Arquivo da tag: Thiago Monteiro

Rio Open entra para a história
Por José Nilton Dalcim
21 de fevereiro de 2019 às 00:05

Saibro é geralmente um piso em que os grandes especialistas não costumam sofrer derrotas precoces ou surpresas. O que aconteceu na primeira rodada do Rio Open, no entanto, é de deixar qualquer um sem palavras: sete dos oito cabeças eliminados de cara. Segundo a ATP, é fato inédito em torneios com chave de 32 jogadores no circuito profissional.

Mais incrível ainda, os quatro principais inscritos do ATP 500 carioca são nomes de peso e vasto currículo no saibro. O vice de Roland Garros Dominic Thiem, o habilidoso Fabio Fognini, o recém campeão de Buenos Aires Marco Cecchinato e o atual campeão Diego Schwartzman já foram para casa.

Cecchinato e Diego ao menos têm boa desculpa, já que vêm de uma semana de jogos intensos e emoções em Buenos Aires. Thiem por seu lado tem causado tantas decepções que seu treinador Gunter Bresnik admitiu estar perplexo com sua queda técnica e lentidão em quadra. Fognini, derrotado em todas as estreias no saibro sul-americano, revelou desmotivação e ameaça nem disputar os Masters norte-americanos.

Também fracassaram Nicolas Jarry e os menos cotados no saibro Malek Jaziri e Dusan Lajovic, deixando o português João Sousa como solitário favorito. Nada disso no entanto ajudou os brasileiros. Thiago Monteiro ainda avançou uma rodada sem jogar bem e se despediu nas oitavas em outra partida em que o saque não funcionou. Thiago Wild fez um ótimo primeiro set frente a Taro Daniel, depois desperdiçou muitas chances e por fim perdeu a intensidade.

Sem dúvida, a chave de simples ficou estranha, ainda mais para um torneio tão grande. Felizmente, ainda há atrações interessantes, com uma turma jovem promissora. Destaque total, claro, para o canadense Felix Auger-Aliassime, responsável pela queda de Fognini e já nas quartas, o que o garante como o mais jovem top 100.

Seu adversário será outro garoto, o espanhol Jaume Munar, de sólido jogo de base e muito físico. Há ainda o boliviano Hugo Dellien, muito habilidoso como juvenil mas que demorou para engatar entre os profissionais. Tem chance de tirar Aljaz Bedene e entrar entre os 80 primeiros do ranking.

Aos brasileiros, como de hábito, restará torcer nas duplas. Bruno Soares e Marcelo Melo tentam o inédito título nacional da especialidade no Rio, o que seria ótimo para apagar a amarga derrota na Copa Davis de Uberlândia. Levaram um sufoco de Wild e Mateus Alves – a nova geração ao menos mostrou qualidade -, e encaram agora Thomaz Bellucci e Rogerinho Silva. E há enorme chance de então cruzar com Marcelo Demoliner. É o que nos cabe neste latifúndio.

Desastre na Davis exige mudanças
Por José Nilton Dalcim
2 de fevereiro de 2019 às 19:19

Entre tantas frustrações e decepções com o tênis brasileiro, esta derrota para a Bélgica é especialmente dolorosa. Chance de o esporte recuperar um prestígio decadente nos últimos 18 meses, jogávamos em casa, no saibro, contra um adversário muito desfalcado. De coadjuvantes regionais da Copa Davis, estava aberta a fresta para disputarmos a milionária, ainda que polêmica, fase final da competição, em novembro, na magnífica Caja Magica.

Thiago Monteiro e Rogerinho Silva vinham de títulos de challengers no começo de temporada, quebrando jejuns e mostrando um jogo reabilitado, e estava tudo pronto para uma festa em Uberlândia para alavancá-los e inspirar os demais. Deu quase tudo errado. Quem brilhou foi o campeão juvenil de Roland Garros de 2012, Kimmer Coppejans, que nunca embalou como profissional nem mesmo no saibro.

