Arquivo mensais:abril 2014

E surge o Nadal asiático
Por Chiquinho Leite Moreira
abril 28, 2014 às 5:45 pm

A imprensa espanhola, a torcida e talvez fãs de todo o mundo ainda estão a procura de explicações para as duas recentes derrotas de Rafael Nadal. Mas em meio a tantas especulações o que se viu em Barcelona foi o surgimento de uma versão asiática de Nadal, o japonês Kei Nishikori. É claro que se dever guardar as devidas proporções nesta irônica comparação. Só que não há como negar que fez história ao transformar-se no primeiro tenista de seu país a conquistar um título num torneio de saibro da qualidade do ATP 500 Conde de Godó. Isso confirma que as novas caras, como aí se inclui Grigor Dimitrov, podem fazer estragos este ano em Roland Garros.

Nadal, o original, revelou-se tranquilo com os últimos acontecimentos. Disse com toda a honestidade que não vê motivos para se fazer um drama por causa de duas derrotas. Será? Pergunto eu…pois aconteceram em dois de seus domínios, Monte Carlo e Barcelona. Guga Kuerten está mesmo certo em seu palpite de que o tenista espanhol não está no seu melhor, como contou-me em recente entrevista concedida em Florianópolis.

A necessária confiança para voltar a levantar troféus, Nadal pode já buscar em Madri. Não vejo, porém, condições tão boas como as de Barcelona e Monte Carlo. Na capital espanhola há altura e o saibro, dizem, é muito rápido.

Ainda assim, Nadal tranquiliza a todos com declarações complacentes. Disse que chegará Paris com a mesma expectativa dos últimos anos, apesar das recentes derrotas.

Nesta briga por Roland Garros surgem outros nomes, como o de Nishikori. Mas quem apostaria todas as fichas nas novas caras? O saibro não é a superfície ideal para as zebras. Além disso, nos jogos em melhor de cinco sets as surpresas se tornam mais difíceis. Costumam aparecer na primeira semana, nas finais são mais raras..

 

Nadal: “nada é eterno”
Por Chiquinho Leite Moreira
abril 21, 2014 às 8:52 pm

Rafael Nadal chegou a Barcelona para o tradicional torneio Conde de Godó com uma certeza. A de que nenhum reino dura para sempre. E assim como na história da humanidade também no tênis “nada é eterno”.

Este clima filosófico envolveu a entrevista de Rafael Nadal, a primeira em seu país, depois de perder nas quartas de final do Masters de Monte Carlo. Chegou em casa com um sentimento estranho. Teve de falar de derrota num período do ano que festejava títulos e excelentes campanhas. Afinal, nos últimos anos reinou no Principado de Monaco ao participar das últimas nove finais, com oito troféus.

Este Nadal de hoje mantém o seu discurso comedido, mas não esconde as rugas na testa. Ao meu colega Angel Riguera fez boas argumentações. Disse que qualquer um pode perder para David Ferrer, um excelente jogador, mas não entregou todos os créditos ao compatriota. Afirmou que não jogou bem. E o pior está precisando reencontrar um caminho. “Está me faltando um extra de competitividade ‘, afirmou. “Desde a decisão do Aberto da Austrália estou sem confiança nos momentos importantes. Ganhei o Rio, fiz a final de Miami, mas quero encontrar novamente o meu caminho”.

Declarações importantes para um momento em que o tênis do espanhol tende a brilhar intensamente. O rei do saibro sempre sentiu-se cômodo na temporada europeia de torneios que antecedem a Roland Garros. E, sem falar de lesões, como será sua chegada a Paris?

Monte Carlo mostrou ingredientes novos para esta temporada de saibro. Nadal fora da final. Novak Djokovic com lesão e ainda em busca de seu primeiro título de Roland Garros, o único Slam que não conquistou;. Roger Federer ganhou um lugar na decisãol. Ganhou um set, mas viu Stanislas Wawrinka selar sua entrada entre os cachorros grandes.

Este atual cenário, também com a chegada de novas caras, como Grigor Dimitrov, Key Nishikori, a possível volta de Andy Murray, dá nova perspectiva para a temporada europeia. Difícil acreditar em surpresas. Mas pelo primeiro passo, em Monte Carlo, os torneios de Madri e Roma criarão espaços enormes para especulações.

Como disse Nadal “nada é eterno” e o reino do saibro está em jogo.

O reconhecimento ao talento de Guga
Por Chiquinho Leite Moreira
abril 11, 2014 às 3:10 pm

Mais do que o palpite de Gustavo Kuerten, o Guga, de que este ano Rafael Nadal não leva o título de Roland Garros, uma das mais significativas revelações do tricampeão de Roland Garros em recente entrevista em Florianópolis tratou-se de um dos capítulos mais importantes de sua gloriosa e atraente história: o confronto com a Espanha pela Copa Davis, em Lérida, em 1999. No ano anterior, Guga havia conquistado o seu primeiro Roland Garros, mas o verdadeiro reconhecimento ao tenista brtasileiro só consolidou-se nesta competição.

A história veio em tom de depoimento. Uma constatação de fatos concretos, imprevisíveis, que se tratou de um divisor de águas na carreira deste brasileiro. Para entrar nesta atmosfera, com todas as suas nuânces, é preciso voltar ao mesmo confronto entre Brasil e Espanha, só que em Porto Alegre, em 1998.

O torcedor brasileiro vivia um período de euforia. Era o início da “Guga mania” com a então recente conquista de Kuerten em Roland Garros. Com o campeão em quadra, o Brasil tinha sim chances diante da forte armada espanhola de Carlos Moya e Alex Corretja. Só que a recepção dada aos espanhois não foi das mais amigáveis. Usou-se de algumas artimanhas, que particularmente não aprecio. Vestiário sem água quente, ou completamente sem. Quadra de treino com a rede fora do padrão. Barulho de operários justamente no horário dos visitantes em prática. Enfim, coisas que podem ser justificadas ao acaso. Mas não foi esta a interpretação dos tenistas espanhóis. Mas ao final vieram e venceram.

Justamente um ano depois, o sorteio da Davis reservou um novo encontro entre Brasil e Espanha, só que desta vez na cidade de Lérida, em região próxima a Barcelona. Dá para entender que o clima não era dos melhores. Até na sala de imprensa tive de ouvir calado provocações, incluindo funcionários como instalador de linhas de telefonia. Nenhum espanhol era capaz de acreditar num outro resultado que não fosse a vitória.

No primeiro dia do confronto Guga bateu pela primeira em sua carreira Alex Corretja: 3 a 0, parciais de 63, 64 e 75. Na dupla, ao lado de Jaime Oncins, os dois brasileiros superaram momentos difíceis e fortes provocações da torcida para realizarem uma façanha memorável em cinco sets. No domingo, Kuerten enfrentaria o então número um do mundo, Carlos Moya. Quadra cheia e um admiravel show de tênis daquele que viria a ser o tricampeão de Roland Garros.

Na vitória sobre Moya por 62, 64 e 61, o jogo apresentado por Guga esteve tão fascinante que, mesmo em clima de revanche, os espanhois transformaram a torcida pelo seu tenista por olhos de admiração ao bom tênis do brasileiro. Um reconhecimento ao talento. Até então, como confessou Kuerten na entrevista em Florianópolis, ele não tinha ainda a consciência de toda sua capacidade. Passou a encontrar com frequência um elevado nível técnico. Um jogo da mais profunda arte, de dom divino, digno de um gênio da raquete.