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De volta à bendita quadra dura
Por José Nilton Dalcim
30 de julho de 2018 às 11:51

pace1Quem almeja chances reais de um título no último Grand Slam da temporada já está a todo vapor. A temporada de verão das quadras duras – hoje a superfície predileta para pelo menos 80% do circuito – deu a largada e paulatinamente começa a colocar em quadra os postulantes ao US Open, o que inclui até mesmo os campeões Andy Murray e Stan Wawrinka, hoje lá atrás no ranking e sujeitos a convites e regulamentos para buscar a difícil reação.

Dos top 10, John Isner foi o primeiro a experimentar a quadra sintética, cujo calendário teve o breve hiato de quatro meses, e se saiu bem no fraco torneio de Atlanta, algo que parecia importante muito mais para reforçar seu bom momento. Vale sempre lembrar que ele enfim conquistou seu primeiro Masters na quadra dura lenta de Miami e fez a inédita semi de Grand Slam na grama de Wimbledon. Ele estará também em Washington e pode engatar uma longa sequência até Nova York.

pace2Nesta semana, Alexander Zverev e Juan Martin del Potro também antecipam a chegada ao piso duro, um calendário arriscado. Afinal, irão jogar quatro em cinco das próximas semanas. Zverev é o atual campeão do Canadá e parece ter ido a Washington preocupado em achar o ritmo ideal. Delpo arrisca, porque seu físico nunca é tão confiável para longas sequências. Washington terá já nesta segunda as estreias de Murray e Wawrinka.

Toronto, na próxima semana, deve recolocar em quadra Rafa Nadal e Novak Djokovic, que têm obrigatoriamente de estar entre os grandes candidatos a todos os títulos do verão norte-americano, incluindo obviamente o US Open.

O espanhol volta ao piso duro sem qualquer sombra dos problemas de joelho que tanto o atormentaram nesta parte da temporada, sem falar que o quadril não incomodou em Wimbledon. Além disso, o estilo agressivo mostrado na grama pode ser excelente opção para Toronto e Cincinnati.

A expectativa sobre Djoko é enorme, justamente por retornar a seu piso predileto. Na quadra dura, só perde na quantidade de títulos para Roger Federer (51 a 67), mas é superior ao suíço no percentual de vitórias (83,9% contra 83,3%).

Outros nomes fortes no piso sintético, como Grigor Dimitrov, Kevin Anderson e Marin Cilic, poderão dizer em Toronto o quanto podem ser perigosos. Metido no saibro, Dominic Thiem não causa medo. Sempre contundido e disperso, nem Nick Kyrgios. Distantes do foco, é bom ficar de olho em Kei Nishikori, Kyle Edmund, Hyeon Chung e Denis Shapovalov.

P.S.: Nos quadros ilustrativos, estão o índice de velocidade dos pisos, segundo critérios da ATP.

Que bom momento
O tênis italiano não pára de surpreender. Com o incrível título de Matteo Berretini, 22 anos, em Gstaad, são agora quatro nomes entre os 54 primeiros do ranking, lista liderada por Fabio Fognini (15) e Marco Cecchinato (22), além do veterano Andreas Seppi (48). Outro jovem que pinta é Lorenzo Sonego, 23 anos e perto do top 100.

O nascimento do tênis tem um braço na Itália, isso lá na Era Medieval, e por isso é quase natural que o esporte moderno tenha sido implantado em 1878, apenas um ano depois de surgir Wimbledon. Apesar de sua rica história, a Itália teve apenas dois campeões de Grand Slam (Nicola Pietrangeli e Adriano Panatta) e tão somente dois top 10 na Era Aberta (Panatta em 1976 e logo depois Corrado Barazzutti, há exatos 40 anos!).

O feminino ofereceu mais alegrias, com os títulos recentes de Francesca Schiavone e Flavia Pennetta – únicos em Slam – e quatro figurantes no top 10 (Sara Errani e Roberta Vinci, as outras), sem falar nas quatro conquistas de Fed Cup entre 2006 e 2013. O time masculino ganhou uma Davis, em 1976, comandado por Panatta.

