‘Hábito de ganhar’ fará Orlando e Felipe crescerem, avalia Leo Azevedo
Por Mario Sérgio Cruz
maio 16, 2018 às 11:07 am

As duas últimas semanas foram bastante positivas para dois jovens jogadores brasileiros que treinam na Espanha. O gaúcho Orlando Luz e o paulista Felipe Meligeni Alves, ambos de 20 anos, disputaram uma final de future no Cairo, capital egípcia, vencida por Felipe em dois tiebreaks no último domingo. Foi o primeiro título de simples de sua carreira profissional. Orlando, por sua vez, ganhou dois troféus seguidos nas duplas, um deles com o parceiro paulista.

Jovens em transição para a carreira profissional, Orlando e Felipe foram os primeiros atletas a usufruir da pareceria firmada pela Confederação Brasileira de Tênis e a BTT Tennis Academy, que oferece estrutura de treinamento em Barcelona. Os dois estão desde janeiro e têm acompanhamento do técnico brasileiro Leo Azevedo, que é um dos coordenadores da academia.

Azevedo atuou por oito anos na USTA (Associação Norte-Americana de Tênis), além de já ter trabalhado na Espanha, de 2003 a 2006, na academia de Juan Carlos Ferrero. Em entrevista ao TenisBrasil, o treinador falou sobre os quatro primeiros meses de trabalho na Espanha e os primeiros bons resultados. O experiente técnico avalia que o início de um ‘hábito de ganhar’ fará com que os dois jovens jogadores possam evoluir ao longo da temporada.

Felipe Alves e Orlando Luz trabalham com Leo Azevedo em Barcelona e têm acompanhamento de nomes como Francisco Royg, um dos técnicos de Rafael Nadal. (Foto: Reprodução/Instagram)

Felipe Alves e Orlando Luz trabalham com Leo Azevedo em Barcelona e têm acompanhamento de nomes como Francisco Royg, um dos técnicos de Rafael Nadal. (Foto: Reprodução/Instagram)

Confira a entrevista com Leo Azevedo.

Primeiro, eu gostaria que você fizesse uma avaliação dos primeiros meses de temporada dos dois jogadores, tanto em treinamento quanto nos torneios.
Eles chegaram aqui no começo de janeiro, antes da pré-temporada e não haviam feito uma pré-temporada muito boa. Fizemos uma pré-temporada de quatro a cinco semanas. A primeira gira foi na quadra rápida. Queria que o Orlandinho voltasse a jogar um pouquinho na quadra rápida, porque fazia tempo que ele não jogava. E nos últimos dois anos ele tinha jogado muito pouco.

Não tivemos bons resultados nas duas ou três primeiras semanas, nem de resultado e nem de rendimento. Acho que ainda estava demorando para chegar a mensagem em algumas coisas que eu estava tentando passar para eles. Trabalhamos bem, os dois trabalham duro, mas às vezes a mensagem e a filosofia demoraram um pouco mais para chegar.

Na Tunísia, o Orlando já jogou melhor e fez uma semi. Depois, na Turquia, o Felipe ganhou um jogo muito bom e perdeu para o campeão na segunda tendo match point. Ali já era o final de março e comecinho de abril, e foi quando eles deram uma crescida boa e já entendiam um pouco mais o que eu estava pedindo para eles. O Orlandinho melhorou um pouco o jogo de posição dele, porque estava jogando muito atrás, e o Felipe sabia usar um pouco mais a agressividade dele sem loucura. E os dois melhoraram muito fisicamente. Agora eu posso falar que estou feliz com a performance deles, o resultado está vindo atrás disso. E acho que eles entenderam melhor a mensagem que eu estava passando para os dois e o que eu queria de um e do outro como jogador.

O que pode ser tirado dessas duas semanas no Egito, com um jogo entre eles na final e o título de duplas com eles juntos na semana anterior?
Eu sempre falo para eles que ganhar é um hábito muito bom. O Orlandinho já tinha mais o hábito de ganhar no júnior e ficou uns dois anos com resultados que não seguiram a progressão do último ano de júnior dele, quando ele também havia jogado muito bem no profissional. E o Felipe não tinha ganhado muito ainda. Ganhou um GB1 júnior na Argentina, ganhou um US Open de duplas no júnior, mas ainda não tinha aparecido muito. E ganhar dupla é bom.

