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Presente para Djoko, façanha de Pliskova
Por José Nilton Dalcim
23 de janeiro de 2019 às 13:44

Infelizmente, o prognóstico se confirmou. Com 18 sets disputados, duas viradas de 0-2 e uma maratona de cinco horas no jogo anterior, o frágil físico de Kei Nishikori não aguentou mais do que 52 minutos e 12 games diante do tênis robusto de Novak Djokovic.

Na verdade, o japonês se arrastou em quadra desde o terceiro game. Sempre inteligente, Nole chegou a recuar dois passos atrás da linha para entrar em todos os pontos e voltar o máximo de bolas para o outro lado. Não precisava muito mais do que uma troca de direção.

Lá no fundo, Djokovic não deve ter lamentado tanto assim a falta de competitividade, porque pôde recuperar todo o fôlego eventualmente perdido diante de Daniil Medvedev e entrará com armas afiadas diante de (quem diria) Lucas Pouille, duelo inédito no circuito.

O pupilo de Amélie Mauresmo foi muito feliz nas devoluções diante de Milos Raonic, com 31% de pontos no poderoso saque do canadense, ao mesmo tempo que explorou a conhecida deficiência do adversário como receptor. Raonic, claro, vacilou feio quando teve a chance de fechar o primeiro set e isso encheu Pouille de confiança. Apesar de sua primeira semi de Slam, vale lembrar que o francês já foi top 10 no ano passado.

O grande jogo do dia, outra vez, foi das mulheres. É recomendável no entanto dividir o duelo entre Karolina Pliskova e Serena Williams em três pedaços distintos. Com golpes muito consistentes e excelente movimentação, a tcheca dominou até ter 3/2 e saque no segundo set. Serena vinha errando muito, mas enfim achou o ritmo e anotou uma reação incrível, chegando a 5/1 com match-point. Aconteceu então a leve torção de pé, que talvez tenha tirado a concentração da norte-americana, e Pliskova voltou a jogar um grande tênis para anotar uma virada quase impensável.

Duas coisas essenciais. A primeira é que Serena não usou a torção como desculpa em qualquer momento, enchendo a adversária de elogios. A outra é que a tcheca vem trabalhando muito contra o problema do foco, tendo perdido incríveis chances na carreira, como o 4/2 sobre a mesma Serena no US Open ou o 3/0 em cima de Simona Halep no AusOpen no ano passado.

Sai um finalista
A manhã desta quinta-feira conhecerá o primeiro candidato ao título, e aí podemos ter o experiente Rafael Nadal, que completa 10 anos de sua única conquista em Melbourne, período em que colecionou três vices, ou a grande sensação Stefanos Tsitsipas, candidato a ser tornar o terceiro e também o mais jovem tenista a derrotar Nadal e Roger Federer num mesmo Grand Slam (os outros foram Del Potro e Djokovic).

Impossível não dar favoritismo a Nadal. Não bastassem a diferença gritante de currículo e os 2 a 0 nos confrontos, ele ainda mostrou até aqui em Melbourne um tênis agressivo e eficiente, nenhum problema físico e desgaste muito menor que o do grego (foram 5 horas a menos de quadra). A seu favor também o fato de Stef usar o backhand de uma mão. Mas o grego tem sim armas para incomodar, desde o ótimo saque até o jogo de rede bem tramado, assim como golpes bem sólidos da base. Mais importante, mostrou cabeça no lugar em todos os momentos delicados.

Curiosa estatística da Federação Internacional, Nadal e Tsitsipas estão distantes entre si por 12 anos e 70 dias, o que é a nona maior diferença da Era Profissional para uma semi de Slam. O recorde está também na Austrália, quando Mark Edmondson ganhou de Ken Rosewall em 1976, então 19 anos e 238 dias distantes.

Caso obtenha a façanha, o grego será o mais jovem finalista de um Slam desde Djokovic no US Open de 2007 e do Australian Open desde Carlos Moyá, hoje treinador de Rafa, em 1997. A vitória também valerá o nono lugar do ranking.

