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Bendita Bia
Por José Nilton Dalcim
28 de fevereiro de 2019 às 01:00

Numa fase tão negativa do tênis brasileiro, Bia Haddad Maia continua sendo a nossa maior alegria. Dona de um potencial inegável que apenas os problemas físicos conseguiram arrefecer, a canhota de 1,84m e 22 anos marcou nesta quarta-feira o maior resultado individual do tênis feminino nacional dos últimos 30 anos.

Deu tudo certo para Bia. Furou um qualificatório difícil no fim de semana de calor extremo em Acapulco, aí pegou outra qualificada na estreia e, muito adaptada ao piso veloz e ao clima severo, jogou de forma eficiente e inteligente diante da norte-americana Sloane Stephens, nada menos que número 4 do ranking que pisava sua superfície predileta, a mesma que lhe deu o troféu do US Open de 2017.

A brasileira usou muito bem suas armas de canhota, não se precipitou nem mesmo quando saiu perdendo o saque na partida. Ao contrário, entendeu que precisava alimentar Sloane de erros e soube agredir nos momentos certos. Fez um segundo set irretocável no plano técnico e tático, sem jamais dar espaço ou esperanças à gabaritada adversária.

Foi o primeiro triunfo sobre uma top 10 de Bia, que havia perdido nas seis tentativas anteriores. O último a obter vitória individual sobre tops 5 havia sido Thomaz Bellucci, que tirou Andy Murray, então quarto colocado, na mágica campanha sobre o saibro de Madri de 2011 e há dois anos eliminou Kei Nishikori, 5º, no Rio Open. Porém, mais distante ainda estão os feitos de Dadá Vieira, última tenista nacional a derrotar uma top10 (Conchita Martinez) e uma top 5 (Helena Sukova), ambos em 1989.

É bem provável que Bia se reaproxime das 150 primeiras do ranking com a campanha já feita até aqui, mas ela certamente pertence a um grupo de nível muito mais elevado. Não à toa, já tem um vice de WTA e chegou a 58ª. Com confiança em alta e um segundo semestre inteiro sem pontos a defender em 2019, pode-se esperar ascensão contínua.

O desafio das quartas é diante da chinesa Yafan Wang, 65ª do mundo, que jogou apenas cinco games antes de Monica Puig desistir. Wang é parceira de Laura Pigossi nas quartas de final de duplas. Se passar, Bia enfrentará Donna Vekic ou Johanna Konta e quem sabe decidir contra Vika Azarenka.

– Brasil Open ficou sem brasileiros em simples, mas Thiago Wild teve uma vitória importante na primeira rodada e mostrou novamente qualidade com seus golpes. Claro que precisa de rodagem e o correto é não colocar pressão. O ponto negativo foi a conduta na primeira coletiva. Não ajuda nada se desentender com os jornalistas e alguém precisa dizer isso a ele. Talento nato, Felix Auger-Aliassime voltou a derrotar Pablo Cuevas, com grande terceiro set.

– Roger Federer teve novamente momentos instáveis, mas fez um belíssimo terceiro set diante de Fernando Verdasco, num dia em que o cabeça 1 Kei Nishikori e o atual campeão Roberto Bautista deram adeus. Está ficando cada vez melhor para o suíço. Boa chance de uma semi entre Stefanos Tsitsipas e Gael Monfils.

– E Nadal perdeu três match-points, um deles com o saque, num duelo de 3h03 contra Nick Kyrgios. O australiano pode ter dezenas de defeitos, mas é um tenista espetacular. Fez coisas incríveis o tempo todo, mesclando agressividade e criatividade. Pena para Rafa, que jogou muito melhor do que na estreia e talvez só tenha pecado mesmo pela falta de iniciativa no primeiro tiebreak.

Persistente, Federer enfim mira o 100
Por José Nilton Dalcim
28 de outubro de 2018 às 22:24

Não foi a semana dos sonhos para Roger Federer. Atuações irregulares, irritação evidente, dezenas de erros não forçados e um punhado de serviços perdidos diariamente. Mas dizem que não existe nada mais difícil e realizador no tênis do que vencer sem jogar bem. E imagino então ganhar um título de peso e histórico.

