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Prova de fogo
Por José Nilton Dalcim
13 de abril de 2018 às 20:45

Ainda que seu favoritismo seja absoluto, Rafael Nadal não poderia contar com uma chave mais dura em sua primeira aventura sobre o saibro de 2018. O número 1 do mundo vai em busca do 11º troféu em Monte Carlo, um torneio em que venceu 63 de 67 jogos, com a provável necessidade de enfrentar uma série de nomes muito respeitáveis sobre a terra batida.

A estreia já pode ser interessante se der Aljaz Bedene, já que o esloveno saber jogar na terra. Em seguida, deve vir o canhoto Adrian Mannarino e portanto tudo indica que teremos uma fantástica terceira rodada diante de Dominic Thiem ou Novak Djokovic.

Não sabemos o que esperar da forma física e técnica tanto do austríaco como do sérvio. E os dois ainda têm testes reais pela frente: Nole pega um quali antes de Borna Coric e Thiem aguarda Andrey Rublev ou Robin Haase.

De qualquer forma, são adversários que conhecem muito bem Nadal e estarão motivados a uma surpresa. Vale lembrar que Djokovic bateu Rafa na final de 2013 e encerrou sua série de 46 vitórias no torneio de então, enquanto Thiem cruzou quatro vezes com Rafa no saibro de 2017, vencendo em Roma.

Claro que o mundo do tênis apreciaria muito rever o mais repetido duelo da era profissional, já que Nadal e Nole se cruzaram exatas 50 vezes, com apertados 26 a 24 em favor do sérvio. Eles se enfrentaram pela última vez em Madri do ano passado, com vitória tranquila do espanhol. Porém, Nole ousou derrotar Rafa até em Roland Garros. Fora tudo isso, cada um tem 30 títulos de Masters e se torce por uma luta direta por essa supremacia ao longo de 2018.

No mesmo lado da chave de Nadal, estão ainda Grigor Dimitrov, David Goffin e Albert Ramos. O saibro lento não é a praia do búlgaro, que ainda por cima pode pegar Ramos, vice do ano passado, já na terceira rodada. Goffin fez um grande torneio em 2017, porém só ganhou um game desde o acidente em Roterdã.

O outro lado da chave me parece totalmente aberto. Alexander Zverev teria o favoritismo caso não vivesse uma fase tão irregular. Para piorar, tem Fabio Fognini no caminho antes de um possível duelo com Lucas Pouille ou Diego Schwartzman. Um quadrante bem interessante e imprevisível. A outra vaga para a semi está entre Marin Cilic ou Pablo Carreño. Uma incrível primeira rodada acontece entre o vice de 2015 Tomas Berdych e Kei Nishikori.

Detalhes
– Nadal começa a temporada de saibro com a incrível marca de 391 vitórias e apenas 35 derrotas sobre o saibro ao longo da carreira, ou seja, eficiência superior a 91%.
– Se existe alguma pressão sobre o espanhol, certamente é a manutenção do número 1. Derrota em Monte Carlo já lhe tira o posto pelo menos até o final de Roma, mas muito provavelmente até o começo de junho.
– Djokovic e Pouille moram em Monte Carlo, mas não se pode dizer que jogam em casa, porque o Tênis Clube monegasco está localizado em território francês.
– Zverev tem um retrospecto muito discreto no Principado: apenas cinco jogos, com três vitórias.
– Dos tenistas em atividade, Stan Wawrinka foi o único outro campeão em Monte Carlo, além de Nadal e Djokovic. O suíço está fora desta edição e ainda tenta recuperar a forma. A previsão de volta é em Madri.
– Nunca é ruim recordar que Guga Kuerten ganhou as duas finais que disputou no Principado, em 1999 e 2001.

Ataque contra defesa
Por José Nilton Dalcim
24 de janeiro de 2018 às 12:11

Antagonismo total marcará a segunda semifinal masculina do Australian Open. O superexperiente e agressivo Roger Federer enfrentará a perseverança defensiva de Hyeon Chung, 15 anos mais jovem e mais de 1.080 vitórias a menos no currículo. Enquanto o suíço chega a sua 14ª semi em Melbourne, a 43ª da carreira – 11ª sem perder sets -, o coreano é o tenista de menor idade na semi de um Grand Slam desde Marin Cilic, em 2010. Contraste de estilos geralmente traz os melhores espetáculos numa quadra de tênis.

Como se previa pelas atuações anteriores, Tomas Berdych exigiu respeito e cuidado na partida desta manhã. O tcheco saiu atacando, usou com inteligência as paralelas e dominou até ter 5/3 e saque. Aí Federer usou mais slices para diminuir os erros e a altura da bola, porém ainda assim teve de salvar set-point com coragem para soltar um backhand de devolução na paralela.

