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Gigantes
Por José Nilton Dalcim
27 de janeiro de 2018 às 19:18

Carol Wozniacki e Simona Halep mostraram neste sábado em Melbourne porque o tênis é um esporte tão admirável. Esqueceram o nervosismo e se concentraram em jogar o melhor que lhes cabia em busca de um sonho. Deram um espetáculo de quase três horas, onde cada uma dividiu chances e lances de tirar o fôlego. Lutaram por cada ponto como se espera de dignas campeãs.

Infelizmente, apenas uma poderia sair com o troféu tão desejado e Wozniacki, que era quase uma carta fora do baralho nos últimos seis anos, enfim encerrou um longo pesadelo de cobranças e desconfianças. Contratou técnicos renomados, jamais se acomodou com seu destino. Quando virou aquele jogo perdido de segunda rodada, perdendo de 1/5 no terceiro set e encarando match-point, ganhou a motivação que faltava para o grande salto.

Só há exemplos positivos a se tirar desta histórica final feminina da Austrália.

De um lado, Carol e sua resiliência. Criou coragem para assumir uma postura menos defensiva, deixou de ser uma passadora de bola maratonista para buscar um jogo mais moderno, que lhe rendesse pontos mais rápidos no saque ou nos golpes de base. Procurou um novo destino e mostrou que tanto esforço vale mesmo a pena.

Do outro, Halep colocou todo o coração em quadra. Machucada desde a estreia, teria uma desculpa pronta para uma eliminação precoce. Decidiu lutar. Fez partidas duríssimas, salvou match-points. Chegou à decisão com clara desvantagem física e adotou outra postura tática. Partiu para o risco, ousadia que lhe faltou nas duas chances de Roland Garros, e não se entregou até a última bola.

É bem provável, e seria muito justo, que Halep tenha o mesmo destino de Wozniacki e, em algum momento, realize o sonho e levante seu troféu de Grand Slam. O tênis feminino saiu muito valorizado destas duas semanas de intensas batalhas e extrema vontade de vencer.

Tomara que a final de sábado motive Roger Federer e Marin Cilic a jogar com semelhante entrega. Claro que há uma diferença sintomática: existe um grande favorito, inclusive do público. Desde Wimbledon de 2003, quando explodiu para o tênis, o suíço jogou 56 torneios de Grand Slam e somou nesse trajeto 19 títulos, 30 finais e 43 semis. É o currículo mais invejável da história do tênis e provavelmente jamais se repetirá.

Ainda assim, não existe jogo vencido na véspera e Cilic precisa acreditar nas suas chances, como fez na semi do US Open de 2014. Isso passa por um grande aproveitamento de primeiro saque, forçar devoluções, pegar bola na subida para não dar espaço ao adversário e arriscar paralelas dos dois lados. Um arsenal exigente, é claro, mas o croata tem experiência suficiente para isso.

Bolha inoportuna
Por José Nilton Dalcim
26 de janeiro de 2018 às 09:03

Toda a expectativa por um duelo de gerações e estilos na segunda semifinal do Australian Open foi por terra em apenas 64 minutos por culpa de uma bolha. Limitado no trabalho de pés que são seu ganha-pão, Heyon Chung sequer completou dois sets e colocou Roger Federer na condição mágica de ampliar a marca mais valiosa de qualquer currículo do tênis e atingir domingo seu 20º troféu no 200º Grand Slam realizado da Era Aberta, o que pode lhe dar impensáveis 10% de aproveitamento.

A se lamentar talvez apenas o fato de que Chung poderia ter completado o segundo set antes de dizer adeus, já que ele chegou a ter 15-30 e o placar era de 30-30 no nono game, quando ele inesperadamente decidiu desistir da partida. Mas a rigor havia muito pouco o que fazer. A bolha claramente tirava o ponto crucial de seu jogo que são a mobilidade e a cobertura total da quadra, o que era ainda mais importante diante de um adversário tão agressivo e de bolas geralmente muito profundas.

