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Tudo por um set
Por José Nilton Dalcim
9 de maio de 2018 às 19:35

O circuito masculino não pensa mais em como vencer Rafael Nadal no saibro. O esforço do momento é ao menos tirar um set do canhoto espanhol e encerrar a notável sequência que vem desde a queda nas quartas de final de Roma do ano passado. Já são 48 sets vencidos, dos quais houve apenas uma real ameaça – Martin Klizan em Barcelona – e dois atrevidos que conseguiram liderar uma parcial (David Goffin e Kei Nishikori).

Enquanto isso, Novak Djokovic sofreu mais um adeus precoce, embora desta vez ao menos tenha sido diante de um jogador com bons recursos. Kyle Edmund não é ‘cego’ no saibro e usou muito bem a velocidade de Madri para forçar o saque e ter muitas vezes o forehand a sua feição. O que incomodou foi ver Nole tão defensivo, raramente se impondo. Chegou a erguer bola para se recompor. Ainda assim, teve chance de vitória ao abrir 0-40 no quinto game do terceiro set, ainda que se deva dar todo crédito ao britânico pela reação. Edmund melhorou muito de cabeça nos últimos 12 meses (talvez a contratação de Mario Ancic tenha parte) e provou isso um pouco à frente, quando se mostrou mais forte que o sérvio no finzinho da batalha.

O discurso de Nadal se mantém humilde e focado. Diz que não dá muita bola para recordes, mas sim para a intensidade certa, afirmando estar muito feliz com seu novo backhand. Nole por seu lado tenta minimizar o descrédito e vê progressos nos seus jogos mais recentes, resignando-se com um “hoje não era meu dia”. Djoko ainda deverá sair de Madri entre os top 20, mas imediatamente vem a defesa do vice em Roma e a queda pode ser dolorosa.

As oitavas
O baixinho Diego Schwartzman é o próximo candidato a tirar um set de Nadal no saibro e tentar assim impedir que ele marque mais um recorde no tênis, que seria da maior invencibilidade sobre um piso (no momento, pertence a John McEnroe, com 49 no tapete). Depois de equilibrar mas perder três partidas anteriores, incluindo Monte Carlo, ‘Peque’ tirou um set de Rafa no piso veloz de Melbourne cinco meses atrás. Verdadeiro saibrista, o campeão do Rio não tem tanta potência mas dois ingredientes importantes: sangue e pernas.

A Argentina aliás tem mais dois nomes nas oitavas: Juan Martin del Potro e Leonardo Mayer. A rodada desta quinta-feira inclui ainda o curioso duelo canadense entre Milos Raonic e Denis Shapovalov. Também agressivos, Kevin Anderson e John Isner mostram por que o saibro madrilenho é tão diferente.

A chave feminina teve como destaque o fim precoce do duelo pelo número 1, já que Carol Wozniacki jogou muito mal e ficou de fora das quartas. Simona Halep parece bem à vontade na volta ao saibro, mas agora terá de encarar o jogo pesado de Karolina Pliskova. Quem vive ótimo momento é Petra Kvitova, que depende muito do físico estar em dia. E olha Maria Sharapova reencontrando seu jogo no saibro.

Boa notícia
Rogerinho Silva e Thiago Monteiro estão nas quartas de final de seus challengers no saibro europeu. E, embora não tenham chance de retornar ao top 100 nem mesmo com títulos, garantiram condição de cabeça no qualificatório de Roland Garros. No momento, Monteiro seria o 11º, imediatamente à frente do paulista. Isso quer dizer que eles não enfrentarão qualquer tenista mais bem classificado nas três rodadas que precisam ganhar em Paris.

Façanha
Paulo André Saraiva dos Santos tem apenas 17 anos e uma carreira juvenil de pouco destaque. De origem humilde, filho de pedreiro e diarista, ganhou convite de última hora para o future de Brasília e conseguiu seu primeiro ponto na ATP, um sonho para a maciça maioria dos amadores do mundo inteiro. Apenas reforça o que insisto há décadas: falta oportunidade no tênis brasileiro.