A 9ª campeã diferente?
Com a incrível queda de Serena, o tênis feminino tem agora 75% de chance de ver a nona diferente campeã de Slam na sequência, já que Petra Kvitova não vence desde 2014, Pliskova e Danielle Colliins ainda não têm troféus.

Os jogos acontecem na próxima madrugada e são bem interessantes. Kvitova está jogando o melhor tênis entre todas, mas enfrentará a surpreendente Collins, revivendo duelo de dias atrás na estreia de Brisbane em que a canhota venceu após perder o 1º set. Vindo da espetacular e emocionante virada, Pliskova tenta derrubar outra campeã de Slam, a jovem e ousada Naomi Osaka, tendo pequena vantagem de 2 a 1 nos confrontos diretos.

A luta pelo número 1 também segue entre três das quatro postulantes, mas Kvitova e Pliskova precisam do título.

Bruno ainda tenta
A campanha vinha aos trancos e barrancos, e aí um dia pouco inspirado de Jamie Murray determinou a queda para os fortíssimos Henri Kontinen e John Peers nas quartas de final.
Mas Bruno ainda tem boa chance de alcançar mais um troféu em Melbourne, já que disputará a semi de mistas com a confiável parceira Nicole Melichar.

Quem vai parar Nadal?
Por José Nilton Dalcim
22 de janeiro de 2019 às 12:44

O novo Rafael Nadal jogou um tênis exuberante até agora no Australian Open. Sua tradicional competência nos contraataques e a determinação física se aliaram a um saque mais veloz, que não apenas decide pontos rapidamente a seu favor mas lhe permite jogar de forma bem agressiva, encurtando pontos e enfatizando sua incrível habilidade em trocar direções com bola na subida.

É bem verdade que o espanhol ainda não enfrentou um adversário verdadeiramente ofensivo em seus cinco jogos até aqui, e sempre foi muito difícil alguém derrotá-lo só com um jogo sólido de fundo de quadra, mesmo no piso sintético.

Por isso mesmo, o duelo de sexta-feira contra Stefanos Tsitsipas gera ótima expectativa. O grego de 20 anos joga no risco, usa muito bem o saque, faz excelente transição para a rede e, acima de tudo, tem dominado os nervos e a ansiedade. Depois do emocionante duelo contra o ídolo Roger Federer, achou soluções na vitória diante das bolas retas de Roberto Bautista.

Claro que encarar a força mental, o spin e o novo saque de Nadal são outros 500. Um dos aspectos mais interessantes de seu serviço agora é a dificuldade na leitura, sem falar no efeito de canhoto. O espanhol também devolve muito mais atrás, tentando entrar no ponto com um spin alto e profundo. Se for para as trocas de bola, Tsitsipas sabe que terá de correr muito para os lados e sustentar um golpe venenoso no seu backhand, o que o obrigará a engolir a frustração. É um desafio gigantesco.

Ao menos, Stef já teve essa experiência por duas vezes em pisos mais lentos que Melbourne, o que é um handicap que Frances Tiafoe não tinha. E aí o norte-americano foi sufocado, sequer conseguiu soltar seu poderoso forehand já que a bola constantemente saia de sua linha de cintura. Só não levou surra maior porque conseguiu sacar pesado em boa parte do tempo.

Destaque por fim aos 68 winners de Tsitsipas no gostoso duelo diante de Bautista, sendo 22 deles aces. O grego no entanto terminou com 57% de acerto do primeiro saque, 10% a menos do que fez contra Federer, e isso não me parece o bastante contra Nadal. Mas tem mantido uma média bem aceitável de erros não forçados – na faixa dos 36 em quatro sets -, o que ajuda na confiança.

 A volta de Kvitova
O feminino também já conhece sua primeira semifinal, e se prepara para um duelo de força bruta entre a canhota Petra Kvitova e a surpreendente Danielle Collins. A experiente tcheca não perdeu sets no torneio, mostrou toda sua cabeça forte diante do tênis variado e do apoio da torcida que Ash Barty possuía.

