Arquivo mensais:setembro 2014

Mulher no vestiário… pode?
Por Chiquinho Leite Moreira
setembro 24, 2014 às 8:54 pm

A derrota para o Brasil no playoff do Grupo Mundial da Copa Davis gerou um grande conflito entre os espanhóis. A polêmica começou com tom machista e chegou as acusações de incompetência. Tudo porque a Real Federação Espanhola de Tênis resolveu colocar uma mulher, a ex-tenista Gala León, no comando da armada espanhola.

O crítico mais feroz é justamente Toni Nadal. Começou falando que na Davis muitas coisas se resolvem no vestiário. Ora, não tenho nada contra olhar nos olhos para se conversar.

Na Espanha seja homem ou mulher existe o hábito de se começar uma frase com a palavra ‘macho’. Não importa também a que sexo esteja se referindo. É uma tradição, destas que surgem como ‘véio’ ou ‘meu’ no nosso português. Portanto, ninguém ficaria surpreso se os jogadores conversassem com a treinadora falando “macho que horas comienza la practica”.

Entre o ‘macho’ e o incompetente, Toni Nadal e Gala León travaram uma batalha em rede nacional de rádio na Espanha. O treinador não se definiu como machista. Mas sim como antiquado. Disse que a atual capitã da Davis não conhece sequer o 40. do ranking masculino. Para isso, usou sua própria experiência. Confessou que conhece Serena, Sharapova e mais umas duas ou três jogadoras, mas nem sabe quem é a 20a. da WTA. Por isso, afirmou que Gala León não tem condições de assumir o posto de capitã. Sugeriu nomes como os de Sergui Bruguera ou Juan Carlos Ferrero.

Ora, vamos ser sinceros. Para a Espanha vencer um confronto de segunda divisão da Davis não precisaria assim de um treinador revolucionário. O que falar para Rafael Nadal… “olha vamos jogar com garra. Corra em todas as bolas, devolva tudo e quando sobrar uma chance defina com seu forehand”. He he he estou ficando bom nisso hein? Ora… até o zelador do meu prédio se daria bem como capitão contando com Nadal, Ferrer e Cia em confronto de segunda divisão.

O que a Real Federação Espanhola busca com Gala León é comprometimento. Alguém que convoque os melhores jogadores e evite um vexame como foi a derrota para o Brasil. Ela vai estar aí para salvar a pele dos dirigentes. Afinal, presenciei uma cena marcante no Ibirapuera. Moyá dando entrevista e um cartola roendo as unhas de raiva. Com aquela expressão do que ‘eu vou falar lá em casa’.

Moyá não exigiu a presença dos principais jogadores. Bruguera ou Ferrero também respeitariam a vontade dos ex-colegas. E como ficaria a equipe espanhola da Davis então?

Essa história de ‘as coisas se resolvem no vestiário’ trata-se de reserva de mercado. Aliás, no futebol brasileiro uma repórter tornou-se pioneira ao cumprir sua função com dignidade, olhando nos olhos nas entrevistas, jamais se vulgarizando.

Aliás, o US Open, em Nova York, retrata bem situações comuns que podem transformar-se em constrangedoras, dependendo do caráter de cada um. Entre os americanos entrar no vestiário é uma tradição. Seja no basquete, beisebol, futebol. Por isso, alguns anos em Flushing Meadows a credencial com a letra B da mídia dava acesso aos vestiários. O clima sempre foi amistoso. Lembro até que à entrada existe uma sala de estar. Frutas, comidinhas e, certa vez, até mesmo uma máquina de chopp. É isso mesmo… resultado do patrocínio de uma famosa marca de cerveja. O Pardal deve lembrar de algum happy hour. Tudo tranquilo, simples e respeitoso como devem ser relacionamentos profissionais.

Tudo caminhava bem, até que um idiota do Leste Europeu resolveu entrar no vestiário das mulheres. Não se limitou a ficar na sala de estar. Avançou bobamente para os chuveiros, com olhos para todos os lados. Ora, o que determina a competência são as atitudes e não o poder ou não entrar no vestiário. Afinal, mulher no vestiário… pode?