Nem sorteio de chave ajuda Djokovic
Por José Nilton Dalcim
4 de maio de 2018 às 19:45

Definitivamente, alguém lá em cima está irritado com Novak Djokovic. Atrás de uma sequência de vitórias que lhe garanta mais confiança e ritmo, o sérvio não deu sorte na formação da chave para o Masters 1000 de Madri, um saibro bem mais veloz que já lhe deu dois títulos, um deles em cima de Rafa Nadal.

A árdua tarefa de Nole começa já contra Kei Nishikori, contra quem fez semi dois anos atrás. Embora o japonês também venha de parada por contusão e mostre aquele físico incerto, está em ritmo muito melhor, recém finalista em Monte Carlo. Se passar, Djokovic precisa tomar cuidado com a juventude de Kyle Edmund ou Danill Medvedev. Daí poderão vir David Goffin e em seguida Grigor Dimitrov.

Claro que a única coisa a se comemorar foi ter ficado do lado oposto de Nadal. O dono do saibro europeu e atual campeão aguarda Gael Monfils e Diego Schwartzman, dois jogadores que estão muito inseguros no momento. É bem provável que reencontre Dominic Thiem nas quartas – embora o piso mais veloz agrade Pablo Carreño – e ficará então enorme expectativa para que cruze com Juan Martin del Potro.

Delpo já foi um grande e respeitável tenista sobre o saibro, mas sua última semifinal num Masters 1000 sobre a terra aconteceu há seis anos exatamente em Madri, mesma temporada em que foi às quartas de Roland Garros. Desde então, disputou restritos cinco Masters no piso com uma quartas em Roma. E mais nada. Ficamos com a saudável memória daquela semi em Paris diante de Roger Federer, porém isso foi em 2009, antes do seu US Open mágico e das cirurgias.

De qualquer forma, o argentino tem boa chance de ir longe. Estreia diante de Julien Benneteau ou Damir Dzumhur, pode ter Tomas Berdych ou Richard Gasquet – outro curioso duelo de primeira rodada – e por fim Kevin Anderson ou Roberto Bautista. Não tenho dúvida que esta sim seria a sequência dos sonhos para Djokovic num torneio tão forte.

Por fim, é importante ressaltar que o quadrante de Dimitrov-Goffin-Djokovic pertence ao lado de Alexander Zverev, o cabeça 2, que necessariamente pinta como favorito à vaga na final. No entanto, pode estrear contra Stefanos Tsitsipas e, se o cansaço não pesar para o semifinalista do Estoril, o saibro veloz de Madri tem tudo para virar tormento a Zverev. O italiano Fabio Fognini também precisa ser apontado como nome forte, mas ele foi decepção em Munique.

Que desastre!
Depois de um ótimo início de semana, o tênis brasileiro sofreu uma derrocada difícil de engolir em tudo que foi lugar. O mau presságio começou com a vacilada incrível de Thiago Monteiro na quinta-feira, quando teve saque e 5/3 para ir às quartas de Istambul, minutos depois de ver o cabeça 1 e possível adversário Marin Cilic ser eliminado.

Depois veio a inacreditável virada que Rogerinho Silva levou no terceiro set diante de Taro Daniel, desperdiçando 4/0 e 40-30 com saque. Já havia sido estranho levar 1/6 do japonês no segundo set. E olhem o quadro que o esperava: Chardy na semi, Jaziri ou Djere na final.

Não menos terrível foi ver Bia Haddad ser novamente eliminada por Sara Errani, que nem de longe tem sido a italiana de anos atrás. Pior de tudo é que a brasileira despencará no ranking, não apenas por 78 pontos perdidos em Praga nesta semana mas com outros 140 de Madri na próxima. E ainda tem 80 do quali de Roland Garros a defender.

