Quando voltou a sorrir, Osaka voltou a vencer
Por Mario Sérgio Cruz
setembro 10, 2018 às 8:43 pm

Menos de seis de meses depois de conquistar o primeiro título da carreira em Indian Wells e de experimentar uma mudança significativa em sua vida e em sua rotina no circuito, passando a lidar com o favoritismo e a pressão, Naomi Osaka passa por mais uma nova experiência. Com apenas 20 anos, a japonesa é uma campeã de Grand Slam, a primeira da história de seu país.

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Desde a conquista na Califórnia em março, quando saltou do 44º para o 22º lugar do ranking com os 1.000 pontos obtidos, Osaka vinha obtendo poucos resultados expressivos. Destaques para a vitória em Miami sobre uma Serena Williams, que ainda fazia seu segundo torneio desde o nascimento da filha, e para uma semifinal alcançada na grama inglesa de Nottingham.

O título no US Open em uma campanha com apenas um set perdido – para a top 20 bielorrussa Aryna Sabalenka nas oitavas de final – e com uma nova e muito mais expressiva vitória sobre Serena na final coincide com o momento em que Osaka voltou a sorrir. Três semanas antes da conquista, a japonesa se expressou por meio de suas redes sociais sobre como vinha lidando mentalmente com a carreira. Osaka admitiu que sua vida havia mudado muito desde a conquista em Indian Wells, mas que sentia estar voltando à direção certa e que estava novamente se divertindo em jogar tênis.

https://twitter.com/Naomi_Osaka_/status/1030201441309343749

Olá, esse post como uma pequena atualização haha

As últimas semanas foram muito duras para mim. Eu não sentia muito bem a bola e isso me levou a um ponto em que eu comecei a ficar muito frustrada e deprimida durante os treinos. Tive muita pressão no começo da temporada de quadras duras, porque havia senti que havia muita expectativa sobre mim desde Indian Wells e eu não me sentia mais uma ‘zebra’, o que é totalmente novo para mim.

Se alguém acompanhou o torneio de Cincinnati deve saber que que no jogo que eu perdi eu dei um passo na direção certa. As coisas não estavam funcionando da maneira como eu queria, mas finalmente eu senti que estava me divertindo ao jogar tênis, oq eu não sentia desde Miami. Então estou muito feliz e animada por isso e gostaria de compartilhar meus sentimentos com vocês. Atualização terminada. Vejo vocês em Nova York.

Já com o troféu de Grand Slam em mãos, Osaka falou ao site da WTA sobre aquela postagem em suas redes sociais. “Eu postei aquilo porque eu senti que precisava compartilhar meus pensamentos, porque é para isso que serve a rede social. E eu sei que muitas pessoas poderiam estar preocupadas sobre como eu estava”.

Com suas já características timidez e naturalidade, a jovem japonesa de 20 anos comentou se está pronta para mais uma mudança de status. “Acho que uma parte de mim está, mas ao mesmo tempo, tudo o que está acontecendo é um pouco estanho. Mas acho que é mais interessante ter uma mudança na vida em vez de permanecer na mesma”, comentou. “Além disso, sinto que há muita coisa acontecendo. Tudo está acontecendo muito rápido, então eu ainda não tive a chance de processar tudo isso”.

O trabalho com Sascha

Osaka começou a temporada no 68º lugar do ranking e teve como novidade na equipe a chegada do alemão Sascha Bajin, que trabalhou durante oito anos como rebatedor de Serena Williams e ainda fez parte das equipes das também ex-líderes do ranking Victoria Azarenka e Caroline Wozniacki. O trabalho ao lado de Osaka é seu primeiro como técnico principal de uma jogadora.

Antes do início do US Open, Bajin falou ao New York Times sobre as expectativas de trabalho com Osaka. “Eu bati bola com Serena quase todos os dias durante oito anos, e as armas no jogo de Naomi são tão potentes quanto as dela”, avaliou o treinador. “Ela não tem medo das quadras grandes e é também por isso que acredito que há muita grandeza dentro dela”.

Agora número 7 do mundo e quarta colocada na corrida por uma vaga no WTA Finals, Osaka já tem 35 vitórias no ano, quase o dobro de vitórias que conquistou no ano passado. A japonesa havia vencido apenas 18 dos 40 jogos que disputou na última temporada.

Obediência tática e equilíbrio emocional fizeram a diferença

Os resultados da semifinal contra Madison Keys e da final diante de Serena Williams foram os mesmos, com parciais de 6/2 e 6/4. Nos dois jogos, o equilíbrio emocional fez a diferença a favor da japonesa. Pela penúltima rodada, Osaka enfrentou treze break points na partida e não teve o serviço quebrado, encaixando ótimos saques nos momentos mais importantes. Valeu também explorar uma característica de Keys. Sabendo que a norte-americana gosta de tentar a definição dos pontos mesmo quando pega a bola na corrida, em vez de tentar alguma bola de segurança, a japonesa ganhou muitos pontos quando utilizava boas cruzadas e via as respostas da anfitriã pararem na rede.

