Monthly Archives: fevereiro 2018

Os quatro testes e o 1º ATP de Tiafoe
Por Mario Sérgio Cruz
fevereiro 26, 2018 às 11:18 pm

É difícil ver um jogador tendo que passar por tantas situações distintas no caminho para um título quanto Frances Tiafoe teve nesta semana até a conquista do ATP 250 de Delray Beach. O norte-americano de apenas 20 anos lidou com diferentes estilos de adversário e diferentes tipos de pressão no caminho durante a trajetória até sua primeira conquista na elite do circuito.

Tiafoe foi de franco-atirador da partida contra Juan Martin del Potro ainda nas oitavas de final a favorito absoluto e esperança da torcida americana na decisão diante do alemão Peter Gojowczyk. Entre esses dois jogos, duas vitórias seguidas em duelos da nova geração sobre Hyeon Chung e Denis Shapovalov.

Tiafoe passou por Del Potro, Shapovalov e Chung antes da final em Delray Beach (Foto:  Peter Staples/ATP World Tour)

Tiafoe passou por Del Potro, Shapovalov e Chung antes da final em Delray Beach (Foto: Peter Staples/ATP World Tour)

O favorito: Diante de Del Potro, Tiafoe desafia os números. Era o sétimo jogo que o norte-americano faria contra um top 10 e a única vitória até então viera há mais de seis meses, contra Alexander Zverev no ano passado em Cincinnati. Some-se a isso uma recente vitória de Del Potro sobre o americano em sets diretos no Australian Open e o bom retrospecto do argentino no torneio. Em duelo de 2h27, com apenas duas quebras para cada lado, o jovem norte-americano disparou dezessete aces e salvou 14 dos 16 break points que enfrentou, em muitos deles com ótimos saques. Vitória por 7/6 (8-6), 4/6 e 7/5.

O jogo de dois dias: A partida contra Chung começou com desvantagem no placar e foi marcada por uma marcação controversa do árbitro de cadeira, que não viu uma bola tocar duas vezes na quadra do sul-coreano.

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Além disso, Chung exibia seu característico jogo sólido de fundo de quadra, sempre mandando uma bola a mais. Quando o norte-americano enfim adquiriu ritmo e ficou mais perto da vitória, aconteceu mais uma situação que poderia desestabilizá-lo. Começou a chover no momento que Tiafoe liderava a parcial decisiva por 5/3 e o jogo foi suspenso para a tarde seguinte. Na volta, Chung confirmou o serviço e passou a pressão para o lado do anfitrião. Sacando para o jogo, Tiafoe enfrentou um game longo e precisou de oito match points para garantir um lugar na semifinal, que seria disputada no mesmo dia. Placar de 5/7, 6/4 e 6/4 em 2h29 de partida.

A barreira:  Muita coisa estava em jogo na semifinal diante de Denis Shapovalov. Afinal, o vencedor do encontro entre dois expoentes da nova geração disputaria uma final de ATP pela primeira vez na carreira. E ambos sabiam que passar por essa barreira representaria uma decisão diante de Gojowczyk, que apesar dos 28 anos tem apenas um título no circuito, representaria uma oportunidade muito grande de conquistar o primeiro troféu.

Além disso, vencer um jogo importante contra um colega de geração serve para marcar terreno entre jogadores dessa faixa etária e que tendem a rivalizar nos próximos anos. O próprio Shapovalov vinha de duas vitórias assim, sobre os americanos Jared Donaldson e Taylor Fritz e estava sacando muito bem no torneio. A semifinal foi rápida, com apenas 1h11 de duração e equilibradas parciais de 7/5 e 6/4 a favor do anfitrião.

A grande chance: Depois de passar por um dos principais nomes do torneio e por dois rivais de sua geração, Tiafoe viu a sorte sorrir do outro lado da chave. Os principais nomes do outro lado do quadro caíram precocemente, casos de Jack Sock, John Isner e Milos Raonic. Veio Gojowczyk, então 64º colocado e ainda com algumas limitações físicas.

O começo de partida foi arrasador para Tiafoe, que venceu os cinco primeiros games. Mesmo sem colocar tantos primeiros saques em quadra, o norte-americano cedeu apenas sete pontos em seus games de serviço durante o set inicial e enfrentou apenas um break point. Gojowczyk chegou a pedir atendimento antes do sexto game e até confirmou o saque quando voltou, mas seguia com poucas chances diante do anfitrião.

