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Quantos mais, Nadal?
Por José Nilton Dalcim
10 de junho de 2018 às 19:06

A pergunta que mais me fazem é qual será o limite de Rafael Nadal, não apenas em Roland Garros mas nos Grand Slam. Ele acaba de completar 32 anos e de se recuperar de lesões preocupantes quase seguidas, punho, joelho e recentemente virilha. Nada disso consegue detê-lo. Ao contrário, Rafa se reinventou mais uma vez, como só acontece com os fora de série.

Por que Nadal continua a ganhar, como pode ainda demonstrar tanta soberania no saibro diante de adversários oito ou dez anos mais jovens? Porque ele tem uma arma que vai muito além de qualquer golpe vencedor: a determinação de vencer. Ele não se entrega, e engana-se quem pensa que por conta apenas do atributo físico.

Quando a coisa não caminha da forma planejada, encontra sempre uma alternativa tática. Acredita que pode sair de qualquer buraco e por isso luta o tempo todo. Não há intimidação maior que um adversário possa lhe impor do outro lado da quadra.

Por fim, para mudar planos de ação e o ritmo de uma partida, é preciso uma coleção de golpes: saques variados, capacidade de dar slice ou deixadinhas, subir à rede, arriscar um winner. Desde que Carlos Moyá chegou e o backhand evoluiu, ficou extremamente difícil se achar um buraco para derrubar Nadal, ainda mais no saibro.

Então a resposta é que ainda devemos esperar muita coisa de Rafa, seja em Roland Garros, na grama ou na quadra dura. Claro que tudo depende de ele se manter saudável, de calibrar o calendário, de reconhecer a necessidade de dar pausas para completa recuperação, de evitar determinadas condições de maior risco ao joelho e ao punho. Se seguir o caminho, terá mais três ou quatro temporadas de alta qualidade e muita dentadura para morder tantos troféus.

A final deste domingo retratou um pouco de tudo isso. O tenista em quadra com maior repertório, força mental e visão tática claramente era o que levou o título. Break point? Lá veio uma deixadinha milimétrica. Chance de quebra? Uma devolução profunda cheia de spin. Deslocou o adversário? Avanço à rede. Punho dolorido? Mostre ao adversário que não há medo de bater na bola.

Como disse dois anos atrás, ficarei surpreso se Dominic Thiem um dia não ganhar Roland Garros. Ele é um verdadeiro especialista no piso, gera extraordinária força nos golpes, tem pernas ágeis e mão para variar efeitos na bola. Me lembra muito Andy Murray no que se refere à necessidade de dar um passo por vez rumo a feitos maiores. Em algum momento, o austríaco estará emocionalmente pronto para algo grande.

Curiosidades
Vejam a quantidade de sets perdidos por Nadal em cada um de seus 11 títulos. É assustador:
0: 2008, 2010, 2017
1: 2007, 2012, 2018
2: 2014
3: 2005-06, 2011
4: 2013

Esta foi a terceira vez que Nadal venceu Roland Garros como número 1 do mundo e nunca figurou abaixo de cinco. Eis a lista:
Nº 1, em 2011, 2014, 2018
Nº 2, em 2006-08, 2010, 2012
Nº 4, em 2013, 2017
Nº 5, em 2005

Desde a primeira conquista de Nadal em Roland Garros de 2005, o chamado ‘Big 4’ acumulou 48 dos últimos 53 Grand Slam. Nesse período, Nadal venceu 17 vezes; Federer, 16; Novak Djokovic, 12; e Andy Murray, 3.

Enfim, Halep
Se Nadal manteve seu reinado, Roland Garros assistiu no sábado à redenção de Simona Halep. Vinda de três duras derrotas no terceiro set em finais de Grand Slam, duas delas em Paris, parecia impossível a reação quando Sloane Stephens, com enorme competência, abriu 6/3 e 2/0. Até então a romena tentava de tudo, até mesmo ir à rede, e a norte-americana se mostrava inflexível.