Que mau momento
Enquanto isso, o tênis brasileiro viu um alívio de seu calvário com a boa semana de Thiago Monteiro em Hamburgo, o que valeu ao canhoto cearense a volta ao 119º posto. Desde novembro do ano passado, o Brasil só apareceu no top 100 por duas segundas-feiras, uma em janeiro com Rogerinho Silva e outra em fevereiro com o próprio Monteiro.

Vale registrar ainda que, na lista da segunda-feira passada, o Brasil não tinha nomes no top 140 masculino apenas pela quarta vez desde 1977. E foi a primeira após o ranking de 12 de novembro de 2007. Estamos no momento sem qualquer representante no US Open, nem mesmo Bia Haddad, o que pode repetir o vazio de Wimbledon.

Cada vez menos Roger
Por José Nilton Dalcim
24 de julho de 2018 às 21:56

Roger Federer decidiu passar a festa de seus 37 anos em casa. O número 2 do ranking decidiu não repetir a agenda de 2017 e pulará Toronto, talvez para evitar a triste memória da contusão nas costas sofrida em Montréal que o tirou de Cincinnati e o prejudicou no US Open. Ou seja, o salto de toda a temporada de saibro e a participação mais curta na grama, com a inesperada derrota nas quartas de Wimbledon, ainda não lhe deram a confiança necessária de que seu corpo está pronto para o verão norte-americano.

Federer disputou apenas sete torneios em 2018 e sua programação prevê no momento mais quatro – Cincinnati, US Open, Xangai e Basileia – antes do Finals de Londres, ou seja, irá repetir o restrito calendário da última temporada, incluindo-se a presença na amistosa Laver Cup. Vale lembrar que, quando encerrou antecipadamente 2016 após Wimbledon, ele já tinha sete campeonatos disputados. No ano anterior, foram 15 mais Londres. Fica claro que o circuito vê cada vez menos o suíço.

Se evitar o saibro tinha uma boa explicação física – a movimentação exigida no deslize gera instabilidade no joelho -, a ausência no Canadá parece indicar que Roger não confia tanto assim na sua atual resistência diante do calor-umidade, ainda que Toronto seja mais veloz que Montréal. Todos sabemos que Cincinnati tem uma das quadras mais rápidas da atualizada, portanto os dois Masters possuem condições amplamente favoráveis a um jogo agressivo, subidas à rede, aces e games curtos.

Outra consequência a considerar é o ranking. Cada vez mais fora da luta pelo número 1, os 4.020 pontos conquistados na temporada – vamos ignorar o ranking de 52 semanas -, podem assistir à perigosa aproximação de Alexander Zverev (3.585), Juan Martin del Potro (3.380) e Novak Djokovic (3.355). Claro que Federer tem tudo para somar em Cincinnati e no US Open, mas a hipótese de ter brigar pelo top 5 precisa ser considerada.

Boas e más notícias
A semana começou com alguns assuntos que merecem rápida reflexão:
– Marian Vajda radicalizou. Em entrevista a um site eslovaco, confidenciou que exigiu o afastamento do guru espanhol Pepe Imaz assim que retomou o trabalho com Novak Djokovic. Não usou meias palavras para dizer que filósofos não se encaixam no tênis profissional. Também deixou claro que Nole precisou refazer a parte física e deixar a dieta vegetariana de lado, ingerindo mais proteína animal.
– Depois de longo e tenebroso inverno, o tênis brasileiro voltou a ter uma vitória digna no circuito, quando Thiago Monteiro superou o top 40 Gilles Simon em Hamburgo nesta terça-feira, ainda que saibamos que o saibro é um martírio para o francês.
– Thomaz Bellucci sofreu terceira derrota seguida em estreia nos challengers europeu, e no saibro, sofrendo a 11ª virada desde fevereiro.
– A ATP anunciou mudanças nos challengers, que passarão a ter cinco categorias conforme a pontuação, chaves de 48 participantes com hotel pago e maior estrutura. Tudo maravilhoso para os jogadores, mas talvez não se considerou o fato de que isso vai pesar mais ainda no bolso dos promotores, o que pode gerar redução significativa no calendário. Pior ainda para o Brasil, com dólar nas nuvens.