 

 

Agradavel surpresa
Por Chiquinho Leite Moreira
setembro 15, 2014 às 6:02 pm

Agradavel surpresa! A exclamação veio de um ex-jogador de Copa Davis e hoje um dos maiores promotores e amantes do tênis do Brasil. Esperto, como sempre, soube definir em apenas duas palavras todo o cenário deste fim de semana no Ginásio do Ibirapuera. Afinal, quem poderia esperar a Espanha com um time de terceira linha. Ainda assim, quem poderia esperar atuações tão brilhantes como as de Thomaz Bellucci.

Esta vitória do Brasil pode marcar uma nova era na carreira de Bellucci. Afinal, já no primeiro jogo de simples na sexta feira revelou uma força mental impressionante para superar diversos obstáculos. No domingo repetiu a dose. Assumiu a responsabilidade e ainda teve a dignidade de não se colocar como herói, o salvador da pátria. Afirmou que foi uma vitória da equipe. E não resta dúvida de que todo time teve influência direta na atuação do tenista. E ele também soubre reconhecer que o espanhol Roberto Bautista Agut não esteve num bom dia e, em alguns momentos, não mostrou o seu melhor tênis.

Jamais se discutiu o potencial de Bellucci. Faltava a ele um momento mágico como este fim de semana. Reencontrar-se com a torcida e com as vitórias são ingredientes que podem motivar ainda mais o tenista a buscar um lugar entre os 30 primeiros do ranking.

Para a Espanha o rosto aflito de um dos dirigentes da federação espanhola revelava a atual situação. Ouvindo a entrevista do técnico Carlos Moya e dos jogadores ele ruia as unhas, com aquela preocupação do “que vou falar lá em casa”.

Moya não culpou as ausências. Preferiu elogiar o time brasileiro em especial as atuações de Thomaz Bellucci. Mas voltar para seu país com o peso de ter rebaixado a armada espanhola é uma ferida que ele não merecia em sua carreira.

A vitória mental de Bellucci
Por Chiquinho Leite Moreira
setembro 13, 2014 às 2:10 pm

Muito se fala da atitude de Thomaz Bellucci em quadra. Mas nesta sexta-feira ele precisou de muita força mental para vencer  Pablo Andujar e empatar o confronto Brasil e Espanha por 1 a 1. O criticado tenista precisou passar por provações e soube enfrentá-las com dignidade.

O clima estava quente, atmosfera pesada depois da derrota de Rogerio Dutra Silva para Roberto Bautista Agut. Aliás vou abrir um parêntese… não vejo como uma vergonha a atuação do brasileiro, sim decepcionante. Não se pode agora atirar pedras em quem sempre deu sangue em quadra, jamais fugiu de um compromisso e não tem culpa dos critérios utilizados para sua convocação, só deve ter orgulho de ter sido o escolhido, justamente pela sua dedicação. Outro detalhe: há mais de um mês os envolvidos já conheciam a lista de João Zwetsch.

Para Bellucci a vida também não está nada fácil. Agora, salvar match point, virar o jogo e ainda ter cabeça para não se desesperar com um tremendo erro de arbitragem mostra que o nosso número 1 esteve forte em todos os aspectos.

O supervisor da ITF tomou uma atitude drástica ao mandar repetir um ponto já finalizado. Andujar cometeu dupla falta. Perdeu o game e já estava indo para seu lugar descansar, quando, sob a justificativa de que o barulho da torcida atrapalhou o tenista o ponto deveria ser repetido. O espanhol acabou ganhando o game que já deveria estar no bolso do brasileiro.

Gostaria de ver a atitude do supervisor se Bellucci se recusasse a disputar novamente o ponto, alegando que o juiz de cadeira já havia ‘cantado’ vitória sua. O supervisor teria de desclassificar o Brasil e encerrar o confronto ainda em sua primeira rodada. Será que ele teria coragem de enfrentar bilheterias vendidas, direitos de transmissões etc e tal?