Falo para eles que o hábito de ganhar ajuda em tudo. E chegar em uma final com os dois é como se desse um pouco mais de confiança em acreditar que o que eles estão fazendo está no caminho certo, que a decisão de morar fora de casa tem muitas coisas difíceis -não diria negativas, mas difíceis-  e muitos obstáculos. São muitas coisas que você não está acostumado, mas que te fazem amadurecer mais rápido que quando você está no seu país. Mas tudo isso, em algum momento, pode ser que valha a pena. Quando eles ganham a dupla e fazem uma final é um alimento a mais para eles acreditarem que estão no caminho certo.

O Felipe acabou de conquistar o primeiro título da carreira. Até então os melhores resultados haviam sido as quartas. Quais fatores o fizeram dar esse primeiro salto e o quanto isso pode trazer de confiança para ele?
O Felipe, é verdade, ainda não tinha feito nada que chamasse atenção em simples. É um jogador que fisicamente é muito, muito bom. É um jogador que tem um tênis moderno, a bola dele anda bastante, mas que por A, B ou C motivos ainda não tinha vencido. Acho que, com 20 anos, não ter feito uma final de um future já estava meio que incomodando ele. Ele tem muito potencial, mas não combinava isso com o potencial que ele tem.

Eu sempre falava para ele: ‘O dia que você ganhar, talvez você sinta um gostinho que vai te alimentar mais para você poder continuar ganhando’. Ele perdeu alguns jogos este ano que a atitude poderia estar um pouquinho melhor e alguns jogos em que ele poderia acreditar um pouquinho mais. Acho que ganhar faz você acreditar mais em si mesmo. Ganhar faz você mudar sua perspectiva sobre algumas coisas. Na final, ele salvou um monte de set points contra o Orlando. Então que a confiança é talvez o combustível mais importante do jogador. Eu espero que isso o mova pra frente e que ele consiga chegar aos objetivos que eu tracei para ele.

Acho que o fator principal do salto foi que ele amadureceu bastante nesses três ou quatro meses. Tenisticamente a gente conseguiu ordenar essa agressividade que ele tinha, entender que ele pode ser agressivo, mas ordenar um pouco mais taticamente o jogo. Ele é um jogador muito impulsivo e, às vezes, essa impulsividade fazia com que ele saísse do ponto muito rápido. Acho que esses foram os pontos principais, um pouco mais de ordem tática e o amadurecimento como pessoa desses meses morando fora.

Felipe Alves levou a melhor sobre Orlando Luz no Egito e conquistou seu primeiro torneio

Felipe Alves levou a melhor sobre Orlando Luz no Egito e conquistou seu primeiro torneio profissional em simples (Foto: Reprodução/Instagram)

O Orlando teve algumas lesões na temporada passada, a mais recente foi no ombro. Como ele está evolução física dele?
O Orlandinho fisicamente melhorou bastante. Ele chegou aqui um pouco defasado, mas é muito bom trabalhador. Trabalhou bem e, fisicamente, não tem muito o que a gente falar do Orlandinho. Essa semana que ele chegou à final, fez alguns jogos longos, aguentou bem, trabalha bem e não tem mais nenhum resquício de lesão. Está num nível muito bom fisicamente.

Ainda sobre o Orlando, ele tinha algumas dificuldades com o saque e jogava muito com o segundo serviço. O que tem sido trabalhado para que ele possa evoluir nesse sentido?
Quanto à evolução do saque do Orlandinho… Como eu tinha falado antes para algumas pessoas, eu tinha visto ele jogar bastante no júnior. Nos últimos dois anos eu fiquei um pouco sem ver ele jogar, mas vi muitos vídeos. Quando eu comecei, ele realmente sacava bastante o primeiro saque em 3/4 ou como se fosse um segundo, e eu sempre acho que um dos segredos do bom sacador é a mentalidade de sacador. O jogador tem que pensar que é bom sacador e tem que pensar que o saque é uma arma. Tecnicamente eu não mudei nada, só um ajuste pequeno no toss e no giro, que ele mudou um pouquinho, mas é mais a mentalidade de usar o saque mais como uma arma e não só como uma maneira de começar o ponto.

