Arquivo mensais:abril 2013

Déjà vu Roland Garros
Por Chiquinho Leite Moreira
abril 29, 2013 às 9:22 pm

Quem não teve aquela curiosa sensação de já ter vivido um momento ou de ter estado num certo lugar antes. O Déjà vu faz parte de nossas vidas. E com essa ideia, a partir desta segunda até a sexta-feira antes do início de Roland Garros, o Bandsports vai exibir todas as noites, a partir das 20 horas, 20 clássicos do Aberto da França.

Os jogos estão num compacto de 26 minutos, com edição da Federação Francesa de Tênis e repleta de emoção. A série começa com uma das maiores rivalidades da história do tênis: Roger Federer vs Rafael Nadal, na final de 2006.

Outras rivalidades marcantes também estão nesta série de exibições. Para quem nunca viu, esta é a oportunidade de ver um jogo entre John McEnroe e Ivan Lendl. Neste encontro, o temperamental e explosivo americano abriu vantagem de 2 sets a 0. Mas Ivan, o terrível, virou o jogo.

Nessa linha de nunca vi e quero conhecer será apresentado também o último título de um tenista francês em Roland Garros. Aconteceu em 1983. O cinematográfico Yannick Noah venceu a final diante do sueco Mats Wilander. Noah jogava com uma plástica de dar inveja. Agilidade e estilo incomparáveis.

Tem muita coisa bacana também no feminino. Como deixar de ver o jogo entre Martina Hingis e Steffi Graf. A tenista suíça tinha o jogo nas mãos e acabou perdendo. Fez cena. Chorou, foi para o vestiário antes da cerimônia de premiação e quando já se esperava que ela não voltaria mais, entrou em quadra abraçada pela mãe. Steffi, que conquistou alí o seu 22.o Grand Slam, reconhece no discurso de agradecimento que jamais soube em toda a história que uma alemã pudesse ser tão aplaudida como aconteceu naquele dia em Paris. Emocionante.

Há jogos mais recentes, como, por exemplo, a única derrota de Nadal no torneio, diante de Robin Soderling. Ou mesmo o único título de Roger Federer em Paris. E também outros bem mais antigos, como o Bjorn Borg e Ivan Lendl, ou mesmo o 18. Grand Slam de Chris Evert diante de Martina Navratilova. E é claro, a série termina com exibição de Guga Kuerten.

O Golpe de Mestre de Djokovic em MC
Por Chiquinho Leite Moreira
abril 21, 2013 às 10:43 pm

Para quem dizia que estava em dúvida se jogaria ou não, num clima de suspense até o último minuto, sair com o título foi uma boa jogada de Nova Djokovic, em Monte Carlo. É muito comum um tenista tirar das costas o peso da responsabilidade, aliviar a pressão, mas o sérvio revelou-se um mestre.

O ‘golpe de mestre’ ou a grande jogada, fazendo lembrar o maravilho filme estrelado por Paul Newman e Robert Redford, teve sua primeira cartada logo na partida de estreia diante de Mikhail Youzhny. Djokovic parecia estar sofrendo com a lesão no tornozelo. Ficava a questão: será que vai suportar todo o torneio?

Aos poucos e com aquela conversa de “a cada dia sinto-me melhor” Djokovic guardou o o grande momento para a partida válida pelo título. Mesmo em condições desfavoráveis, numa quadra pesada, ao nível do mar, entrou em cena a cartada final. Sem sequer lembrar que algum dia torceu o tornozelo mostrou toda a sua categtoria, talento e eficiência. Exibiu um tênis de encher os olhos, digno dos sonhos. Só não levou o primeiro set aplicando um pneu por pura falta de sorte e porque do outro lado da quadra estava o incansável espanhol Rafafel Nadal.

Como o próprio Djokovic disse, não poderia ter tido um melhor começo de temporada europeia de quadras de saibro. Ele que vive em Monte Carlo e frequenta o clube local deu um passo importante para o seu maior desafio: vencer em Roland Garros e completar a sua coleção de trofeus de Grand Slam. Jogo e talento para isso ele tem… e não lhe falta também jogadas estratégicas.

Nadal arrebatador
Por Chiquinho Leite Moreira
abril 18, 2013 às 6:24 pm

É simplesmente arrebatadora a fase de Rafael Nadal. O tenista seduz a todos pela forma como voltou ao circuito. Sua luta tanto dentro como fora das quadras se equiparam. Cativante vê-lo brilhando depois de tantas e tantas dúvidas no período de recuperação da lesão do joelho.

Em Monte Carlo passou fácil pelas duas primeiras rodadas. Já ganhou oito troféus e caminha para mais um. Por isso, não há exageros em dizer que ele é rei no Principado. São 44 vitórias seguidas, até agora.

Apesar de já estar há 16 partidas sem perder, Nadal mantém-se cauteloso. Nem os títulos do Brasil Open, Acapulco e, o mais imporessionante, em Indian Wells, alteram seu comportamento. Está cuidadoso nas declarações e nega-se a falar de favoritismo, esquiva-se de questionamentos neste sentido.