Ainda com limitações físicas, o alemão frequentemente recebia o fisioterapeuta nas viradas de lado. Tiafoe foi o primeiro a quebrar ainda no terceiro game da parcial seguinte. Na sequência, em um game de duas duplas faltas permitiu a única quebra a favor do alemão no jogo. Ainda assim, o norte-americano manteve o domínio das ações e voltou a liderar o placar para não ser mais ameaçado. O jovem de 20 anos terminou o jogo com 13 aces, dois deles no último game disputado.

O ranking e os jovens americanos: Tiafoe é o primeiro expoente da nova geração do tênis masculino norte-americano a ter um título de ATP. De quebra, ele saltou trinta posições no ranking para atingir o 61º lugar e ficar a apenas uma posição da melhor marca de sua carreira.

O campeão de Delray Beach ainda está a duas posições de Jared Donaldson, que é um ano mais velho, mas já está à frente do 77º colocado Taylor Fritz que disputou uma final em Memphis há dois anos. Outros jovens americanos de até 21 anos no top 200 são Ernesto Escobedo (123º), Tommy Paul (151º), Stefan Kozlov (160º), Michael Mmoh (176º) e Reilly Opelka (197º).

Banana Bowl e Porto Alegre: Brasil recebe seus principais torneios juvenis
Por Mario Sérgio Cruz
fevereiro 20, 2018 às 8:02 pm

Nas mesmas semanas em que as duas maiores cidades do país recebem os dois torneios ATP em solo brasileiro, o Rio Open e o Brasil Open, acontecem também as duas principais competições nacionais do calendário infanto-juvenil.

A primeira disputa será a do Banana Bowl, mais tradicional competição juvenil no Brasil e que este ano chega à sua 48ª edição. Pelo segundo ano seguido, a disputa será concentrada no Sul do país, depois três edições no interior de São Paulo. O público paulista, aliás, também poderá acompanhar tênis juvenil em alto nível dentro de duas semanas, na edição inaugural da Copa Paineiras, competição sul-americana no clube Paineiras do Morumby, na Zona Sul da capital.

A cidade catarinense de Criciúma recebe a categoria 18 anos, que vale pontos no circuito mundial da ITF. Os jogos acontecem na Sociedade Recreativa Mampituba. Já os gaúchos de Caxias do Sul podem acompanhar os jogos das categorias 12 anos (nacional), 14 anos e 16 anos (que fazem parte do circuito sul-americano da COSAT), além do Tennis Kids (categorias 8, 9, 10 e 11 anos – nacional) no Recreio da Juventude.

Já na semana que vem, dois clubes da capital gaúcha recebem a 35ª edição do Campeonato Internacional Juvenil de Tênis de Porto Alegre, antigamente chamada de Copa Gerdau. A principal categoria acontece na Associação Leopoldina Juvenil, que também será palco do Tennis Kids. Já os jogos das categorias 12, 14 e 16 anos serão realizados na Sociedade de Ginástica Porto Alegre (SOGIPA).

ATRAÇÕES: Alguns dos principais juvenis do tênis brasileiro estarão presentes. É o caso do pernambucano João Lucas Reis e dos paulistas Mateus Alves, Igor Gimenez e Matheus Pucinelli, todos que aparecem no top 50 do ranking mundial juvenil da ITF. Já o paranaense Thiago Wild prioriza o circuito profissional, jogando o quali do Rio Open e a chave principal do Brasil Open como convidado.

Com experiência em ATP, o búlgaro de 16 anos Adrian Andreev jogará torneios juvenis no Brasil (Foto: DIEMA XTRA Sofia Open)

Com experiência em ATP, o búlgaro de 16 anos Adrian Andreev jogará torneios juvenis no Brasil (Foto: DIEMA XTRA Sofia Open)

Entre os estrangeiros, destaque para o búlgaro de 16 anos Adrian Andreev, que recentemente teve sua primeira experiência em nível ATP ao ser convidado para jogar a chave principal em Sófia. Argentina e Colômbia contam com os principais nomes no masculino e feminino: Sebastian Baez, Nicolas Mejia, Maria Camila Osorio Serrano e Maria Lourdes Carlé.