O jogo continuou duro e Berdych teve outro set-point, agora no serviço do suíço, mas não evitou o tiebreak. Daí em diante, Federer acordou de vez, passou a mesclar muito melhor velocidade e efeito, colocou Berdych para correr e ficou envolvente. O tcheco não perdeu a cabeça, numa prova que está mesmo mudado, e ainda recuperou uma quebra no começo do terceiro set. Exigiu ao final das contas muita perna, precisão e inteligência tática do cabeça 2, mas cometeu o grave erro de perder a agressividade ao longo dos sets. Terminou com 22 winners contra 61 do suíço e fez menos do que deveria com o saque (56%). Desse jeito, só se vence Federer com a sorte de um dia ruim.

Momento curioso da partida, Federer discutiu com o árbitro por conta de um desafio eletrônico não mostrado e chegou a ser irônico alguns lances mais tarde, porém ao final admitiu que estava errado.

Chung por sua vez passou pela surpresa Tennys Sandgren em três sets bem disputados. O jovem coreano, que será top 30 na semana que vem, esteve perto de perder o segundo set, quando o norte-americano sacou com 5/4, mas mostrou saborosa maturidade para quem vinha da incrível vitória sobre Novak Djokovic. Também foi um bom teste os seis match-points que precisou para fechar a partida.

Para encarar Federer com chance, Chung vai precisar ser um pouco mais ousado. Fez 29 winners e cometeu 33 erros, um saldo negativo que pode custar muito caro diante de um adversário que gosta de sufocar e provavelmente irá forçar em cima do segundo serviço ainda não tão convincente. Mais do que nunca, Chung necessita assistir às vitórias de Djokovic sobre Federer em Melbourne para se inspirar.

Pouco antes da entrevista oficial, Sandgren leu um discurso para atacar a imprensa, que desde a véspera relembra passagens suas nas mídias sociais com condutas sugestivamente racistas ou de extrema-direita. Um minuto antes de seu jogo começar na TV americana, Serena Williams soltou um “mudando de canal” no Twitter.

Vale o número 1
O complemento das quartas femininas foi totalmente sem graça. Angelique Kerber despachou uma apática Madison Keys em meros 51 minutos com a chocante cena de ver o público torcendo para a norte-americana ganhar games. Logo depois, Simona Halep não tomou conhecimento de novo de Karolina Pliskova, que soltou a pérola: “Eu apenas rezo para que ela não esteja no meu lado da chave”.

O duelo de Kerber contra Halep é totalmente imprevisível e o placar geral de 4 a 4 apenas reforça isso. A romena ainda diz sentir a perna e talvez não esteja em condições de outra maratona como a que fez diante de Lauren Davis.

Halep ainda tem o peso de defender o número 1. Caso Carol Wozniacki justique seu amplo favoritismo contra a pouco experiente Elise Mertens no jogo que abre a programação na nossa madrugada, a romena perderá o posto em caso de derrota.

Para o bem do tênis feminino, claro que o ideal seria uma decisão entre Halep e Wozniacki no sábado, que valeria título de Grand Slam inédito, e tão sonhado, além da ponta do ranking. Mas Kerber terá de concordar com isso. A campeã de 2016 recuperou seu lugar no top 10, mas não sairá do 9º mesmo com eventual bi.

Diagnóstico
Rafa Nadal deverá estar recuperado dentro de três semanas e assim manteve seu calendário original, que é jogar em Acapulco antes de Indian Wells e Miami.

A ressonância magnética feita em Melbourne indicou que o problema é no músculo que liga o quadril à coxa direita, uma contusão leve, segundo comunicado divulgado pela assessoria do espanhol. Ele fará fisioterapia para acabar com a inflamação e pretende estar de volta aos treinos em duas semanas.

Físico abandona Rafa. Outra vez.
Por José Nilton Dalcim
23 de janeiro de 2018 às 11:55

Pelo terceiro torneio consecutivo, Rafael Nadal se rendeu a seus problemas físicos. E desta vez nem foi o joelho que o limitou em Xangai, o tirou da Basileia e o fez abandonar Paris e Londres, mas sim um incômodo insuperável na virilha direita. O número 1 foi obrigado a desistir no início do quinto set diante de um inspirado Marin Cilic, que mereceu a vaga na semifinal do Australian Open apesar das circunstâncias.

Houve é verdade evidente queda de rendimento de Nadal a partir da metade do quarto set, porém ainda assim é preciso elogiar a conduta de Cilic. Depois do primeiro set em que a cabeça falhou feio e uma quebra atrás no segundo, o croata se manteve firme no jogo, mudou a postura tática e não se entregou como vimos tantas vezes acontecer. Passou apostar no saque menos veloz e mais aberto, o que lhe dava tempo para atacar de forehand ou tentar ir à rede. Perdeu claro alguns pontos, principalmente pela qualidade das bolas do espanhol, mas seu tênis ganhou corpo e ele ficou cada vez mais solto e perigoso.

