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Que domingo em Indian Wells
Por José Nilton Dalcim
17 de março de 2018 às 19:42

Talvez não exista missão mais difícil no tênis do que ganhar uma partida em que seu adversário jogou melhor do que você. Isso poderia se encaixar perfeitamente no magnífico duelo semifinal entre Roger Federer e Borna Coric. O garoto croata, dentro de sua nova postura, foi superior no plano técnico e tático, venceu o primeiro set e liderou os outros dois. Perdeu muito provavelmente porque a cabeça do número 1 foi superior na hora ‘h’. Mais uma vez, prova-se que a parte mental responde a mais do que 70% do tênis profissional de hoje.

A grosso modo, Coric não mereceu sair derrotado. Viu um Federer um tanto lento e descalibrado por um set e meio – o vento irregular teve seu papel nisso – e foi notavelmente aplicado: manteve bolas muito fundas, buscou o backhand o tempo inteiro, aproveitou qualquer chance para ser agressivo e definir o ponto. Era exatamente isso que tanto se cobrava dele. Claro que vacilou depois de abrir 4/2 no segundo set, ainda que seja necessário dar crédito à mudança que Federer fez, ao investir mais no slice e aí mesclar com batidas.

O líder do ranking embalou quatro games e aí Coric mostrou que também melhorou na questão emocional. Deixou de ser o bebê chorão de antes e saiu com quebra no terceiro set. Cedeu o empate, salvou break-point no quarto game e então chegou à quebra num game aplicadíssimo. Com 4/3 e saque, brigou num game muito longo e repleto de alternativas até ceder o serviço e daí em diante não ganhou mais lances na partida. A cabeça, claro, naufragou. A estatística, diga-se de passagem, mostra outra vez a realidade do circuito masculino de hoje: levou aquele que ganhou mais os pontos curtos (menos de cinco trocas): 59 a 41.

Federer atinge assim a maior série invicta da carreira num começo de temporada, com 17, e irá em busca do 98º troféu da carreira e o 28º Masters com a certeza de ter feito seu jogo mais duro do ano.

Como se esperava desde o início, a decisão será contra Juan Martin del Potro, que demonstra desde Acapulco evolução no backhand e na resistência física. É verdade que o argentino passou por duas rodadas muito duras, especialmente diante de Leo Mayer, mas sempre encontrou um jeito de seguir em frente. Neste sábado foi premiado por uma atuação fraca de Milos Raonic, que deu pouco trabalho, mostrou-se apressado e perdido. O canadense quis ir de qualquer jeito à rede, quem sabe determinado a não dar ritmo de fundo a Delpo, mas o resultado catastrófico foram oito pontos em 23 tentativas.

Todos sabemos do extraordinário histórico dos duelos entre Federer e Delpo. Mas vamos nos ater ao que aconteceu depois do retorno definitivo do argentino e então temos 3 a 1 para Roger, todos no ano passado e apenas um em sets diretos. Ou seja, ainda com Delpo usando mais slices do que topspin no backhand, o confronto tem sido equilibrado. Neste domingo, tudo pode acontecer. Note-se que, apesar de ter vencido um Grand Slam, Del Potro jamais faturou um Masters 1000.

Se entre os homens deu a lógica, a final feminina de Indian Wells é uma tremenda e deliciosa surpresa, porque as duas meninas de 20 anos jogam um tênis de muita potência e agressividade, têm excelente trabalho de pernas e atropelaram favoritas sem medo de ser feliz.

A russa Daria Kasatkina não é exatamente uma novidade. Já top 20 do ranking, soma vitórias importantes na curta carreira, ainda que some um único título de WTA até agora. Num universo um tanto pragmático na forma de jogar tênis, seu estilo tão criativo e ousado rouba corações. Kasatkina se defende com admirável qualidade, é esperta no contraataque, mas ao mesmo tempo é capaz de dar os mais inesperados efeitos na bola. O duelo que fez contra Venus Williams foi um dos melhores jogos femininos dos últimos tempos, tamanha intensidade, precisão e luta das duas jogadoras. A russa esteve a dois pontos da eliminação. E, lembremos, tirou sucessivamente Sloane Stephens, Carol Woniacki, Angelique Kerber e Venus.