CAMPEÕES ILUSTRES: A lista de campeões na categoria principal do Banana Bowl tem nomes como Andy Roddick, John McEnroe (em final contra Ivan Lendl!), Thomas Muster, Fernando Meligeni, Fernando Gonzalez e Sevetlana Kuznetsova. Nos 16 anos, Juan Martin del Potro já foi finalista perdendo a final para o brasileiro Raony Carvalho em 2003.

Já o principal campeão da Copa Gerdau é Gustavo Kuerten, que venceu em simples e duplas na categoria principal de 1994. Nomes de destaque do tênis brasileiro como Flavio Saretta, Marcos Daniel e Thiago Monteiro também já foram campeões. No feminino, destaque para duas atletas que atingiram o top 10 da WTA: A canadense Eugenie Bouchard e a francesa Kristina Mladenovic.

TÍTULOS RECENTES: As últimas conquistas nacionais vieram com o gaúcho Orlando Luz, biampeão do Banana Bowl e também em Porto Alegre nos anos de 2014 e 2015. Já entre as meninas acontecem dois jejums. Roberta Burzagli foi a última brasileira a vencer o Banana Bowl ainda em 1991, enquanto Miriam D’Agostini venceu a Gerdau pela última vez em 1996. Entre as últimas finalistas, Roxane Vaisemberg foi vice do Banana em 2006 e Bia Haddad Maia jogou duas decisões na Gerdau em 2012 e 2013.

QUEM JÁ JOGOU: Além da galeria de campeões, os torneios juvenis no Brasil já trouxeram outros nomes que se destacaram na sequência da carreira. Só em edições recentes, podemos nos lembrar de Marion Bartoli, Sabine Lisicki, Alizé Cornet, Dominika Cibulkova, Kei Nishikori e Denis Shapovalov.

Denis Shapovalov jogou o Banana Bowl de 2015 em São José dos Campos (Foto: Marcelo Zambrana/DGW)

Denis Shapovalov jogou o Banana Bowl de 2015 em São José dos Campos (Foto: Marcelo Zambrana/DGW)

CLUBES: Essas competições costumam ser abertas ao público e ter entrada franca, mas é legal entrar em contato com os próprios clubes sobre eventuais protocolos de entrada, especialmente para quem não é associado.

Sociedade Recreativa Mampituba
Rodovia SC 446, 4, São Simão
CEP: 88811-400
Criciúma/SC
Telefone: (47) 3431-3000
www.mampituba.com.br

Recreio da Juventude
Avenida Atilio Andreazza, 3525, Sagrada Família
CEP: 95052-070
Caxias do Sul/RS
Telefone: (54) 3028-3555
www.recreiodajuventude.com.br

Associação Leopoldina Juvenil (ALJ)
Rua Marques do Herval, 280 – Porto Alegre/RS
CEP: 90570-140
Telefone: (51) 3323-4300
www.juvenil.com.br

Sociedade de Ginástica Porto Alegre (SOGIPA)
Rua Américo Vespucio, 580
CEP: 90540-020
Porto Alegre/RS
Telefone: (51) 3325-7200
www.sogipa.com.br

Barty mostra que é possível jogar diferente
Por Mario Sérgio Cruz
fevereiro 12, 2018 às 9:00 pm

Em um circuito dominado por jogadoras cada vez mais altas, mais fortes e mais agressivas, a australiana Ashleigh Barty mostra que é possível atuar em alto nível jogando de maneira diferente. A australiana de 21 anos é uma das atletas mais versáteis da atualidade e suas atuais décima sexta posição no ranking de simples e décima nas duplas ratificam essa condição.

Barty tem um bom forehand, mas não compete em potência dos golpes contra nomes como Petra Kvitova, Karolina Pliskova e Garbiñe Muguruza. Nem mesmo a consistência defensiva de uma Caroline Wozniacki ou Simona Halep aparecem tanto no jogo da australiana. Suas apostas são em frequentes slices, drop shots e subidas à rede. A variação aparece também nas devoluções, que em alguns momentos apenas bloqueiam o saque das adversárias. Junte isso com tempo de resposta muito rápido para a tomada de decisões de improviso e temos uma adversária bem chata de ser enfrentada até mesmo pelas melhores do mundo.

Barty mostra a cada semana que é possível jogar em alto nível sem ter o estilo dominante do circuito

Barty mostra a cada semana que é possível jogar em alto nível sem ter o estilo dominante do circuito (Foto: SMP Images)

Com apenas 1,66m, Barty pode não ser dona de um dos saques mais velozes do circuito, mas tem um das mais eficientes. A australiana é sexta jogadora que mais fez aces neste começo de ano com 50 no total. Ela é também a nona jogadora que melhor aproveita os pontos disputados em seu serviço, com 62,2%.