Nem Marcelo Melo escapou. Ele e Lukasz Kubot, a bem da verdade, perderam o ritmo e não têm jogado bem desde fevereiro. Para fechar a sexta-feira tenebrosa, Guilherme Clezar deixou escapar quatro match-points e 6-2 no tiebreak do terceiro set e Thomaz Bellucci parou em outras quartas, sem ganhar set do 244º do ranking, depois de ter 5/3 e dois set-points com o serviço na série inicial.

E o que nos resta neste latifúndio? Futures. João Menezes em outra final na Nigéria, Jordan Correira numa semi no Cairo, Orlandinho e Felipe Alves em final de duplas também no Egito, Rafael Matos e Igor Marcondes em semi no clube Paineiras.

Mantenha-se otimista, se puder. Eu vou tentar.

Quanta notícia boa!
Por José Nilton Dalcim
2 de maio de 2018 às 19:11

Vamos falar baixinho, porque dá até medo de alguém ouvir: o tênis brasileiro engatou uma série de vitórias como há bom tempo não se tinha o prazer de observar. Bem dito seja o saibro, e o har-tru também.

Rogerinho Silva fez duas belíssimas partidas em Istambul, atropelou Viktor Troicki e tem enorme chance de passar por Taro Daniel e atingir a semifinal, o que novamente o deixaria a um passo do top 100. Thiago Monteiro por sua vez furou o quali e enfim voltou a vencer em nível ATP, o que não acontecia desde a semi de Quito três meses atrás.

Fato curioso, embora menos expressivo, Rogerinho e Thiago disputam rodada a rodada pelo número 1 nacional. Por ter menos a defender, o canhoto cearense leva vantagem, mas terá de repetir o sucesso de Rogerinho e avançar às quartasna Turquia. O adversário é perigoso: o canhoto Jiri Vesely, para quem já perdeu duas vezes.

Outro alívio foi ver Thomaz Bellucci, Guilherme Clezar e Karue Sell avançarem no har-tru norte-americano. Bellucci ainda nos fez sofrer, mas segurou a cabeça e conseguiu virada nesta quarta-feira, novamente indo às quartas. Não sabe o que é uma semi desde Houston, há mais de um ano, nem mesmo em nível challenger. Aliás, Clezar também mostrou poder de reação. Levou ‘pneu’ e viu adversário ter 6/5 no segundo set. Por fim, Sell jogou seu terceiro challenger e obteve a primeira vitória. Pouco para seus 24 anos, é verdade, porém ele ficou muito tempo fora do circuito profissional.

Como nem tudo é perfeito, Bia Haddad encarou uma adversária inspirada e parou na estreia de Praga. A canhota holandesa Mihaela Buzarnescu, 37ª do ranking, jogou um belo tênis e não há do que se queixar. Teliana Pereira só obteve uma vitória em ITF húngaro e está sofrendo para recuperar ritmo e a confiança.

E mais
– As boas notícias da semana vieram também para a antecipação de Roger Federer no retorno ao circuito, ao pedir convite para disputar Stuttgart. O suíço então fará três torneios na grama, assim como em 2017.
– Não menos animadora foi a lista de ‘s-Hertogenbosch, na mesma semana de Stuttgart, e a confirmação de Andy Murray. Espera-se que o escocês dispute um challenger sobre a grama na primeira semana de junho, possivelmente Surbiton.
– Ótimo também saber que Vika Azarenka foi liberada para viajar com o filho para a Europa. Ela poderá assim jogar Madri, Roma e Paris. Quase ao mesmo tempo, Serena Williams confirmou que só voltará em Roma, porque adiou o início do treinamento no saibro.
– Curiosa a entrevista do nutricionista suíço Jurg Hosli, reproduzida em TenisBrasil. Ele acredita que Novak Djokovic pode estar sofrendo de um tipo de anorexia, ou seja, obsessão por dieta com alimentos ‘pretensamente saudáveis’. Segundo o especialista, reduzir carboidratos e cortar totalmente o açúcar é um grande erro. Realmente, impressiona a magreza atual do sérvio.