Um único vacilo no entanto abriu a pequena janela e Halep não desperdiçou. Stephens baixou a intensidade repentinamente, perdeu a eficiência na defesa e a paciência nas trocas. A tentativa de ser mais agressiva finalmente deu resultado e Simona encerrou seu pesadelo com domínio total no terceiro set.

Dado também interessante, ela foi a primeira tenista a ganhar um Slam derrotando três outras campeãs (Kerber nas quartas, Muguruza na semi e Stephens na final), algo que não acontecia desde Justine Henin no US Open de 2007 (Serena, Venus e Kuznetsova).

Claro que também cabe a pergunta se haverá outros Slam para Halep e não há motivo para duvidar disso, especialmente nas superfícies mais lentas. A romena no entanto se mostra cada vez mais confortável num jogo mais ofensivo, ainda que o saque seja uma arma frágil, como mostrou no veloz piso australiano em janeiro.

Importante observamos que este foi o sétimo Grand Slam consecutivo com diferentes campeãs, uma sequência que vem desde o US Open de 2016 com Kerber, Serena, Ostapenko, Muguruza, Stephens, Wozniacki e Halep. Dá perfeitamente para Pliskova ou Svitolina sonharem com Wimbledon.

Rei e súdito lutam pelo trono
Por José Nilton Dalcim
8 de junho de 2018 às 17:37

Atualizado às 23h30

Não haveria final mais correta para este Roland Garros. Esbanjando vitalidade aos 32 anos, Rafael Nadal confirmou a expectativa, não deu bola para pressão e está com um pé em outro gigantesco feito. Possível sucessor, Dominic Thiem juntou suas melhores armas, soube poupar físico, manteve a cabeça fria e enfim decidirá seu primeiro Grand Slam. Apreciemos duas formas distintas de se jogar sobre o saibro.

Rafa comemora sua longevidade nas quadras com a grande oportunidade de ganhar seu terceiro Slam depois de ‘trintão’. O favoritismo para levantar o 17º troféu desse nível reacende a velha discussão sobre a chance de alcançar os 20 títulos máximos de Roger Federer. E a vitória exuberante sobre Juan Martin del Potro nesta sexta-feira deixa poucas dúvidas sobre isso. Depois de desperdiçar valiosos break-points ao longo do primeiro set, o argentino não conseguiu mais competir com a intensidade crescente do decacampeão. Virou presa fácil. Delpo é quem tinha de arriscar, mas foi Rafa quem liderou de longe o número de winners (35 a 20) e fez mais pontos com o primeiro saque (72% a 57%).

Derrotado na estreia de Roma por Fabio Fognini, Thiem anunciou uma preparação pouco usual e foi buscar confiança com o título em Lyon. Deu certo. Concretizou nesta sexta-feira uma trajetória sem sustos, nem desgastes em Roland Garros. Havia apreensão sobre como dominaria a ansiedade diante de Marco Cecchinato e ele passou no teste com louvor, ainda que tenha vacilado no tiebreak e quase esticado a tarefa. O conjunto da obra no entanto agradou, porque jamais se absteve de forçar o jogo.

Tudo é superlativo para Rafa sobre o saibro e em Paris. Esta foi sua 450ª partida sobre o piso e a vitória de número 414, o que é a quarta maior coleção da Era Profissional. Mas Guillermo Vilas, Manuel Orantes e Thomas Muster nem chegam perto do percentual positivo do ‘rei’, que até hoje só perdeu 36 vezes. Ou seja, absurdos 92% de aproveitamento. Em Roland Garros, são agora 85 em 87 possíveis, portanto um domínio de 97,6%. E a marca em partidas de melhor de cinco sets sobre o saibro não é menos impressionante: 110 em 112, acima de 98,2%. Essas duas únicas derrotas aconteceram justamente em Paris, diante de Robin Soderling (2009) e Novak Djokovic (2015).

