Barty mostra que é possível jogar diferente
Por Mario Sérgio Cruz
fevereiro 12, 2018 às 9:00 pm

Em um circuito dominado por jogadoras cada vez mais altas, mais fortes e mais agressivas, a australiana Ashleigh Barty mostra que é possível atuar em alto nível jogando de maneira diferente. A australiana de 21 anos é uma das atletas mais versáteis da atualidade e suas atuais décima sexta posição no ranking de simples e décima nas duplas ratificam essa condição.

Barty tem um bom forehand, mas não compete em potência dos golpes contra nomes como Petra Kvitova, Karolina Pliskova e Garbiñe Muguruza. Nem mesmo a consistência defensiva de uma Caroline Wozniacki ou Simona Halep aparecem tanto no jogo da australiana. Suas apostas são em frequentes slices, drop shots e subidas à rede. A variação aparece também nas devoluções, que em alguns momentos apenas bloqueiam o saque das adversárias. Junte isso com tempo de resposta muito rápido para a tomada de decisões de improviso e temos uma adversária bem chata de ser enfrentada até mesmo pelas melhores do mundo.

Barty mostra a cada semana que é possível jogar em alto nível sem ter o estilo dominante do circuito

Barty mostra a cada semana que é possível jogar em alto nível sem ter o estilo dominante do circuito (Foto: SMP Images)

Com apenas 1,66m, Barty pode não ser dona de um dos saques mais velozes do circuito, mas tem um das mais eficientes. A australiana é sexta jogadora que mais fez aces neste começo de ano com 50 no total. Ela é também a nona jogadora que melhor aproveita os pontos disputados em seu serviço, com 62,2%.

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No ano passado, Barty teve o quinto melhor aproveitamento de pontos jogados no saque com 62% em 41 jogos e venceu 70% dos pontos jogados em primeiro saque, média que fez dela a oitava melhor do circuito nesse quesito. A australiana também apareceu entre as dez que mais venceram pontos com segundo saque e entre as que mais salvaram break points. Como isso é possível? Barty coloca muito bem o saque e sabe como poucas variar efeito e direção. Jogando ora aberto, ora no T, ora no corpo, ela faz tudo muito bem.

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No último fim de semana, Barty defendeu a Austrália no Grupo Mundial II da Fed Cup e responsável pelos três pontos no confronto diante da Ucrânia em quadra de grama em Camberra. Além de vencer seus dois jogos de simples, ela também marcou a vitória decisiva nas duplas, ao lado de Casey Dellacqua. A atuação mais impactante do fim de semana veio diante da promessa ucraniana de 15 anos Marta Kostyuk, uma das principais revelações deste início de temporada e adepta do estilo agressivo. Barty criou uma verdadeira armadilha para sua jovem rival e não a deixou confortável em nenhum momento. Resultado, 6/2 e 6/3 em dos jogos mais importantes do confronto.

Uma trajetória diferente –  Barty começou a chamar atenção no mundo tênis em 2011 quando foi campeã juvenil de Wimbledon e vice-líder no ranking mundial da categoria com apenas 15 anos. Pouco depois, conseguiu uma vaga na chave principal do Australian Open do ano seguinte ao vencer a forte seletiva nacional entre jogadoras profissionais tradicionalmente disputada em dezembro. Já em 2013, foi finalista de duplas em três Grand Slam, Australian Open, Wimbledon e US Open, todos ao lado de Dellacqua.

Entretanto, depois de ter alcançado o 129º lugar no ranking de simples e o 13º em duplas, Barty fez uma pausa na carreira após o US Open de 2014. Estava cansada da pressão sofrida no circuito e tentou a sorte no críquete, chegando a jogar profissionalmente em seu país. “Tudo aconteceu rápido demais”, disse Barty ao site da WTA, em fevereiro de 2016, quando voltou às quadras jogando ITFs. “Eu era uma desconhecida até ganhar o juvenil de Wimbledon e seis meses depois jogar o Australian Open. Fui vítima do meu próprio sucesso”.

Depois de jogar torneios menores e lesionar o braço direito há dois anos, a australiana só pôde efetivamente voltar ao circuito de WTA no início do ano passado. Ainda em março, conquistou seu primeiro título na elite do circuito em Kuala Lumpur, entrou no top 100 e não parou mais. Fez boas campanhas ao longo do ano, com destaque para os vice-campeonatos em Wuhan e Birmingham e venceu quatro jogos contra top 10. Ao final da temporada, a australiana havia saltado 308 posições do 325º para o 17º lugar, tendo a segunda maior evolução na elite do circuito.
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De promessa no circuito juvenil, a uma jovem jogadora estafada no início da carreira profissional à volta ao circuito em alto nível. O que mudou? Ela mesma explicou em entrevista coletiva antes do Australian Open. “Isso foi há muito tempo e para mim foi uma surpresa. Simplesmente aconteceu muito rápido e eu não estava pensando muito à frente. Acho que se você é um bom juvenil, não há garantias de que você vá se dar bem no circuito e isso foi muito difícil para mim. Mas acho que isso já passou e hoje me sinto ótima em quadra. Tenho uma equipe realmente sólida em torno de mim. São pessoas genuínas que estão me ajudando em tudo”.

