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O dia em que Serena manchou o tênis
Por José Nilton Dalcim
8 de setembro de 2018 às 20:41

nnSerena Williams é uma tenista espetacular, campeã legítima, dona de golpes espetaculares, grande força física. Tida por muita gente como a maior da história, o que não pode ser contestado diante de seus números incríveis, recordes estonteantes e uma trajetória de carreira cheia de duros desafios e superações.

Mas Serena transformou um grande dia do tênis feminino em sucessivas cenas constrangedoras. Sua discussão cada vez mais ríspida com o árbitro Carlos Ramos incitou a torcida norte-americana, gerou vaias até na cerimônia de premiação e quase deixou em segundo plano a notável façanha de Naomi Osaka, campeã do US Open aos 20 anos com atitude de uma veterana.

Apenas para relembrar, Serena levou advertência por instrução no segundo game do segundo set – havia acabado de ser dominada por indiscutíveis 6/2 -, situação flagrada pela TV oficial e admitida mais tarde pelo próprio Patrick Mouratoglou. Mas ok. Ela reclamou e jurou inocência, como fazem todos os tenistas.

Depois, desperdiçou vantagem de 3/1 com um game ruim de serviço e destruiu a raquete. Levou nova advertência e, como diz a regra, o game seguinte começou com 15-0 para a japonesa. Serena aparentemente não levou em consideração a primeira advertência, sabe-se lá por que supondo que Ramos a havia retirado.

Claro que não. Ficou irritada, continuou a dizer que Ramos havia ofendido sua honra (por acusar de instrução), usou até o fato de ter uma filha. Incrível seu descontrole emocional. Pior. Levou a torcida junto, gente furiosa de pé e dedo em riste na arquibancada, vaias generalizadas que obrigaram a própria Williams a pedir calma ao público.

De 3/1, Serena viu-se atrás por 3/4, já que Osaka fez novamente seu papel com total competência, pouco se importando com os devaneios do ídolo. E então Serena vai para a cadeira e continua a arguir com Ramos. O microfone de quadra capta claramente, assim que ela se levanta para ir à posição de devolução: ‘Você me roubou um ponto, você é um ladrão’.

Aí não dá, né? Ramos teria de ser um tremendo ‘banana’ para não tomar uma atitude. Abuso verbal, penalidade de um game todo, 5/3. Outro barraco, Serena chama supervisores, mostra que está cansada de ser prejudicada no US Open, afirma (talvez único momento em que lhe dou razão) que muito marmanjo faz coisa pior e ninguém fala nada. Quase chora. Ainda vence seu game.

Impassível – durante toda a confusão, a câmera mal a enxergou -, Osaka saca com 5/4, capricha em cada golpe, vê até um grande lance da megacampeã, mas liquida a partida. Ao menos, Serena lhe deu um abraço acalorado.

O triste dia em que a magistral Serena maculou o tênis prosseguiria com uma acanhada cerimônia de premiação, que começou sob vaia. Constrangedor em todos os sentidos. Até Katrina Adams, presidente da USTA, entrou na fúria. Serena amenizou, parabenizou a adversária e arriscou uma piadinha.

Tímida por natureza, Naomi quase pediu desculpas por ter vencido o US Open. Isso não se faz com uma menina que jogou um torneio impecável, mostrou qualidades de sobra para ser agora a número 7 do ranking. Que traz a tão esperada renovação para as quadras com um tênis vistoso, corajoso, agressivo, tal qual Serena e Venus ensinaram a suas seguidoras quase 20 anos atrás.

Bem vinda à terra de gigantes, Naomi.

Volta por cima
Por José Nilton Dalcim
10 de setembro de 2017 às 23:56

O jejum de três anos e oito meses de conquistas sobre o piso sintético não poderia ter terminado de forma mais exuberante para Rafael Nadal. Depois de deixar escapar chances em Melbourne, Acapulco e Miami, o canhoto espanhol mostrou em Flushing Meadows as qualidades essenciais de quem joga bem nesse tipo de superfície: grande percentual de pontos vencidos com o saque, capacidade de evitar e buscar break-points, devoluções persistentes e perfeita transição para a rede.

Junte-se a isso sua habitual competência atlética de buscar bolas impossíveis, as pernas leves para atacar com o forehand bem posicionado e uma evolução cristalina do backhand e se tem um campeão. Ou melhor, um tricampeão do US Open. Para quem não se lembra, é importante recordar que, a cada conquista em Nova York, ele mostrou um elemento novo no seu repertório. Num ano, jogando mais perto da linha, em outro agregando slices e voleios. Nadal mais uma vez se reinventou, e isso não aqui e agora, mas desde o começo da temporada.

A final de domingo transcorreu exatamente como o previsto. Na verdade, a surpresa foi que Nadal sacou muito melhor do que Anderson, que era o tenista que dependia crucialmente do serviço para ter chances. Até o nervoso último game, Nadal só havia permitido dois 30-30, sempre achando o backhand do sul-africano na hora precisa. Não menos fundamental foi o fato de que o espanhol conseguiu colocar muita devolução de volta, obrigando Anderson a disputar dezenas de pontos que certamente não gostaria. Aí forçou e errou além da conta.

A conquista deste domingo também pode ser essencial na luta para terminar como número 1 da temporada. Divide agora com Roger Federer dois Grand Slam para cada lado, mas seu domínio sobre o saibro permite que abra uma diferença de 1.860 pontos sobre o suíço nesta segunda-feira. Ou seja, irá permanecer na ponta pelo menos até o final de outubro. Embora seja possível Federer somar mais pontos até o Finals, a lógica diz que os dois irão disputar em Londres, rodada a rodada, a primazia de 2017.