Quando esteve em São Paulo para o Brasil Open, na entrevista que me concedeu para o Ace Bandsports, queria focar em Roland Garros. Pediu-me para não enfatizar o assunto, pois estava ainda no início de uma recuperação e pensar num Grand Slam parecia algo distante naquele momento. Mas, embora continue fugindo do favoritismo, não restam dúvidas de que seu reinado sobre a terra batida tende a permanecer.

Seu adversário pelas quartas de final é um tenista perigoso: o búlgaro Grigor Dimitrov. Este jogador tem uma história curiosa. Ainda nos tempos de juvenil alguns agentes viram nele uma grande promessa. O búlgaro assinou um belo contrato, mas, ao meu ver, ainda não vingou. Muitos dizem que ainda irá brilhar.

Esse tal do Djokovic, hein…
Por Chiquinho Leite Moreira
abril 17, 2013 às 8:16 pm

Não tem nada a ver com aquela música da Rita Lee… Esse Tal do Roque Enrow…mas roubando a expressão esse tal do Djokovic é mesmo surpreendente. Quando ele tomou 5 a 1 no primeiro set de Mikhail Youzhy, lá veio a idéia: que marketeiro é esse cara. Fez toda a encenação se joga ou não. Postou vídeo na Internet para dizer que disputaria o torneio e justificar sua residência no Principado. De repente, achei que ele estaria tirando a vaga e a chance para um outro tenista levantar uma grana e acumular pontos em Monte Carlo.

Só que é aquela história… esse cara se recusa a perder. Virou o jogo com 46, 61 e 64. Não jogou bem, é verdade, mas venceu. Difícil dar um prognóstico sobre seu futuro nesse primeiro Masters 1000 das quadras de saibro. Mas ficou clara sua intenção de que este ano está disposto a qualquer sacrifício para levantar o seu primeiro troféu em Roland Garros.

Acho que também dá para ficar contente pelo fato de esta vitória ter sido uma boa resposta a fofoca feita pelo francês Julien Benneteau. Depois de treinar com Djokovic, ele espalhou para os jornalistas franceses que o sérvio não estava se movimentando bem. Ora, os treinos devem ser guardados entre os jogadores. Por isso, quando ‘jogam sets’ o bom senso diz que não se deve sair por aí se gabando em caso de vitória, revelando a parcial. Mais uma vez ficou claro que treino é treino e jogo é jogo.

Surpreendente também é – para seguir na mesma linha – esse Rafael Nadal. Ficou sete meses sem jogar e voltou arrebentando. Saiu de Miami e na estreia de Monte Carlo venceu o australiano Marinko Matosevic por 61 e 62. A vingança de Marinko veio num episódio que o espanhol não se irritou, levou na esportiva, ao ver que seu adversário derrubou as garrafinhas que ele as coloca tão bem organizadinhas no chão.

Monte Carlo il dolce far niente
Por Chiquinho Leite Moreira
abril 12, 2013 às 5:50 pm

Primeiro Masters 1000 no saibro, Monte Carlo é conhecido como  Le Grand Début de la Saison sur Terre Battue. É, sem dúvida, a parte mais charmosa de todo o circuito. O clima da primavera europeia é agradável, os locais atraentes e as lembranças ainda melhores, por tudo que Guga Kuerten – e também Fernando Meligeni – fizeram em Monaco, Roma. Barcelona e na época Hamburgo, agora Madri.

O torneio de Monte Carlo tem enorme tradição (em 2006 completou cem anos). Não fosse por isso talvez estivesse ameaçado de perder sua condição de Masters 1000. Suas instalações estão longe do gigantismo dos Masters americanos como Indian Wells, Miami ou Cincinnati, até mesmo da Caja Magica de Madrid. Na verdade, o Principado é tão pequeno que o Country Club de Monte Carlo fica em território francês, em Roquebrune Cap Martin. De onde se tem uma deslumbrante vista do azul intenso do Mar Mediterrâneo. Do terraço do clube, de algumas janelas da sala de imprensa, ou das cadeiras em um dos fundos da quadra central, entre um ponto e outro, pode-se observar os luxuosos iates ao sabor das ondas no mais puro e clássico “dolce far niente”.

Para os tenistas esta tradição e ambiente são também importantes. Segundo o site oficial do torneio Novak Djokovic e Rafael Nadal irão jogar, apesar de ambos estarem sofrendo com dores e lesões. Djoko é residente. Aliás costumo dizer que se todos os esportistas que vivem no Principado fizessem parte da equipe olímpica, Mônaco facilmente superaria os Estados Unidos ou a China na lista de medalhas.

Existe uma verdade para quem escolhe o paraíso fiscal de Mônaco como residência. Não basta apenas comprar ou alugar um imóvel para ter os benefícios. É imprescindível usar a moradia. Dizem que há um rígido controle de frequência, observado nas contas de luz e tudo mais que comprove a moradia. Assim, não é difícil encontrar gente famosa andando tranquila, sem ser incomodada..