Embora por vezes tenha dias tenebrosos, Kvitova é uma jogadora de muitos recursos. Ficou obviamente emocionada por voltar a uma campanha tão nobre depois da facada que levou em 2016 e que quase acabou com sua carreira. Até hoje, não recuperou sensibilidade total na mágica mão esquerda. Fará sua sexta semi de Slam e já superou Simona Halep no ranking, embora ainda tenha concorrência na luta para recuperar o número 1.

Collins é no entanto um perigo real. A norte-americana de 25 anos e 35ª do mundo, que saiu do circuito universitário e nunca havia vencido uma partida de Slam até 10 dias atrás, levou Kvitova a três sets na primeira rodada de Brisbane semanas atrás. Seu estilo é típico das quadras duras: saca bem, bate forte, é muito feliz nas devoluções de primeiro saque e não pensa duas vezes para tentar um winner. Diante de Anastasia Pavyuchenkova, foram 38.

A quarta-feira
– Desde a inesperada vitória na semi do US Open de 2014, Nishikori nunca mais ganhou de Djokovic, com 13 derrotas consecutivas e placar geral de 15-2.
– Japonês soma 4h a mais de esforço em seus quatro jogos, sendo três que foram ao 5º set e duas viradas de 0-2. Sérvio cedeu apenas 2 sets.
– Djokovic busca 34ª semi de Slam, o que o deixaria 9 atrás do recordista Federer e quatro acima do já classificado Nadal.
– O único japonês a fazer semi no torneio foi Jiro Satoh, em 1932. Nishikori tem três na carreira, mas todas no US Open.
– Raonic nunca perdeu set para Pouille em três confrontos, dois deles na quadra dura e outro na grama.
– Canadense faz campanha notável, com vitórias sobre Kyrgios, Wawrinka e Zverev, enquanto maior feito do francês foi tirar Coric.
– Esta pode ser a quarta semi de Slam de Raonic e a segunda na Austráia (2016, a outra). Pouille, que nunca havia vencido jogos em Melbourne, soma quartas em Wimbledon e US Open de 2016.
– Nishikori já garantiu o 7º lugar do ranking, Raonic será 13º se vencer e Pouille recuperou o 24º.
– Svitolina ganhou três dos cinco confrontos diante de Osaka, incluindo os dois do ano passado. Quem vencer continua na luta pelo número 1, ao lado de Kvitova.
– Serena cruzou apenas três vezes com Pliskova, com 2 a 1 e vitória no US Open do ano passado.
– Ucraniana tem quarta chance de fazer primeira semi de Slam e Osaka busca segunda consecutiva.
– Pliskova tem estado nas quartas de Melbourne nos três últimos anos e ainda sonha com seu primeiro troféu de Slam.
– Serena chegou ao menos na semi em 12 de seus últimos 13 Slam, com 6 títulos e 3 vices.

Serena destoa da ‘segunda-feira maluca’
Por José Nilton Dalcim
21 de janeiro de 2019 às 13:22

Novak Djokovic caído duas vezes em quadra, Alexander Zverev e seu duplo vexame, juiz criando polêmica desnecessária no final de uma maratona de 5 horas, uma vaga na semi a ser decidida entre Milos Raonic e Lucas Pouille. Que segunda-feira doida em Melbourne!

Menos, é claro, para o magnífico duelo entre Serena Williams e Simona Halep, jogo digno de final de campeonato. A heptacampeã fez 10 games de massacrante domínio, mas a romena se achou em quadra, forçou o saque como nunca e apostou em paralelas milimétricas que levaram a um terceiro set de tirar o fôlego. Sobraram qualidade, força mental e ousadia dos dois lados, daí o justo sorriso que ambas abriram na hora do cumprimento, certas do dever cumprido. A exigente chave de Serena a coloca agora contra Karolina Pliskova – que atropelou Garbine Muguruza e diz ter feito o jogo de sua vida – e, se passar, quem sabe o aguardado reencontro com Naomi Osaka, que enfrentará Elina Svitolina.