A eventual conquista no domingo também é um desafio que Rafa cumprirá de forma exemplar em relação ao ranking. Ele suportou a pressão em todas as semanas do saibro europeu, perdeu momentaneamente o posto após Madri e o recuperou em seguida em Roma. Rafa aliás já garantiu o número 1 da temporada, com os atuais 4.240, seguido por Alexander Zverev (3.495).

Thiem por seu lado alcança a primeira final de Slam aos 24 anos e em sua quinta presença em Paris, o que é um marco expressivo no circuito atual se esquecermos do Big 4. Ele é evidentemente um especialista no saibro, tendo somado 109 de suas 206 vitórias da carreira sobre a terra. É provavelmente o único homem hoje capaz de fazer frente a Nadal no saibro, uma vez que há poucas semanas encerrou a série de 21 triunfos e de 50 sets do espanhol.

É possível repetir Roma e Madri? São situações muito diferentes. No ano passado, Thiem pegou um adversário um tanto desgastado e, semanas atrás em Madri, usou muito bem a velocidade maior da Caixa Mágica. Lembremos que no saibro lento de Monte Carlo, pouco antes, levou uma surra, assim como em Roland Garros de 12 meses atrás. Vale lembrar que o placar geral é de 6 a 3 para o espanhol, todos sobre o saibro.

A dúvida real no entanto é se o austríaco terá consistência para suportar um jogo provavelmente bem longo e exigente, em que precisará sacar muito bem, atacar com frequência e golpear o backhand na subida e não quatro passos atrás da linha, com os objetivos essenciais de angular e acima de tudo usar o peso da bola para diminuir o esforço. Do jeito que Nadal vem jogando, vencer será uma façanha colossal.

E mais
– Nadal e Federer são agora os únicos homens da Era Profissional a atingir 11 finais de um mesmo Slam. O suíço tem a marca em Wimbledon.
– Esta será a 24ª final de Grand Slam do espanhol, que fica a seis do recorde de Federer e se distancia das 21 de Novak Djokovic.
– Já são 236 vitórias em Grand Slam para Rafa. Ele se aproxima do segundo lugar de Djokovic (244).
– Thiem pode se tornar apenas o nono profissional e o quatro em Paris a derrotar os cabeças 1 e 2 num Grand Slam, Curiosamente, Wawrinka fez isso nos títulos da Austrália-2014 e Paris-2015.
– O austríaco possui já duas vitórias sobre nº 1, a primeira em cima de Murray e a outra sobre Nadal.

Halep x Stephens
Com 2,2 milhões de euros de aperitivo, a romena Simona Halep e a norte-americana Sloane Stephens fazem duelo imprevisível na final feminina de Roland Garros às 10 horas deste sábado. Líder do ranking, Halep tem sua quarta oportunidade de erguer um troféu de Grand Slam e evitar o sufoco vivido por Kim Clijsters e Helena Sukova, que ficaram com quatro vices. A diferença é que Clijsters acabaria com a sina na quinta tentativa.

Stephens por sua vez tenta o segundo Slam em nove meses. Há quase um ano, quando retornou de longa parada por contusão em Wimbledon, era a 957ª do ranking. Amanhã, com ou sem o título, será a quarta. A conquista no entanto lhe abrirá a oportunidade matemática de brigar pela liderança na grama inglesa, completando um salto extraordinário.

O histórico favorece muito Halep, com cinco vitórias em sete duelos, sendo quatro consecutivas desde as duas quedas de 2013. Venceu também os dois jogos sobre o saibro.

Um registro histórico é importante. Ao contrário do que tanto se diz por aí, o primeiro título de Grand Slam vencido por um tenista negro não foi em Wimbledon, em 1958, mas dois anos antes com a mesma Althea Gibson, em Roland Garros. O Netflix tem um documentário excelente sobre ela. O Youtube tem um outro também valioso.

Backhands simples na semi
Por José Nilton Dalcim
5 de junho de 2018 às 19:16

O tênis é um esporte incrível mesmo. Quantas reviravoltas numa única partida, que tensão. Como esses malucos conseguem jogar com qualidade diante de tamanha pressão?