Tudo por um set
Por José Nilton Dalcim
9 de maio de 2018 às 19:35

O circuito masculino não pensa mais em como vencer Rafael Nadal no saibro. O esforço do momento é ao menos tirar um set do canhoto espanhol e encerrar a notável sequência que vem desde a queda nas quartas de final de Roma do ano passado. Já são 48 sets vencidos, dos quais houve apenas uma real ameaça – Martin Klizan em Barcelona – e dois atrevidos que conseguiram liderar uma parcial (David Goffin e Kei Nishikori).

Enquanto isso, Novak Djokovic sofreu mais um adeus precoce, embora desta vez ao menos tenha sido diante de um jogador com bons recursos. Kyle Edmund não é ‘cego’ no saibro e usou muito bem a velocidade de Madri para forçar o saque e ter muitas vezes o forehand a sua feição. O que incomodou foi ver Nole tão defensivo, raramente se impondo. Chegou a erguer bola para se recompor. Ainda assim, teve chance de vitória ao abrir 0-40 no quinto game do terceiro set, ainda que se deva dar todo crédito ao britânico pela reação. Edmund melhorou muito de cabeça nos últimos 12 meses (talvez a contratação de Mario Ancic tenha parte) e provou isso um pouco à frente, quando se mostrou mais forte que o sérvio no finzinho da batalha.

O discurso de Nadal se mantém humilde e focado. Diz que não dá muita bola para recordes, mas sim para a intensidade certa, afirmando estar muito feliz com seu novo backhand. Nole por seu lado tenta minimizar o descrédito e vê progressos nos seus jogos mais recentes, resignando-se com um “hoje não era meu dia”. Djoko ainda deverá sair de Madri entre os top 20, mas imediatamente vem a defesa do vice em Roma e a queda pode ser dolorosa.

As oitavas
O baixinho Diego Schwartzman é o próximo candidato a tirar um set de Nadal no saibro e tentar assim impedir que ele marque mais um recorde no tênis, que seria da maior invencibilidade sobre um piso (no momento, pertence a John McEnroe, com 49 no tapete). Depois de equilibrar mas perder três partidas anteriores, incluindo Monte Carlo, ‘Peque’ tirou um set de Rafa no piso veloz de Melbourne cinco meses atrás. Verdadeiro saibrista, o campeão do Rio não tem tanta potência mas dois ingredientes importantes: sangue e pernas.

A Argentina aliás tem mais dois nomes nas oitavas: Juan Martin del Potro e Leonardo Mayer. A rodada desta quinta-feira inclui ainda o curioso duelo canadense entre Milos Raonic e Denis Shapovalov. Também agressivos, Kevin Anderson e John Isner mostram por que o saibro madrilenho é tão diferente.

A chave feminina teve como destaque o fim precoce do duelo pelo número 1, já que Carol Wozniacki jogou muito mal e ficou de fora das quartas. Simona Halep parece bem à vontade na volta ao saibro, mas agora terá de encarar o jogo pesado de Karolina Pliskova. Quem vive ótimo momento é Petra Kvitova, que depende muito do físico estar em dia. E olha Maria Sharapova reencontrando seu jogo no saibro.

Boa notícia
Rogerinho Silva e Thiago Monteiro estão nas quartas de final de seus challengers no saibro europeu. E, embora não tenham chance de retornar ao top 100 nem mesmo com títulos, garantiram condição de cabeça no qualificatório de Roland Garros. No momento, Monteiro seria o 11º, imediatamente à frente do paulista. Isso quer dizer que eles não enfrentarão qualquer tenista mais bem classificado nas três rodadas que precisam ganhar em Paris.

Façanha
Paulo André Saraiva dos Santos tem apenas 17 anos e uma carreira juvenil de pouco destaque. De origem humilde, filho de pedreiro e diarista, ganhou convite de última hora para o future de Brasília e conseguiu seu primeiro ponto na ATP, um sonho para a maciça maioria dos amadores do mundo inteiro. Apenas reforça o que insisto há décadas: falta oportunidade no tênis brasileiro.