No pouco que tivemos de jogo para valer, vimos um Chung muito frágil com o saque na mão e com irritante teimosia em dirigir a bola para o forehand de Federer, ainda que muitas delas com acentuado topspin cruzado, que chegava a tirar totalmente o suíço de quadra. O atual campeão mostrou desde o início que o plano tático óbvio era atacar já na devolução. Acertou apenas 32% do primeiro saque no set inicial e por isso chegou a oferecer um break-point no segundo game, mas ganhou 62% dos pontos com o segundo serviço mesmo diante dos ralis.

Chung ainda lutou muito no game final desse set e saltou quatro set-points antes de enfim se render e pedir atendimento para a bolha, que já estava enfaixada mas provavelmente causava incômodo e dor. Ainda teve um serviço bem jogado antes de nova quebra, manteve outro depois e daí um tanto inesperado o abandono antes mesmo de completar o segundo set.

De qualquer forma, o coreano de apenas 21 anos e agora top 30 do ranking deixa Melbourne como o grande destaque deste início de temporada, com vitórias de peso sobre Alexander Zverev e Novak Djokovic e a sensação de que seu tênis ainda tem muito a lapidar, principalmente a partir do saque, o que afinal é sempre uma ótima notícia.

Aos 36 anos e 175 dias, Federer reencontrará Marin Cilic em sua 30ª final de Grand Slam, na busca pelo terceiro troféu sem perder sets e o 96º geral da carreira. De suas incríveis 1.138 vitórias, nada menos que 710 vieram sobre a quadra dura, 331 em Slam e 93 no Australian Open. É agora o maior finalista do torneio na Era Profissional e o terceiro de maior idade. Se mantiver o favoritismo, repetirá Rod Laver e Ken Rosewall com quatro conquistas em Slam após os 30 anos.

Claro que Federer tem de ser considerado favorito para a decisão das 6h30 de domingo já que lidera o placar de duelos por 8 a 1. O croata no entanto merece todo o cuidado, já que possui boas armas na base, um saque sempre chato de se lidar e experiência de um título e uma final de Slam. Conhece muito bem todo o arsenal do suíço – treinaram juntos na pré-temporada – e vai explorar ao máximo o backhand de Federer, ainda que o slice venenoso seja um tormento. Tomara que desta vez a bolha, sempre ela, não atrapalhe o espetáculo, como aconteceu sete meses atrás, em Wimbledon.

O sábado em Melbourne terá a tão esperada final entre as duas melhores do mundo da atualidade, que lutam contra seus fantasmas em busca do primeiro troféu de Grand Slam e a liderança do ranking. Carol Wozniacki carrega o favoritismo, não apenas pelos 4 a 2 dos duelos anteriores, incluindo os três mais recentes e dois de 2017, mas também porque parece fisicamente mais inteira do que Simona Halep. A romena não derrota o tênis paciente e agora mais agressivo da dinamarquesa desde fevereiro de 2015. As duas já salvaram match-points em Melbourne no mais autêntico estilo guerreiro. Imperdível.

Daqui a pouco, entra no ar o Desafio Australian Open para quem quiser votar nos dois campeões.

Vale tudo
Por José Nilton Dalcim
25 de janeiro de 2018 às 12:23

A primeira e talvez maior história deste Australian Open será escrita às 6h30 de sábado. A final feminina envolverá duas tenistas com apenas um ano de diferença, que estarão na maior luta de suas carreiras: erguer enfim um troféu de Grand Slam após várias frustrações e cobranças. Simona Halep ou Caroline Wozniacki? Uma irá realizar um sonho, a outra permanecerá no pesadelo. Bem menos importante, o jogo também vale a liderança do ranking.

Guerreira nata diante de suas limitações de força, Halep fez um duelo épico contra Angelique Kerber nesta madrugada. Abriu 5/0 e depois chegou a ter 6/3 e 3/1 com a paciência de esperar a canhota alemã ditar o ritmo do jogo, para o bem ou para o mal. A campeã de 2016 enfim se achou e levou a um épico terceiro set, onde aconteceu de tudo. Halep teve 5/3 e saque, perdeu dois match-points no game seguinte e levou virada para 6/5 e desta vez dois match-points para Kerber. Mas incrivelmente achou forças para reagir e vencer por 9/7. Esforço memorável das duas.

