Instrução | Aprendendo e ensinando
Vale a pena mudar um golpe? Ítens a considerar.
Por Henrique Terroni Filho
07/11/2011 às 14h20
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Sharapova teve de mudar saque por problema no ombro

Num passado recente, tudo que sabíamos do desempenho dos grandes tenistas profissionais nos maiores torneios do mundo, limitava-se a resultados no rodapé de paginas esportivas de algum jornal. Recursos da televisão, internet, etc? Nem pensar!

Quantos hoje viram o estilo do lendário Rod Laver? A fabulosa direita de Panatta? Ou mais recentemente a frieza de Bjorn Borg, o saque de Sampras, a garra de Agassi ou a famosa devolução de saque de Connors?

No Brasil, quantas meninas que almejam o profissionalismo sabem da perfeição do estilo saque-voleio da campeoníssima Maria Esther Bueno? A história e o desempenho destes e de outros grandes campeões está restrita a velhos filmes, alguns em branco e preto, de qualidade rudimentar.

Hoje, a tecnologia está presente em tudo. Assistimos aos grandes jogadores nos torneios pelo mundo, em tempo real e a cores. Câmeras espalhadas pela quadra captam em close até as expressões de concentração, angústia e euforia dos tenistas. Recursos tecnológicos de alta definição não deixam dúvidas, para quem está vendo o jogo pela TV ou nas quadras, através de telões, se uma bola foi boa a mais de 200 km por hora. As transmissões pelas TVs fechadas mostram o jogo na íntegra por três, quatro horas ou mais. Podemos gravar um jogo, assisti-lo várias vezes... e agora com os recursos de 3D. Afinal, vivemos a época da globalização, da TV de alta definição, do computador, da internet. Tudo maravilhoso, certo?...Em termos!

Esta tecnologia admirável, que nos põe em contato com o tênis de alto desempenho, algumas vezes complica o trabalho do professor! Estranho? Nem tanto! Ocorrem, no dia a dia, situações que chegam a ser cômicas! Um caso real, recente. O aluno, como de costume, chega para a aula. Após as primeiras trocas de bolas, percebo que algo está estranho, fora do contexto. Pergunto: "O que você está fazendo?"

A resposta é a que eu temia: "Sabe", inicia o aluno todo empolgado, "ontem assisti pela TV um jogo de profissionais e vi que ambos os tenistas usavam as duas mãos para bater a esquerda e resolvi mudar a minha esquerda. Brevemente, com sua orientação, meu backhand será indefensável!" Penso: "O que será que ele quer dizer com brevemente?"

É importante lembrar que quando iniciei no tênis, criança ainda, a esquerda era ensinada usando apenas uma mão. Usar as duas era um pecado, um erro técnico que os professores de imediato corrigiam. Mas a evolução do tênis através de novos pisos, iniciação mais cedo, alteração da biomecânica dos golpes, aperfeiçoamento dos equipamentos, etc, fez com que conceitos no passado dogmáticos, fossem revistos. Hoje não se pode dizer errado um fundamento usado pela maioria dos profissionais. Atualmente, ao ensinar a esquerda a um aluno, mostro as duas opções. Ele escolherá a que melhor se adapte.

Mas voltemos ao aluno. Observo: "Seu backhand com uma mão é muito bom! Há quanto tempo você o utiliza?" "Desde que comecei a jogar, há uns 20 anos", ele me responde. Inicio a explicação, necessária, tantas vezes proferida: "Se você realmente quer mudar sua esquerda, podemos iniciar o trabalho agora mesmo. Mas é importante que você saiba que, no tênis, a mudança radical de um golpe para quem, como você, o executa há muito tempo, não é uma coisa simples, rápida, da noite para o dia. Teremos de alterar empunhadura, preparação do golpe, tempo da bola, ponto de contato, etc, para depois pensarmos em regularidade e direcionamento - paralelas e cruzadas. Isto levará tempo. Enquanto isso você ficará praticamente sem esquerda. Seu tênis ficará restrito às aulas e não poderá jogar aos fins de semana, que você tanto gosta. Os profissionais que você viu executam o golpe com duas mãos desde criança, treinando várias horas por dia, durante anos. E então, vamos começar?"

O aluno, após alguns segundos pensativo, faz a pergunta que eu esperava: "Você acha que vale a pena?" Ao que respondo: "Sinceramente?...não!" E ele novamente empolgado: "Vamos reiniciar a aula. E pode "atacar" minha velha e boa esquerda com uma mão só!"

Este não foi o primeiro, nem o último caso em que um amador decide mudar sua forma de jogar, desenvolvida em muitos anos de prática, por ter visto algum profissional fazendo diferente. O resultado é que não fará o que sempre fez e nem o que deseja fazer.

O que aprendemos com isso? Parece-me claro! A mudança radical de um golpe, fundamento, somente deverá ser implementada se, pela mecânica errada na execução, estiver comprometendo o jogo como um todo. E esta é uma decisão que deverá ser tomada em conjunto com o professor. Mudar porque viu alguém fazendo diferente está totalmente fora da realidade. Por mais que tente, insista, o tenista não terá o golpe daquele "top" profissional que viu jogar. Deverá jogar seu "arroz com feijão" e divertir-se!

Dúvidas? Sugestões? hterroni@ig.com.br

Henrique Terroni Filho; 1ª classe da Federação Paulista; participou de competições oficiais nacionais e internacionais até meados de 1970. Professor de tênis para adultos e crianças há 25 anos. Autor do Programa "Tênis: terapia para crianças"; em conjunto com psicólogos. Consultor para clubes e academias nas áreas administrativa; financeira e técnica. Formação em Administração de Empresas; pós-graduação em Administração Financeira e Marketing; curso em Psicologia do Esporte.

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