Dois dias depois, Osaka encarava uma Serena muito diferente da que enfrentou em Miami. A veterana de 36 anos estava a uma vitória do 24º título de Grand Slam e do sétimo US Open da carreira e vinda de ótimas apresentações nas rodadas anteriores. A japonesa fez um primeiro set impecável. Depois de sair de um 0-30 logo em seu primeiro game de serviço, a jovem jogadora soube aproveitar os momentos em que Serena não sacou tão bem e a fez jogar. Não quis encurtar ponto nenhum e esperou por suas chances, que aconteceram e renderam duas quebras. Quando já vencia por 4/1, saiu de dois break points.

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Osaka também manteve o foco na partida mesmo quando o ambiente no Arthur Ashe Stadium ficou hostil após as punições impostas a Serena pelo árbitro português Carlos Ramos: Uma advertência por coaching -cuja culpa recai muito mais ao técnico Patrick Mouratoglou que à ex-número 1 do mundo- e o point penalty por abuso de material (quebrar uma raquete) e o game penalty por ofensa verbal ao árbitro, chamado por Serena de “ladrão” e “mentiroso”. Osaka esteve com quebra atrás no segundo set e devolveu de imediato. Teve que sacar logo depois da punição com a perda de um ponto de Serena, e confirmou o serviço rapidamente. Sacou para o jogo e confirmou a vitória sem ter o serviço ameaçado no game decisivo. Uma postura admirável.

A idolatria por Serena

Ao longo de sua carreira profissional, Osaka nunca escondeu a idolatria e admiração por Serena Williams. Ainda em 2014, quando derrotou a ex-top 5 e campeã de Slam Samantha Jane Stosur em Stanford, Serena fez questão de pedir para tirar uma foto com Serena, que era número 1 do mundo e principal nome daquele torneio. E suas aspirações de se tornar a melhor jogadora possível têm Serena como modelo a seguir.

Quando venceu Keys na semifinal, a japonesa falou ainda em quadra que “ama Serena” e que uma de suas maiores fontes de motivação para vencer Keys seria a chance de enfrentar Serena na final do US Open. Como lidar mentalmente com tudo isso diante de um ídolo no jogo mais importante de sua carreira? A resposta foi simples: “Quando pisei na quadra, não era a fã da Serena – eu era apenas uma jogadora enfrentando outra jogadora. Mas quando eu a abracei na rede, me senti como uma criança novamente”.

Entender, mas não justificar

Muito se falou sobre a postura de Serena na final. Nada justifica as ofensas dirigidas ao árbitro, que apenas cumpriu as regras e não cometeu nenhum tipo de abuso de autoridade. Parte da indignação de Serena é compreensível e deve ser levada em consideração no futuro, mas não anula o julgamento correto por parte de Carlos Ramos e sua necessidade de reconhecer os erros que cometeu.

Por tudo o que a Serena já foi injustamente obrigada a ouvir ao longo da carreira, qualquer sugestão de que ela teria infrigido qualquer regra mexe demais com ela. É alguém que bate muito na tecla do “jogar limpo”, e que sempre teve que provar isso. Serena pode não ter visto o coaching, até porque nem precisa disso, e se sentir injustiçada. Mas as imagens são claras de que Mouratoglou passou instruções e ele admitiu a atitude posteriormente. Se o treinador passa instrução, ainda que o atleta sequer perceba, e isso é visto pelo árbitro, o jogador tem que ser punido.

As punições subsequentes vieram na esteira da anterior e a reincidência de Serena fez com que a situação se agravasse com a perda de um ponto e um game. A norte-americana pode ter jogado limpo com a relação a não precisar do coaching, mas a partir do momento em que houve um desvio de conduta por parte de seu treinador, não há o que fazer. O abuso de material e as ofensas verbais também são passíveis de justas punições. É válido colocar em discussão de que outros árbitros não tenham o mesmo rigor, especialmente em jogos com estrelas do circuito masculino, mas o certo é exigir que os demais façam o mesmo.

Patrick Mouratoglou treina a Serena desde 2012, depois de ela ter sido eliminada na primeira rodada de Roland Garros, na única vez em sua carreira em que perdeu na estreia de um Grand Slam. Participou de 10 dos 23 títulos de Grand Slam. Foi peça fundamental para superar a barreira dos 18 títulos. Mas este ano, atitudes e declarações têm sido desencontradas. Talvez seja hora de virar a página.