O melhor é que Bellucci soube enfrentar tudo isso para manter as esperanças de o Brasil superar esta Espanha que, se não trouxe seus melhores jogadores, está usando toda sua influência para não voltar pra casa rebaixada.

Cilic vs Nishikori: foi bom para o tênis
Por Chiquinho Leite Moreira
setembro 9, 2014 às 8:16 pm

A julgar pelas imagens de Zagreb e de Tóquio, com uma multdidão nas ruas à frente de telões, num clima de Copa do Mundo, pode-se dizer que a inédita final do US Open fez um bem para o tênis. Os Slams – assim como a Davis e os Olímpicos – são eventos da ITF, a Federação Internacional de Tênis. E uma das atribuições mais importantes da entidade é o desenvolvimento do esporte nos quatro cantos do planeta.

A presença de um asiático na final masculina de um Grand Slam premia os olhos voltados para o Oriente do circuito da ATP. Há alguns anos, países como Japão e China investiram em grandes competições. Criou-se uma cultura pelo esporte. Há muitos anos, poucos colegas japoneses viajavam pelo circuito. Um deles tornou-se amigo por um motivo dos mais justificaveis. Noru Tanaka fala português com sotaque de Portugal. Ele cobria provas de atletismo e namorou uma maratonista. Nunca revelou-me o nome. Mas desconfio que tenha sido Rosa Mota. Em nossas conversas descobriu que eu gosto de comida japonesa. E sempre que nos cruzamos nos torneios, ele levá-me a um japonês para jantar. Curioso que, apesar de sua habilidade com o haschi, prefere o que diz ser tradição de seu país e algumas especiarias come com as mãos. Repito o gesto e assim apanho menos dos palitinhos.

Num destes encontros revelou-me que no Japão o tênis era esporte para mulheres. Quase como era o vôleio aqui no Brasil. A contar pelo sucesso de Kei Nishikori, certamente, este preconceito acabou e o número de praticamentes cresceu.

Na Croácia, Marin Cilic mantém a tradição de excelentes sacadores. Um detalhe que chama atenção é o atual jeito de lançar a bola para o saque. Bate no momento zero, ou seja, na altura em que a bolinha encontra-se em peso neutro, justamente entre o parar de subir e começar a descer. Uma habilidade vista nos tempos de seu atual treinador, Goran Ivanisevic.

Enfim, seja com Nishikori, ou com este discípulo de Ivanisevic, o tênis mundial ganhou novas cores, novas caras e manteve velhas técnicas.

O papel dos técnicos nesta final do US Open
Por Chiquinho Leite Moreira
setembro 7, 2014 às 4:49 pm

Que final é esta hein? Estranha aos olhos do torcedor. Os finalistas transformaram-se em vilões das esperanças de Novak Djokovic e ainda mais do 18. troféu de Grand Slam de Roger Federer. Por mais que se possa lamentar, ninguém, porém,  duvida do talento de tenistas como Kei Nishikori ou Marin Cilic. O segredo está em saber tirar proveito do potencial destes jogadores e faze-los jogar tudo que sabem. Aí entra o papel dos técnicos.

Um fato curioso neste US Open aconteceu nas semifinais. Nos boxes dos jogadores estavam nomes como Boris Becker, Stefan Edberg, Michael Chang e Goran Ivanisevic. Todos grandes do tênis, ganhadores de Grand Slam. Não tenho como não destacar o papel de Ivan Lendl na carreira de Andy Murray. Fez a diferença. Assim como repetiu-se com Nishikori e Cilic.

