Arquivo mensais:janeiro 2013

O que fazer com a Davis?
Por Chiquinho Leite Moreira
janeiro 31, 2013 às 7:50 pm

A expectativa está em torno do que Thomaz Bellucci pode fazer diante de Sam Querrey e o milagre que Tiago Alves poderia aprontar contra John Isner. Mas resolvi atender a uma sugestão e avaliar o que fazer com a Copa Davis, que nem sempre atrai o interesse das grandes estrelas, especialmente, nas primeiras rodadas.

Certa vez, Pete Sampras contou que para brigar pela liderança do ranking teria de abrir mão da Davis. Justificou que a competição exigiria praticamente dois meses de seu calendário, entre confrontos, convocações, treinos, aclimatação e viagens. Por estes mesmos motivos, nem todos os tenistas se colocam a disposição das federações. Sem contar, é lógico, com os não raros casos de brigas de interesses entre jogadores e dirigentes.

O próprio Sampras, em outros tempos, admitiu que a emoção de jogar pelas cores de seu país é marcante, realmente compensadora aos sacrifícios impostos pela competição. Afinal, a Davis tem um clima diferente de todos os outros torneios. Os jogos são em melhor de cinco sets, como os Slams sim, mas com o peso da responsabilidade de defender uma nação. O espírito de equipe, o patriotismo levaram o normalmente frio norte-americano a sentir-se realizado.

A história da Davis é centenária. No começo ficou conhecida pelo formato challenger. O campeão de um ano esperava a disputa de todos os outros países para ser desafiado numa final. O crescimento da competição e o maior interesse forçaram grandes mudanças. E desde 1981 contamos com o Grupo Mundial. As 16 melhores nações disputam a chave principal. Só que agora em 2013 já são 130 países na Copa Davis.

Este é o espírito. A ITF (Federação Internacional de Tênis) organizadora da Davis – e também dos Slams – não se trata de uma associação de classes, como ATP ou WTA. Não visa apenas os interesses dos tenistas, mas, sobretudo, o desenvolvimento do esporte. Ou seja, levar a modalidade a todos os cantos do planeta. Permitir o surgimento de novos jogadores, aumentar o interesse e elevar o número de praticantes. Não pode pensar apenas nas estrelas. É claro que sim: dedicar atenção, respeito e condições para ter os melhores em quadra. Mas não se limita a este objetivo.

Assim também funciona o espírito olímpico. Os Jogos de 2016 no Rio precisam deixar uma herança, um legado. Afinal, se o Brasil não puder contar com um Centro Nacional de Tênis a briga pelas medalhas irá ficar apenas na memória. A Olimpíada é mais do que isso. Faz parte o interesse pelo esporte. Abrir condições para o seu desenvolvimento. Com um bom local, poderíamos ter novas competições, como já temos ATP 250, teremos 500 e WTA. Boas instalações abrem a persctiva até de um Masters 1000, por que não?. Com o velho Ginásio do Ibirapuera é que não vai ter chance mesmo..

Esta é a pujância da Copa Davis. Por isso a perguta… o que fazer para ter todas as principais estrelas em todos os confrontos? Reformular o sistema de disputa. Mas será que seria justo comprometer o desenvolvimento do esporte para agradar aos grandes nomes? O jeito é esperar que a emoção e o sentimento demonstrado por Sampras, em certo momento de sua carreira, também faça parte dos corações de todos os jogadores.

Djokovic vs Armstrong
Por Chiquinho Leite Moreira
janeiro 18, 2013 às 7:14 pm

Corajosa as declarações de Novak Djokovic sobre Lance Armstrong. Frases fortes como “vergonha para o esporte’, ou ‘merece sofrer’. É para se refletir o fato de um tenista concentrado na defesa do título de um Grand Slam, no Aberto da Austrália, em momento de intensa concentração, desviar sua atenção para um assunto tão polêmico.

No mundo do esporte há uma verdade que ninguém gostaria que existisse: o atleta de alto rendimento está sujeito ao uso de substâncias proibidas. Longe de defender Armstrong, mas estou tentando ser apenas o mais imparcial possível e revelador.