O 99º troféu do suíço em sua incomparável carreira teve no entanto uma marca clara e inconteste: sua vontade ferrenha de vencer. Se não fez exibições espetaculares, em que pese alguns lances da habitual genialidade, ninguém pode desta vez reclamar que Federer tenha abaixado cabeça, se entregue ao momento instável, incapaz de procurar alternativas. Ao contrário, tentou de tudo dia após dia, frente a adversários de estilos e currículos muito distintos.

Diante de sua torcida, faturou o 500 da Basileia pela nona oportunidade em incríveis 14 finais, mesma quantidade de vezes que triunfou em Halle. Apenas Rafael Nadal fez isso na Era Profissional, com seus 11 triunfos em Paris, Monte Carlo e Barcelona, porém o espanhol (e nenhum outro) fez tantas decisões num mesmo torneio.

Para surpresa geral, Federer se inscreveu em Paris. Mais inesperado ainda, não retirou sua inscrição depois do título suado deste domingo. Ele terá tempo de descanso até a provável estreia na quarta-feira, mas daí em diante precisará jogar todos os dias se for avançando na chave. Há grande chance de reencontrar Novak Djokovic na semifinal e talvez sua primeira tarefa seja checar in loco se Bercy está mesmo mais veloz como o prometido.

Ranking
Em termos de ranking, Federer deu um passo importante para se manter no top 3 até o final da temporada – faltam apenas mais seis semanas para a inédita marca de 700 entre os três primeiros ao longo da carreira. Abriu 370 pontos de Juan Martin del Potro e tem chance de aumentar a vantagem durante Paris, já que o argentino corre contra o tempo para tentar ir ao Finals.

Chegar nos dois líderes é matematicamente possível, porém pouco provável. Ele está 1.785 pontos atrás de Novak Djokovic (e este a 35 de Nadal). Um título em Bercy permitiria tirar pelo menos 640 para o sérvio. Assim fica evidente que até mesmo a vitória invicta e 1.500 pontos em Londres ainda dependeriam das campanhas de Djoko  e de Nadal.

Mais viável é guardar todas as energias para buscar o 100º.

Corrida para Londres
Kevin Anderson ganhou Viena com uma semana de ótimas atuações e sacramentou a sonhada e mereceida vaga no Finals de Londres. Kei Nishikori aumentou para oito sua fila de vices, que vem desde fevereiro de 2016, mas ainda briga com dupla chance de estar na arena O2.

A primeira é contra Dominic Thiem, ainda que distante agora 325 pontos, o que exigirá no mínimo semifinal em Paris. A outra, mais palpável, é contra John Isner, sobre quem leva vantagem de 145 pontos. Isso porque existe real possibilidade de Del Potro não ter condições de jogo dentro de duas semanas e abrir lugar para o nono colocado.

O maior título de Svitolina
Dona de um estilo versátil tão agradável de se ver, a ucraniana Elina Svitolina faturou de forma invicta o WTA Finals e ainda marcou uma grande virada na ótima decisão deste domingo em Cingapura. Ela soube mudar sua postura em quadra, ficou mais agressiva e aí dominou a norte-americana Sloane Stephens para chegar ao maior troféu de sua carreira.

Ainda falta à ucraniana uma grande campanha nos Slam, onde jamais fez sequer uma semi, e isso certamente será sua meta para 2019. Quem sabe já na Austrália, onde tem tudo para figurar como cabeça 4, uma vez que encerra esta temporada no top 4. Armas não lhe faltam. Esta foi sua nona final seguida com vitória – na verdade, perdeu apenas duas em 15.

Stephens também reage e enfim vai fechar uma temporada no top 10, como a quinta colocada. Não recuperou ainda o tênis vistoso e confiante que a levou a conquistar o US Open de 2017, mas há tempo de sobra.

Thiem enfim brilha fora do saibro
Por José Nilton Dalcim
3 de setembro de 2018 às 00:27

O domingo me reservou duas surpresas. Primeiro, foi ver que bom tênis Nikoloz Basilashvili foi capaz de produzir contra Rafael Nadal. Até mesmo nos dois sets dominados pelo espanhol ele pecou muito pouco na consistência. Errou? Claro, mas tinha de arriscar. Lutou muito num duríssimo terceiro set e ainda teve pernas para levar o mais longe possível a partida.