O monaguesco (nome também dado a lingua original) tem este tom discreto e cordial. Ninguém ousa estacionar na vaga do outro, pois sabe que não vai sobrar opção ao dono. Dizem também que no caso de um acidente de trânsito, a princípio a culpa é do estrangeiro. Sei lá… acho que isso já é exagero e faz parte do folclore. Mas, o melhor é tomar cuidado e respeitar as normas locais, não incomodar ninguém.

Há um cultuado respeito ao principe. Acho até que já contei esta história por aqui. Mas é tão hilária que vale repetir. Estávamos (um colega residente na vizinha Nice e eu) convidados para a festa dos jogadores, É o grande dinner show, com a presença do principe Albert. Pegamos o transporte do torneio para irmos até o meu hotel, em Beusoleil, para colocar paletó e gravata. O carro de meu colega ficou no estacionamento improvisado para o tênis, no meio de uma via, pois não há espaços apropriados. Ao chegarmos para o jantar, ele, que é extremamente cuidadoso quando está em Monaco, lembrou que precisaria pegar o carro. Poxa o que fazer? Fomos até o local já lamentando que teríamos de ir longe para deixar o veículo e voltar a pé. Mas, de repente, depois de uma rápida conversa com os guardas, fui surpreendido pela informação de que estávamos autorizados a deixar o carro onde estava parado. Fiquei curioso, pois não entendi o que falaram em francês. Meu colega contou-me, então, que avisou que iria ao jantar do torneio, onde estaria o principe Albert. A resposta foi:  “se vocês vão a um local onde está o principe, são amigos dele. Portanto, podem deixar o carro”.

Horas depois de um belo jantar, um show do ainda novato, mas já divertido Novak Djokovic, que subiu ao palco, chegamos de volta ao improvisado estacionamento.´E lá estava o velho e surrado Fiat Uno escoltado por quatro guardas, com os outros carros tendo de desviar a direção. Ora… melhor do que ser rei é ser amigo do rei, ou no caso, do principe.

O sonho olímpico
Por Chiquinho Leite Moreira
abril 3, 2013 às 10:40 pm

Acredito que muitos dos que andam por aqui neste espaço – se não todos – sabem muito bem que a formação de um tenista profissional é peculiar. Diferente de outras modalidades. Não basta formar uma equipe e treinar. É imprescindível a participação nos circuitos da ATP e WTA e, mais do que isso, sucesso numa profissão em que o funil é verdadeiramente apertado.

Li um release do Guga Kuerten lamentando o fim do Projeto Olímpico. Não posso me ater às questões burocráticas, uso de verbas pela CBT etc e tal, pois como se sabe o tênis é peculiar e, por exemplo, viagens de tenistas nem sempre podem ser programadas como a de uma equipe de basquete, de vôlei, ou de futebol. Assim é mesmo de se lamentar o fim do apoio e, mais uma vez, tenho de concordar com o nosso tricampeão de Roland Garros.

Muita gente fala da excelência na formação de jogadores em locais como a academia de Nick Bollettieri. O espaço e a técnica usadas pela dupla Guga e Larri Passos, em Camboriú, é adquada ao tênis, à formação do atleta e o caminho certo para chegar ao profissionalismo com sucesso.

A palavra sucesso tem uma outra importância fundamental. Pois é claro que o Brasil terá um representante no torneio olímpico de tênis do Rio 2016. Por sermos o país sede, no uso dos wild cards pela ITF existe um critério geográfico que contempla o espírito dos Jogos em ter grande abrangência mundial e contribuir para o desenvolvimento do esporte. Assim, se o Brasil não tiver ninguém bem classificado para garantir lugar na chave, ganhará uma vaga para um jogador sem bom ranking, assim como pode acontecer com algum tenista de uma nação sem grande tradição na modalidade. Mas se quisermos ter um competidor em condições de brigar por medalha o fim do programa olímpico pode determinar o fim de um sonho também.

Só para lembrar, ou ilustrar, no torneio olímpico classificam-se os 56 primeiros dos rankings da ATP e WTA, com máximo de quatro jogadores por país. Hoje nos temos o Thomaz Bellucci nesta condição. Para 2016, as perspectivas são incertas.

O início da carreira profissional de um tenista está longe de ser simples e fácil. Acredito até que o tamanho do sacrifício determina o tamanho do sucesso. Sei de um cartão postal enviado por Guga a sua mãe Alice, em que ele contava alguma coisa assim… “hoje não deu para comer bem… estávamos sem dinheiro, mas as coisas irão melhorar”. Ora, isso está muito distante do glamour que muitos pensam fazer parte do dia a dia do tenista. A passagem de avião não é luxo. É ferramenta de trabalho. Não há como alcançar a posição de numero 56 do ranking sem viagens, trocas de vôos inesperadas, busca de alternativas para jogar um torneio ou outro, na briga pelos pontos do ranking.

Não sei qual será o futuro do tênis brasileiro até 2016. Mas uma coisa tenho como certa… este trabalho estava em boas mãos com a dupla Guga e Larri.