Novak Djokovic poderia ter vencido por 3 sets a 1, e de maneira até tranquila. Depois de um começo instável e pedidos médicos, teve dois set-points para fazer 7/5, que possivelmente seria seguido pelo fácil placar de 6/1 do terceiro set e o domínio com 5/3 e 30-0 do quarto.

Nada disso. Marco Cecchinato bateu muito na bola, mexeu-se incrivelmente bem, sacou firme nas horas necessárias e teve um sangue frio que não combina com seu 72º lugar do ranking. Salvou aqueles set-points, virou o primeiro tiebreak em que perdia por 3-4 e saque de Nole através de jogadas notáveis. Tinha então 2 sets a 0. Impensável.

É bem verdade que perdeu a intensidade, deixou de ser agressivo e de repente Djokovic estava na sua jugular, pronto para levar ao quinto set. Talvez Cecchinato não saiba direito como escapou do 30-0 (na verdade, Djoko é quem jogou de forma precipitada) mas assim que a janela se abriu ele voltou com tudo.

O tiebreak foi épico. De 0-3 para 4-3, de novo Djokovic perdeu dois saques decisivos. Aí vieram pontos de grudar na cadeira e perder o fôlego. O 5-5 de dezenas de trocas, bolas beliscando a linha nos match-points, a inexplicável falha do sérvio ao ter set-point com forehand no meio da quadra. Ele tirou o olho da bola, desviou no piso ou o barulho da torcida atrapalhou? Sabe-se lá. O jogo terminou logo depois porque Nole não suportou a pressão e errou.

Cecchinato fará contra Dominic Thiem a primeira semifinal de Paris entre backhands de uma mão desde 1992, com Petr Korda e Henri Leconte. O italiano entrará como ‘zebra’ outra vez. E das grandes. Thiem nem precisou de todo seu empenho para superar o previsivelmente desgastado Alexander Zverev, que merece aplauso por ter ido até o fim com evidente falta de condições de ser competitivo. O austríaco não poderia sonhar com chance maior de enfim chegar à primeira final de Grand Slam, completamente confiante e descansado.

Revivendo o US Open
Serena Williams se foi, mas o tênis norte-americano já tem uma finalista: Sloane Stephens ou Madison Keys, que irão reviver na quinta-feira a decisão do US Open. Gostei de ver Keys paciente, usando mais spin e lutando muito para superar a ‘formiguinha’ Yulia Putintseva, bem diferente do passeio de Stephens em cima de uma descalibrada Daria Kasatkina.

Stephens ganhou os dois duelos sobre a amiga Keys, que jogou muito mal em Flushing Meadows e jura que desta vez o nervosismo não irá pesar. Com o retorno de Madison ao top 10, agora o tênis americano tem três nomes na faixa de elite do tênis feminino, já que Stephens só deixará escapar o sexto posto se Angelique Kerber for campeã (a outra é Venus, em nono).

A quarta-feira
– Nadal só perdeu um set em cinco duelos contra Schwartzman e venceu há poucas semanas em Madri, por 6/3 e 6/4.
– Se atingir a 11º semi, Rafa igualará os feitos de Federer e Connors, que também fizeram pelo menos 11 num mesmo Slam.
– Schwartzman tenta se tornar o 10º argentino a atingir a penúltima rodada de um Slam em todos os tempos.
– Cilic não vence Delpo desde 2011, nunca ganhou no saibro, leva 2-10 no histórico e perdeu as sete últimas. Muita desvantagem.
– Roland Garros é único Slam onde Cilic jamais fez semi. Vencedor do duelo será número 4 do ranking na segunda-feira.
– Halep tem de vencer Kerber para manter provisoriamente o número 1, que está com Wozniacki. Romena tem 5-4 no placar direto, porém a alemã venceu o único no saibro, em 2016.
– Muguruza e Sharapova fazem confronto de campeãs de Paris. A russa ganhou todos os três enfrentamentos, porém eles aconteceram antes de 2015 e portanto muita coisa rolou desde então.