A outra é ver que Dominic Thiem será o adversário de Rafa nas quartas de final. Claro que muito disso tem a ver com o desgaste excessivo que Kevin Anderson encarou em dois de seus três jogos anteriores, os cinco sets inesperados contra Ryan Harrison e a batalha duríssima diante de Denis Shapovalov. Mas não tiremos os méritos do austríaco, que só perdeu cinco games de serviço no torneio e não ofereceu um único break-point a Anderson.

Mais curioso ainda é que todos os 10 duelos contra Nadal – e portanto as três vitórias de Thiem – aconteceram sobre o saibro. Será uma experiência totalmente nova jogar na quadra dura, como ele mesmo frisou na entrevista, porém é evidente que o canhoto espanhol tem currículo muito superior no piso sintético e portanto todo o favoritismo. Basta ver que estas serão as primeiras quartas de Thiem num Slam fora do saibro, algo mais expressivo que seu título de ATP 500 em Acapulco ou de 250 na grama de Stuttgart.

Importante também o fato de Rafa não ter mostrado a menor limitação física nem se poupado, confirmando o que havia dito sobre a dor no joelho direito ter sido um incômodo passageiro e insignificante. Thiem é um dos jogadores que pegam mais pesado no circuito e pernas serão essenciais.

Já a classificação de John Isner e Juan Martin del Potro seguiu a lógica. O norte-americano até perdeu o primeiro set, mas ele sabe como jogar diante de Milos Raonic, ainda que os dois atuem de forma muito parecida e tenham deficiências semelhantes. O americano repete quartas no US Open de sete anos atrás e vive mesmo sua grande temporada.

Delpo por sua vez traçou um plano inteligente no duelo inédito contra Borna Coric, atraindo o croata para a frente e para seu forehand. Este será o terceiro encontro com Isner na temporada, com uma vitória para cada lado. No geral, o argentino tem 7 a 4, mas está 3 a 3 desde 2016.

Com a queda de Coric e mesmo sem ter os classificados definidos do outro lado da chave, já se sabe que Thiem será o mais jovem nas quartas de final, aos 25 anos. A renovação, ao menos nos Grand Slam, continua distante.

Svitolina também dá adeus
Entre as meninas, as cabeças principais continuam caindo. Nesta noite foi a vez de Elina Svitolina se despedir melancolicamente com um ‘pneu’ no terceiro set diante da certinha Anastasija Sevastova, uma jogadora de 28 anos que já derrotou sete top 10 na carreira e disparou 30 winners contra a ucraniana. Svitolina segue sem atingir sequer uma semi de Slam.

Enquanto isso, a torcida norte-americana faz a festa com as classificações de Serena Williams e Sloane Stephens, que se aproximam do cruzamento direto na penúltima rodada. Serena fez um grande primeiro set, mas Kaia Kanepi se soltou e deu um sufoco, competindo de igual para igual em força e ousadia.

Stephens teve a tradicional instabilidade nos serviços, mas soube variar bem o jogo contra Elise Mertens e se vingou da derrota sofrida em Cincinnati. Agora, enfrenta Sevastova, a quem eliminou no caminho do título de 2017. Serena por sua vez encontra a sempre perigosa Karolina Pliskova, outra que bate muito na bola e não dá ritmo, porém tem vasta experiência e uma vitória sobre Williams na semi do US Open de 2016.

Melo nas quartas
Primeiro resultado importante do tênis brasileiro em Flushing Meadows: Marcelo Melo e o polonês Lukasz Kubot derrotaram os fortíssimos Nicolas Mahut e Pierre Hughes, campeões de Roland Garros e vencedores do US Open três anos atrás, avançando para as quartas de final.

Melhor ainda, enfrentam agora o dueto local de Austin Krajicek e Tennys Sandgren e assim têm grande chance de encarar Bruno Soares e o escocês Jamie Murray na semi, caso os dois mantenham favoritismo. Embora estejam num teórico oitavo lugar no ranking da temporada, Melo e Kubot precisam somar pontos para chegarem ao Finals de Londres.