A conquista de Wild: Ainda nesta semana sai um post sobre a histórica conquista de Thiago Wild no torneio juvenil do US Open e a terceira edição com o raio-x dos juvenis brasileiros na temporada


Comentários
  1. Luis Antonio Rafael

    Mario, Meus parabens pelo texto. Excelente post. Colocou muito bem sobre a trajetoria de Naomi Osaka e lembrou bem de seu tecnico Sascha Bajin que teve uma enorme importancia nessa conquista ( sabe tudo do jogo da Serena ). E olha, Naomi está sacando muito. O jogo dela lembra muito o da Serena. Acredito que o Sascha esteja moldando-a tal qual as caracteristicas de Serena, que ele treinou durante 8 anos quase que diariamente.

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    1. Mario Sérgio Cruz

      A maneira como a Osaka soube jogar contra a Serena lembrou uma vitória da Azarenka sobre ela em 2016, também com o Sacha na equipe. Vale muito a pena ter alguém que conhece tão bem o jogo da Serena na equipe.

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  2. André Aguiar

    “Serena pode não ter visto o coaching, até porque nem precisa disso, e se sentir injustiçada”.
    Quem puder rever a transmissão pela TV poderá perceber claramente que a Serena por alguns segundos desvia o olhar em direção à arquibancada quando se prepara para receber o saque (2º set, Osaka sacando em 0x1, 40-15). E foi nesse momento que o árbitro dá o warning de coaching. E ela, ao contestar a marcação, diz que o técnico fez apenas sinal de positivo (“he put thumbs up”). Ou seja, ela admitiu que olhou para o técnico e mentiu sobre o sinal, já que a TV mostrou para todo o mundo que ele na verdade sinalizava para ela avançar, isto é, jogar mais dentro da quadra, o que de fato ela fez nos games subsequentes, chegando a quebrar o saque da japonesa no quarto game.
    Os dois pitis que ela deu depois e que levaram às outras duas punições (o 1º ponto do 6º game por abuso de material e todo o 8º game, no qual sacaria a Osaka, por ofensa verbal grave) foram motivados por ter tido o saque quebrado, no 5º e no 7º game, ficando em desvantagem no set depois desta última quebra (4×3 e saque para Osaka). Ou seja, penso que ela se descontrolou emocionalmente por ver a japonesa firme, consistente, sem praticamente dar brecha e quando percebeu que a derrota seria inevitável, resolveu “chutar o pau da barraca” chamando o árbitro de ladrão e mentiroso. Fez a torcida (que de longe, sem a imagem e o som da TV, não entendia o que de fato acontecia) acreditar que estava sendo injustiçada e saiu dizendo-se vítima de sexismo, tentando esconder o real motivo da derrota, qual seja, o simples fato de Naomi Osaka ter jogado melhor e merecido a vitória e o título.

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    1. Mario Sérgio Cruz

      Vou tentar rever as imagens, porque normalmente ficam arquivadas no Watch Espn e Sportv Play, mas acho difícil provar que ela tenha visto ou identificado. Ela comentou na coletiva não ter nenhum tipo de sinal combinado com o técnico. O que está bem claro é que o Mouratoglou passou instrução.

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  3. neuton

    Mário,
    Entendo sua posição, mas não precisa ter medo de falar o óbvio que todos viram ao vivo e em cores, e esse óbvio é o que foi dito acima pelo André Aguiar. Uma jogadora de nível da Serena deveria, logo na primeira punição, esquecer e ir para o jogo. Dessa forma, talvez o resultado teria sido outro. Seria muito mais bonito para ela admitir que fez caquinha e pedir desculpa. Pronto, vida que segue, todos nós erramos. Agora ficar tentando emplacar uma desculpa só piora.
    Comentários que ficam tentando justificar a atitude de Serena também não ajudam em nada. É contra a regra e pronto.

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    1. Mario Sérgio Cruz

      Concordo que uma jogadora tão experiente e vencedora deveria ter lidado melhor com a situação. E como disse no post, nada justifica a atitude de ofender a pessoa do árbitro e acredito que as três punições foram justas. Apenas expus uma razão que daria paria para entender o que a levou a contestar a correta marcação de coaching.

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  4. NELSON LUIS DE CARVALHO FREIRE

    Pelo que vi e ouvi a Serena viu sim o gesto to técnico e sabe muito bem que recebeu instruções.
    Observe o vídeo do técnico mandando ela ir a rede. Ok, onde estão os polegares dele? Pra cima, a mesma posição de um gesto de aprovação.
    Agora, veja o discurso da Serena qdo recebe a punição por “coaching”: Ela diz ao Carlos Ramos que aquilo que ele viu era um ” Thumbs Up” e que significaria apenas um gesto de apoio.
    Ora, para ela ver o Thumbs Up é porque ela VIU o gesto do técnico, como todos nos vimos, e dá uma de Migué com o árbitro, passando uma bronca nele de que ela não trapaceia “cheat”.
    Não fosse assim, como ela saberia do gesto do técnico?

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