Jogadores como o João Menezes e o Jordan Correia também treinam na Espanha. Há algum intercâmbio com atletas de outros clubes e academias?
O Menezes está aqui em Barcelona, mas o calendário nosso ainda não coincidiu com o dele. A gente voltou e ele foi para a Nigéria, depois a gente viajou e ele voltou para cá. Então ainda não coincidiu. O Jordan está no Ferrero [na academia Equelite, em Alicante], que é um pouco longe, mas eu tenho boa relação com o pessoal de lá. O Pablo Carreño Busta está sempre aqui, porque fica umas semanas aqui e outras no Ferrero, o Roberto Carballes Baena também passa algum tempo aqui e algum tempo lá. Com esses dois a gente conseguiu treinar algumas vezes por conta dessa relação que eu tenho.

A gente também treina com o pessoal de outras academias aqui. O Pedro Cachin, que é um argentino que o [Alex] Corretja ajuda, também treina aqui com eles. A gente teve também um intercâmbio muito bom para as semanas no Egito que eles foram no Godó [Trofeo Conde de Godó, o ATP 500 de Barcelona]. Consegui credencial para os dois, eles treinaram com muita gente, inclusive com o Marcelo Melo, vivenciaram esse nível de torneio e esse ambiente. Acho que foi muito legal, então a genta tenta, na medida do possível, realizar um intercâmbio aqui, não apenas com os brasileiros.

E como foi a experiência deles no ATP?
A gente conseguiu duas credenciais para eles e eles passavam praticamente o dia todo lá. Eles fizeram o trabalho físico lá, aqueceram com o Rogerinho, com o Marcelo Melo e com muita gente. A minha ideia, mais que o lado tenístico de bater bola com os jogadores. Era vivenciar o ambiente para fazer o contraponto. Eles estavam jogando future na Tunísia e na Turquia e, de repente, vão para o ATP que foi eleito o melhor do ano passado.

De repente, isso dá uma provocada neles: ‘É aqui que eu quero estar, não no outro’. Então é importante fazer com que eles vivenciem esse ambiente, que é o sonho de qualquer jogador, e usar os torneios menores só como uma ponte, como é para qualquer outros jovens, e passar por ela o mais rápido possível para chegar nesse ambiente de ATP.

Qual o planejamento para as próximas semanas do circuito?
Nesta semana, a gente está jogando um future na academia em Valldoreix, semana que vem tem um de 15 mil em Vic, que é a 45 minutos da academia. Depois a ideia é jogar um torneio de US$ 25 mil na Romênia. E em julho, devemos mesclar um ou dois torneios de US$ 15 mil e mais alguns de US$ 25 e 50 mil. Aí a gente tem que esperar um pouquinho para ver o ranking.

E de agosto para frente, pensando nessa melhora de ranking, a ideia é só jogar torneios de US$ 25 mil mais hotel e US$ 50 mil. Até por conta dessa mudança no ranking para o ano que vem. Então, a partir de julho a ideia é jogar torneios um pouquinho maiores.

Tem falado com eles sobre essa mudança do ranking pro ano que vem já que future não vai mais dar ponto?
Sim, tenho falado. Aliás, é uma conversa normalíssima e que, quando a gente vai para os torneios todo mundo quer saber. Porque muita gente tem dúvida a respeito, a ITF e ATP estão soltando e-mails e explicando dúvidas. Então, sim, a gente tem conversado muito. Acho que está todo mundo, não sei se assustado é a palavra, mas receoso. Não só os dois, mas todo o pessoal que joga esse nível de torneio, mas estão preparados para a mudança, porque já está decidido, vai ser assim e a gente tem que adequar um pouquinho as mudanças para o ano que vem.


Comentários
  1. Pieter

    Excelente matéria e entrevista. Estão em muito boas mãos o Orlandinho e o Felipe. Pena que sejam só os dois, idealmente eu incluiria também o Zorman, Marcondes, Rafael Matos, João Lucas e outros também.

    Reply
Deixe uma resposta para Pieter Cancelar resposta

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

Comentário

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>