No tênis, que a gente tanto gosta, temos vários casos de doping e uma infinidade de suspeitas. Sobre esta segunda parte prefiro não comentar, pois não se pode aprovar declarações isoladas como a recém feita pelo belga Christopher Rochus em relação a Nadal. Além de casos como o tcheco Petr Korda, dos argentinos Mariano Puerta, dos Guillermos Coria e Cañas, algo que pouca gente sabe, pois sempre procourou-se acobertar, é que mais de 40 tenistas usaram substâncias proibidas. Todos ingeriram isotônicos fornecidos pela própria ATP. Ou seja, no intuito de servir seus atletas com fórmulas para recompor o físico dos jogadores, acabou-se produzindo um doping.coletivo.

Entre todos esses jogadores que, vamos dizer assim, foram contaminados, quem mais sofreu foi o tcheco Bohdan Ulihrach. Foi punido e marcado. Entre tantos processos, o que se deu melhor foi Greg Rusedsky. Nele teria sido encontrada uma outra droga, mas como estava entre os mais de 40 inocentados, também saiu ileso.

O esportista de alto nível tem esta tendência de querer fazer de tudo para vencer. E nesse ponto é que fica a mais forte lição de Lance Armstrong. Esses inúmeros atletas que se bombam em academias, poderiam ver no exemplo do ciclista uma séria advertência. Será que vale a pena buscar os objetivos a qualquer custo?

Austrália merece ser um Slam?
Por Chiquinho Leite Moreira
janeiro 12, 2013 às 7:56 pm

Se existisse um ranking dos Grand Slams, o Aberto da Austrália ocuparia a quarta colocação. Para os primeiros três lugares a briga seria bem mais polêmica, não tenho dúvidas. Dos quatro torneios este sempre foi o mais tranquilo, a ponto de em certa época colocarem em pauta a sua tradicional condição. Com o aparecimento de eventos fortes, especialmente o Masters de Miami, cogitou-se de os Estados Unidos terem dois Slams, No golfe, dos quatro majors, três são em território americano.

O desinteresse popular, a distância, a ausência de alguns astros, em certo momento colocaram o torneio australiano em situação complicada. Entre as principais ações para manter o status foi a mudança de data. Era disputado em dezembro, num período em que os tenistas mais pensavam em férias, descanso, do que em troféus, prêmios e pontos.

A mudança para janeiro trouxe um novo ânimo, mas não afastou certos desconfortos como calor excessivo e a distância. Foi preciso entrar com investimentos pesados e alternativa dos organizadores foi a de ‘vender’ o evento. Marcas poderosas começaram a fazer parte do fundo de quadra. E uma alternativa diplomática, que gerou novos recursos, foi começar a interpretá-lo de Slam da Ásia e Oceânia. O patrocínio tornou-se mais abrangente e deu oportunidade para investimentos em todos os aspectos. Nas instalações, no conforto e, especialmente, na premiação.

Com mais dinheiro em jogo, os tenistas deixaram as reclamações de lado. Hoje todos os grandes astros viajam para Melbourne, sem cara feia, ou hesitação.

Nos últimos tempos, o público também passou a dar maior prestígio. Não sei por que cardas d’águas, há sempre um grupo enorme de suecos em Melbourne. Alegres, bonitos e festivos dão uma cor interessante ao ambiente. As colonias de imigrantes também ocupam boa parte das arquibancadas. Mas, neste caso, algumas disputas etnicas esquentaram muito mais a atmosfera do que a já alta temperatura.

Enfim, depois de mudança de piso, local, data e investimentos, não se cogitou mais a possibilidade de a Austrália perder sua condição de Slam. Passou-se apenas a chamar Miami de o quinto Grand Slam… boa saída, não?

