Instrução | Psicologia
Estreia: nervosismo pode ser bom
Por Gustavo Santos
02/09/2010 às 14h20
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Você já deve ter passado por situações de nervosismo/ansiedade que o tenham deixado com um frio na barriga, boca seca, coração acelerado. Essas situações podem ser agudas, como em um susto qualquer por uma fechada no trânsito, um tropeço no degrau da escada ou crônica como durante a expectativa para que algo aconteça como aquela sonhada promoção no trabalho. No caso dos tenistas, profissionais ou não, uma situação que certamente leva às sensações citadas é a estréia em um torneio.

Mas por que isso acontece?

Essas sensações são a resposta fisiológica do nosso organismo ao estresse, excitação/agitação e ocorrem pela estimulação do sistema nervoso autônomo (parte do nosso sistema nervoso que controla funções involuntárias como a respiração, batimento cardíaco, controle de temperatura, digestão, entre outras).
Em resposta a uma situação de estresse, nosso corpo dispara reações adaptativas com intenção de nos preparar para o perigo eminente. Esse perigo não precisa ser necessariamente físico, mas qualquer coisa que perturbe a homeostasia (ajuste do organismo às variações externas), como por exemplo, filas de banco, barulho dos vizinhos, medo de aranhas, etc.

Frente a esses "agentes estressores", uma estrutura do nosso Sistema Nervoso Central, chamada Hipotálamo, é ativada, estimulando o Sistema Nervoso Autônomo Simpático (SNAS) a liberar hormônios através do eixo Hipotálamo-Hipófise-Adrenais (EHHA). O resultado é uma ampla reação em todo o corpo, chamada Resposta ao Estresse ou Reação de Luta ou Fuga.

Um dos hormônios liberados nessa situação é o cortisol que atua, entre outros, no sistema imune, estimulação do metabolismo da glicose, alteração de humor e na resposta comportamental às circunstâncias ameaçadoras. Assim, em situações de imprevisibilidade que levam a estados psicológicos negativos, há aumento da liberação de cortisol, fazendo com que a concentração sanguínea desse hormônio funcione como um marcador de estresse.

Para entendermos melhor como e porque isso acontece precisamos voltar ao tempo de nossos antepassados. Durante a Pré-História, não raro, os homens da caverna se deparavam com situações onde tinham que escolher entre lutar ou fugir e disso dependia sua sobrevivência. Imagine se este Homo Sapiens se deparasse com um leão e em questões de segundos precisasse decidir entre tentar fugir e sobreviver ou enfrentar o animal, o que, apesar do perigo, poderia lhe render alimento por um bom tempo.

Qualquer que fosse a decisão tomada, este indivíduo passaria por uma atividade física de altíssima intensidade. Para tanto, o organismo teria que, antecipadamente, se preparar para esta situação. Assim a ativação do SNAS eleva a pressão arterial, a freqüência cardíaca, o fluxo sanguíneo para os músculos ativos, o metabolismo do corpo, a força muscular e a atividade mental (cognitiva), além de disponibilizar mais substrato energético (glicose) no sangue. A soma de todos esses efeitos permite que a pessoa desempenhe uma atividade física muito mais extenuante do que seria possível de outro modo.

No caso dos tenistas, obviamente guardada as devidas proporções, é isso que acontece. A expectativa do confronto, a incerteza da boa atuação, o medo do fracasso (derrota), são fatores que levam ao estresse psicológico e tem como resultado as reações da Resposta ao Estresse.

Um estudo feito na França, com 16 tenistas (8 homens e 8 mulheres) de nível regional com idade entre 19 a 25 anos teve como objetivo investigar o estado fisiológico e psicológico dos tenistas durante o dia da estréia de um torneio e a relação com o desempenho. Para tanto, os tenistas preencheram um teste psicológico para medir o nível de ansiedade e de autoconfiança e tiveram o cortisol de sua saliva avaliado em diferentes períodos.

Assim, segundo este estudo, o dia da estréia na competição induziu o aumento no nível de estresse, representando uma resposta antecipatória à competição. Outro resultado interessante foi que o nível de cortisol nos atletas perdedores, foi maior em todas as medições quando comparados com os atletas que venceram os seus jogos. Nos testes psicológicos os atletas perdedores também apresentaram maior nível de ansiedade e menor nível de autoconfiança.

Esses resultaram mostraram que quanto menor for a autoconfiança do atleta, maior será o estresse causado pela estréia, refletido pela maior concentração de cortisol. O aumento desse hormônio prepara o organismo para a demanda física e mental que virá a seguir e pode afetar o desempenho de forma positiva. Porém, elevações exageradas do cortisol prejudicam o desempenho por interferirem em alguns processos cognitivos.

Sendo assim, como controlar essa ansiedade para evitar que esta prejudique o desempenho?

O atleta precisa entender que o estresse e a liberação do cortisol, quando ocorrem de forma controlada, são importantes na preparação para a competição. Mesmo que a ansiedade tenha sido descrita como uma emoção negativa, a literatura tem mostrado que a ansiedade pré-competitiva pode ter efeito favorável ao desempenho. Além disso, a autoconfiança nem sempre está relacionada ao bom desempenho. Isso depende de como o atleta encara essas emoções.

Alguns autores dizem ainda que o mesmo nível de ansiedade pode ser encarado de forma positiva por alguns atletas e negativa para outros, em relação ao seu desempenho. Ou seja, existem atletas que lidam melhor com essa ansiedade pré-jogo, entendem que é algo natural e importante para que o organismo se prepare para o estresse causado pela competição, elevando o nível de atenção e potencializando suas capacidades físicas e mentais.

Se entendermos essas alterações psicofisiológicas como algo natural e indispensável em nosso desempenho, talvez possamos enxergá-las de maneira positiva. Especialistas dizem que dessa maneira, seríamos capazes de administrar e até controlar este estado de ansiedade somática e cognitiva. Um psicólogo do esporte pode ajudar a achar este caminho.

Recomendo o livro "Mental Tennis" do autor Vic Braden que trata o assunto de forma prática, clara e de fácil compreensão.


Referências

Filaire, E.; Alix, D.; Ferrand, C.; Verger, M. Psychophysiological stress in tennis players during the first single match of a tournament. Psychoneuroendocrinology, 34: 150-157, 2009.
Margis, R.; Picon, P.; Cosner, A.F.; Silveira, R.O. Relação entre estressores, estresse e ansiedade. Revista de Psiquiatria do Rio Grande do Sul, 25: 65-74, 2003.
Braden, V.; Wool, R. Mental Tennis - How to psych yourself to a winning game. 1a edição. 1993.
GUYTON, A.C.; HALL, J.E. Tratado de Fisiologia Médica. 10ª ed. Rio de Janeiro, Guanabara Koogan, 2002.

Gustavo Santos é preparador físico; Especialista em Bioquímica; Fisiologia; Treinamento e Nutrição Desportiva; pelo Laboratório de Bioquímica do Exercício (LABEX) da UNICAMP e Mestre em Biologia Funcional e Molecular na área de Fisiologia; pelo Departamento de Anatomia; Biologia Celular e Fisiologia e Biofísica do Instituto de Biologia da UNICAMP.
Trabalha com preparação física de tenistas há 6 anos; tendo trabalhado com tenistas número um do Brasil nas categorias 16 e 18 anos masculinos além do tenista Júlio Silva.

gubasantos@hotmail.com
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