A japonesa Naomi Osaka, com sua pele muito morena,  causa mais surpresa. É uma top 50 com uma única final disputada – só fez semifinal uma vez, 18 meses atrás -, mas seu jogo se encaixou de forma perfeita em Indian Wells. Saca melhor que Kasatkina, mostra golpes sólidos e consistentes da base e um ataque fulminante com backhand na paralela que desconcerta as adversárias. A número 1 Simona Halep sentiu isso na pele e levou nove games seguidos da adversária, que atuou num estilo rolo compressor de tirar o fôlego. Aliás, já tinha feito algo semelhante contra Karolina Pliskova nas quartas.

Mais saboroso ainda é o fato de que as duas novas sensações jamais se cruzaram no circuito. Portanto, tal qual entre os homens, está tudo aberto.

Prepare-se para um domingo eletrizante.

O salto de Coric e a noite dos velhinhos
Por José Nilton Dalcim
15 de março de 2018 às 20:21

Atualizado à 1h35

Três torneios, duas quartas de final e agora uma semi, com direito a duas vitórias sobre top 10. O que afinal mudou no croata Borna Coric para um 2018 tão diferente, que lhe renderá na próxima segunda-feira a primeira presença no top 40 em mais de dois anos?

Bom, antes de tudo é preciso lembrar que Coric completou 21 anos em novembro. O fato de ter chegado ao 33º lugar do ranking quando ainda era adolescente gerou uma natural cobrança. Ele fez duas finais de ATP em 2016, ganhou duas partidas de Rafa Nadal e outra de Nick Kyrgios. Mas uma cirurgia no joelho direito, feita em setembro, interrompeu sua trajetória.

Quando voltou, foi recuperando a confiança pouco a pouco. Só ganhou três jogos até chegar a Miami, quando então superou Dominic Thiem e se animou. Amargava o 79º posto do ranking ao faturar Marrakech. Derrotou em seguida Andy Murray e foi às quartas de Madri. E olha que o piso duro sempre foi seu predileto. Sobre ele, em pleno US Open, ganhou de Alexander Zverev antes de cair facilmente para o mesmo Kevin Anderson que eliminou nesta quinta-feira.

Mas voltemos à pergunta original: o que mudou em 2018? Basicamente, Coric ficou muito mais agressivo. Força mais o saque, arrisca saque-voleio, vai para winners e sabe agora aproveitar o deslocamento do adversário para avançar à rede porque está mais dentro da quadra. Não por coincidência, ele passou a trabalhar com o técnico Riccardo Piatti na preparação para 2018 e esses ingredientes me parece evidentes.

Numa entrevista em fevereiro, Coric contou: “A coisa que mais fez meu tênis crescer nestas semanas foi entender o jogo. Vimos e analisamos inúmeros vídeos. Acreditei que jogar mais perto da linha de base seria o caminho”.

Piatti não foi um grande tenista. Aos 30 anos, começou sua carreira de treinador depois de absorver o máximo dos conceitos de Nick Bollettieri. Seu primeiro grande trabalho veio com Ivan Ljubicic. Pegou o croata como 954 do ranking e o levou ao terceiro posto em 2012. Também acompanhou o final da carreira juvenil de Novak Djokovic e até hoje o sérvio lamenta a recusa do italiano em ficar com ele. Piatti levou ainda Richard Gasquet ao top 10. Seu último pupilo foi Milos Raonic e desde então ele tem se dedicado muito mais a desenvolver o tênis nas escolas.

Noite dos velhinhos
Se a tarde foi de Coric e do tênis variado e talentoso da russa Daria Kasatkina, a noite em Indian Wells coube aos veteranos. Primeiro, Venus Williams atropelou o backhand de uma mão de Carla Suárez e voltará a disputar uma semifinal em Indian Wells depois de 17 anos. Que feito. Mas encarar Kasatkina exigirá um esforço extra, porque a jovem russa sabe trocar a direção e a velocidade das bolas, uma mistura interessante contra Venus.

Por fim, Roger Federer manteve-se invicto na temporada e repetiu a vitória sobre Hyeon Chung do Australian Open, num cada vez mais curioso duelo de gerações e de estilos. O jogo não foi espetacular o tempo todo, porém marcou alguns incríveis trocas de bola de muita força e profundidade.