A cada semana, Barty mostra que jogar diferente da maioria não é uma sentença de morte no circuito. Também serve para refutar o argumento simplista, preguiçoso (e preconceituoso, por que não?) de que não há variação no tênis feminino. Além da própria australiana, nomes como Anastasija Sevastova, Magdalena Rybarikova, Elise Mertens e a veterana Svetlana Kuznetsova aparecem hoje no top 20 e nenhuma delas é adepta de “quebrar a bola e atacar a todo custo”. O caminho pode até ser mais longo, mas ainda há espaço para quem subverta os padrões.


Comentários
  1. Fabio

    Boa matéria, com muitos dados e sobre uma jogadora interessante que ainda não é vista como tendo um apelo comercial forte, acredito que se ela se firmar entre as 10 deve ganhar a simpatia do público pelo carisma. Acho que no quesito entretenimento e personalidade dos jogadores, o circuito feminino é bem mais interessante que o masculino que ao meu ver, tem uns cinco jogadores que fazem valer o tempo e dinheiro investidos pra assistir jogos. Tem a beleza de algumas jogadoras mas pra mim pelo menos, não é o motivo de acompanhar. Parabéns pela matéria.

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    1. Mario Sérgio Cruz

      Obrigado! Acredito também que ela tem um bom potencial para atrair público quando se tornar mais conhecida. Até porque o próprio mercado australiano já é bem grande e ela já chama atenção em seu próprio país há bastante tempo.

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  2. Moraes

    A Barty é um verdadeiro oásis na WTA, realmente dá gosto de ver ela jogando, e os outros nomes que vc citou também. Mas, elas são minoria, e eu acho que vc sabe disso, as meninas tem por preferencia esse jogo em que elas tentam bater o mais forte possível na bola dos dois lados, que é eficiente em muitos momentos, mas ao mesmo tempo não é tão agradável de se ver.

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    1. Mario Sérgio Cruz

      De fatos, elas são minoria. Mas ainda assim, elas formam um contingente relevante de jogadoras em boas posições no ranking que não jogam no estilo dominante. Num momento em que apenas um jeito de jogar é incentivado, é importante destacar que tem gente chegando ao alto nível por outros caminhos.

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    1. Mario Sérgio Cruz

      Agradeço por sua participação, mas peço que procure o significado da palavra “preconceito”. Ela diz respeito à opinião emitida a partir de ideias pré-concebidas e sem exame crítico. Tal como acontece com parte do público e até mesmo de analistas que não acompanham o circuito e informações com profundidade e tecem seus comentários baseadas em frases feitas e ideias que não correspondem à realidade do tênis feminino. Portanto, o uso dentro desse contexto é perfeitamente e cabível e correto do ponto de vista gramatical.

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  3. Thiago

    Olá boa tarde , ótimo blog parabens.

    Depois podia me falar o que acha do tenista ilya ivashka, tênis jovem que já venho torcendo e acompanhando e com muito potencial. Se você ainda não viu, ele está em ação neste atp de Marselha e já passou primeira rodada.

    Abraços

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    1. Mario Sérgio Cruz

      Obrigado pelo comentário. O Ivashka é um jogador que conheço mais por acompanhar resultados. Vi pouco dele jogando ainda, mas vou acompanhar o jogo com o Wawrinka amanhã.

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      1. Thiago

        Veja e depois me fale. Estilo agressivo, normal da escola russa de tênis e já teve Vitória importantes pela Bielorrússia na Davis. Como já disse, parabéns pelo seu blog, ele é diferente de todos os outros blogs do segmento no pais.

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  4. Thiago

    E aí o que achou do bielorusso? Minha aposta para top 20 em breve, como disse extremamente agressivo e muito bom de.ver jogar sacando e volelando o tempo todo, e jogou melhor que o suíço até que o mesmo infelizmente se contundisse. Meu pupilo rumo ao top 50 kkkl. Abraços

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    1. Mario Sérgio Cruz

      Vi um pouco dos jogos contra Mahut e Pouille nas fases seguintes também. É um bom jogador, agressivo e com boa presença de rede. É difícil cravar onde ele pode chegar porque aceleram ou atrasam o desenvolvimento, mas potencial para se meter entre os 100 ele com certeza tem.

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