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No ano passado, Barty teve o quinto melhor aproveitamento de pontos jogados no saque com 62% em 41 jogos e venceu 70% dos pontos jogados em primeiro saque, média que fez dela a oitava melhor do circuito nesse quesito. A australiana também apareceu entre as dez que mais venceram pontos com segundo saque e entre as que mais salvaram break points. Como isso é possível? Barty coloca muito bem o saque e sabe como poucas variar efeito e direção. Jogando ora aberto, ora no T, ora no corpo, ela faz tudo muito bem.

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No último fim de semana, Barty defendeu a Austrália no Grupo Mundial II da Fed Cup e responsável pelos três pontos no confronto diante da Ucrânia em quadra de grama em Camberra. Além de vencer seus dois jogos de simples, ela também marcou a vitória decisiva nas duplas, ao lado de Casey Dellacqua. A atuação mais impactante do fim de semana veio diante da promessa ucraniana de 15 anos Marta Kostyuk, uma das principais revelações deste início de temporada e adepta do estilo agressivo. Barty criou uma verdadeira armadilha para sua jovem rival e não a deixou confortável em nenhum momento. Resultado, 6/2 e 6/3 em dos jogos mais importantes do confronto.

Uma trajetória diferente –  Barty começou a chamar atenção no mundo tênis em 2011 quando foi campeã juvenil de Wimbledon e vice-líder no ranking mundial da categoria com apenas 15 anos. Pouco depois, conseguiu uma vaga na chave principal do Australian Open do ano seguinte ao vencer a forte seletiva nacional entre jogadoras profissionais tradicionalmente disputada em dezembro. Já em 2013, foi finalista de duplas em três Grand Slam, Australian Open, Wimbledon e US Open, todos ao lado de Dellacqua.

Entretanto, depois de ter alcançado o 129º lugar no ranking de simples e o 13º em duplas, Barty fez uma pausa na carreira após o US Open de 2014. Estava cansada da pressão sofrida no circuito e tentou a sorte no críquete, chegando a jogar profissionalmente em seu país. “Tudo aconteceu rápido demais”, disse Barty ao site da WTA, em fevereiro de 2016, quando voltou às quadras jogando ITFs. “Eu era uma desconhecida até ganhar o juvenil de Wimbledon e seis meses depois jogar o Australian Open. Fui vítima do meu próprio sucesso”.

Depois de jogar torneios menores e lesionar o braço direito há dois anos, a australiana só pôde efetivamente voltar ao circuito de WTA no início do ano passado. Ainda em março, conquistou seu primeiro título na elite do circuito em Kuala Lumpur, entrou no top 100 e não parou mais. Fez boas campanhas ao longo do ano, com destaque para os vice-campeonatos em Wuhan e Birmingham e venceu quatro jogos contra top 10. Ao final da temporada, a australiana havia saltado 308 posições do 325º para o 17º lugar, tendo a segunda maior evolução na elite do circuito.
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De promessa no circuito juvenil, a uma jovem jogadora estafada no início da carreira profissional à volta ao circuito em alto nível. O que mudou? Ela mesma explicou em entrevista coletiva antes do Australian Open. “Isso foi há muito tempo e para mim foi uma surpresa. Simplesmente aconteceu muito rápido e eu não estava pensando muito à frente. Acho que se você é um bom juvenil, não há garantias de que você vá se dar bem no circuito e isso foi muito difícil para mim. Mas acho que isso já passou e hoje me sinto ótima em quadra. Tenho uma equipe realmente sólida em torno de mim. São pessoas genuínas que estão me ajudando em tudo”.

A cada semana, Barty mostra que jogar diferente da maioria não é uma sentença de morte no circuito. Também serve para refutar o argumento simplista, preguiçoso (e preconceituoso, por que não?) de que não há variação no tênis feminino. Além da própria australiana, nomes como Anastasija Sevastova, Magdalena Rybarikova, Elise Mertens e a veterana Svetlana Kuznetsova aparecem hoje no top 20 e nenhuma delas é adepta de “quebrar a bola e atacar a todo custo”. O caminho pode até ser mais longo, mas ainda há espaço para quem subverta os padrões.