Nadal teve altos e baixos muito antes de sentir a virilha. E talvez a derrota tenha vindo ali no sexto e oitavo games do segundo set, quando ele já tinha 3/2 e inexplicavelmente substituiu a postura agressiva por um jogo mais conservador. Baixou a intensidade e deu a motivação que o adversário precisava. Cilic deveria ter levado também o tenso tiebreak do terceiro set, principalmente quando abriu 3-2 com dois saques. Ou mais tarde, quando teve quadra aberta para fazer 6-5 e servir em seguida. O ponto positivo é que novamente ele reagiu bem e entrou no quarto set com a mesma dedicação.

A partir daí a questão física entrou em cena e outra vez Nadal sucumbiu à exigência do Australian Open, como no abandono de 2010, a derrota feia para David Ferrer em 2011, a maratona de 2012 em que pregou antes de Novak Djokovic e a final perdida de 2014 para Stan Wawrinka. Curiosamente, das sete vezes em que caiu nas quartas de um Grand Slam, cinco foram em Melbourne. Mais tarde, reclamou do calendário e das quadras duras outra vez, logo ele que acabou de anunciar que jogará Acapulco antes de Indian Wells e Miami e em seguida embalar na longa sequência do saibro europeu. Difícil entender o rapaz.

Cilic fechou a partida com 83 winners, um número muito expressivo e que mostra sua determinação. Aliás, ‘apenas’ 20 deles foram por aces. Mas não menos relevante é que ele fez 26 winners de forehand e 13 de backhand, mas também errou 30 direitas e 22 esquerdas, ou seja, o saldo no geral foi até negativo. Aos 29 anos, não se pode criticar de todo sua competência. Afinal, ele tem quartas em todos os Slam e só não fez semi até hoje em Paris. Está agora a uma vitória de atingir pela primeira vez o terceiro lugar do ranking.

Seu inesperado adversário de quinta-feira será o britânico Kyle Edmund, um jogador geralmente acusado de ser um tanto robótico mas que parece ter encontrado um caminho desde que trocou para o pouco conhecido treinador Fredrik Rosengren no ano passado. Sua vitória sobre Grigor Dimitrov teve um pouco de tudo. O búlgaro jogou bem menos do que fizera contra Nick Kyrgios, talvez sentindo o desgaste físico e mental, enquanto Edmund se superou a partir do terceiro set. Conseguiu administrar os nervos, arrancando saques precisos e bolas de risco. Ele soltou outra boa frase: “Preciso curtir o momento, porque às vezes você fica tão envolvido emocionalmente na partida que se esquece de aproveitar a vitória”.

Elena Svitolina foi outra vítima dos problemas físicos. Limitada por dores no quadril e jogando à base de analgésicos, não rendeu nada e chegou a perder sete games seguidos para a belga Elise Mertens. Aos 22 anos e apenas no seu quinto Grand Slam, Mertens ainda não perdeu na temporada e admite que chegou muito mais longe do que poderia esperar no AusOpen.

Dificilmente terá chances se Carol Wozniacki não sentir pressão de estar tão perto de seu primeiro troféu de Grand Slam. A dinamarquesa viveu altos e baixos contra Carla Suárez, dando-se ao luxo de arriscar mais bolas do que o normal no primeiro set. É um estilo bem mais gostoso de se ver.

O tênis brasileiro por sua vez se despediu das chaves de duplas masculinas do Australian Open com outra amarga derrota. Tal qual havia acontecido com Bruno Soares e o escocês Jamie Murray, surpreendidos por uma parceria tecnicamente inferior, Marcelo Melo e o polonês Lukasz Kubot foram muito irregulares e deixaram escapar uma grande chance de faturar mais um Grand Slam

A quarta-feira
– Federer e Berdych vão se cruzar pela 10ª vez num Slam, o que é a quarta mais repetida partida da Era Aberta. Suíço tem 19-6 no geral e ganhou as últimas oito desde Dubai-2013.
– Suíço jamais perdeu uma rodada de quartas em Melbourne e tenta assim 14ª semi na Austrália e 43ª da carreira.
– Berdych disputará sua 200ª partida de Slam, tendo 143 vitórias. Tcheco é o tenista com mais semis de Slam (7) sem jamais ter chegado ao título.
– Chung ganhou de Sandgren duas semanas atrás em Auckland em três sets bem disputados. Cada um teve campanhas incríveis até agora: coreano tirou Zverev e Djokovic, americano bateu Wawrinka e Thiem.
– EUA não têm um semi em Melbourne desde Roddick, em 2009. Nunca houve um coreano na penúltima rodada de um Slam.
– A última vez que um Slam teve dois não cabeças nas semis foi em Wimbledon de 2008, com Safin e Schuettler. Na Austrália, não acontecia desde 1999.
– Halep é favorita diante de Pliskova, sobre quem tem 6-1, mas o piso mais veloz pode ajudar a tcheca. Quem vencer, continua a sonhar com título inédito e número 1.
– Kerber também leva 6-1 de vantagem sobre Keys, mas as duas não se cruzam desde outubro de 2016. Americana não perdeu set no torneio e deve ser também um duelo típico de ataque e defesa.