Para quem não se lembra de Michael Chang, que eu chamava de ‘Chinesinho’, nos tempos do Estadão, ele foi um dos mais precoces campeões de Grand Slam. Ganhou Roland Garros com apenas 17 anos. Baixinho, embora o livro da ATP desse sua altura perto dos 1,80 metro, compensava a pequena estatura com um invejável trabalho de pernas. Era também arrojado. Como então entender seu saque de ‘colherada’. É isso mesmo sacou por baixo diante do gigante Ivan Lendl nas semifinais de Roland Garros, para vencer o jogo e desafiar Stefan Edberg na decisão.

Seu enorme sucesso não impediu que ele caísse quase no esquecimento. A ponto de em 2010, a USTA (a Associação Americana de Tênis) organizar um desafio caça níquel de Chang com Todd Martin em pleno US Open. O Chinesinho estava prestes a casar e ficou feliz com a ‘homenagem’.

Goran Ivanisevic, assim como Chang, também só ganhou um Slam – se é que se pode dizer só… para um Slam, mas serve como ponto de informação apenas – , mas o croata ficou milionário. Sempre foi muito talentoso e, apesar de seu bom jogo de fundo, ficou famoso pela potência de seu saque. Certa vez em Wimbledon reclamavam da pouca duração dos pontos. Quase não havia trocas de bolas. Saque e voleio e pronto. Perguntado sobre o assunto e, em especial, aos apelos dos torcedores, o croata respondeu: “se querem me ver jogar organizem uma exibição… aqui no campeonato vou sacar forte o primeiro e o segundo”, disse o tenista que também marcou era pelo número de aces de segundo saque.

Estas histórias servem para exemplificar de como é importante a experiência adquirida nos Slams. De como estes torneios têm suas peculiaridades. Tanto Chang como Ivanisevic viveram momentos em que falharam nestas competições. Mas também aprenderam a triunfar. E, o mais importante, levaram a seus pupilos um ingrediente imprescindível para superar os grandes adversários: o acreditar. Assim como fez o baixinho Chang a vencer Lendl… de colherada.

Do ‘allez Monfils’ ao ‘go Federer’
Por Chiquinho Leite Moreira
setembro 5, 2014 às 5:59 pm

O título do blog ‘allez Monfils’ já estava pronto, mas não escrito. Acredito que, assim como muitos, na hora ‘h’ o RF iria imperar. A ameaça foi forte, um grande susto para os fãs do suíço, nos dois match points. E nesse momento se o resultado tivesse ido para o outro lado não seria injustiça. O francês jogou um tênis encantador, desses de encher os olhos e levar a disputa a tons épicos, inesquecíveis.

A atmosfera da Arthur Ashe estava dentro deste clima. As sessões noturnas têm esta características. Ainda mais num jogo de tamanha qualidade, habilidade e genialidade. Digo isso dos dois tenistas.

Essa torcida, como reconheceu Federer, o ajudou a levantar o jogo. Ele afirmou que sentiu o apoio vindo das arquibancadas, embora aparentemente também havia muita gente do lado do francês. Afinal, não se pode negar que Monfils tem estilo. E um lindo jeito de se jogar tênis. Exigiu o máximo de seu adversário.

Justamente por todo esse trabalho dado por Monfils, Roger Federer deixou claro que este US Open pode ser o seu 18. troféu de Grand Slam. Não se pode esquecer que terá nas semifinais um grande sacador e um tenista em boa fase, como Marin Cilic.

Há ainda detalhes que devem conter a euforia dos inúmeros fãs de Federer. Tanto na rodada das semifinais, como na da final, não há sessão noturna. Até agora, o suíço praticamente só jogou à noite. Na partida em que deveria enfrentar o calor do alto verão nova-iorquino, choveu e sua partida caiu para o anoitecer.

É preciso lembrar também que do outro lado da chave ainda está o número um do mundo, Novak Djokovic, que no super saturday cruza com o brilhante Kei Nishikori.

Um outro detalhe para apimentar ainda mais a rivalidade é que se Federer ganhar o US Open roubará de Rafael Nadal a vice-liderança do ranking. Não acredito que o suíço esteja pensando nisso. Mas sim, e apenas, no 18.o Slam.