Não gosto do jogo de caça às bruxas e nem acho apropriado ficar se procurando culpados. Já recebi centenas de mensagens inconformadas, condenando a escalação de Marcelo Melo. Tantos outros, defendendo a opção pelo juvenil Thiago Wild. No primeiro caso, é preciso ver se Melo mostrou alguma debilidade durante os treinamentos – e quem esteve lá me garante que não – e, no outro, há uma distância enorme de experiência e ranking entre Rogerinho Silva e a esperança paranaense.

Também é bastante razoável alegar que a escolha do saibro coberto não foi correta, ainda que a altitude de Uberlândia tenha incomodado os belgas. Concordo totalmente que jogar num saibro lento e num calor sufocante seria muito mais recomendável, no entanto há duas coisas a se considerar. A primeira é que a sede tem de ser apontada muito antes da convocação e naquele momento era difícil apostar que David Goffin não viria. Depois, existe a questão financeira e a Prefeitura de Uberlândia ajudou a pagar uma conta pesada que o Grupo Mundial gera num momento em que a Confederação perdeu seu principal patrocinador.

Pelo sim, pelo não, precisamos aproveitar mais um desastroso resultado para buscar uma mudança de mentalidade. Trocar o comando da Davis por nomes como André Sá, Jaime Oncins ou Marcos Daniel é mais do que oportuno. Além de dar uma vida nova ao grupo, são pessoas muito comprometidas com a ideia da ênfase no trabalho de base, que é prioridade zero do tênis brasileiro.

A realidade nua e crua é que tivemos um único jogador tecnicamente diferenciado na última década, mas aquele Thomaz Bellucci desapareceu. Todos os demais, em que pese esforço e seriedade, mal conseguiram se sustentar no top 100. Então não adianta alimentar um sonho de sucesso na Davis se nos faltam matéria prima, versatilidade nos pisos, um líder autêntico e um grupo mais homogêneo.

Assim, ainda que tenhamos agora de jogar em setembro pelo Zonal Americano – a vitória garantirá vaga nesse qualificatório mundial em fevereiro de 2020 -, me parece sensato pensar menos no imediatismo do resultado e sim em semear uma base mais sólida, abrindo espaço para quem estiver se destacando na nova geração. Uma derrota com WIld, Orlando Luz ou João Menezes vai doer muito menos.

A desolação aumenta quando vemos países aqui da América, como Chile e Canadá, tirando lucro da qualidade na sua renovação. O espelho disso foi a classificação de quatro garotos para a final da Davis. E jogando fora de casa. Os chilenos de Nicolas Jarry ganharam o ponto decisivo com Christian Garin em cima da desfalcada Áustria e os canadenses colocaram Denis Shapovalov e Felix Auger-Aliassime em simples e duplas na vitória também no quinto jogo contra a Eslováquia.

Aliás, Estados Unidos, Argentina e Colômbia também estarão em Madri. Das potências americanas, somos os únicos de fora. Que sábado triste.

Brasil dá sorte e pode sonhar na Davis
Por José Nilton Dalcim
26 de setembro de 2018 às 20:58

Só houve boa notícia para o tênis brasileiro no sorteio para o qualificatório de fevereiro da Copa Davis, que pelo novo regulamento dará vaga a 12 países na fase final de novembro, que vale pelo título geral da centenária competição por países. Se chegar lá e ficar entre os 18 da elite, vai ter um bom dinheiro para todo mundo.

O detalhe mais importante foi jogar em casa, o que permitirá muito provavelmente atuarmos sobre o tão amado saibro. A outra coisa boa: a Bélgica é um time forte, finalista de 2017 e que tem estado no Grupo Mundial seguidamente desde 2013. É muito provável que David Goffin venha e isso garante oportunidade de boa promoção e de vermos um tênis de qualidade.