Ao atingir o 16º Slam, uma coleção iniciada 12 anos atrás, Nadal ganha a motivação para tentar se aproximar, igualar ou até mesmo ultrapassar os 19 troféus de Federer em 2018. Não é obviamente uma tarefa fácil, mas Nova York a tornou mais possível do que nunca. Antes disso, porém, Rafa talvez tente realizar o sonho de ganhar o Finals, o torneio que falta na sua galeria de 74 títulos. Num grupo que não terá Djokovic, Wawrinka e Murray mas talvez novatos como Zverev, Thiem, Dimitrov e até Carreño, a chance aumenta muito.

No sábado, a final feminina foi sim inesperada. E frustrante. Madison Keys não controlou os nervos e fez uma partida muito abaixo de sua qualidade técnica. Buscou como sempre ser agressiva, mas estava muito precipitada. E diante de Sloane Stephens, não dá para cometer tantos erros de julgamento e finalização. Resultado foi um atropelamento impiedoso.

Stephens voltará nesta segunda-feira ao 17º lugar do ranking, cerca de 940 posições acima do que ocupava quando retornou ao circuito em Wimbledon, após 11 meses de inatividade e drama. Contou na entrevista oficial que chegou a duvidar que conseguiria recuperar um lugar no top 100, quem dirá ganhar um Grand Slam, e ainda por cima o US Open.

Embora não tenha um saque contundente, seu tênis é muito astuto, mesclando ataque e defesa. Muita perna e determinação, o que necessariamente lembra o próprio Nadal. Predicados que sem dúvida foram a marca registrada deste US Open.

Nadal com a mão no 16º Slam
Por José Nilton Dalcim
8 de setembro de 2017 às 18:23

A menos que aconteça uma das maiores surpresas deste milênio no tênis masculino, Rafael Nadal reacenderá no domingo a velha discussão sobre a possibilidade de igualar, e quem sabe ultrapassar, Roger Federer na quantidade de títulos de Grand Slam. O número 1 é amplo favorito diante do debutante de 31 anos Kevin Anderson, contra quem só perdeu um set em quatro partidas. A diferença de currículo é esmagadora.

Rafa marcou nesta sexta-feira sua terceira virada no torneio depois de perder o primeiro set, com um script muito parecido: a partir da primeira quebra obtida, ganhou confiança e deslanchou. A diferença é que desta vez o adversário era o experiente Juan Martin del Potro, dono de temidos saque e forehand. Talvez Roger Federer tenha cometido mais um erro neste US Open ao imaginar que o argentino teria mais chance diante de Nadal do que ele próprio.

Algumas estatísticas chamam a atenção. Dos pontos que o espanhol fez contra Delpo, praticamente 45% foram winners. Outros 40% foram de erros não forçados do argentino. Rafa terminou a partida com 19 falhas, das quais 10 foram no primeiro set perdido e o restante nos outros três sets. Ele explicou em quadra o que mudou tanto: deixou de martelar o backhand adversário, tática mais do que óbvia, e ousou com paralelas. Quem disse que não é possível ganhar de Delpo atacando seu forehand?

Anderson chega à final com predicados. Cedeu apenas cinco quebras em 109 games de serviço, um aproveitamento de 96%, tendo salvado 17 de 22 break-points. Já supera a casa dos 100 aces nesta edição do US Open, com 114. Evidentemente, portanto, o saque será sua maior chance de equilibrar a final.

Diante de Pablo Carreño nesta sexta, mostrou uma outra grande qualidade: a excelente movimentação para um jogador de 2,03m, o que aliás o torna o mais alto finalista de Grand Slam de todos os tempos. Número 32 do ranking, é também o tenista de mais baixo ranking a atingir a final de Nova York desde a criação do ranking, em 1973, e de um Grand Slam desde Jo-Wilfried Tsonga, na Austrália de 2008, quando era 38º.

Ex-top 10 do ranking, justamente depois de atingir as quartas do US Open de 2015, Anderson passou por maus bocados devido a seguidas e variadas contusões. A mais preocupante foi o quadril, que o tirou do Australian Open e derrubou seu ranking para o número 80. Agora, voltará ao 15º lugar e poderá ser novamente 10º se levar o título.

Representará dignamente o tênis norte-americano nesta final, mas é improvável que tenha a torcida. Ele vive no país desde que entrou para a Universidade de Illinois, aos 18 anos. Hoje, mora na Flórida com a esposa, amiga de universidade e golfista. Mas nunca cogitou trocar de cidadania.

Renovação garantida
Enquanto todo mundo espera ver a renovação florescer no circuito masculino, as meninas dão um salto espetacular. O US Open será decidido neste sábado por duas afro-americanas, uma de 22 e outra de 24 anos, muito amigas e que representam o modelo norte-americano de jogar.

É precoce dizer que Madison Keys ou Sloane Stephens serão sucessoras das irmãs Williams. Até porque Serena e Venus não deram qualquer sinal que pretendam parar, muito menos que deixaram de ser competitivas.

A preocupação maior é justamente a questão física, o grande fantasma do tênis profissional. Ambas já passaram por problemas graves, Sloane com o pé, Keys com o punho.

Com 1,78m e ex-7 do ranking, Keys tem o acompanhamento de Lindsay Davenport e um jogo mais ofensivo, ainda que não bata tão reto na bola como a treinadora fazia. É versátil nos pisos, tendo batido até mesmo Garbiñe Muguruza no saibro de Roma no ano passado.

Sloane mede 1,70m, é de uma inteligência tática assombrosa, ainda que treinada pelo quase desconhecido Kamau Murray. Possui grande qualidade na defesa, daí ter vitórias sobre Serena, Venus, Sharapova e Kerber. Era 957 do ranking seis semanas atrás. Se conquistar o título, voltará ao top 20.