Na Austrália, Kostyuk desfruta do tênis pela primeira vez
Por Mario Sérgio Cruz
janeiro 17, 2018 às 5:06 pm

Destaque neste primeiros dias de Australian Open, a ucraniana Marta Kostyuk tem chamado atenção por diferentes razões. Com apenas 15 anos, ela passou por três rodadas do qualificatório e mais duas na chave principal. Mas além dos resultados expressivos para sua idade, e que a colocam no patamar de outros prodígios do esporte, Kostyuk também se destacou pela autenticidade de suas declarações.

Logo após a vitória diante da australiana Olivia Rogowska por 6/3 e 7/5 na Margaret Court Arena, Kostyuk participou da tradicional entrevista em quadra, realizada nos três principais estádios do Grand Slam australiano. A comemoração pela vitória foi discreta: “Estou feliz por passar de fase. Na verdade, não senti que fui bem em quadra hoje” e não se mostrou impressionada ao saber que havia se tornado a jogadora mais jovem a chegar em uma terceira rodada de Grand Slam desde Mirjana Lucic (no US Open de 1997) e a mais nova nesta fase do torneio australiano desde Martina Hingis em 1996. “Eu bato recordes ou os repito a cada ano, então eu me sinto Ok”.

De fato, novas marcas vieram a cada rodada para ela. No domingo, quando venceu a tcheca Barbora Krejcikova por 6/3, 5/7 e 6/0 pela última rodada do qualificatório, a ucraniana havia se tornado a mais jovem jogadora a passar pelo quali de um Grand Slam desde a búlgara Sesil Karatantcheva, que tinha 15 anos e 5 meses no Australian Open de 2005. Já no dia seguinte, derrotar a 27ª colocada chinesa Shuai Peng por duplo 6/2 fez dela a mais jovem a vencer.um jogo pela chave principal Melbourne em 21 anos. Faz sentido que ela encare tais números com tamanha naturalidade.

Mas a frase que mais chamou atenção foi sobre o fato de poder cobrar menos de si mesma, se comparada aos tempos de juvenil. “Isso mudou, porque você não pode ser perfeccionista no tênis. Você comete erros a cada ponto e em cada golpe, então você não pode ser assim ou você vai acabar num hospital psiquiátrico”.

Na Austrália, Kostyuk diz estar desfrutando do tênis pela primeira vez em sua vida. Em longa entrevista ao site da WTA, a jovem jogadora falou sobre sua mudança de mentalidade, motivada principalmente pelo caráter profissional do circuito e das premiações em dinheiro.

“Agora eu mudei completamente minha atitude em quadra neste torneio. Não antes. Apenas neste torneio. Eu era uma jogadora diferente no meu último torneio. Eu posso mudar assim, mas também posso mudar na direção oposta (risos). Agora eu entendo o que é administrar as emoções, não mostrá-las o tempo todo e estar sempre motivada”.

“Você sabe qual é a diferença? Agora você está nos profissionais e você começa a ganhar dinheiro e é diferente porque você está jogando e é como se você estivesse trabalhando. Você está trabalhando duro, você dá energia, mas depois disso recebe o dinheiro. Vale a pena. Eu teria perdido minhas três partidas do quali se eu me comportasse como na semana passada”.

“Eu poderia estar ganhando por 5/0 e 40-0 se eu errasse uma bola e eu jogaria minha raquete no chão e ficaria irritada. ‘Como eu pude errar essa bola?’ Eu era perfeccionista. Na escola, tudo tinha que ser bom, minhas notas tinham que ser boas. Na ginástica [esporte que também já praticou], tudo tinha que ser bom. Eu ficava sempre estressado e as pessoas ao meu redor apenas diziam: ‘Marta, aproveite'”.

Kostyuk mudou a mentalidade como tenista depois de se tornar profissional (Foto: Elizabeth Bai/Tennis Australia)

Kostyuk mudou a mentalidade como tenista depois de se tornar profissional (Foto: Elizabeth Bai/Tennis Australia)

Apesar da pouca idade e de estar apenas começando sua trajetória no circuito profissional, Kostyuk mostra uma mentalidade diferente no planejamento de sua carreira a longo prazo e na maneira como estabelece suas metas. “Eu ouço muitos jogadores dizerem que o ‘tênis é tudo para mim’, ‘o tênis é a minha vida’. Eu não quero assumir isso, porque se eu perder ou algo acontecer, isso destruiria minha vida. Quando terminar minha carreira, quero também ser boa em outras coisas, não só no tênis”.

“Conheço muitos jogadores que se aposentam e depois voltam porque dizem que não têm nada o que fazer fora do tênis. Eu não quero ser uma pessoa assim e é por isso que eu não tenho tênis tão perto de mim”, explica a ucraniana, que treina em Zagreb, na Croácia, e tem a carreira agenciada por Ivan Ljubicic.

“Eu nunca determino um super objetivo. Penso naquilo que é real. Quando eu alcanço, então eu traço outro objetivo. Eu não digo que vou ser a número 1 no final do ano, porque se eu não conseguir, alguma parte de mim nunca mais será a mesma”, comentou a jogadora, que irá saltar mais de duzentas posições no ranking da WTA depois do Grand Slam australiano, saindo do atual 521º lugar para uma posição entre as 250 melhores.

Durante a entrevista coletiva, na sala de imprensa do Melbourne Park, a ucraniana expôs um pouco mais sobre a mudança de sua relação com o tênis, já que em algumas falas anteriores ela dava a entender que não gostava tanto do esporte. “Não é como se eu não gostasse. Na verdade, eu disse que não estava aproveitando. Eu gostava de tênis e continuo amando, mas sempre queria vencer, não importa o que. Se eu perdesse, era uma tragédia e aí eu não queria mais jogar. Agora estou finalmente começando a aproveitar”.

A ideia de não se cobrar tanto também a ajuda a lidar com uma limitação de regulamento imposta pela WTA. “Como tem menos de dezesseis anos, ela só pode disputar doze torneios profissionais durante um ano. No ano passado, eu estava jogando muitos torneios juvenis e queria encerrar esse ciclo. Então, meu primeiro torneio foi há duas semanas em Brisbane foi e depois deste, ainda tenho 10 torneios, o que está bom. Mas desde o meu próximo aniversário até o ano seguinte, serão 16 torneios. Poderia jogar 16 torneios em um ano, enquanto as pessoas estão jogando 20″.

Atual campeã juvenil em Melbourne, a ucraniana já encerrou seu ciclo nas competições de base (Foto: Corinne Dubreuil/ITF)

Atual campeã juvenil em Melbourne, a ucraniana já encerrou seu ciclo nas competições de base (Foto: Corinne Dubreuil/ITF)

Rosto conhecido: Já falamos da Kostyuk aqui no blog em duas oportunidades. A primeira foi há pouco menos de um ano, quando ela conquistou o título juvenil do Australian Open aos 14 anos e sete meses, ficando muito próxima se tornar a mais jovem campeã da história do torneio. Na ocasião, também foi destacado o histórico respeitável da ucraniana em competições de base, especialmente na categoria até 14 anos.

Já em outubro, quando foi campeã da terceira edição do ITF Junior Masters, na cidade chinesa de Chengdu, foi comentado sobre seu estilo de jogo agressivo e condizente com a atual elite do circuito feminino. A ucraniana imprime muita potência nos golpes dos dois lados, mas também tem recursos para improvisação. Seu passado na ginástica também rendeu um incomum estilo de comemoração, dando um mortal para trás após o título. Já naquela ocasião, ela sinalizava que aquele teria sido seu último torneio como juvenil.


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