A rodada masculina teve de tudo. Começou na madrugada com a medíocre apresentação de Zverev. Incrível. Ele quebrou Raonic no primeiro game da partida, o que deveria lhe dar confiança, mas o que se viu foi um alemão assustado, apressado, nervoso. Perdeu quatro serviços consecutivos, arrebentou raquete num espetáculo mais lamentável do que suas 10 duplas faltas, baixou a cabeça ainda na metade do segundo set.

Sem nada a ver com isso, Raonic ganhou mais de um terço de seus pontos na rede. Tem natural favoritismo sobre Pouille, contra quem jamais perdeu set em três confrontos. É um alívio ver Pouille reagir na carreira, um jogador cheio de recursos técnicos mas pouco compromisso com o físico e cabeça frágil para o tamanho de seu ranking. Se o canadense tenta repetir a semi de 2016, o francês busca seu maior resultado de Slam.

Djokovic por seu lado pareceu um pouco acomodado com o jogo sem iniciativa de Daniil Medvedev e daí se viu um primeiro set sonolento. Abriu depois 3/1, com maior variedade, porém ‘viajou’ e fez um tiebreak sofrível. Como é muito mais tenista que o russo – ninguém pensou em ensinar Medvedev a volear? -, atropelou no terceiro set e administrou o esgotamento do adversário – pera aí, ele tem 22 anos e nenhum jogo anterior longo, não? Ainda assim, o sérvio quase torceu o pé numa tentativa de ir à rede e foi outra vez ao chão, sem pernas para chegar numa bola longa. Preocupante.

Nole reencontrará um de seus maiores fregueses. Com 18 sets já disputados, fico a imaginar com que condições Kei Nishikori irá tentar barrar alguém para o qual perdeu 15 partidas, com duas solitárias vitórias há quase cinco temporadas. Mas há de se elogiar o empenho do japonês para reagir outra vez, num jogo que parecia perdido diante de Pablo Carreño (2 a 0 e uma quebra atrás no terceiro set), sem nunca abandonar o estilo agressivo e as tentativas junto a rede, com 54 subidas.

No match-tiebreak, também se viu atrás por 5-8 e aí veio o lance polêmico. É compreensível a decisão do árbitro – o japonês não foi atrapalhado pelo ‘out’ e jogou a bola muito longe do espanhol -, mas o bom senso recomendaria voltar o ponto pelo momento delicado. Para que complicar, senhor juiz?

Enquanto isso, Bruno Soares e o escocês Jamie Murray evitaram três match-points, estão nas quartas e desafiam os perigosíssimos Henri Kontinen e John Peers. Mas precisam ficar um pouco mais consistentes.

A luta por semi começa
Duelos inéditos entre ‘trintões’ e Next Gen marcam os primeiros jogos de quartas  da chave masculina.
– Nadal busca sua 30ª semifinal de Slam (apenas Federer, Djokovic e Connors chegaram a tanto). Ele não perde para um americano em Slam há 20 jogos, desde US Open de 2005.
– Tiafoe, 11 anos mais jovem, já derrubou dois cabeças para obter sua maior campanha em Slam. Faz uma década que Roddick atingiu semi na Austrália. Este será seu quinto duelo contra um top 5, ainda sem sucesso.
– Tsitsipas completou seus quatro jogos até agora em quatro sets, mas Bautista, 10 anos mais velho, correu muito mais e já foi três vezes ao quinto. Espanhol ganhou seus 9 jogos de 2019.
– Se Nadal e Bautista vencerem, será segunda semi espanhola na história do torneio, repetindo Nadal e Verdasco de 2009. Se os garotos avançarem, teremos pela primeira vez dois tenistas de 21 anos ou menos numa penúltima rodada de Slam desde que Djokovic e Murray chegaram lá no US Open de 2008.
– Kvitova busca sua segunda semifinal em Melbourne sete anos depois e tem dupla vantagem: não perdeu set e ganhou os três duelos contra Barty, que vem de jogos difíceis.
– Duas jogadoras que estão fora do top 30, Collins e Pavlyuchenkova disputam duelo inesperado. A russa tem muito mais rodagem, mas Collins está cheia de confiança com sua incrível série de vitórias e a surra que deu em Angie Kerber.