Somando-se isso tudo, a grande notícia mesmo está no fato de que a chance de avançarmos não é nada desprezível. Claro que Goffin deve ganhar seus dois jogos de simples, mas a Bélgica não tem um outro especialista na terra, muito menos duplistas de peso. Ou seja, a oportunidade de marcarmos três pontos é bem alta.

Claro que estamos muito distantes do duelo, mas a lógica diz que hoje a Bélgica teria como segundo jogador de simples Kimmer Coppejans, de 24 anos, ex-97º do ranking mas agora 208º colocado. O atual número 2 é Ruben Bemelmans, porém ele tem pouca intimidade com o saibro.

Coppejans, no entanto, só foi chamado cinco vezes para o time da Davis e jogou efetivamente dois confrontos, com uma vitória de simples (em três jogos) e outra de duplas. É um currículo pequeno. Aliás, em nível ATP, ele só disputou oito partidas até agora com uma única vitória!

A outra opção, mais arriscada, seria o experiente e versátil Steve Darcis, que já foi 38º do mundo e é um ‘casca dura’. Mas o tenista de 34 anos não jogou uma única partida nesta temporada devido a persistente problema no cotovelo e nem se sabe se estará em condições até fevereiro.

A dupla também está muito a favor do Brasil. Os belgas jogaram a última rodada com seus atuais top 100 Sander Gille e Joran Vliegen, mas chegaram a usar bastante Joris de Loore e Bemelmans. Nenhum deles costuma atuar juntos ou soma sequer três vitórias em nível ATP. O favoritismo da eventual parceria de Bruno Soares e Marcelo Melo é gigantesco.

Quanto a local, nem vale muito espetacular, porque a regra que mais vale é a financeira. A cidade que oferecer as melhores regalias à Confederação Brasileira, leva. Pode ser São Paulo ou Belo Horizonte, que têm altitude que agrada Thomaz Bellucci e Thiago Monteiro, ou irmos para o sufoco de um saibro lento à beira mar em Florianópolis ou Salvador, que seria bem útil para a excelente forma física de Rogerinho Silva. Vale lembrar que o quali terá dois dias apenas, com as quatro simples e a dupla em formato melhor de três sets.

Vai haver renovação no time brasileiro? Infelizmente, é bem pouco provável. Por dois motivos um tanto óbvios. Não há ninguém se destacando para valer na nova geração. E em Davis desse nível tão importante, fica difícil arriscar um estreante.

Claro que existe a não desprezada hipótese de Rogerinho manter seu afastamento do time ou Bellucci não se recuperar, o que abriria num primeiro momento as portas para Guilherme Clezar. Temos também uma reta final de temporada com vários challengers na América do Sul e quem sabe algo espetacular aconteça com Orlando Luz ou Thiago Wild. Não custa torcer.

Teste para a Nova Davis
Os outros 11 confrontos que definirão finalistas de novembro têm alguns duelos curiosos: Índia x Itália, Suíça x Rússia, República Tcheca x Holanda, Áustria x Chile, Uzbequistão x Sérvia e China x Japão. Outros fracos, como Colômbia x Suécia. E favoritismo amplo para Austrália x Bósnia e Alemanha frente Hungria. Ainda aguardam adversários Canadá e Cazaquistão.

Será a primeira oportunidade para ver se os melhores do mundo vão mesmo abraçar o novo formato da Davis, porque eles serão importantes para seus países na classificação à final. Sem falar que estamos já em ciclo olímpico e o pessoal precisa cumprir o regulamento se quiser pleitear seu lugar em Tóquio.

Por fim, registre-se o convite bem dado para Argentina e Grã-Bretanha disputarem a final de novembro sem passar pelo quali. Essa história de convidado foi a parte que não gostei do novo regulamento. Deveriam ter deixado mesmo 16 países, com quatro grupos de quatro, com cada campeão de chave indo para a semi. Mais simples e justo.