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Festa, alívio e frustração
Por José Nilton Dalcim
23 de fevereiro de 2019 às 00:38

Thomaz Bellucci e Rogerinho Silva viveram sentimentos antagônicos nesta sexta-feira no Rio e levantaram polêmica das boas. Conseguiram outra ótima atuação, avançaram inesperadamente à final do Rio Open sem serem especialistas de duplas, contando com um apoio maciço da torcida na quadra 1.

Mas ao mesmo tempo, eles ficaram de fora do qualificatório do Brasil Open, que também começa neste sábado no Ibirapuera. E aí sobraram críticas à organização do ATP 250 paulistano por ter dado com antecipação convite para o uruguaio Pablo Cuevas, tricampeão do torneio, que se esqueceu de fazer a inscrição e foi jogado para o quali. Não fosse o convite, seria ele o prejudicado com a campanha do Rio e talvez se abrisse vaga para Bellucci ou Rogerinho.

“É triste ver isso”, lamentou Thomaz. “Onde está o apoio quando mais precisamos?”, queixou-se Rogerinho. “Era momento de apoiar o tênis brasileiro”. O Brasil Open deu os outros dois convites ao jovem Thiago Wild e ao número 1 nacional Thiago Monteiro, e reservou vaga na chave de duplas para Bellucci e Rogerinho. Vale destacar que Bellucci não sabia o que era disputar um título desde o vice de simples em Houston de 2017.

As semifinais de simples deste sábado terão Aljaz Bedene e Laslo Djere, e pelo sofrimento físico do esloveno parece que o sérvio de 23 anos tem uma chance incrível de disputar inédita final de ATP (Bedene soma três vices).

A sensação do Jockey Club, no entanto, é o garoto Felix Auger-Aliassime, com um tênis maravilhosamente agressivo, desde a base até a transição à rede, além de um saque muito pesado. É certo que por vezes exagera na força e na ousadia, porém pode-se colocar tudo na conta de seus 18 anos.

Dominou o espanhol Jaume Munar, que é muito mais afeito ao saibro do que ele, e terá delicioso desafio diante da experiência de Cuevas, 14 anos mais velho, quatro vezes campeão no saibro brasileiro, uma delas no Rio. O bom de tudo é que o uruguaio gosta de bater na bola e exibe um admirável backhand de uma mão.

No campo das polêmicas, sobram também reclamações sobre o salgado preço dos ingressos do Rio Open. Para as semifinais e final, sai por R$ 440 na arquibancada o valor cheio (há promoções de alguns patrocinadores que reduzem até 30%).

Com a queda dos favoritos, não seria o caso de redução?, me indagam. É um problema complexo. Em primeiro lugar, acho o valor excessivo para o mercado brasileiro. Mas não dá para reduzir no meio do caminho, porque seria uma tremenda injustiça com aqueles que compraram a entrada antes.

O fato é que, mesmo com poucos brasileiros e favoritos, a arquibancada até encheu nesta sexta-feira e é bem provável que isso se repita no sábado e domingo.

Rio vê boa mistura de experiência e juventude
Por José Nilton Dalcim
21 de fevereiro de 2019 às 22:45

Se o tênis fosse um esporte simples e lógico, o título do Rio Open estaria nas mãos de quem vencer o duelo noturno desta sexta-feira no Jockey Club Brasileiro, entre o uruguaio Pablo Cuevas e o espanhol Albert Ramos.

Além de especialistas no piso, ambos já figuraram no top 20 e são os únicos sobreviventes do torneio que têm títulos de ATP. Cuevas surge como favorito disparado, aliás. Enquanto o espanhol ergueu um troféu, ele ganhou quatro de seus seis ATPs no saibro brasileiro. E ainda por cima, lidera por 6 a 1 nos duelos diretos contra Ramos.

O bom é que não se pode menosprezar os outros candidatos, até porque somente Felix Auger-Aliassime não é um autêntico jogador de saibro, muito mais adepto à quadra dura, onde seus golpes retos e pesados dão mais frutos. O desafio do canadense contra Jaume Munar já é grande, e talvez as 3h30 de esforço do espanhol na quarta-feira possam equilibrar mais.

Munar e Felix são dois dos quatro Next Gen ainda de pé, um com 21, outro de meros 18. Juntam-se ao sérvio Laslo Djere, de 23, e o norueguês Casper Ruud, de 20, que também duelam entre si. Para quem espera renovação no tênis masculino, é uma ótima oportunidade de se ver o futuro.

Note-se que a parte de cima da chave, onde estão Djere e Ruud, tem outros dois jogadores sem títulos de ATP na carreira. O esloveno Aljaz Bedene soma três vices, dois no saibro, e assim é o candidato natural.

Seu oponente será o boliviano Hugo Dellien, de 25 anos e um jogo variado, típico do saibro. Mas atenção: assegurado no top 100 do ranking, Dellien está ainda muito longe do melhor tenista de seu país. Mario Martinez, que treinava nos EUA, ganhou três ATPs e foi 32º do mundo.