Federer precisou jogar muito perto da linha para conter os contraataques extraordinários do coreano, enquanto Chung muitas vezes se viu obrigado a ser agressivo para não ficar nas cordas o tempo todo. Taticamente, um jogo agradável. O placar se explica em boa parte pelos winners: 32 (sendo 12 aces) contra apenas 8.

Já com o número 1 garantido pelo menos até o final de Miami, vem aí outro garoto de 21 anos. Coric só ganhou três games de Federer no duelo de 2015 em Dubai e terá de mostrar se realmente consegue manter um padrão agressivo para não ser engolido pelo pentacampeão.

E a sensação de Indian Wells é… Venus!
Por José Nilton Dalcim
14 de março de 2018 às 03:08

Falamos tanto da longevidade de Roger Federer e de vários ‘trintões’ que se mantêm tão firmes no circuito que por vezes nos esquecemos dela, Venus Williams. A quatro meses de completar 38 anos, em sua 24ª temporada como profissional, ela continua a esbanjar um invejável vontade de vencer.

A surpresa pela campanha em Indian Wells começa por seu início ruim de temporada, com derrotas na estreia de Sydney e Melbourne. Passa pelo duelo tão emocional contra a irmã Serena ontem, que acima de tudo remontou àquele amargo momento de 2001 em que não entrou em quadra na semifinal e viu Serena ser vaiada no dia seguinte com provocações racistas, motivo pela qual boicotaram o torneio até pouco tempo atrás.

Nesta noite diante de Anastasija Sevastova, 20ª do ranking, Venus demonstrou uma vitalidade exemplar. Mexeu-se incrivelmente bem, lutou por todos os pontos, buscou duas curtinhas difíceis num único game e manteve seu espírito agressivo. Jogou com a mesma seriedade e empenho da véspera diante de Serena. E talvez seja por isso que às vezes nem nos lembremos de que ela está ali há tanto, tanto tempo.

Enquanto isso, a chave masculina apresenta nomes completamente fora dos padrões de um Masters 1000. Vale até dar uma consultada no histórico dessa rapaziada.

Pierre Herbert, por exemplo. É fácil associar seu nome às duplas, já que forma notável parceria com Nicolas Mahut, com quem já ganhou dois Grand Slam. Mas Herbert tem apenas 26 anos. Quem sabe, sua dedicação tão precoce às duplas tenha tirado seu foco. Ele já fez uma final de simples em ATP (2015 em Winston) e figurou no top 70. É orientado por Fabrice Santoro e daí se pode acreditar que ainda haja espaço para ele brilhar nas simples.

Leonardo Mayer, 30 anos, tem um longo currículo em que se incluem dois títulos de ATP e o 21º lugar do ranking em 2015. Com 1,90m e backhand de uma mão, facilmente se adaptou aos pisos mais velozes e esteve a um passo – na verdade, cinco match-points – de eliminar Federer em Xangai de 2014. No seu melhor momento, perdeu metade da temporada de 2016 devido a tendinite no ombro e ainda tenta se recuperar.

O garoto Taylor Fritz tem sido precoce em tudo. Fez final apenas em seu terceiro ATP da carreira (Memphis de 2016) e se casou logo depois, ainda aos 18 anos, tendo um filho, nascido 14 meses atrás. Carrega um gene espetacular, já que sua mãe Kathy May foi top 10. Teve grande carreira juvenil, é treinado por Mardy Fish e ganhou de Marin Cilic 12 meses atrás lá mesmo em Indian Wells. Aos 20 anos e com 1,93m, também foi vítima de longa parada por causa do joelho e por isso deixou o top 100. Voltou nos challengers e já recuperou 40 posições.

Mesmo eliminado nesta noite por Sam Querrey, também vale falar sobre Yuki Bhambri, que saiu do quali. Ele fez parte de um grupo de 40 adolescentes indianos que foi tentar a sorte na academia de Nick Bollettieri, mesma época aliás em que Hyeon Chung, então com 12, chegou lá. Bhambri se destacou logo e, com 16, foi campeão do Orange Bowl e do Australian Open. Em 2015, chegou a 88º do ranking da ATP, mas o tennis-elbow o pegou e o fez cair para além do 500º. Foi jogar futures e hoje se reaproxima do top 100.