A romena prometeu que não iria se render depois da terrível derrota na final de Roland Garros, em que deixou escapar 3/0 no segundo set e 3/1 no terceiro set diante de Jelena Ostapenko. Sua primeira chance, também em Paris de 2014, foi menor diante de Maria Sharapova.

Wozniacki mostrou alguma tensão na semi diante da pouco experiente Elise Mertens e são justamente os nervos que geralmente dificultam as coisas para a vice do US Open de 2009 e 2014, que chegou a cair para 74º do ranking em agosto de 2016 e agora está com o pé na porta para reassumir a ponta.

Talvez, Halep mereça um pouquinho mais. Torceu o tornozelo ainda na estreia, quando salvou três match-points, e sobreviveu a maratona de 3h45 diante de Lauren Davis, sem falar no duelo tão duro contra Kerber que exigiu o máximo de poder mental. Wozniacki também fez mágica ao sair de 1/5 no terceiro set contra Jana Fett. Sem dúvida, o título e o número 1 estarão em boas mãos.

Final e número 3
Marin Cilic por sua vez confirmou com relativa facilidade sua terceira diferente final de Grand Slam e a segunda nos últimos três eventos disputados. É um currículo muito respeitável. O campeão do US Open de 2014 e finalista de Wimbledon no ano passado será também o número 3 do ranking na segunda-feira, seu recorde pessoal.

Kyle Edmund só deu trabalho por um set. Ele até começou bem a partida e teve dois break-points, mas rapidamente passou a mostrar um backhand frágil e acabou indo ao vestiário para atendimento médico ao final do set. Sua movimentação era ainda pior do que o normal e deu sinal de abandono, mas uma discussão com o árbitro lhe carregou de tanto ânimo que acabou fazendo um segundo set consistente ainda que jamais ameaçasse para valer o saque do croata.

A estatística mostra que Cilic nem precisou fazer seu melhor. Disparou 11 aces, mas acertou apenas 56% do primeiro saque. Lá do fundo, foram 20 winners e 29 erros não forçados, o que está longe de ser um fenômeno. O importante é ter economizado energia e se mostrar fisicamente inteiro, bem diferente da frustrante final de Wimbledon. Certamente torcerá agora para dar Hyeon Chung na outra semifinal, já que perdeu 8 de 9 para Federer e ganhou todas as três frente o sul-coreano.

A sexta-feira
– Federer já perdeu quatro jogos de Slam para tenistas de ranking inferior ao 58º atual de Chung, mas desde 2004 só aconteceu uma vez (Stakhovsky em Wimbledon-2013).
– A última vez que um Australian Open não teve qualquer representante do Big 4 foi com Safin-Hewitt de 2005.
– A diferença de idade de 14 anos e 284 dias é a quarta maior entre semifinalistas de Slam na Era Profissional.
– Federer pode se tornar o tenista com mais finais na Austrália (7) e o terceiro mais velho desde 1972. E aumentar seu total de Slam para 30.
– Das 13 vezes que Federer perdeu uma semi de Slam, sete aconteceram em Melbourne (Djokovic por três vezes, Nadal em duas, Murray e Safin).
– Suíço tenta atingir sua sexta final de Slam sem perder sets. Ele ganhou dois Slam invicto: AusOpen-2007 e Wimbledon-2017).
– Chung tenta se tornar terceiro asiático na final de um Slam, repetindo Na Li (dois títulos) e Kei Nishikori.
– Coreano pode ser primeiro jogador a debutar numa final profissional diretamente num Slam desde Tsonga em 2008. Hyung-Taik Lee é único coreano finalista de ATP até hoje.
– Este é apenas seu oitavo torneio de Slam. Se atingir a final, repete o feito de Sampras no US Open de 1990
– Chung venceu três top 20 neste início de temporada: Isner em Auckland, Zverev e Djokovic em Melbourne. Ele já garantiu o 29º posto, chegará a 21º se derrotar Federer e ao top 10 se for campeão.
– O tênis brasileiro pode sonhar com uma final de duplas mistas no Australian Open, mas com um de cada lado. Bruno Soares reativou a parceria com Ekaterina Makarova e tem favoritismo para decidir o título. Marcelo Demoliner se juntou a Maria Jose Martinez. Ambos disputam semi na manhã desta sexta-feira. Vale a torcida.