Uma coisa não tem como mudar: a distância. Lembro que costumava ficar revoltado com o fato de toda vez que viajava para a Austrália perdia um sábado e ganhava duas segundas-feiras. E isto vou carregar por toda a minha vida, não importando o quão longa ela possa ser. Não é como horário de verão, em que a gente perde e depois recupera.

Pode parecer estranho, mas é verdade. Deixava o Brasil sempre numa quinta-feira. Desembarcava em Los Angeles na sexta-feira pela manhã. À noite embarcava para 16 horas (é isso mesmo) de vôo para Melbourne. Como cruzávamos a linha internacional da data, desembarcava em Melbourne no domingo. E o sábado? Ficou entre a Nova Zelândia e a Austrália, ora.

Na volta, deixava Melbourne na segunda-feira. Viajava novas 16 horas e chegava a Los Angeles na segunda-feira. Logo de manhã pelo fuso horário da costa oeste americana. Poxa ainda é segunda-feira? À noite, desta interminável segunda-feira, embarcava para o Brasil e, ufa! chegava na terça pela manhã.

 

Esporte é cultura… valeu Noriega
Por Chiquinho Leite Moreira
janeiro 5, 2013 às 6:07 pm

Para quem ainda não sabe não sou tenista…aliás longe disso. Minha formação é acadêmica, com muito orgulho. Meus primeiros contatos com o tênis surgiram no Clube Floresta, hoje Espéria. Raquete de madeira Jack Crammer. Nas férias, jogava em Serra Negra, onde minha família tem casa até hoje. Com meus irmãos íamos a vizinha cidade de Amparo para bater bola no Clube Atlético. Quando não dava, num paredão ao fundo da casa, ou numa quadra improvisada, no terrão, em declive. Ainda não sei até hoje quem se dava melhor. Quem jogava do alto, ou quem batia de baixo p’ra cima. Comecei cedo… mas sigo como um pangaré. Sim com muito orgulho. Ainda hoje jogo no Clube Paineiras do Morumbi. Suo, corro muito, me divirto e ganho em saúde.

Gente, se hoje estou aqui, claramente não é pela minha performance na quadra. Se tenho esta oportunidade de dividir com vocês toda a minha experiência foi por influência da dupla Noriega e Duarte. Com eles aprendi a gostar de tênis de uma maneira especial, justamente, nas transmissões dos jogos da Copa Davis na TV Cultura. Soube o que é tênis e jornalismo. Ou não sei se seria melhor jornalismo e tênis. Enfim, aprendi a amar as duas coisas.

Por favor não me levem a mal. Não existe aqui qualquer recado para ninguém. Apenas pago um justo tributo. Os caras eram bons. Orlando é um grande amigo que gostaria de ver mais vezes. E também gostaria que os mais novos tivessem tido a oportunidade de acompanhar as transmissões da Cultura, com Noriega e Orlando Duarte. Até sonhei em algum momento em tê-los no cabo, mas não aconteceu. Eram outros tempos. De um lado Thomaz Koch e Edison Mandarino. De outro Ilie Nastase e Ion Tiriac. O sorteio das chaves acontecia na casa do tenista Luis Felipe Tavares. Ney Craveiro era o repórter.

Na quadra um tênis em preto e branco de encantar. Nas transmissões Luiz Noriega e Orlando Duarte. Um espetáculo, dentro ou fora das quadras sob o slogam de ‘esporte é cultura’. Nestes últimos dias recebi a triste notícia de que Luiz Noriega, com sua voz marcante, nos deixou. Ah, já estou com saudades. Mas sim, tive a oportunidade de viver momentos grandiosos com ele, nos quatro cantos do planeta. Um grande companheiro. Imaginem receber um convite de um ídolo como ele, para ir almoçar em Fishman Wharf, em San Francisco, na Califórnia, saborear um salmão fresco, e depois entrar numa limosine até o aeroporto para encontrar a delegação do Clube Sírio de basquete e seguir no tour da equipe. O cara sabia viver. E o melhor dividia suas experiências e cultura com os amigos, mesmo com os pangarés do jornalismo como eu. E com muito orgulho eu digo obrigado Noriega pelas lições.