Na série de resultados totalmente inesperados do Rio Open, Thomaz Bellucci e Rogerinho Silva derrubaram Bruno Soares e Marcelo Melo, num jogo em que os dois rapazes de simples abusaram da força dos golpes de base diante dos voleadores experientes. No final de 2018, perguntei a Bellucci por que ele não tentava jogar mais duplas para pegar ritmo e confiança. A resposta pode estar aí.

Para Bellucci e Rogerinho, esta campanha pode dar um empurrão. Mas como nem tudo é perfeito nesta vida, os dois estão com um dilema. Caso cheguem à final de sábado no Rio, terão de fazer algum milagre para disputar o quali do Brasil Open em São Paulo. O ATP paulistano ainda tem um convite a oferecer e pode ajudar um deles.

Desastre na Davis exige mudanças
Por José Nilton Dalcim
2 de fevereiro de 2019 às 19:19

Entre tantas frustrações e decepções com o tênis brasileiro, esta derrota para a Bélgica é especialmente dolorosa. Chance de o esporte recuperar um prestígio decadente nos últimos 18 meses, jogávamos em casa, no saibro, contra um adversário muito desfalcado. De coadjuvantes regionais da Copa Davis, estava aberta a fresta para disputarmos a milionária, ainda que polêmica, fase final da competição, em novembro, na magnífica Caja Magica.

Thiago Monteiro e Rogerinho Silva vinham de títulos de challengers no começo de temporada, quebrando jejuns e mostrando um jogo reabilitado, e estava tudo pronto para uma festa em Uberlândia para alavancá-los e inspirar os demais. Deu quase tudo errado. Quem brilhou foi o campeão juvenil de Roland Garros de 2012, Kimmer Coppejans, que nunca embalou como profissional nem mesmo no saibro.

Não gosto do jogo de caça às bruxas e nem acho apropriado ficar se procurando culpados. Já recebi centenas de mensagens inconformadas, condenando a escalação de Marcelo Melo. Tantos outros, defendendo a opção pelo juvenil Thiago Wild. No primeiro caso, é preciso ver se Melo mostrou alguma debilidade durante os treinamentos – e quem esteve lá me garante que não – e, no outro, há uma distância enorme de experiência e ranking entre Rogerinho Silva e a esperança paranaense.

Também é bastante razoável alegar que a escolha do saibro coberto não foi correta, ainda que a altitude de Uberlândia tenha incomodado os belgas. Concordo totalmente que jogar num saibro lento e num calor sufocante seria muito mais recomendável, no entanto há duas coisas a se considerar. A primeira é que a sede tem de ser apontada muito antes da convocação e naquele momento era difícil apostar que David Goffin não viria. Depois, existe a questão financeira e a Prefeitura de Uberlândia ajudou a pagar uma conta pesada que o Grupo Mundial gera num momento em que a Confederação perdeu seu principal patrocinador.

Pelo sim, pelo não, precisamos aproveitar mais um desastroso resultado para buscar uma mudança de mentalidade. Trocar o comando da Davis por nomes como André Sá, Jaime Oncins ou Marcos Daniel é mais do que oportuno. Além de dar uma vida nova ao grupo, são pessoas muito comprometidas com a ideia da ênfase no trabalho de base, que é prioridade zero do tênis brasileiro.

A realidade nua e crua é que tivemos um único jogador tecnicamente diferenciado na última década, mas aquele Thomaz Bellucci desapareceu. Todos os demais, em que pese esforço e seriedade, mal conseguiram se sustentar no top 100. Então não adianta alimentar um sonho de sucesso na Davis se nos faltam matéria prima, versatilidade nos pisos, um líder autêntico e um grupo mais homogêneo.

Assim, ainda que tenhamos agora de jogar em setembro pelo Zonal Americano – a vitória garantirá vaga nesse qualificatório mundial em fevereiro de 2020 -, me parece sensato pensar menos no imediatismo do resultado e sim em semear uma base mais sólida, abrindo espaço para quem estiver se destacando na nova geração. Uma derrota com WIld, Orlando Luz ou João Menezes vai doer muito menos.

A desolação aumenta quando vemos países aqui da América, como Chile e Canadá, tirando lucro da qualidade na sua renovação. O espelho disso foi a classificação de quatro garotos para a final da Davis. E jogando fora de casa. Os chilenos de Nicolas Jarry ganharam o ponto decisivo com Christian Garin em cima da desfalcada Áustria e os canadenses colocaram Denis Shapovalov e Felix Auger-Aliassime em simples e duplas na vitória também no quinto jogo contra a Eslováquia.

Aliás, Estados Unidos, Argentina e Colômbia também estarão em Madri. Das potências americanas, somos os únicos de fora. Que sábado triste.