada mora longe e acaba ficando mais do que o normal. Ela mora nos EUA e só tem apenas alguns períodos em que a gente pode se comunicar, é um regime apertado. Então tenho sempre que ficar ligado.

A amizade de vocês vai quanto além das quadras? Saem de férias juntos ou fazem outras coisas?

Orlandinho: Já coincidiu de todo mundo ir junto para a Disney. Estávamos jogando nos Estados Unidos no fim da temporada e fomos depois para lá. Foi bem legal, é um momento que tenho bem marcado aqui comigo. Eu nunca tinha andado de montanha russa.

Zormann: Os dois aqui (apontando para Matos também). Depois, no final da viagem, eles estavam como loucos andando direto.

Orlandinho: Passamos medo. Na primeira eu entrei sem querer. Estava chovendo, fechou um monte de coisa no parque e aí a gente entrou em uma da múmia, que eu achei que era uma casa mal-assombrada e não uma montanha russa. Quando entrei no carrinho e fechou o negócio eu li em um painel "a montanha russa mais rápida do mundo".

Zormann: E tinha umas criancinhas lá. Falei para eles: "Vocês vão perder para esses moleques. Olha o tamanho deles"

Quantos anos vocês tinham na época?

Zormann: Foi em 2015

Tivemos anos seguidos com bastante investimento no esporte, mas depois das Olimpíadas veio a recessão e o dinheiro meio que sumiu. Vocês sentem esta dificuldade? E o que têm feito para driblar esta situação?

Zormann: Isso reflete no fato de não ter muitos torneios no Brasil e no patrocínio para os jogadores, tanto na parte individual quanto no repasse da confederação, que enfrentou os seus cortes de verba.

Como estão de patrocínio atualmente?

Orlandinho: Nike e só.

Zormann: Eu e o Rafa estamos de Fila.

Mas fora isso tem algum outro apoio?

Matos: Tem mais apenas a ajuda da CBT para as viagens

Zormann: Financeiramente eu tive um apoio de uma empresa de engenharia aqui de São Paulo, mas acabou.

Orladinho: Eu também tive o apoio de uma empresa agrícola de Carazinho, mas veio a crise e não está mais. Cada vez está diminuindo mais.

Qual avaliação desta temporada e quais as metas para 2018?

Matos: Meu primeiro planejamento é aproveitar as férias, para depois fazer uma pré-temporada bem forte e quem sabe aproveitar este bom ano que tive para beliscar uns challengers em 2018 e dar um pulo no ranking.

Orlandinho: Eu vou jogar ainda mais uns torneios, vamos ver se não sai um bom resultado ainda para baixar um pouco mais o ranking. E na próxima temporada é começar jogando uns futures para tentar seguir melhorando e quem sabe mais na frente buscar uns challengers.

Zormann: Quero fazer uma ótima pré-temporada, que é importante para ficar de base no ano inteiro. A ideia e terminar o próximo ano mais perto dos challengers do que nos futures.

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